sexta-feira, 12 de novembro de 2010

AMAZONAS E RONDÔNIA

TRANSAMAZÔNICA... RUMO A HUMAITÁ

Continuando... Domingo, 17/10/10. Pegamos a transamazônica. Plano: chegar a Humaitá e pegar a balsa para Manaus. Pegamos o oco do mundo! Poeira, costela-de-vaca, matas, lindas matas... Fazenda Vaca de Maio; a vaca é rosa! Fazenda Sonho Meu, Chácara Deus é Mais, frigorífico Araticum, Comunidade... (Ah! Que saudade do meu Pará...). Pontes, pontes e mais pontes... Lá no meio da mata um grande rio... Digo: “Pela cara é o Tapajós dos meus sonhos; conheço suas águas!”. Uma placa: “Jacareacanga 350 km”. Mentalmente faço a conta: 30 km por hora... vai dar... pego a caneta... mais ou menos 12 horas, dois dias; já disse, andamos 200 km por dia; tirando as paradas nos igarapés... Puxa! A estrada está boa, boa! Nesse andar, chegaremos hoje ao Jacaré (é assim que alguns chamam a cidade). Curvas, muitas curvas... Digo: “As curvas que o Santana (nosso amigo de Santarém) falou! Bem que ele disse: ‘Cuidado! Têm muitas curvas. Os caminhões descem no embalo!” O Eraldo corrige: “Não; as curvas que o Santana falou estão mais à frente”. Meeeeesssssmo???????

A estrada parece ser só nossa! Mata cerrada. Vila Rayol. Parque Nacional da Amazônia. Macaquinhos, que lindos! Macaquinhos atravessando a estrada! Lembro-me de quando a Pite viajou com “seu” Antônio Paniago. Ela era bem pequena; para entretê-la, ele lhe contou duas histórias de macacos. Quando ela comentou com a Cleire, sua filha, ela disse: “Pite, conheço as histórias! Ele só sabe (não me lembro se ela disse duas ou três!)”. Vocês, queridos leitores, estão loucos para conhecê-las, não é mesmo?! Vou contar primeiro a mais sem graça, depois a mais interessante! Prestem muita atenção:

O macaco e os chapéus

Eeeeeera uma vez... Um mascate que saía pelas fazendas, vendendo chapéus. Certo dia, sentiu-se cansado, o sol muito quente, resolveu parar e deitar-se debaixo de uma árvore. Colocou a mala de lado e pegou no sono. Não reparou que a árvore estava cheia de macacos. E macaco é bicho curioso! Viram o homem dormindo, desceram, abriram a mala e cada um pegou um chapéu e colocou na cabeça. E por ali ficaram pulando, pulando e fazendo micagens. O mascate acordou, espreguiçou-se e se virou para pegar a mala. Quase morreu de susto! Cadê os chapéus? Olhou para cima; cada macaco com um chapéu na cabeça! O homem se desesperou, gritou, xingou e nada. Parou, pensou e teve uma ideia. Tirou seu chapéu da cabeça, os macacos também; colocou-o na cabeça, os macacos também. Aí, ele tirou o chapéu e jogou-o no chão; os macacos imediatamente fizeram o mesmo. O mascate catou os chapéus, colocou-os na mala e saiu correndo... E a macacada correndo atrás: “Me dá um chapéu, seu moço; só um...” O homem correu, correu, correu... até encontrar a casa de uma velhinha que o acolheu, fechando rapidamente a porta. Os macacos ficaram lá fora gritando: “Me dá um chapéu, seu moço... Só um.” Dizem que ainda hoje aparecem por lá e ficam choramingando: “Só um, seu moço... só um... só um...”.

História do Medinho e do Medão

Eeeeeera uma vez... Um homem que se gabava de não ter medo de nada! Tanto falava, tanto falava, que os amigos armaram um plano:
--- Zé-sem-medo, você tem coragem mesmo ou é só conversa?
--- Estão me estranhando? Nunca tive medo de nadinha, não!
--- Mas aposto que entrar no cemitério e ficar lá, sozinho, até meia- noite você não será capaz...
--- Hahahahahaha... Passo toda a noite lá, na maior tranquilidade!
Ficou combinado. O Zé iria para o cemitério e os amigos ficariam do lado de fora para confirmar a proeza! Antes disseram:
--- Olha, Zé, queremos que você vá enrolado num lençol branco, como uma assombração. Tudo bem, disse ele.
Ali pelas onze da noite lá foi o corajoso, enrolado no lençol. Os amigos, então, pegaram um macaquinho treinado, enrolaram-no numa fralda e o colocaram atrás do Zé. Com as badaladas da meia-noite o Zé começou a fazer graça para que os amigos vissem. Levantava e abaixava as mãos e dizia: “Huuuuuuu...” O macaco repetia todos os gestos...
Nessa hora passava pelo cemitério um bando de meninos. Um deles olhou e disse:
--- Olha lá, um Medão perto da sepultura!
--- Ih, rapaz, não é um Medão, não... É uma Meda parida!
O Zé foi sentindo aquele arrepio na espinha... as pernas tremendo, tremendo... Olhou para trás... e, pernas-pra-que-te-quero... Saiu no carreirão! Era o Zé correndo na frente e o macaquinho correndo atrás. E os amigos gritavam: “
--- Corre Medão, senão o Medinho te pega! Corre Medão, senão o Medinho te pega!

Calor, calor, calooooor!É por isso que os índios andavam nus (eu tinha colocado “pelados”, mas no blog a gente precisa usar uma linguagem mais culta). E aí disseram para os coitados que era pecado mostrarem o corpo. PECADO?! Pecado é vestir roupa com este calorão! Com este calor até me esqueço de comer... Tem alguma coisa pra se comer? Ah! As bolachinhas que comprei ... Delícia! Amarelinhas, têm sabor de pamonha, de broa de fubá e cheirinho de bebê. Por que cheirinho de bebê? Dizem que, de todos os sentidos, o olfato é o maior ativador de lembranças... Delicio-me com as bolachinhas... Por que cheiro de bebê? Penso... penso... penso... Ah, sim... erva-doce! Chazinho que a gente dá para o nenenzinho dormir bem; e ainda é bom para dor de barriga.

Seguimos viagem. A transamazônica sempre surpreendendo: Está bem cuidada; antes de uma ponte ficar muito velha, já se constrói outra ao lado! Linda mata! Sobe serra, desce serra, sobe, desce... Curvas, curvas, curvas... agora, sim, são as curvas que o Santana falou. Ponte de novo? Não sei por que comecei a anotar as pontes; já me cansei. Parecem as curvas da estrada de Santos... Lembrando novamente Roberto Carlos... Dormimos em meio à floresta amazônica, em frente a um barzinho.

Partimos pela manhã. Confiro minhas anotações: Viva a transamazônica! Rodamos MAIS de 300 km ontem! Um jacarezinho morto na estrada. Como é a musiquinha do jacaré, gente? Aquela que eu cantava o tempo todo quando fomos ao pantanal? Sou igual ao pai Leobino, não sossego enquanto não me lembrar... Hehehehe... Igarapé do Pinto. A paisagem é linda e variada, não cansa as vistas. Ah, pronto, decerto a estrada arruinou; escrevi um negócio aqui e não consigo ler... capeconvinte oncino... que será isso??? Já disse que placa aqui é coisa rara, mas... existe uma exceção: sempre há uma plaquinha antes das pontes, mesmo que seja escrita a mão: “PONTE A 100m”. O interessante é que às vezes a ponte já está à vista, porém a placa NÃO falta! E como há pontes!

Saímos da transamazônica. Vou conferir a contagem das pontes: em 395 km, 31 (TRINTA E UMA) pontes!!! Outro jacarezinho morto? Deve ser por isso que a cidade chama-se Jacareacanga. Chegamos no Jacaré; a cidade é bem menor do que pensávamos. Mas, no mapa, a bolinha dela é deste tamaninho mesmo. A primeira pessoa a conversar conosco foi um policial militar: “Sejam bem-vindos a Jacareacanga! Precisando da gente, estamos aí!” Valeu! Vocês acreditam que, quando criança, eu dava voltas imensas para não passar perto de polícia? Tinha o maior medo! Devo confessar que ainda sinto um friozinho na barriga quando vejo policial. Hahahahahaha... lembra-se, Kátia? Quando eu estava aprendendo a dirigir, certo dia, saindo da casa da Kátia, olhei no retrovisor e vi um carro de polícia. Não deu outra: apavorada, subi na calçada. Depois a Kátia me perguntou: “Tia, o que foi aquilo?”. “Uai, Kátia, vi a polícia e me apavorei!”

Deixamos Jacareacanga. O Eraldo diz:
--- Entramos novamente na transamazônica!
--- Você viu que até refrescou?
--- Refrescou? Porque eu liguei o ar, uai...
Hehehehehe... achei que era porque tinha entrado na floresta...

Paramos para o almoço. Com direito a cajus de graça; é só pegá-los à beira da estrada. Deste tamanhão! Até fotografamos! E mais pirarucu ao molho, arroz e piracuí; uma delícia minha comida! Nem vou dizer “modéstia à parte” (quem me conhece sabe que não nasci com essa coisa... e nem sinto falta!). Tomamos banho no igarapé Muicuzinho; água límpida e geladinha! A gente tem pena de sair! Último banho no Pará. O Eraldo explica que a água é fresquinha porque corre entre as árvores. Fico me lembrando da poesia:
“Deixa-me fonte, dizia a flor, sempre a chorar...
E a fonte, serena e fria, corria levando a flor...”
Epa, não rimou! Hoje parece que minha memória não está cooperando... Será que é: “...chorando de dor?”. Pode ser; dor rima com flor. Gente, vou parando por aqui, o Eraldo já deve estar no terceiro sono... E eu, perdi o meu... Tomei “vaca preta” e o danado foi-se. O que é vaca preta? Explico na hora oportuna, uai! Ainda tenho muito que contar até chegar onde estamos... Vou dizer só o nome: Fortaleza do Abunã-RO (já de volta, no blog ainda nem chegamos em Rondônia...). Na ida nem sabíamos deste lugar. Calminha!

Estamos em 08/11/10, segunda-feira, dia do aniversário do Juca. Parabéns, meu irmão! Ficando velhinho, heim? Alegre-se! Está chegando perto da aposentadoria... aí, então, poderá comprar um trailer e pegar o oco do mundo! Maaaaasssss, no blog aiiiiinda estou no dia 18/10, também segunda (que coincidência!). Continuando... Transamazônica! Dá gosto trafegar por ela! Nosso amigo Silas, de Ariquemes, é que tinha razão: “É um tapete! Melhor do que a que vocês vieram.”

Estamos quase saindo do Pará, terra encantada! O verde destas palmeiras é inacreditável; é brilhante! Adeus, Pará dos meus sonhos! Estou com um nó na garganta. Tirei foto junto à placa da divisa. Tive o cuidado de enxugar os olhinhos... E agora, enquanto escrevo, sinto novamente uma vontade imensa de chorar... Ah, Pará, Pará, você me cativou! Só parando, as letras estão todas embaralhadas... e as lágrimas descendo... Que saudade!

Estamos no Amazonas. Ainda não dá para apreciar nada. Meu coração ficou para trás. Felizes de vocês, Reiker, Renata, Mateus e Isabela, que vivem nesse lugar encantador! Um amigo cearense, um senhor simpaticíssimo, nos disse: “Nunca encontrei paraense morando em outro lugar... Não saem de sua terra. São muito acomodados.” Não, meu amigo, engano seu, grande engano! Não é acomodação, é sabedoria! Deixar uma terra tão linda a troco de quê?! Se nós, que passamos aqui apenas um mês, nos apaixonamos, já pensaram quem nasceu nesse Éden?! Disse e repito: “O Adão aqui do Norte não comeu a maçã, continua no paraíso!”

Ponte Zé do Ouro --- começou a exibidura! ( Lembrei-me da Jove... como ela fala, Helena?). Igarapé Arara, coqueiros cheios de folhas secas (no Pará são todas verdinhas, verdinhas!). Que matinha feia: árvores baixas, folhas amareladas... ah, nem! Igarapé Ramal do Tapajós (Ah, que saudade! Quero voltar!). Que retão, vó Dolzir; bom de tirar na precata! Nossa, não carece de voar... 70 km/h? Transamazônica! Boa toda vida! A melhor estrada de chão até agora. Rio Sucunduri... Tem balsa!? A balsa é empurrada por um barco a motor, um pequeno barco! Como consegue, não sei... Chegamos à comunidade do mesmo nome:
--- Onde podemos dormir?
--- No Manobra, responderam prontamente!
Chegamos ao Manobra e pedimos pouso. O dono, pura simpatia!
--- É aqui mesmo! Aqui é o lugar certo e seguro! Se não tiver cama, a gente arruma rede; se não tiver coberta, arrumamos também... Manobra é o lugar certo!!! Fizemos nossa caminhada na Transamazônica... Solitária, era só nossa! Os amigos, Moacir e Maria, donos do “Manobra”, perguntaram:
--- Vocês gostam de peixe?
--- Se gostamos de peixe!? Demais!
--- Então encomendaremos peixe assado para o jantar. Depois da caminhada, venham jantar conosco.
--- Quando chegamos, o seu filho Diego estava perto do trailer conversando com os amigos:
--- Oi, tia!
--- Nossa, Diego, lembrei-me de meus aluninhos quando você me chamou de tia.
--- Pois é, tia, se você tiver dez alunos como eu na sala, estará feita!
Ele, como toda a família, é uma graça! Assim como as meninas Liliane e Maria das Dores. Ao nos despedirmos a Maria presenteou-me com revistas e um livrinho lindo:
--- Você não se importa de ler livros de outra religião? Nós somos adventistas.
--- Claro que não, Maria. Tenho muitos amigos adventistas e admiro sua religião!
Li tudo, minha amiga! E gostei muito!

Terça-feira, 19/10. Pé na estrada já bem cedo. A estrada é nossa, em uma hora passaram por nós dois carros! “Fazenda Airton”; então, Airton, tu tem fazenda aqui e nem conta para a gente... Apuí, um lindo lugarejo; a praça cheia daquelas florzinhas amarelas, sabem quais, não é? Campos, campos e mais campos. Estrada boa; de vez em quando uma costelinha-de-vaca para quebrar a monotonia. Madeireira; montes e montes de ripas rejeitadas. Ah, o vô Leobino aqui! Ficaria doido com tanta ripa para construir suas gaiolas tão perfeitinhas! Certa vez, a Maria Ely perguntou-lhe o que queria de presente de aniversário: “Tábua, minha filha, TÁBUA! Se quer me agradar, me dê tábua.” Igarapé Chapéu de Couro, Igarapé Fazenda Vieira, milhares de buritis, Igarapé das Pedras... Saudade do Pará! Cadê os cajus da beira da estrada? O gato comeu... E eu, que queria tanto fazer o doce de caju que meu amigo de Belterra ensinou...

Balsa! Que legal! Esqueci-me de anotar o nome do rio... vou perguntar ao Eraldo...Mata, cerrado, igarapé, comunidade... Nem um cajuzinho... Paramos em um posto para dormirmos; o rapaz que nos atendeu, gentilíssimo:
--- Olha, dona, se quiser lavar roupa tem tanque, tem varal. Quer sabão em pó?
Olhem a gracinha de atendimento!

Não posso me esquecer da data para não nos perdermos: 20 de outubro, quarta-feira. Acordei com o canto dos passarinhos, para variar! Não tenho ainda entusiasmo (ia dizendo “tesão”, mas no blog temos que escrever com mais elegância) para fotografar este Amazonas, tão diferente do Pará. Igarapé do Inferno... Ui, que medo! As árvores são comuns, as do Pará são imponentes?, majestosas?, chocantes? Avatar! Parecem aquelas do Avatar. Não tenho talento para descrevê-las. Estão mais para pintura do que para foto; esta mostra o físico; aquela, o espírito!

Transamazônica. Linda, linda! Um tapete, sim senhor! Asfalto aqui só iria agredir a natureza; não combina, não combina mesmo! Uma porteira fechada. Que é isso? Pedágio? Sim; cobrança de pedágio indígena... Fico revoltada e mando um e-mail para os meninos contando tudo. E ainda o que o caminhoneiro disse:
--- Pois é, mana, se tu tivesse dito alguma coisa ou se recusado a pagar eles matavam. Sim, matavam e comiam a cabeça assada! Pode soltar foguete, mana, porque tu tá viva!
Não sei se o rapaz disse isso brincando; só sei que acreditei...
A Valéria respondeu-me, informando sobre o verdadeiro objetivo do pedágio. Realmente, Valéria, eu não tinha analisado o lado deles: de donos absolutos da terra que, afinal, cuidavam e protegiam, tornaram-se intrusos. Realmente, é revoltante! Vou pedir-lhe licença para transcrever suas palavras:
“Os índios do PA parecem ser mais espertos que os do MS. Não que eu ache certo eles cobrarem para deixar os carros passarem em suas terras, mas porque esse ato é uma forma de protestar e chamar a atenção das pessoas para a situação que eles vivem. Essa gente, antes do homem branco chegar, era livre e tinha muita terra para plantar e viver da subsistência. Com a colonização, ela foi massacrada e escravizada. As tribos tiveram suas terras roubadas e passaram a viver em pequenos redutos de onde não podiam mais tirar sustento. Com a chegada das cidades, a situação piorou, pois não houve políticas de integração desse povo (me parece que a comunidade de Anã é raridade no Brasil). Acredito que os poucos que conseguiram sair da situação de miséria das tribos, não querem ser chamados de índios numa tentativa de se integrar melhor à sociedade que valoriza a cultura branca. Acredito que tudo seja uma questão de ser aceito.”
Fazenda OlhoD’água... Hahahahaha, lembrei-me do “Causo do Lambizome”... Paramos para almoçar e sestear. Comi doce de caju que meu maridinho fez; delícia! À espera da balsa para Humaitá... De lá queremos subir o Rio Madeira até Manaus. Mas já começam os espíritos-de-porco:
--- Por que vocês não vão por terra? São só 600 km! (O mapa diz que são 780).
--- Vão por terra; a estrada está um tapete! Fica mais barato.
Eu quero ir de balsa. Que coisa!
--- Procurem a balsa do Pindoba; não sei que dia ele vai...--- DANOU!!!
Quero ver engordar neste lugar; o calor derrete a gente. Pronto, a balsa chegou. Sai um carro, mais um, outro... Vem um caminhão; não consegue subir a ladeira. Corro para ver aquele espetáculo: o coitado vem até certo ponto e despenca. Que susto! Comento com a moça da lanchonete:
--- Nossa! Que perigo!
--- Isso acontece sempre, dona. Fica lá a fila até aparecer um filho de Deus e arrastar.
Não apareceu o filho de Deus. O balseiro teve que voltar com dois caminhões na balsa (já que o outro nem teve coragem de tentar) para buscar a carregadeira. Voltou com a carregadeira e os dois caminhões --- até parece aquela história: “Você tem que atravessar uma galinha, uma raposa e uma onça. A onça não pode ficar junto com a raposa, e nem esta junto com a galinha. E só pode atravessar dois de cada vez...”. A carregadeira puxou o primeiro caminhão. O segundo foi uma graça: era um caminhão puxando a carregadeira e a carregadeira puxando o outro... E eu achando o máximo! NINGUÉM reclama. Aproveita-se para prosear e fazer amizades!
--- Olha, mana, é bom tu pôr uma calça comprida; daqui a pouco as carapanãs tomam conta. (carapanã é muriçoca).
--- Ah, mas comigo elas não têm vez; durmo toda embrulhada.
--- Tu que pensa; elas entram em tudo quanto é lugar.
Meninos, à noite as bichinhas quase acabaram comigo. Como entravam debaixo do lençol é mistério! E, olhe, eu prendo o lençol embaixo da cabeça e dos pés! Ah, e aqui, viu Luzimar, elas não têm nenhum receio de lençol branco. Aprenda essa, minha gente: O Luzimar me disse que as muriçocas fogem do lençol branco. Achei a maior graça ao ver o Eraldo dormir todo rebuçado!

Quinta-feira, 21 de outubro. Acordei com o canto dos pássaros! Meditando o salmo 23, pensei: Meu cálice transborda de amor, entusiasmo, amizade, carinho, encanto... Penso que isso é devido em grande parte à felicidade das pessoas que nos rodeiam. Elas precisam de pouco para ser felizes: agradecem pela vida! O que não é pouco, é muitíssimo, é o ESSENCIAL!
É como diz o grande escritor John Powel: “A felicidade á como uma borboleta: se você a persegue, ela voa para longe; mas se você espera, com tranquilidade e confiança, ela vem e pousa suavemente em seu ombro.” Eles têm uma sábia aceitação do que não pode ser mudado. Vivem o dia de hoje da melhor maneira possível. Se vivessem reclamando dos reveses (e são tantos!), a vida seria insuportável! Mas, não! O barco atrasou quase uma hora? Reclamar para quê? A balsa não atravessa porque o rio está raso; é necessário trazer a draga para dragá-lo? Esperam com toda paciência! E alegria também! A cidade pegou fogo e foi destruída? Fazem outra; e ainda melhor! O povoado será alagado pela usina? Vão de mala-e-cuia para o novo lugar!

Humaitá. Hora de almoço. Vou desmaiar com este calor do meio do inferno! Vou derreter. Meu estômago embrulha e o suor escorre sem parar. E começa a romaria pelos restaurantes... Tem peixe? Hoje não, senhor... Vocês servem peixe? Ah, hoje não temos. Tem peixe? Só temos tambaqui. Capricha lá para nós. Vinte minutos e nada... Trinta minutos:
--- Acho que foram pescar o peixe. Vou naquela lojinha da esquina comprar um short...
Em tempo: estou diminuindo o comprimento dos shorts e dos vestidos. Vocês se lembram no Rio, eu procurando um short mais compridinho? E a Valéria: “Que isso, D. Sônia? Pode comprar mais curto...” Se ela visse agora, diria: “D. Sôôônia? Que iiiiissssoooo?” Acho que logo, logo, estarei usando aqueles das perninhas cavadas... hahahahahaha... É culpa do calor, minha gente!
Comprei meu shortinho, voltei. Cadê o peixe? O Eraldo suando, suando. Nisso, desocupa uma mesa lá na outra sala... Vamos depressa para lá... A mesa tem VENTILADOR!!! Esperamos e esperamos, agora mais felizes e refrescados, com o ventilador bem em frente.Chega a garçonete e diz para o Eraldo:
--- O senhor não vai ficar com raiva de mim não...
Olhares interrogativos?!
--- Só tem rabo...
Tive que me segurar para não rir... Hahahahahaha, esperar uma hora para comer rabo de peixe frito! Eu já não gosto tanto de fritura... Pedi frango.

Saindo de Humaitá passamos por cerrados e campos que nenzinho os nossos! Pontes, pontes e pontes... Igarapé Been, Igarapé Ipixuna, Igarapé do Índio, Igarapé Açuã. Paramos para almoçar no Restaurante Assuã (e agora, José? É com s ou ç?). Penso que é com ç, deve ser palavra indígena. Falo para o Eraldo: “Vou ficar aqui até você ver se tem peixe...”. Espero um pouco e desço. Pergunto: “Tem peixe?” O Eraldo: “Tem... Ela vai fritar umas cabeças de Tucunaré para nós...”. Hahahahahaha... tem um espertinho chegando na frente e comendo o meio do peixe! Devo, porém, confessar que as cabeças estavam deliciosas! Encontramos um rapaz cujo pai nasceu e morou em Mineiros. Ele mora em Goiânia e tem fazenda aqui. Eta mundinho pequeno! Pé na estrada... Ig. (lê-se Igarapé) Castanhalzinho, Ig. Preto, Ig. Do Gato, Ig. Bem-te-vi. Imensa plantação de eucaliptos bem perto do Rio Madeira. Balsa para Porto Velho. Que coisa enorme! Contamos 17 (carros e caminhonetes) e 10 (caminhões e ônibus)!

Em Porto Velho a internet 3G funcionou belezinha. Aproveitamos para abrir os e-mails e publiquei alguma coisa no blog. Procurar peixe feito nos restaurantes daqui é mancada! O jeito é comprar o peixe e fazer. O Eraldo fez um delicioso Pirarucu; seco, tipo bacalhau! Achei mais gostoso ainda. Lúciu, você que gosta tanto de bacalhau, iria adorar! Saímos de Porto Velho com chuva, chuva, chuva... “Chove chuva... chove sem parar...”. Asfalto sem graça! Carros e mais carros. Sinto saudade da estrada só nossa!

Domingo, 24 de outubro. Acordamos na cidade de Jaci Paraná e saímos para fazer caminhada... Passamos numa rua meio esquisita, tive a impressão que era a rua das mulheres (como agente fala no blog... Lu, você sabe da minha birra com escritores que usam palavras chulas --- é assim que está lá no “Aurélio”--- mas tenho que admitir: a linguagem culta limita a criatividade do escritor. Acho que sou muito conservadora; se até o José Lins do Rêgo, naqueeeeeeele tempo, escrevia “quenga”...)... das mulheres de vida airada. Gostaram?(Isto sim, é linguagem a la Bruxo do Cosme Velho.)

Nossa! Que linda cidadezinha! Nova Mutum Paraná. Parece recém-nascida: as casas todas novinhas em folha! Entramos para conhecê-la. Já pensaram, eu numa cidadezinha dessa, ia cansar de me perder... todo dia ia entrar numa outra casa pensando que era a minha. O Eraldo disse que não são tão parecidas assim. Vocês verão nas fotos! Gostei da placa: “Não destrua o que você não fez. Preserve a natureza!”. Saudade das lindíssimas matas do Pará... Quero voltar! Quero morar lá! A câmera tirou férias. Lá, eu já a levava nas mãos: foto aqui, foto acolá, mais uma, essa não posso perder... Que lugar encantador! Meu corpo está aqui, olhando essa faixa- preta-sempre-igual... Meu espírito está lá: imaginando, imaginando... “O pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar...” Onde os igarapés de águas límpidas, os banhos refrescantes?!... Adeus meu doce de caju seco! O Pará deveria ter ficado por último. Estamos em uma estrada muito bonita; porém perde longe, comparando com as encantadoras paisagens do Pará. Engraçado, sempre que me lembro das coisas de lá (as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá...) sinto um aperto no peito, uma vontade de chorar. Foi amor à primeira vista, paixão das “brabas”!

Araras. Passou Taquaras e eu nem vi. Isto é asfalto ou colcha de retalhos? Que coisa remendada! Nova Mamoré. Rio Bananeira. Até que enfim um rio com nome; passamos por vários sem nome. Linda serra! Guajará Mirim: “Estamos felizes com sua chegada. Prefeitura de Guajará Mirim. Resgatando valores!” Bonito lugar! À noite passeamos pela cidade. Provamos saltenha; parece a empanada do Paraguai, só que aquela é melhor! Do lado de lá do Rio Mamoré fica a Bolívia:
--- Lá é bom de compra?--- perguntamos.
--- Tem muita garantia, não...
--- Igual ao Paraguai?
--- Pior.
Pior que o Paraguai? PIOR? Lembrei-me dos meus pen-drives; aqueles que eu comprei para presentear as amigas... Eliene, Adriane, Pite... quem mais? Nenhum prestou! Ah, que raiva! E o Roberto zombando de mim: “Eu falei para não comprar coisas na rua, eu avisei antes de sair...”. Só que, quando o rapazinho estava insistindo para me empurrar as porcarias, olhei para o Roberto, indagando com o olhar: “E aí, compro?”. Ele fez aquele gesto, como quem diz: “Uai, você que sabe...”. E eu, encantada com os preços baixíssimos, comprei.
Dormimos em Guajará. Acordei com os pássaros! Que lindinhos. Tinha um canto diferente, parecia o sabiá, só que interrompia antes a melodia. O sabiá canta assim: “fi...fi...fi; fi...fi...fi” e esse só “fi...fi...fi...” e parece que dá um trinadinho. Passamos de barco para Gayara-Merim, Bolívia. O povo lá atende a gente mal e de cara fechada. “No hai, no hai...Está cerrado...”. Entramos em uma loja; o vendedor lendo estava, lendo continuou... Lembrei-me da minha meninice. Havia em Mineiros um vendedor, o Sr.....não posso dizer o nome, vai que algum parente leia isso... (Décio, meu amigo escritor, você é que é corajoso! Diz o nome dos bois! O Décio não tem o menor receio de citar nomes... Depois conto sua história!). Esse senhor era muito gentil e tudo o mais; porém, se a gente chegava à sua loja quando ele estava lendo o jornal...
--- “Seu” Fulano, tem isso?
--- Espera eu chegar num ponto.
Tenho que contar a história do Décio. Esse meu amigo escreve muito bem. E tem a humildade de trazer seus escritos para mim:
--- Professora Sônia, dê uma olhadinha. Não sou bom de pontuação. Pode corrigir o que precisar! (Na verdade, pouquíssima coisa!).
Sinto-me feliz. Tenho a oportunidade de ler suas lindas produções antes dos outros! E como me emociono! Além de tudo, ele é poeta; e que poeta!
Tempos atrás, trouxe-me a história de seus antepassados. E é para ser publicada. Eu ria e chorava, admirando a maneira direta e franca que meu amigo narra os fatos; e cita o nome das pessoas. Certo momento, contando as infidelidades de um senhor, o Décio cita o nome da mulher... Eu sublinho; deve ter sido um descuido... Termino e chamo o Décio para tirarmos as dúvidas:
--- Ah, Décio, você colocou o nome da mulher; se vai publicar, é bom tirar.
--- Não vou tirar, não, professora Sônia!
--- Mas, Décio, os parentes dela moram aqui; vão ler isso.
--- Não tem importância, não, professora Sônia; todo o mundo sabia que ela era assim; ela infernizou a vida da Fulana. Vou deixar.
--- Mas, Décio, os parentes vão se sentir envergonhados...
--- Eu estou falando a verdade, professora Sônia; não estou mentindo. Vou deixar assim mesmo.
O que você não sabe, amigo Décio, é que eu ainda pensei: Vou falar com a Marta. Talvez ela consiga fazê-lo mudar de ideia; afinal, ela também é escritora.
Agora estou aqui, matutando: O mais provável é que a Marta, justamente por ser escritora, pense que o meu amigo está certo; o bom escritor não pode ficar preso ao que os outros possam pensar ou falar... Vá em frente, Décio!
Certo dia, eu o encontro na rua, em sua inseparável bicicleta:
--- Décio, estou amando a sua poesia. Só que você conta um fato engraçado: a senhora não gostou quando você disse que ela serviu um lanche de rosquinhas, já que o mesmo tinha sido pães-de-queijo... E você diz que não mente, rapaz!
--- Pois é, professora Sônia... Foi por causa da rima; o poeta tem essa licença de mudar alguma coisa por causa da rima...
--- Essa não, Décio! Você, que é poeta, que se vire com a rima. Pão-de-queijo é muito mais gostoso do que rosquinha; e mais difícil de fazer! Ai de você, se um dia eu lhe der pão-de-queijo e o senhor sair por aí dizendo que foi rosquinha!
Amigo poeta, peço licença para transcrever aqui a poesia que você fez para nós (e carrego comigo por onde vou!):

PARA MIM TUDO ACABOU

Um passarinho que saltita
De galho em galho eu sou...
Quem me dava um ótimo ensinamento
Me parece que da nossa querida Mineiros mudou.
Do Norte ao Sul está a viajar com o esposo dela.
Por último agora, meu Deus, para o exterior ela viajou.

Professora Sônia do Eraldo
Eu segurei para não chorar,
Pois não tenho uma boa expressão,
Nem um bom vocabular;
Meus livros, meus poemas, minhas poesias,
Alguma letra para mim você pôde modificar.

Que triste notícia eu ouvi,
Que triste ouvir tal expressão
Dos lindos lábios de sua estimada irmã
Que também me ensina, minha querida amiga Marta Brandão;
Que agora a Sônia está só a viajar, coisa especial isso é.
Que dor ficou na minha alma e no meu coração.

Eu falei: como que eu faço?
Minha fraca matéria quem vai examinar?
O pouco que sei a enxurrada carregou,
A minha escrita vai mesmo parar.
O que eu vejo, eu gosto de escrever,
Na verdade, eu gosto de narrar.

Mas quando uma folha cai no piso ou no chão,
Deus faz nascer outra naquele lugar...
Sem eu perceber, a Marta leu minha face feia
E me disse: O que é isso? Eu posso te ajudar!
Eu posso corrigir para você, Décio.
Deu um sorriso “SANTO” e me disse: Não precisa se preocupar.

Sônia e Eraldo Fernandes,
Para vocês irei orar,
Embora eu nunca parei,
Eu irei continuar.
Que sejam felizes
Nessa jornada que têm que caminhar.

Ah, meu amigo, que lindos versos! É mesmo para fazer a gente chorar! Agradecemos, de todo coração, a poesia e as orações! Há muito tempo quero fazer uma poesia para você, querido amigo! Um dia ela sai!

Voltando à Bolívia, não achamos nada inferior os artigos de lá. Triste mesmo, só o atendimento que, no geral, é péssimo! À noite, em Guajará, os amigos nos oferecem bolo de arroz e cunhapé (parece pão-de-queijo, mas é bem grudento...). Como a internet está boa, abrimos nossos e-mails. O Tiago comenta sobre Mutum Paraná que em breve não mais existirá: ficará submersa pela Usina Jirau. Passamos por lá e nem paramos:
--- Nossa! Na volta precisamos fotografar... Nunca vi uma cidade que vai se acabar... (É como diz o Décio em sua poesia: “Quando uma folha cai... Deus coloca outra no lugar...”. Já que não fomos em Marcelândia, que foi queimada, iremos em outra que será inundada).
--- Pode deixar, a gente passa!
--- E se quando voltarmos ela já estiver inundada?
--- Isso não é assim de um dia para o outro, não --- diz o Eraldo.

Terça-feira, 26 de outubro. Saio para comprar meu creme da Natura...”bem estar bem...”. Parabéns para sua Natura, Vita; em quase todo lugar: “Aqui tem revendedora Natura.” A vendedora e seu esposo, gentilíssimos: “Se vierem por aqui com os filhos podem ficar em nossa casa... até sobram quartos!”. ESSA é a acolhida deles!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010


NEM MIL PÁGINAS!!!

ANÃ! NEM MIL PÁGINAS...

Nem mil páginas dariam para se contar todas as maravilhas de Anã... Contarei mais algumas, portanto! Os quintais não têm cercas; todos abertos, convidando os vizinhos: “Venham! Nossa casa está sempre à sua disposição!” A maneira que usam para pegar os peixes é interessante: Colocam a malhadeira no rio e uma vara presa a ela; na ponta da vara prendem uma lata. O peixe preso na malhadeira começa, naturalmente, a se debater, agitando a rede e balançando a vara. Quando ouvem o barulho da lata já sabem: é só ir buscar o peixe fresquinho! Fomos lavar roupa no rio e eu comecei a ensaboá-las: ensaboei uma peça, coloquei o sabão na perna, ele ameaçava cair:
--- Milena, Milena, o sabão quer rodar...
--- Por que a senhora não coloca na cabeça?! (E olhou-me com aquele olhar: mas nem isso a dona sabe?)
--- Ah, é?
Coloquei-o na cabeça, abaixei para esfregar a roupa e ele, ploft!
Ela veio de lá e disse: “Assim, ó”. --- E pôs o sabão bem em cima do meu cocoruto! Gente! Não cai de jeito nenhum... Mais uma que eu aprendi!
À tarde, quando eu estava dormindo na rede (ou melhor, deitada, pois não estava dormindo, viram, meninas? Ouvi tudinho que vocês disseram!) fiquei escutando as mocinhas rindo do modo como eu falava: “E aí ela disse assim... Hahahahahaha... É mesmo? Ontem ela falou assim e assado... Hehehehehe...”. Eu fiquei fingindo que dormia e achando a maior graça, já que eu também dava boas risadas da maneira delas falarem (viram, suas gracinhas?!). De vez em quando, alguém me chamava de “dona Carmem”.
--- Dona Carmem? --- indaguei, intrigada!
--- É uma senhora que esteve aqui. É gaúcha que nem você...
--- Mas eu não sou gaúcha.
--- Mas fala igualzinho!
À noite, quando fomos para o aniversário, passando por uma rua não muito lisa, a Rúbia: “Ah! Se vocês vissem como isso era antes dos jericos passarem... Essa rua era um tapete: lisinha! Aí vieram dois jericos e esburacaram tudo...” (Jerico é trator pequeno!)

O Lúciu pediu para que eu passasse a receita do piracuí. No início pensamos que fosse paçoca de peixe. Comentando com a Rúbia, ela nos esclareceu: Não é paçoca.
--- Uai, mas eu comi e vi os grãozinhos de farinha, Rúbia!
--- Aquilo não é farinha. São os olhinhos dos peixes!
Alguns dizem “farinha de peixe”; acho que isso gerou a confusão. Na verdade é o peixe cari (aqui dizem acari) assado, desfiado, bem desfiado mesmo e torrado como se torra farinha. Aí é que está o desafio: Eu, pelo menos, nunca consegui torrar farinha; não é fácil! Já vi minha avó Anália torrá-la; é complicado. Exige a quantia exata de fogo; tem que ser colocada aos poucos (eles dizem às mancheias, que são mãozadas...) numa tacha grande. Se colocar em excesso, ela empelota e pode jogar fora; não dá para se aproveitar. É um processo demoraaaaado... Se quiserem experimentar, depois me contem o resultado!

Esqueci-me de contar um fato interessante: Logo ao chegar à casa da Rúbia, encantei-me com um bebezinho, o Mateus, que ainda nem anda. O danadinho chorava nos braços da avó, pelo jeito querendo passear, e ela não estava disposta a se levantar. Adoro criança, gosto mesmo de paparicar os danadinhos (já pensaram meus netinhos?). Peguei o nenê e fui passear. Nisso, vi uma rede debaixo da mangueira e pensei: “O Mateus vai adorar aquela rede!” Sentei na rede com ele e comecei a balançar. Gente, foi o mesmo que colocá-lo em cima de espinhos: “Buá... buá... buá...” Hahahahahaha, então me lembrei: as crianças de Goiás é que amam rede, não estão acostumadas; o Mateus, coitado, está enjoado disso! Levantei-me e ele se calou na mesma hora.

Na última noite em que passei nesse lugar encantado fiquei deitada na rede, olhando o céu estrelado e meditando : nem em meus sonhos mais lindos, pensei haver um lugar como este! Que acolhimento cativante! Como pode haver tamanho respeito e carinho entre todas as pessoas? O que mais me intriga e encanta (tenho que procurar no Aurélio palavras semelhantes a encanto... senão irei usá-la exaustivamente!) é a maneira de educar as crianças. Penso que a herdaram dos índios. Vocês sabiam que os índios, quando corrigem a criança, nunca o fazem de pé? Eles se agacham para ficarem da mesma altura, olhos nos olhos e não acima. E ensinam mais pelo exemplo do que com palavras. “A palavra convence, o exemplo arrasta!”, dizem os sábios! Um dia voltaremos, tenho certeza! Será que alguém conseguiria vir aqui uma só vez?

Em meio a esta natureza deslumbrante, lembro-me da história da “Polyanna”. Aquela do livro que TODO MUNDO leu a pedido das professoras. Eu o li várias vezes em minha infância; depois também. Lembro-me da vez que ela foi morar com aquela mulher rica (Sra. Mary, me parece...). Ele encantou-se tanto com o colar de diamantes da mulher que a mesma cedeu à tentação de mostrar-lhe o cofre cheinho de jóias! E qual não foi seu espanto quando viu a menina sentada no chão, chorando que nem uma desesperada!
--- O que foi agora, menina?
--- Estou chorando de alegria por ter olhos para ver tamanha beleza!
Sinto-me várias vezes assim: Tendo que segurar o pranto ao ver tanta beleza!

Domingo, 10/10/10 (Que linda data!). Não foi de muita alegria para nós. Dia da partida de Anã. Levantamo-nos. A Rúbia nos espera com o café pronto! E tem que ser reforçado “já que vão viajar...” Arroz com vatapá e beiju. Digo que só quero o beiju. Quando percebo, o prato de arroz com vatapá já está à minha frente. Como resistir? Quando encontrarei um vatapá como este!? Tiramos mais fotos. Remoemos, não achando jeito de sair do paraíso. Por fim, despedimo-nos de todos e fomos para o barco. As meninas dizem ansiosas: “Vão mandar as fotos terça-feira? Não vão se esquecer?“ “Fiquem tranquilas. A gente manda revelar na segunda de manhã e envia na terça.” A hora da saída é 09:00h, mas como ninguém tem pressa, saímos às 09:45h. Lógico que não consigo segurar as lágrimas. Disfarço. Adeus povo de Anã. É com o coração cheio de amor e gratidão e com lágrimas nos olhos que deixo vocês, pessoas encantadoras, amigos tão queridos!

É hora de tomar um cafezinho, o primeiro de muitos. Não tanto pelo café, mas pelo prazer de lavar a xícara na pia do barco, que é uma gracinha! Encontro a Maria Odila; “Em defesa da Amazônia” é o que está escrito em sua camiseta. Ela pertence à comunidade Anã e participa do movimento em defesa de sua terra, vai a congressos, hospeda os turistas em sua casa e tudo o mais. Percebo o rapazinho que varre e limpa o barco sempre que cai alguma coisa no chão. Ela me diz: “Foi feita uma pesquisa sobre qual o povo mais asseado do Brasil. O Pará ganhou. Nós cuidamos da limpeza da casa, dos quintais e da higiene pessoal mais que qualquer outro povo! Tomamos vários banhos por dia! Os professores daqui confessam que as crianças são as mais cheirosas. Sempre usam perfume!” Isso eu já tinha percebido. “Vai banhar de novo, Rúbia?” “Só jogar uma água no corpo, dona Sônia.” E assim, jogam água no corpo o dia inteiro. As meninas sentem calor, correm para o rio e mergulham, de roupa e tudo. Saem e já vão para o varal, enroladas na toalha; lá mesmo vestem a roupa enxuta. É superinteressante: você não vê nada e a toalha NÃO cai!

Por que parou? Parou por quê? Um retardatário que vem andando pelo rio, trazendo uma bateria no ombro. Chega a hora do tão esperado almoço! Pura delícia; e de graça! Maria Odila e eu continuamos nossa animada conversa:
--- Pois é, menina, vem gente de todo lugar para conhecer nossas belezas. Certa vez hospedei dois rapazes dos Estados Unidos. Ficaram vários dias: “Dona Ondina, isto aqui é o paraíso! Lutem para que seja preservado! Não deixem que seja destruída tanta beleza natural!” Um dia, entro na sala e vejo um dos rapazes chorando. Pergunto o porquê da tristeza, se lhe falta alguma coisa ou se é saudade de casa. Ele responde: “Choro de emoção, dona Ondina; já viajei muito; nunca vi nada tão lindo assim!”

Vemos, de longe, as praias Pedra Branca e Maria José. Eni, minha cunhada, seu binóculo faz muita falta! Chegada do barco. Ah, o nome do barco é Josué Yeshuah; será mudado para Libertador. Vamos à casa da Josilany. Ela nos convida para o aniversário de sua filha. “Vocês já almoçaram? Se não, poderiam almoçar conosco.” É assim a acolhida deles, TOTAL!
“Vamos ligar para o Mestre, para combinarmos sobre a balsa.” Ligamos. Caixa de mensagem, novamente. Ligo várias vezes, e nada! Quero descer de balsa. Já não sei se é descer ou subir... Hehehehehehehe... Espero que ninguém conte para o Juarez Távora de Carvalho, meu professor de Geografia, essas coisas. Porém, não era ele mesmo que dizia que o mapa teria que ser colocado no chão, sul para o sul, norte para o norte? Então! Penduravam-no na parede e diziam: “O rio tal corre para o rio tal...” E você, olhando o mapa de pé, não iria pensar que os rios corriam para cima. E agora, indo de Santarém para cima, tenho a impressão que o rio sobe. E, às vezes, as águas são tão paradinhas que pergunto ao Eraldo (ao pé do ouvido...kkkkk): “Está correndo para onde?” Não é querendo me justificar, mas era muito engraçada a maneira como era ensinada a tal da Geografia! E as musiquinhas infantis? Eram lindas, lindas! Porém prestem atenção naquela do galinho; vocês se lembram, gente-do-meu-tempo?

MEU GALINHO

Faz três noites que eu não durmo, ô... lá... lá
Pois perdi o meu galinho, ô... lá... lá
Coitadinho, ô... lá... lá
Pobrezinho, ô... lá... lá
Ele faz qui-ri-qui-qui, ele faz qui-ri-qui-qui

Ele é branco e amarelo, ô... lá... lá
Tem a crista vermelhinha, ô... lá... lá
Bate as asa, ô... lá... lá (é asa mesmo, por causa da métrica, se puser o s, as sílabas passam...), ô... lá... lá
Abre o bico, ô... lá... lá
Ele faz qui-ri-qui-qui, ele faz qui-ri-qui-qui

Já rodei o Amazona, ô... lá... lá (o mesmo caso da asa)
Mato Grosso, Paraná, ô... lá... lá
Encontrei, ô... lá... lá
Meu galinho, ô... lá... lá
No sertão do Ceará, no sertão do Ceará...

Viram? Eu adorava cantar... E ficava imaginando a menina a pé, procurando seu galinho. Vai do Mato Grosso para o Paraná e depois para o Ceará... Não daria de imaginar que ficam todos juntinhos?

PONTA DE PEDRA! ONDE EXISTIRÁ COISA MAIS LINDA?!

Procuramos os amigos para saber das belas praias de Santarém; são inúmeras! Indicaram-nos Ponta de Pedra. Essa perdida de balsa nos rendeu DEMAIS!!! Se a perdermos novamente, queremos conhecer a aldeia indígena Vila Franca; dizem que é linda!

Dia da Criança, 12 de outubro. Dia perfeito na praia Ponta de Pedra, no majestoso Tapajós! As ondas estavam até altas! Água deliciosa! Um encanto! A família inteira pode se abrigar embaixo das imensas pedras! O meu comedido marido disse: “Acredito que no mundo não existe um lugar lindo como este! Não dá para descrever; só vendo!” A vontade é ficar o dia inteiro dentro d’água! Aproveitamos o máximo! E a areia, então... é fininha. Alguém disse que parece açúcar; estou mais para maisena (é com s mesmo, com z é o nome comercial!). Não resisti; peguei um monte de areia para o presépio da dona Dolzir. O Eraldo disse que perto de Novo Progresso a areia é mais fina ainda. Renata , Reiker, Mateus e Isa, olhem isso para mim e levem uma areinha para a vovó! Ela irá gostar muito! Na saída conversamos com a dona da lanchonete “Sonho de Verão”, onde almoçamos:
--- Que água mais limpinha!
--- Quando o rio enche, fica mais clara ainda --- disse ela. Pode???
Tirei fotos em cima das pedras, segurando o chapéu:
--- Segurar o chapéu é pose? --- pergunta o Eraldo.
--- Não. Se não segurar o vento leva!

Quarta-feira, 13/10. De manhã vamos procurar o Mestre, figurinha difícil! O Mestre foi para Nassau buscar cimento. Ih! Corre o risco da balsa estar lotada! Se isso acontecer... Uau! Vila Franca! Ligamos para a casa dele; alguém atende: “O Mestre está na balsa.” Na balsa não está. Vamos almoçar enquanto ele chega? Vamos! Começa a novela: Tem peixe? Por aqui não tem, não senhor; só mais em cima. Subimos a ladeira: Tem peixe? Por aqui não tem, não senhor. Voltamos; vamos almoçar no restaurante do velhinho.
--- Temos carne assada de panela e guisado.
O Eraldo: “Guisado?” Eu respondo;
--- É carne moída.--- O velhinho não gosta. E diz firme e forte:
--- Guisado não é carne moída, dona! É diferente. É carne cozida na panela!
Era um senhor muito simpático, mas melindroso! Enquanto almoçávamos, ele ia contando histórias e falando sobre a maneira que preparava aos pratos. Eu ri; para quê?
--- Nossa comida é muito boa, dona. Todo mundo aprecia. Tudo feito na hora; não servimos nada de ontem. ---Nossa! O velhinho “encrespou”!

Saímos para comprar nossas redes; na balsa dorme-se em redes: A do Eraldo, azul; a minha, verde! Agora é só armar, deitar e tirar fotos! O Eraldo vai para a balsa encontrar-se com o misterioso Mestre; eu fico, adiantando meu blog. O Eraldo volta: “Não deu certo...” Planos foram feitos para serem mudados. Já estamos no Plano D. Querem recordar?
PLANO A: Monte Alegre, Prainha, Almeirim.
PLANO B: Voltamos a Santarém para pegarmos a balsa.
PLANO C: Perdemos a balsa por pouco. Esse rendeu: Conhecemos lindas praias em Santarém e, melhor ainda, a Comunidade Anã.
PLANO D: Voltarmos a Itaituba para tentarmos ir para Manaus. De balsa? De balsa. Então está ótimo! Dizem que temos de treinar nossas mentes para chegarmos ao plano Z tranquilos e sorridentes. Estamos a caminho! O Eraldo pega o mapa e tenta me explicar a nossa trajetória de volta. “Voltaremos até o Km 30...”. Penso que nem atentei mais ao resto da explicação: “Então verei novamente minha amiga Zilmar! Que beleza!”, pensei.

Às vezes penso que esta nossa enrola em continuarmos a viagem é porque, no íntimo, bem dentro de nossos corações, não estamos conseguindo sair desta terra encantada!
Às 18:06 do dia 13/10, com o coração oprimido, deixamos Santarém, Terra encantada,Terra de sonhos! Adeus amigos queridos e inesquecíveis! Voltaremos um dia! Dormimos no Portão de Belterra. Encontro o Jacinto e trocamos endereços de blog. É tempo de despedidas! Neste momento, escrevo e choro de saudade. Pronto, eu sabia que isto iria acontecer! As letras se embaralham e tenho que parar. Adeus Belterrra, Bel de belíssima! Cada lugar que deixo tenho que me segurar para não chorar. Não me lembro de me sentir assim em nenhuma outra viagem. As belezas daqui grudam em nossas mentes e corações. Como eu queria que nossas filhos estivessem aqui conosco!
Neste momento lembrei-me de um relato que li naquele livro “Papillon, o homem que fugiu do inferno.” Ele narra sua relutância em deixar uma aldeia indígena na qual viveu sete meses. E usa palavras fortes e emocionantes. A gente lê e pensa: “Que exagero! Ninguém se apega tanto a um lugar em tão pouco tempo... Não precisava disso tudo.” E nós ficamos no Pará apenas um mês e nos apaixonamos por este Terra encantadora!

Imaginem como estou desnorteada nesse vai-e-vem, atravessa-pra-lá, volta-pra-cá! Estamos voltando para Itaituba pela mesma estrada. E por que vejo coisas que não percebi na ida? Eu, que observo tudinho? Ah! Deve ser porque eu via o lado esquerdo da estrada, agora estou vendo o direito! Como aquela história do velhinho:
Um homem chegou à beira do rio e disse para o velho:
--- Subi a ladeira e vim reparando a estrada. Confesso que não entendi: Do lado direito, plantas secas e tristes; do esquerdo, flores lindas, de cores variadas! O senhor poderia me explicar este fenômeno?
--- Claro, meu amigo! Todo dia subo carregando água. Acontece que o balde é furado de um lado.
Moral da história: Sempre devemos olhar os dois lados, antes de julgar um fato.

No Portão de Belterra indicaram-nos uma praia, “a mais bonita de todas”. Vamos? VAMOS!!! Não estou mesmo com nenhuma vontade de ir embora! Entramos numa estradinha no meio da mata: Árvores maravilhosas, altíssimas, de um verde escuro! Uma mulher à beira da estrada. Perguntamos:
--- É por aqui que se vai para a praia?
--- É. Mas não sei se vocês conseguem com esse carro. Tem uns atoleiros de areia...
--- Como é mesmo o nome da praia? Jaguaribe?
--- Não me lembro... É Jagua... qualquer coisa.
Aqui e ali, fitinhas coloridas nos galhos das árvores. Será alguma pesquisa? Descobrimos depois que era uma maratona!
--- Que árvore linda de flores amarelas!
O DG (lê-se defensor de Goiás):
--- Dessas têm em Mineiros, lá na Av. Coqueiros!
Paramos para pegar cajus. Os cajueiros abundam à beira da estrada. Meu vestido já está cheio de nódoa. E o Eraldo deixou cair caju na camisa que ele tanto gosta, uma que o Mariuzan deu! Meninos, vocês já conhecem a mania de tintureiro do seu pai. Não deu outra: colheu um monte de cajus, tirou o suco, acho que mais de litro, e mergulhou dentro a camisa. Deixou uns dois dias. Enxaguou e pôs para secar. Oh, decepção! Quase não fez diferença. Eu lhe disse: “Talvez você não devesse ter enxaguado... ter deixado secar com o suco. Vai ver que os raios solares têm influência para fixar a nódoa.” Ele colheu mais cajus, espremeu, colocou a camisa, deixou uns dias e pôs para secar. Só o que fixou realmente foi o cheiro forte de caju. A cor continuou quase a mesma... hehehehehehhe!

Chegando a Jaguarari, era este o nome, fomos procurar a praia e aproveitar para lavar roupa. Desde a primeira vez que vi as roupas estendidas à beira do igarapé fiquei louca para lavar roupa. Lembrei-me de quando a Maria Ely e eu íamos lavar roupa no igarapé (ou seja, no córrego). Você se lembra, minha irmã? Na hora do almoço eu ia em casa pegar as marmitas para comermos sentadas no tronco de árvore que ficava no barranco: a comida era muito mais gostosa, mesmo com uns grãozinhos de areia como tempero! Crianças, ainda, minha mãe tinha muito zelo pela nossa educação. “Não andem muito com as filhas da D. Maria; elas sabem tudo e não têm papas na língua...” Não posso contar o apelido da tal D. Maria, pois algum parente pode ler isto e aí não fica bem. Íamos para o córrego. D. Maria sempre lá, lavando roupa e contando as piadas mais escabrosas!!! Viiiu, D. Dolzir? Lucrávamos mais, pois a mãe era mais sabida do que as filhas. E a senhora nem imaginava porque gostávamos tanto de lavar roupas!!!

Passamos por uma senhora com a bacia de roupas na cabeça, perguntamos pela praia: “Por que vocês não vão para o igarapé? Venho de lá agora, a água é limpinha.” Lavamos roupas no igarapé e nos banhamos no rio, mas a praia não era tão boa como disseram. Na volta, para confirmar a conversa de nossa informante, encravamos na areia. Foram umas duas horas de peleja!

Na volta, olhando aquelas lindas paisagens, lembrei-me do Zezé, de “O meu pé de laranja-lima”. Ele pensava: Quando eu crescer, quero ter doze filhos. Aí pergunto para um: Meu, filho, o que você quer ser? Engraxate? Então está aqui a graxa e a caixa. E você, meu filho? Quer ser vaqueiro? Está aqui o chicote e a camisa xadrez... Seu irmão Totoca, chega e diz: Que é isso Zezé, falando sozinho? Fiquei pensando: Quando eu morrer, quero me multiplicar em dez pessoas: Uma vai morar no meio do igarapé, numa casinha que vi lá em Alter do Chão ; a outra vai morar numa comunidade indígena: essa não vai aprender ler nem escrever, só gozar a natureza! A outra vai morar às margens do Tapajós e viver pescando e nadando. Uma vai viver numa ilha; outra, nesta linda floresta aqui, com árvores tão exóticas! Epa! Está ficando todo mundo no Pará! Vou deixar as outras... Depois decido o destino delas.

Sexta-feira, 15/10. Dormimos ao lado de uma casinha linda, linda, à beira da rodovia. Acordo e olho pela janela; nosso amigo, Edmilson (não sei se é Edmilson ou Admilson: um é o pai; o outro, o filho) está espalhando as pimentas para secar; ele planta pimenta do reino. Pedi ao Eraldo para tirar uma foto, especialmente para a Orlandina. Ela gosta muitíssimo da tal pimenta e precisa ver como é a secagem! Essa eu não podia perder! E eu, pensando em ver minha amiga Zilmar, comento em voz alta meu pensamento. O Eraldo:
--- Sônia! Não é aquele Km 30 que você está pensando, não. A Zilmar está do lado de lá do Rio Amazonas... Nós atravessamos para cá em Santarém!
Como eu já disse, vai para lá, vem para cá... Desnorteia até uma pessoa mais atenta... Hahahahaha... Fiquei penalizada! Em Rurópolis resolvemos almoçar e começou a romaria pelos restaurantes: Tem peixe? Oh, senhor, hoje não temos. Tem peixe? Acabou! Vocês servem peixe? Não, mas temos galinha caipira, uma delícia! Olhe, não vou lhe iludir, não; por aqui o senhor não acha peixe. Anda que anda e nada de peixe. Resolvemos almoçar assim mesmo. A sortuda fui eu: tinha MAXIXE!!! E daqueles pequenininhos! Huuummmm! Delícia!

Olha o igarapé! Vamos tomar banho? VAMOS!!! Tchibum... tchibum... Desse jeito não há viagem que renda; em cada igarapé paramos para nos banhar nas águas límpidas e refrescantes! Eu saio catando as roupas para lavar: toalha, pano de prato, forro de mesa... Ah, tem mais aquele tapete; está bem sujinho... Pego o tapete. É puro êxtase lavar tapete em igarapé: você ensaboa, sai aquela primeira água marrom, depois bege, depois creme... (lembro-me da Mable; eu e ela sabemos o porquê!) e então as cores aparecem brilhantes e o tapete parece sorrir de tão feliz! E as roupas, então! Ficam perfumadas e macias. Ah! E dispensam amaciante! Ensaboamos as peças e tchibum, tchibum; enxaguamos, colocamos para secar e... tchibum, tchibum, tchibum... A coitadinha da lavadora deve estar se sentindo humilhada: só serve para guardar tapetes.

Saímos de Rurópolis às 13:30. Mais igarapés, mais banhos. E pontes, pontes, pontes! Antes eu tinha receio de passar em pontes de madeira; nem sei por que tinha uma enorme vontade de descer e passar andando; sentia aquele friozinho na barriga! Agora, oh! Não estou nem aí...
Chegamos ao posto Trevão; km 30 (era aqui que eu pensava encontrar novamente a Zilmar; mas esse 30 é o outro, do lado direito do Amazonas – acabei de perguntar para o Eraldo --; o da minha amiga é do lado esquerdo). Os amiguinhos dos jogos vieram correndo: apareceram mais dois: o Flávio e o Augusto. Este cursa o Acelera. Só que o Acelera daqui é da maneira que deveriam ser todos. Quem o cursa são as crianças que têm facilidade de aprendizagem! Assim, SIM! A coisa rende! O Ateilton para voltar à noite teve que trazer a avó a fim de nos conhecer: “A gente tem que conhecer as pessoas, dona. Não podemos deixar irem a qualquer lugar. A gente tem medo que roubem eles...”. Os pais, como eu já disse, mostram aos filhos o valor que têm; FALAM disso na frente deles. O menino, peito estufado, sorrisão no rosto, os olhos brilhantes, olhava-nos todo alegre: “Estão vendo como sou querido?!”.

Sábado, 16/10/10. Acordei com o coro dos passarinhos! “Eu quero um coro de passarinhos...” Lembrei-me da música do Rei! Fui me lembrando do restante da letra e concluí: Estamos vivendo a música, sem dúvida! “Eu quero ter um quintal sem muro...” Em Anã os quintais não tinham muros!” Eu quero ter um milhão de amigos...” Estamos perto! Demos uma volta de trailer com os amiguinhos, compramos panelada (mocotó com bucho de vaca) para o almoço e fomos rumo à balsa de Miritituba para atravessar o Tapajós. Lindo Tapajós! Que pena! Lá de cima vimos a balsa se soltando da plataforma!
--- Pi, pi, piiiiii... O Eraldo buzina. PAROU! A balsa parou para esperar. O encarregado me disse:
--- Vai depressa, dona, tirar a passagem enquanto ele vai entrando...
--- Não vão me deixar para trás?
--- Não tem perigo. Pode ir tranquila! (Pronto. Eu sabia que o tal do trema um dia ia me fazer falta. Eles dizem tranquila – sem o trema, na velha ortografia. Quem foi alfabetizado pelo método fônico? Então, o boizinho fica mudo.)
E o Eraldo, preocupado: “Mas ela tem que ir!”
--- Vá tranquila... Vá tranquila.
E a balsa, cheinha de carros, caminhões, pessoas, ficou esperando por MIM!

Chegamos a Itaituba! Pensei: Será uma ótima oportunidade de desfazer a má impressão que tive desta cidade; afinal, conhecemos pouquíssimos lugares. Da outra vez, na balsa, uma moça nos disse: “Vocês deveriam voltar e conhecer nossas praias. Temos lindas praias por aqui!” Como viram, os anjinhos disseram “amém”! Estacionamos bem perto de uma praia e fomos tomar banho em nosso amigão Tapajós. Havia duas crianças remando um barco de garrafas pet amarradas; os remos eram duas ripas. Pedi aos pais licença para fotografá-las: “Posso? Lembro-me de meu filho!”. Você se lembra, Eraldo Luís? Lá na Matrinchã, você e o Jorge remando uma câmara de ar? Os remos eram paus com litros (latas) de óleo amassados. E você com os dois pés furados, furou um no toco da roça e o outro num pau dentro do rio. Ficou bem bravo: “Acabou a graça da viagem! O que vou fazer com os dois pés furados?”. Apesar dos protestos, calçou os tênis (coisa que dissemos para fazer desde o início e o senhor não quis...) e divertiu-se a valer, remando o barco improvisado! À noite teve febre e o Eraldo foi à cidade mais próxima comprar antibiótico. Quantas lembranças da Matrinchã, um lindo lugar! A Luciana foi lavar vasilhas, acima da cachoeira e deixou rodar um copo: “Ah, mãe! Se pelo menos fosse o furado, mas foi o bom!”. É sempre assim, já notaram? Nunca se quebra aquele que já está trincado... Só o novinho em folha!

Conhecemos um rapaz muito simpático lá no rio que deu-nos várias dicas sobre os melhores lugares para se conhecer. Conversamos até quase escurecer. Falamos sobre botos e outras coisas. Certa hora, olhando o horizonte, ele disse: “
--- Olha ele lá...São dois...
--- Dois o quê?
--- Dois botos. Boiaram bem lá!
Gente, o rapaz falou, como se dissesse: “Olha lá o lambari!”. Como se aquilo fosse a coisa mais comum. E certamente era, para ele que está acostumado. Não, porém, para nós. Fixei os olhos no lugar indicado por ele e ainda vi os danadinhos boiando! Que elegância!

À noite caminhando vimos uma barraquinha com tacacá. “Na volta quero experimentar esse negócio. O povo come com tanto gosto!”. Caminhamos bastante. Chegamos à barraca e pedimos o tacacá. Eu, ansiosa por provar aquele negócio. Fiquei reparando como era servido. Primeiro põe o tucupi (água que sai da mandioca ralada) e as folhas; depois a goma; tucupi de novo; agora o camarão (eu não imaginava que era COM casca...). A moça vendo minha curiosidade desconfia:
--- Você sabe como come, não é?
--- Não é com a colher?
--- Não, não. É com o palito.
E me dá o palito (de dente, aquele palitinho).
Pergunto: “E o caldo que sobra?”. --- Você bebe!
Resultado: Eu comi só as folhas e um pouquinho de camarão. O Eraldo teve que comer o resto. Aquela babinha da goma... não deu, não. Para matar a fome comi uma coisa que parece canjica, mas é bem mais gostosa, esqueci o nome e tomei sorvete de açaí.

Domingo, 17/10/10. Na saída de Itaituba, fazendo compras num supermercado, pudemos comprovar a gentileza e boa vontade do povo nortista. Esquecemo-nos de pesar as frutas. A mocinha do caixa, mesmo percebendo que estávamos em dois:
--- Eu vou pesar para vocês!
E olhem que o corredor era comprido! E era DOMINGO!
Agora é “pegar o oco do mundo”...

UMA PEQUENA EXPLICAÇÃO: Justamente quando eu estava pensando: “Acho que esse negócio de ficar voltando à infância está deixando o blog maçante e enjoativo...”, o Eraldo Luís comenta: “Mãe, não deixe de contar as histórias da infância...” Falou e disse, filhote! Adoro lembrar meu tempo de criança! Vou continuar,SIM!!!