terça-feira, 3 de dezembro de 2013

EL BARCO AVARIADO E TU CAPITAN ISRAEL


Queridos amigos, como o tempo está escasso, vou mandar-lhes os emails em que contei algumas partes da viagem. Por aqui nem sempre se tem internet e, quando escrevo no teclado espanhol, sai tudo errado... Não tem cedilha e, muitas vezes, nem til. Vou tentar colocar algumas fotos. As fotos ficarão para amanhã. Tenho que passá-las para o computador. Esqueci o cabinho de ligar.





Queridos, mil beijos... Que Deus os abençoe.

Nem acredito que estou escrevendo em meu computador; o hotel tem internet para o cliente.

Gostei do seu email, Eraldo Luís: "Me liguem urgente, sua reserva foi cancelada". Demos uma de "Joãozinho sem braço". Entramos na fila para fazermos o check-in . Os rapazes foram muito gentis quando não acharam nosso nome. Perguntaram onde foi feita a reserva, por quem... Parece até que tentaram ligar. Futricaram, futricaram... até nos arrumar as passagens no mesmo voo; eu jurava que não daria tempo. Foi um corre-corre: o rapazinho nos guiou o tempo todo até entrarmos no avião. E aqui estamos, D. Almeri, em Cancun. A cidade é muito bonita e diferente: toda arborizada. E as pessoas gentilíssimas. A mocinha do supermercado ao saber que éramos brasileiros perguntou:

-- Como se diz "te amo" no Brasil? 
-- No Brasil? Te amo.

Continuando a história de ontem: À tarde do dia 28, sexta-feira, o capitão veio com uma conversa mole:
-- Pensei una cosa. O passeio terminaria em El Porvenir (uma ilha que estava bem pertinho). Mas, como el barco deu problema y tengo un amigo em Porto Lindo, iremos para allá no sábado a la noche para arreglar mi barco e no domingo temprano vosotros pegam o ônibus; fica bem mais barato do que pegar uma lancha em Porvenir e uma van para a cidade do Panamá. Isto é, se todos concordarem.

O quê??? -- pensei. Viajar ainda num barco avariado? Mas nem mesmo. 
Vocês acreditam que TODOS concordaram?! Éééé''eéé...até o senhor Eraldo.
Foi me dando um sufoco e não aguentei:

-- Quanto tempo demora para chegar lá, Israel?
-- Ocho horas... Sairemos a la noche...

Correndo o risco de ser desmancha-prazeres, disse bem forte:
-- Eu tenho medo, Israel. Não tenho coragem. 
O Eraldo tentou lhe explicar minha experiência no Algodoal e no lago Titicaca. Ele riu muito:
-- Sônia, voy a le hablar. Un barco no es como um carro que estraga en la carretera... no hay como ligar  y dizer: "Mecânico, venga arreglar mi barco". No hay como, Sônia. No mar, el capitan arregla tu barco.

Pensei: Ele acha que isto me convence...Então não precisamos ir a Porto Lindo, uai. Arregla tu, tu barco.

Como já tínhamos deixado o Pierre, o peruano, numa ilha, falei com o Eraldo e lhe dissemos que poderia nos deixar também no sábado e seguir viagem. Ele ligou e combinou uma lancha para sábado meio dia. Chegamos antes e fomos à ilha, o capitão e eu, para falarmos com a índia encarregada disso. Começaram um bate-boca, ele e a índia. Resultado: não havia lancha, tinha saído de manhã. Voltei chorando para o barco. E todos tentando me consolar:

-- Sônia, este tipo de barco pode ser manejado somente com as velas. E o capitão:
-- Colombo e Cabral, navegavam só com vela.

Colombo e Cabral... Com efeito. Isto é comparação? Em que século estamos? Nem me lembrei de falar que, naquele tempo, morriam milhares de navegantes.

Já estava conformada em fazer a viagem. Fui ao quarto, peguei meu diário e fiz um pedido em oração: "Oh, Espírito Santo, se for possível, me arrume uma lancha."

À tarde ventou fortíssimo, o navio se afastou (a corda da âncora é bem comprida) e bateu numa rocha. Nada de grave, mas quebrou uma hélice. O barco teria que viajar com apenas um motor. E ainda mais: não sei se o motor bom ou o danificado.
Dois rapazes e duas moças do barco iam de bote à ilha: "Quem quer ir? Quem quer ir?"

Pensei: É minha última chance. Chamei o Eraldo:

-- Vamos lá, Eraldo. Talvez a gente arruma uma lancha. Pelo que entendi, se forem 10 pessoas, os índios levam. Só que apenas duas não compensa, São dez dólares por pessoa. Podemos pagar 100 dólares. Nossa vida vale muito mais que isso.

-- Vá você com eles; eu não entendo muito o que falam.

Fui. Especula daqui e dali, me disseram que fosse à oficina dos índios. Trataram-me com um carinho imenso. Quando me lembro do quanto eles foram prestativos e gentis começo a chorar... Pronto, vou ter que parar. Depois conto o resto. Uma coisa lhes digo com muita emoção: Valeu a pena todas estas peripécias porque conhecemos estas pessoas maravilhosas que ficaram esperando nossa volta. Voltaremos, com certeza, e com toda a família, se Deus quiser. O Eraldo chegou a dizer:

-- Se não tivéssemos passagem compra para amanhã, ficaríamos aqui para assistir a esse Congresso. 
Ia haver um Congresso dos Kuna Yala no dia seguinte e, pelo visto, era aberto aos turistas.  Agora vou parar mesmo. MIlhões de beijos.

Mais um recadinho: Se souberem de alguém que está seguindo meu blog, mandem-lhes meus emails. O blog está de lado. Fica difícil escrever com o teclado espanhol, Sai tudo doido.
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(CONTINUAÇÃO DE: "EL BARCO AVARIADO E TU CAPITAN ISRAEL".) 

Na oficina a índia me disse que domingo às 11h00min haveria uma balsa do povo que viria para  o Congresso. 

-- Hay donde nos acostarmos, yo y mi marido?

A dificuldade estava aí. Nas ilhas, geralmente, não há hospedagem. Mas um índio muito gentil me disse que cuidaria de nós, nem que tivesse de armar uma barraca. Claro que estava tudo bem. Eu dormiria na praia, feliz da vida; só queria me ver livre daquele barco.

Voltei, pegamos nossas malas e o Israel, não de cara muito boa, nos levou de bote. Isso demorou porque os meninos, antes de voltarmos, resolveram passear e nadar.

Chegando à Ilha fui à oficina. Cadê todo mundo? A oficina estava fechada. O Eraldo ficou lá num banco olhando as malas e eu fui procurar o índio. Perguntava para um, para outro. Como és su nombre? Não me lembrava. Eu explicava: Ele está com uma camiseta que tem uma roda assim, na frente. Ele disse que arrumava uma barraca para a gente dormir. Baraca?...Baraca??? Como é barraca em espanhol? Ah, si, una tienda. 

-- La oficina está cerada. Ya se foran... 
E agora? O q faço? Disseram que havia uma hospedagem. Corri lá. Expliquei para o dono da hospedagem, um senhor mal humorado e bravo, que precisávamos de um quarto.

-- No hay, tudo reservado para congresso mañana. 
A indiazinha, muito gentil, explicou que era apenas por uma noite, que sairíamos cedo.
-- No hay, no hay. Tudo limpio p congresso. Mañana no hay tiempo para assear. No hay. NO HAY. 

Expliquei que nos levantaríamos bem cedo, na hora em que ele quisesse.

-- No, NO. Yo lo sé como é. Hablan que se llevantan temprano Y solamente salem a las onze. Yo los conozco."

A esposa do nojento perguntou se dormiríamos no sofá. Respondi depressa: "Si, si."
E o capeta:
-- NO! NO! Turistas chegan para congresso. Mala impresión a turistas.

Não houve jeito. Fui para o salão onde fica um barracão de reuniões. Falei com outra mocinha, explicando a situação. Havia um índio lá, muito simpático, que morou um tempo em Cuiabá. Vendo que eu era brasileira, veio todo sorridente dizendo que os índios que cuidavam do bar não nos deixariam sem abrigo. Eram todos amigos. Explicou que o índio que eu estava procurando certamente voltaria; é que morava na ilha vizinha.

Quando voltei para me encontrar com o Eraldo, o índio amigo já vinha chegando. Chamava-se Ponci e cuidou da gente o tempo inteiro. Foi depressa armar a barraca. Quem diz que a danada parava... O vento fortíssimo que vinha do mar não deixava de jeito nenhum. O Eraldo foi ajudá-lo. Percebi que estavam enrolando e guardando a barraca. E agora?

-- Ele disse que pode pôr um colchão lá na cabana que está em reforma. Tudo bem?
-- Claro, claro, CLARO!!! Durmo na areia se for preciso. Só quero dormir na TERRA! TERRA! TERRRRRA!!!

Fiquei olhando o Eraldo ajudar o Ponci a carregar o colchão (que ameaçava voar carregando o rapaz) e entrarem na cabana, Só então senti a tensão que havia passado e desatei a chorar de puro alívio. Aquele cantinho me pareceu o melhor lugar do mundo. E o nosso amigo ainda veio trazendo lençóis e perguntando, todo o tempo, se estávamos bem:

-- Que querem comer? Pollo, pescado, ensalada, papas, plátano? 

Dormimos com o barulho das ondas que passavam embaixo da cabana. E, coisa curiosa, tanto o Eraldo como eu, sentíamos como se a cama estivesse balançando...
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