quinta-feira, 4 de novembro de 2010

NEM MIL PÁGINAS!!!

ANÃ! NEM MIL PÁGINAS...

Nem mil páginas dariam para se contar todas as maravilhas de Anã... Contarei mais algumas, portanto! Os quintais não têm cercas; todos abertos, convidando os vizinhos: “Venham! Nossa casa está sempre à sua disposição!” A maneira que usam para pegar os peixes é interessante: Colocam a malhadeira no rio e uma vara presa a ela; na ponta da vara prendem uma lata. O peixe preso na malhadeira começa, naturalmente, a se debater, agitando a rede e balançando a vara. Quando ouvem o barulho da lata já sabem: é só ir buscar o peixe fresquinho! Fomos lavar roupa no rio e eu comecei a ensaboá-las: ensaboei uma peça, coloquei o sabão na perna, ele ameaçava cair:
--- Milena, Milena, o sabão quer rodar...
--- Por que a senhora não coloca na cabeça?! (E olhou-me com aquele olhar: mas nem isso a dona sabe?)
--- Ah, é?
Coloquei-o na cabeça, abaixei para esfregar a roupa e ele, ploft!
Ela veio de lá e disse: “Assim, ó”. --- E pôs o sabão bem em cima do meu cocoruto! Gente! Não cai de jeito nenhum... Mais uma que eu aprendi!
À tarde, quando eu estava dormindo na rede (ou melhor, deitada, pois não estava dormindo, viram, meninas? Ouvi tudinho que vocês disseram!) fiquei escutando as mocinhas rindo do modo como eu falava: “E aí ela disse assim... Hahahahahaha... É mesmo? Ontem ela falou assim e assado... Hehehehehe...”. Eu fiquei fingindo que dormia e achando a maior graça, já que eu também dava boas risadas da maneira delas falarem (viram, suas gracinhas?!). De vez em quando, alguém me chamava de “dona Carmem”.
--- Dona Carmem? --- indaguei, intrigada!
--- É uma senhora que esteve aqui. É gaúcha que nem você...
--- Mas eu não sou gaúcha.
--- Mas fala igualzinho!
À noite, quando fomos para o aniversário, passando por uma rua não muito lisa, a Rúbia: “Ah! Se vocês vissem como isso era antes dos jericos passarem... Essa rua era um tapete: lisinha! Aí vieram dois jericos e esburacaram tudo...” (Jerico é trator pequeno!)

O Lúciu pediu para que eu passasse a receita do piracuí. No início pensamos que fosse paçoca de peixe. Comentando com a Rúbia, ela nos esclareceu: Não é paçoca.
--- Uai, mas eu comi e vi os grãozinhos de farinha, Rúbia!
--- Aquilo não é farinha. São os olhinhos dos peixes!
Alguns dizem “farinha de peixe”; acho que isso gerou a confusão. Na verdade é o peixe cari (aqui dizem acari) assado, desfiado, bem desfiado mesmo e torrado como se torra farinha. Aí é que está o desafio: Eu, pelo menos, nunca consegui torrar farinha; não é fácil! Já vi minha avó Anália torrá-la; é complicado. Exige a quantia exata de fogo; tem que ser colocada aos poucos (eles dizem às mancheias, que são mãozadas...) numa tacha grande. Se colocar em excesso, ela empelota e pode jogar fora; não dá para se aproveitar. É um processo demoraaaaado... Se quiserem experimentar, depois me contem o resultado!

Esqueci-me de contar um fato interessante: Logo ao chegar à casa da Rúbia, encantei-me com um bebezinho, o Mateus, que ainda nem anda. O danadinho chorava nos braços da avó, pelo jeito querendo passear, e ela não estava disposta a se levantar. Adoro criança, gosto mesmo de paparicar os danadinhos (já pensaram meus netinhos?). Peguei o nenê e fui passear. Nisso, vi uma rede debaixo da mangueira e pensei: “O Mateus vai adorar aquela rede!” Sentei na rede com ele e comecei a balançar. Gente, foi o mesmo que colocá-lo em cima de espinhos: “Buá... buá... buá...” Hahahahahaha, então me lembrei: as crianças de Goiás é que amam rede, não estão acostumadas; o Mateus, coitado, está enjoado disso! Levantei-me e ele se calou na mesma hora.

Na última noite em que passei nesse lugar encantado fiquei deitada na rede, olhando o céu estrelado e meditando : nem em meus sonhos mais lindos, pensei haver um lugar como este! Que acolhimento cativante! Como pode haver tamanho respeito e carinho entre todas as pessoas? O que mais me intriga e encanta (tenho que procurar no Aurélio palavras semelhantes a encanto... senão irei usá-la exaustivamente!) é a maneira de educar as crianças. Penso que a herdaram dos índios. Vocês sabiam que os índios, quando corrigem a criança, nunca o fazem de pé? Eles se agacham para ficarem da mesma altura, olhos nos olhos e não acima. E ensinam mais pelo exemplo do que com palavras. “A palavra convence, o exemplo arrasta!”, dizem os sábios! Um dia voltaremos, tenho certeza! Será que alguém conseguiria vir aqui uma só vez?

Em meio a esta natureza deslumbrante, lembro-me da história da “Polyanna”. Aquela do livro que TODO MUNDO leu a pedido das professoras. Eu o li várias vezes em minha infância; depois também. Lembro-me da vez que ela foi morar com aquela mulher rica (Sra. Mary, me parece...). Ele encantou-se tanto com o colar de diamantes da mulher que a mesma cedeu à tentação de mostrar-lhe o cofre cheinho de jóias! E qual não foi seu espanto quando viu a menina sentada no chão, chorando que nem uma desesperada!
--- O que foi agora, menina?
--- Estou chorando de alegria por ter olhos para ver tamanha beleza!
Sinto-me várias vezes assim: Tendo que segurar o pranto ao ver tanta beleza!

Domingo, 10/10/10 (Que linda data!). Não foi de muita alegria para nós. Dia da partida de Anã. Levantamo-nos. A Rúbia nos espera com o café pronto! E tem que ser reforçado “já que vão viajar...” Arroz com vatapá e beiju. Digo que só quero o beiju. Quando percebo, o prato de arroz com vatapá já está à minha frente. Como resistir? Quando encontrarei um vatapá como este!? Tiramos mais fotos. Remoemos, não achando jeito de sair do paraíso. Por fim, despedimo-nos de todos e fomos para o barco. As meninas dizem ansiosas: “Vão mandar as fotos terça-feira? Não vão se esquecer?“ “Fiquem tranquilas. A gente manda revelar na segunda de manhã e envia na terça.” A hora da saída é 09:00h, mas como ninguém tem pressa, saímos às 09:45h. Lógico que não consigo segurar as lágrimas. Disfarço. Adeus povo de Anã. É com o coração cheio de amor e gratidão e com lágrimas nos olhos que deixo vocês, pessoas encantadoras, amigos tão queridos!

É hora de tomar um cafezinho, o primeiro de muitos. Não tanto pelo café, mas pelo prazer de lavar a xícara na pia do barco, que é uma gracinha! Encontro a Maria Odila; “Em defesa da Amazônia” é o que está escrito em sua camiseta. Ela pertence à comunidade Anã e participa do movimento em defesa de sua terra, vai a congressos, hospeda os turistas em sua casa e tudo o mais. Percebo o rapazinho que varre e limpa o barco sempre que cai alguma coisa no chão. Ela me diz: “Foi feita uma pesquisa sobre qual o povo mais asseado do Brasil. O Pará ganhou. Nós cuidamos da limpeza da casa, dos quintais e da higiene pessoal mais que qualquer outro povo! Tomamos vários banhos por dia! Os professores daqui confessam que as crianças são as mais cheirosas. Sempre usam perfume!” Isso eu já tinha percebido. “Vai banhar de novo, Rúbia?” “Só jogar uma água no corpo, dona Sônia.” E assim, jogam água no corpo o dia inteiro. As meninas sentem calor, correm para o rio e mergulham, de roupa e tudo. Saem e já vão para o varal, enroladas na toalha; lá mesmo vestem a roupa enxuta. É superinteressante: você não vê nada e a toalha NÃO cai!

Por que parou? Parou por quê? Um retardatário que vem andando pelo rio, trazendo uma bateria no ombro. Chega a hora do tão esperado almoço! Pura delícia; e de graça! Maria Odila e eu continuamos nossa animada conversa:
--- Pois é, menina, vem gente de todo lugar para conhecer nossas belezas. Certa vez hospedei dois rapazes dos Estados Unidos. Ficaram vários dias: “Dona Ondina, isto aqui é o paraíso! Lutem para que seja preservado! Não deixem que seja destruída tanta beleza natural!” Um dia, entro na sala e vejo um dos rapazes chorando. Pergunto o porquê da tristeza, se lhe falta alguma coisa ou se é saudade de casa. Ele responde: “Choro de emoção, dona Ondina; já viajei muito; nunca vi nada tão lindo assim!”

Vemos, de longe, as praias Pedra Branca e Maria José. Eni, minha cunhada, seu binóculo faz muita falta! Chegada do barco. Ah, o nome do barco é Josué Yeshuah; será mudado para Libertador. Vamos à casa da Josilany. Ela nos convida para o aniversário de sua filha. “Vocês já almoçaram? Se não, poderiam almoçar conosco.” É assim a acolhida deles, TOTAL!
“Vamos ligar para o Mestre, para combinarmos sobre a balsa.” Ligamos. Caixa de mensagem, novamente. Ligo várias vezes, e nada! Quero descer de balsa. Já não sei se é descer ou subir... Hehehehehehehe... Espero que ninguém conte para o Juarez Távora de Carvalho, meu professor de Geografia, essas coisas. Porém, não era ele mesmo que dizia que o mapa teria que ser colocado no chão, sul para o sul, norte para o norte? Então! Penduravam-no na parede e diziam: “O rio tal corre para o rio tal...” E você, olhando o mapa de pé, não iria pensar que os rios corriam para cima. E agora, indo de Santarém para cima, tenho a impressão que o rio sobe. E, às vezes, as águas são tão paradinhas que pergunto ao Eraldo (ao pé do ouvido...kkkkk): “Está correndo para onde?” Não é querendo me justificar, mas era muito engraçada a maneira como era ensinada a tal da Geografia! E as musiquinhas infantis? Eram lindas, lindas! Porém prestem atenção naquela do galinho; vocês se lembram, gente-do-meu-tempo?

MEU GALINHO

Faz três noites que eu não durmo, ô... lá... lá
Pois perdi o meu galinho, ô... lá... lá
Coitadinho, ô... lá... lá
Pobrezinho, ô... lá... lá
Ele faz qui-ri-qui-qui, ele faz qui-ri-qui-qui

Ele é branco e amarelo, ô... lá... lá
Tem a crista vermelhinha, ô... lá... lá
Bate as asa, ô... lá... lá (é asa mesmo, por causa da métrica, se puser o s, as sílabas passam...), ô... lá... lá
Abre o bico, ô... lá... lá
Ele faz qui-ri-qui-qui, ele faz qui-ri-qui-qui

Já rodei o Amazona, ô... lá... lá (o mesmo caso da asa)
Mato Grosso, Paraná, ô... lá... lá
Encontrei, ô... lá... lá
Meu galinho, ô... lá... lá
No sertão do Ceará, no sertão do Ceará...

Viram? Eu adorava cantar... E ficava imaginando a menina a pé, procurando seu galinho. Vai do Mato Grosso para o Paraná e depois para o Ceará... Não daria de imaginar que ficam todos juntinhos?

PONTA DE PEDRA! ONDE EXISTIRÁ COISA MAIS LINDA?!

Procuramos os amigos para saber das belas praias de Santarém; são inúmeras! Indicaram-nos Ponta de Pedra. Essa perdida de balsa nos rendeu DEMAIS!!! Se a perdermos novamente, queremos conhecer a aldeia indígena Vila Franca; dizem que é linda!

Dia da Criança, 12 de outubro. Dia perfeito na praia Ponta de Pedra, no majestoso Tapajós! As ondas estavam até altas! Água deliciosa! Um encanto! A família inteira pode se abrigar embaixo das imensas pedras! O meu comedido marido disse: “Acredito que no mundo não existe um lugar lindo como este! Não dá para descrever; só vendo!” A vontade é ficar o dia inteiro dentro d’água! Aproveitamos o máximo! E a areia, então... é fininha. Alguém disse que parece açúcar; estou mais para maisena (é com s mesmo, com z é o nome comercial!). Não resisti; peguei um monte de areia para o presépio da dona Dolzir. O Eraldo disse que perto de Novo Progresso a areia é mais fina ainda. Renata , Reiker, Mateus e Isa, olhem isso para mim e levem uma areinha para a vovó! Ela irá gostar muito! Na saída conversamos com a dona da lanchonete “Sonho de Verão”, onde almoçamos:
--- Que água mais limpinha!
--- Quando o rio enche, fica mais clara ainda --- disse ela. Pode???
Tirei fotos em cima das pedras, segurando o chapéu:
--- Segurar o chapéu é pose? --- pergunta o Eraldo.
--- Não. Se não segurar o vento leva!

Quarta-feira, 13/10. De manhã vamos procurar o Mestre, figurinha difícil! O Mestre foi para Nassau buscar cimento. Ih! Corre o risco da balsa estar lotada! Se isso acontecer... Uau! Vila Franca! Ligamos para a casa dele; alguém atende: “O Mestre está na balsa.” Na balsa não está. Vamos almoçar enquanto ele chega? Vamos! Começa a novela: Tem peixe? Por aqui não tem, não senhor; só mais em cima. Subimos a ladeira: Tem peixe? Por aqui não tem, não senhor. Voltamos; vamos almoçar no restaurante do velhinho.
--- Temos carne assada de panela e guisado.
O Eraldo: “Guisado?” Eu respondo;
--- É carne moída.--- O velhinho não gosta. E diz firme e forte:
--- Guisado não é carne moída, dona! É diferente. É carne cozida na panela!
Era um senhor muito simpático, mas melindroso! Enquanto almoçávamos, ele ia contando histórias e falando sobre a maneira que preparava aos pratos. Eu ri; para quê?
--- Nossa comida é muito boa, dona. Todo mundo aprecia. Tudo feito na hora; não servimos nada de ontem. ---Nossa! O velhinho “encrespou”!

Saímos para comprar nossas redes; na balsa dorme-se em redes: A do Eraldo, azul; a minha, verde! Agora é só armar, deitar e tirar fotos! O Eraldo vai para a balsa encontrar-se com o misterioso Mestre; eu fico, adiantando meu blog. O Eraldo volta: “Não deu certo...” Planos foram feitos para serem mudados. Já estamos no Plano D. Querem recordar?
PLANO A: Monte Alegre, Prainha, Almeirim.
PLANO B: Voltamos a Santarém para pegarmos a balsa.
PLANO C: Perdemos a balsa por pouco. Esse rendeu: Conhecemos lindas praias em Santarém e, melhor ainda, a Comunidade Anã.
PLANO D: Voltarmos a Itaituba para tentarmos ir para Manaus. De balsa? De balsa. Então está ótimo! Dizem que temos de treinar nossas mentes para chegarmos ao plano Z tranquilos e sorridentes. Estamos a caminho! O Eraldo pega o mapa e tenta me explicar a nossa trajetória de volta. “Voltaremos até o Km 30...”. Penso que nem atentei mais ao resto da explicação: “Então verei novamente minha amiga Zilmar! Que beleza!”, pensei.

Às vezes penso que esta nossa enrola em continuarmos a viagem é porque, no íntimo, bem dentro de nossos corações, não estamos conseguindo sair desta terra encantada!
Às 18:06 do dia 13/10, com o coração oprimido, deixamos Santarém, Terra encantada,Terra de sonhos! Adeus amigos queridos e inesquecíveis! Voltaremos um dia! Dormimos no Portão de Belterra. Encontro o Jacinto e trocamos endereços de blog. É tempo de despedidas! Neste momento, escrevo e choro de saudade. Pronto, eu sabia que isto iria acontecer! As letras se embaralham e tenho que parar. Adeus Belterrra, Bel de belíssima! Cada lugar que deixo tenho que me segurar para não chorar. Não me lembro de me sentir assim em nenhuma outra viagem. As belezas daqui grudam em nossas mentes e corações. Como eu queria que nossas filhos estivessem aqui conosco!
Neste momento lembrei-me de um relato que li naquele livro “Papillon, o homem que fugiu do inferno.” Ele narra sua relutância em deixar uma aldeia indígena na qual viveu sete meses. E usa palavras fortes e emocionantes. A gente lê e pensa: “Que exagero! Ninguém se apega tanto a um lugar em tão pouco tempo... Não precisava disso tudo.” E nós ficamos no Pará apenas um mês e nos apaixonamos por este Terra encantadora!

Imaginem como estou desnorteada nesse vai-e-vem, atravessa-pra-lá, volta-pra-cá! Estamos voltando para Itaituba pela mesma estrada. E por que vejo coisas que não percebi na ida? Eu, que observo tudinho? Ah! Deve ser porque eu via o lado esquerdo da estrada, agora estou vendo o direito! Como aquela história do velhinho:
Um homem chegou à beira do rio e disse para o velho:
--- Subi a ladeira e vim reparando a estrada. Confesso que não entendi: Do lado direito, plantas secas e tristes; do esquerdo, flores lindas, de cores variadas! O senhor poderia me explicar este fenômeno?
--- Claro, meu amigo! Todo dia subo carregando água. Acontece que o balde é furado de um lado.
Moral da história: Sempre devemos olhar os dois lados, antes de julgar um fato.

No Portão de Belterra indicaram-nos uma praia, “a mais bonita de todas”. Vamos? VAMOS!!! Não estou mesmo com nenhuma vontade de ir embora! Entramos numa estradinha no meio da mata: Árvores maravilhosas, altíssimas, de um verde escuro! Uma mulher à beira da estrada. Perguntamos:
--- É por aqui que se vai para a praia?
--- É. Mas não sei se vocês conseguem com esse carro. Tem uns atoleiros de areia...
--- Como é mesmo o nome da praia? Jaguaribe?
--- Não me lembro... É Jagua... qualquer coisa.
Aqui e ali, fitinhas coloridas nos galhos das árvores. Será alguma pesquisa? Descobrimos depois que era uma maratona!
--- Que árvore linda de flores amarelas!
O DG (lê-se defensor de Goiás):
--- Dessas têm em Mineiros, lá na Av. Coqueiros!
Paramos para pegar cajus. Os cajueiros abundam à beira da estrada. Meu vestido já está cheio de nódoa. E o Eraldo deixou cair caju na camisa que ele tanto gosta, uma que o Mariuzan deu! Meninos, vocês já conhecem a mania de tintureiro do seu pai. Não deu outra: colheu um monte de cajus, tirou o suco, acho que mais de litro, e mergulhou dentro a camisa. Deixou uns dois dias. Enxaguou e pôs para secar. Oh, decepção! Quase não fez diferença. Eu lhe disse: “Talvez você não devesse ter enxaguado... ter deixado secar com o suco. Vai ver que os raios solares têm influência para fixar a nódoa.” Ele colheu mais cajus, espremeu, colocou a camisa, deixou uns dias e pôs para secar. Só o que fixou realmente foi o cheiro forte de caju. A cor continuou quase a mesma... hehehehehehhe!

Chegando a Jaguarari, era este o nome, fomos procurar a praia e aproveitar para lavar roupa. Desde a primeira vez que vi as roupas estendidas à beira do igarapé fiquei louca para lavar roupa. Lembrei-me de quando a Maria Ely e eu íamos lavar roupa no igarapé (ou seja, no córrego). Você se lembra, minha irmã? Na hora do almoço eu ia em casa pegar as marmitas para comermos sentadas no tronco de árvore que ficava no barranco: a comida era muito mais gostosa, mesmo com uns grãozinhos de areia como tempero! Crianças, ainda, minha mãe tinha muito zelo pela nossa educação. “Não andem muito com as filhas da D. Maria; elas sabem tudo e não têm papas na língua...” Não posso contar o apelido da tal D. Maria, pois algum parente pode ler isto e aí não fica bem. Íamos para o córrego. D. Maria sempre lá, lavando roupa e contando as piadas mais escabrosas!!! Viiiu, D. Dolzir? Lucrávamos mais, pois a mãe era mais sabida do que as filhas. E a senhora nem imaginava porque gostávamos tanto de lavar roupas!!!

Passamos por uma senhora com a bacia de roupas na cabeça, perguntamos pela praia: “Por que vocês não vão para o igarapé? Venho de lá agora, a água é limpinha.” Lavamos roupas no igarapé e nos banhamos no rio, mas a praia não era tão boa como disseram. Na volta, para confirmar a conversa de nossa informante, encravamos na areia. Foram umas duas horas de peleja!

Na volta, olhando aquelas lindas paisagens, lembrei-me do Zezé, de “O meu pé de laranja-lima”. Ele pensava: Quando eu crescer, quero ter doze filhos. Aí pergunto para um: Meu, filho, o que você quer ser? Engraxate? Então está aqui a graxa e a caixa. E você, meu filho? Quer ser vaqueiro? Está aqui o chicote e a camisa xadrez... Seu irmão Totoca, chega e diz: Que é isso Zezé, falando sozinho? Fiquei pensando: Quando eu morrer, quero me multiplicar em dez pessoas: Uma vai morar no meio do igarapé, numa casinha que vi lá em Alter do Chão ; a outra vai morar numa comunidade indígena: essa não vai aprender ler nem escrever, só gozar a natureza! A outra vai morar às margens do Tapajós e viver pescando e nadando. Uma vai viver numa ilha; outra, nesta linda floresta aqui, com árvores tão exóticas! Epa! Está ficando todo mundo no Pará! Vou deixar as outras... Depois decido o destino delas.

Sexta-feira, 15/10. Dormimos ao lado de uma casinha linda, linda, à beira da rodovia. Acordo e olho pela janela; nosso amigo, Edmilson (não sei se é Edmilson ou Admilson: um é o pai; o outro, o filho) está espalhando as pimentas para secar; ele planta pimenta do reino. Pedi ao Eraldo para tirar uma foto, especialmente para a Orlandina. Ela gosta muitíssimo da tal pimenta e precisa ver como é a secagem! Essa eu não podia perder! E eu, pensando em ver minha amiga Zilmar, comento em voz alta meu pensamento. O Eraldo:
--- Sônia! Não é aquele Km 30 que você está pensando, não. A Zilmar está do lado de lá do Rio Amazonas... Nós atravessamos para cá em Santarém!
Como eu já disse, vai para lá, vem para cá... Desnorteia até uma pessoa mais atenta... Hahahahaha... Fiquei penalizada! Em Rurópolis resolvemos almoçar e começou a romaria pelos restaurantes: Tem peixe? Oh, senhor, hoje não temos. Tem peixe? Acabou! Vocês servem peixe? Não, mas temos galinha caipira, uma delícia! Olhe, não vou lhe iludir, não; por aqui o senhor não acha peixe. Anda que anda e nada de peixe. Resolvemos almoçar assim mesmo. A sortuda fui eu: tinha MAXIXE!!! E daqueles pequenininhos! Huuummmm! Delícia!

Olha o igarapé! Vamos tomar banho? VAMOS!!! Tchibum... tchibum... Desse jeito não há viagem que renda; em cada igarapé paramos para nos banhar nas águas límpidas e refrescantes! Eu saio catando as roupas para lavar: toalha, pano de prato, forro de mesa... Ah, tem mais aquele tapete; está bem sujinho... Pego o tapete. É puro êxtase lavar tapete em igarapé: você ensaboa, sai aquela primeira água marrom, depois bege, depois creme... (lembro-me da Mable; eu e ela sabemos o porquê!) e então as cores aparecem brilhantes e o tapete parece sorrir de tão feliz! E as roupas, então! Ficam perfumadas e macias. Ah! E dispensam amaciante! Ensaboamos as peças e tchibum, tchibum; enxaguamos, colocamos para secar e... tchibum, tchibum, tchibum... A coitadinha da lavadora deve estar se sentindo humilhada: só serve para guardar tapetes.

Saímos de Rurópolis às 13:30. Mais igarapés, mais banhos. E pontes, pontes, pontes! Antes eu tinha receio de passar em pontes de madeira; nem sei por que tinha uma enorme vontade de descer e passar andando; sentia aquele friozinho na barriga! Agora, oh! Não estou nem aí...
Chegamos ao posto Trevão; km 30 (era aqui que eu pensava encontrar novamente a Zilmar; mas esse 30 é o outro, do lado direito do Amazonas – acabei de perguntar para o Eraldo --; o da minha amiga é do lado esquerdo). Os amiguinhos dos jogos vieram correndo: apareceram mais dois: o Flávio e o Augusto. Este cursa o Acelera. Só que o Acelera daqui é da maneira que deveriam ser todos. Quem o cursa são as crianças que têm facilidade de aprendizagem! Assim, SIM! A coisa rende! O Ateilton para voltar à noite teve que trazer a avó a fim de nos conhecer: “A gente tem que conhecer as pessoas, dona. Não podemos deixar irem a qualquer lugar. A gente tem medo que roubem eles...”. Os pais, como eu já disse, mostram aos filhos o valor que têm; FALAM disso na frente deles. O menino, peito estufado, sorrisão no rosto, os olhos brilhantes, olhava-nos todo alegre: “Estão vendo como sou querido?!”.

Sábado, 16/10/10. Acordei com o coro dos passarinhos! “Eu quero um coro de passarinhos...” Lembrei-me da música do Rei! Fui me lembrando do restante da letra e concluí: Estamos vivendo a música, sem dúvida! “Eu quero ter um quintal sem muro...” Em Anã os quintais não tinham muros!” Eu quero ter um milhão de amigos...” Estamos perto! Demos uma volta de trailer com os amiguinhos, compramos panelada (mocotó com bucho de vaca) para o almoço e fomos rumo à balsa de Miritituba para atravessar o Tapajós. Lindo Tapajós! Que pena! Lá de cima vimos a balsa se soltando da plataforma!
--- Pi, pi, piiiiii... O Eraldo buzina. PAROU! A balsa parou para esperar. O encarregado me disse:
--- Vai depressa, dona, tirar a passagem enquanto ele vai entrando...
--- Não vão me deixar para trás?
--- Não tem perigo. Pode ir tranquila! (Pronto. Eu sabia que o tal do trema um dia ia me fazer falta. Eles dizem tranquila – sem o trema, na velha ortografia. Quem foi alfabetizado pelo método fônico? Então, o boizinho fica mudo.)
E o Eraldo, preocupado: “Mas ela tem que ir!”
--- Vá tranquila... Vá tranquila.
E a balsa, cheinha de carros, caminhões, pessoas, ficou esperando por MIM!

Chegamos a Itaituba! Pensei: Será uma ótima oportunidade de desfazer a má impressão que tive desta cidade; afinal, conhecemos pouquíssimos lugares. Da outra vez, na balsa, uma moça nos disse: “Vocês deveriam voltar e conhecer nossas praias. Temos lindas praias por aqui!” Como viram, os anjinhos disseram “amém”! Estacionamos bem perto de uma praia e fomos tomar banho em nosso amigão Tapajós. Havia duas crianças remando um barco de garrafas pet amarradas; os remos eram duas ripas. Pedi aos pais licença para fotografá-las: “Posso? Lembro-me de meu filho!”. Você se lembra, Eraldo Luís? Lá na Matrinchã, você e o Jorge remando uma câmara de ar? Os remos eram paus com litros (latas) de óleo amassados. E você com os dois pés furados, furou um no toco da roça e o outro num pau dentro do rio. Ficou bem bravo: “Acabou a graça da viagem! O que vou fazer com os dois pés furados?”. Apesar dos protestos, calçou os tênis (coisa que dissemos para fazer desde o início e o senhor não quis...) e divertiu-se a valer, remando o barco improvisado! À noite teve febre e o Eraldo foi à cidade mais próxima comprar antibiótico. Quantas lembranças da Matrinchã, um lindo lugar! A Luciana foi lavar vasilhas, acima da cachoeira e deixou rodar um copo: “Ah, mãe! Se pelo menos fosse o furado, mas foi o bom!”. É sempre assim, já notaram? Nunca se quebra aquele que já está trincado... Só o novinho em folha!

Conhecemos um rapaz muito simpático lá no rio que deu-nos várias dicas sobre os melhores lugares para se conhecer. Conversamos até quase escurecer. Falamos sobre botos e outras coisas. Certa hora, olhando o horizonte, ele disse: “
--- Olha ele lá...São dois...
--- Dois o quê?
--- Dois botos. Boiaram bem lá!
Gente, o rapaz falou, como se dissesse: “Olha lá o lambari!”. Como se aquilo fosse a coisa mais comum. E certamente era, para ele que está acostumado. Não, porém, para nós. Fixei os olhos no lugar indicado por ele e ainda vi os danadinhos boiando! Que elegância!

À noite caminhando vimos uma barraquinha com tacacá. “Na volta quero experimentar esse negócio. O povo come com tanto gosto!”. Caminhamos bastante. Chegamos à barraca e pedimos o tacacá. Eu, ansiosa por provar aquele negócio. Fiquei reparando como era servido. Primeiro põe o tucupi (água que sai da mandioca ralada) e as folhas; depois a goma; tucupi de novo; agora o camarão (eu não imaginava que era COM casca...). A moça vendo minha curiosidade desconfia:
--- Você sabe como come, não é?
--- Não é com a colher?
--- Não, não. É com o palito.
E me dá o palito (de dente, aquele palitinho).
Pergunto: “E o caldo que sobra?”. --- Você bebe!
Resultado: Eu comi só as folhas e um pouquinho de camarão. O Eraldo teve que comer o resto. Aquela babinha da goma... não deu, não. Para matar a fome comi uma coisa que parece canjica, mas é bem mais gostosa, esqueci o nome e tomei sorvete de açaí.

Domingo, 17/10/10. Na saída de Itaituba, fazendo compras num supermercado, pudemos comprovar a gentileza e boa vontade do povo nortista. Esquecemo-nos de pesar as frutas. A mocinha do caixa, mesmo percebendo que estávamos em dois:
--- Eu vou pesar para vocês!
E olhem que o corredor era comprido! E era DOMINGO!
Agora é “pegar o oco do mundo”...

UMA PEQUENA EXPLICAÇÃO: Justamente quando eu estava pensando: “Acho que esse negócio de ficar voltando à infância está deixando o blog maçante e enjoativo...”, o Eraldo Luís comenta: “Mãe, não deixe de contar as histórias da infância...” Falou e disse, filhote! Adoro lembrar meu tempo de criança! Vou continuar,SIM!!!

2 comentários:

  1. OLÁ SÔNIA QUANTA SAUDADES DE VOCÊ
    ESTOU LENDO SUAS POSTAGENS AOS POUCOS
    É MUITO BOM TER UMA FORMA DE COMUNICAÇÃO COM VOCÊ, TE DESEJO MUITAS COISAS BOAS,
    VC MERECE
    BJS FICA COM DEUS!!!

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    1. José André, somente agora é que aprendi a olhar os comentários... Obrigada. Tem novidades no blog. Abraços

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