A
SERPENTE ENCANTADA
23
de outubro, quarta-feira – Que vergonha! Hoje é que vou postar a história do passeio a Belém. Isso
porque eu queria aprender como postar fotos. O Eraldo Luís vai me ensinar.
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de março, domingo -- Paramos
num posto a 1 km de Gurupi. Caminhamos até a cidade. A internet não funcionou.
Tomei uma cervejinha – aquela da marca ruim.
25
de março, segunda-feira
– Saímos do pouso às 08h20min. Boa Vista do Gurupi. O Eraldo fez questão de
perguntar ao rapaz do posto quantos quilômetros havia até Belém. Só que já
estavam combinados para me enganar:
-- Ihhhh...
Faltam quase 800...
Divisa
Maranhão – Pará. Ah, Pará, Pará! Pará dos meus encantos! Amo o Pará! Paraíso!!!
Cachoeira do Piraí, Santa Luzia do Pará, Capanema. E chuva, chuva, chuva... E o
Eraldo me enganando, dizendo que estava longe de Belém. Se não fosse a tal
cerveja de marca ruim não seria possível, pois eu viajo de olho no mapa. Mas,
como estava tonta e enjoada, nem queria saber de ler. Castanhal, Mirituba,
Miriti... E eu enchendo:
-- Eraldo,
mas devemos estar bem perto dos meninos; não tem lógica não chegarmos até lá...
-- Uai,
então no trevo você pega o ônibus e eu sigo para o litoral... Não podemos ir
porque os outros vão ficar com ciúme...
-- Tem graça
eu ir sozinha; fica parecendo que você está de mal... Até os meninos vão achar
isso esquisito.
E nhem,
nhem, nhem... nhem, nhem, nhem...
Ah, não
contei que ele desviava minha atenção das placas da estrada...
-- Nossa,
Eraldo, aqui parece uma cidade grande... Olha o comércio... Um shopping grande
lá...
-- O Lúciu
disse que perto do trevo tem muitas cidades.
A chuva
também atrapalhava a visão. Até que vi, para minha grande ALEGRIA: “Bem-vindo a
Belém.” Que emoção! É por isso que adoro surpresas! Nessa hora pensei que a
Patty e o Lúciu estavam sabendo da visita. Qual o quê! Não sabiam de nada.
Ligamos para saber se estavam em casa e fomos perguntando, perguntando... “Quem
tem boca vai a Roma!” Até que achamos a rua e vimos o carro do Lúciu. Só que o
carro estava em frente ao número 39 e no endereço que eu tinha era 139. O
Eraldo teimando:
-- Você deve
ter copiado errado...
-- Eraldo,
de 39 para 139 a diferença é grande!
-- É... mas
e o carro aí?
Subimos as
escadas, batemos, chamamos... e nada. Então a vizinha do lado perguntou:
-- Vocês
estão procurando quem?
-- O dono
desse carro.
-- Um que
tem uma barba assim? Mora lá perto daquele poste. Ele deixa o carro aí porque
tem sombra.
Chegamos lá
de surpresa; foi aquela festa! A casa deles é um amor, muito arrumadinha,
pintura nova – que eles fizeram --, os cômodos bem repartidos. O único problema
é o mofo decorrente do clima muito úmido... É um tal de limpa-limpa sem fim...
A rua é muito tranquila, tem tudo perto: supermercado, farmácia, lojas
variadas. E é um lugar bonito, ao lado de uma grande avenida.
À noite
fomos jantar na------------. A comida estava ótima, mas o que ficou na
lembrança – não precisam rir, é que eu nunca tinha visto... – foi o chope de
vários sabores (frutas do lugar). Bem diferente mesmo!
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de março, terça-feira –
A chuva parou. Fomos para a Praia do Paraíso, em ____________. Na estrada o
Lúciu comprou camarão, daqueles ferventados inteiros, com casca, cabeça e
tudo... Eu nunca tinha provado, inclusive esse é o motivo por não gostar de
acarajé; aquele recheio com perninhas, casquinhas e rabo... não desce. Comecei
cascando para comer; aí resolvi tirar apenas a cabeça e as perninhas... Ué, e
não é que é gostoso? No final eu estava comendo o bichinho inteiro – sem a
cabeça, claro! Comi, e comi, e comi... Achei uma delícia!!! Bem que o Eraldo
sempre diz:
-- Não pode
dizer que não gosta, se nunca provou...
Amei a
praia! Combina com o nome. Uma vista maravilhosa e a água, então, deliciosa!
Ficamos lá até tarde.
Gostei muito
de Belém. Estava preparada para achar a cidade um pouco feia, mas achei bonita,
muito bonita! Cheia de verde!
27
de março – quarta-feira
– O Lúciu saiu cedo para trabalhar e nós ficamos em casa. À tarde o Leandro
chegou – Até que enfim... Estava parecendo curiango “amanhã eu vou...”.
Lembramos das muitas histórias do pessoal de Nova Xavantina. A Patty fez um jantar delicioso! Dormimos
pensando na praia do Algodoal...
28
de março, quinta-feira –
Níver do Eraldo. Saímos cedo para pegar o trailer na oficina e ir para Marudá; de lá pegaríamos o barco para a praia
de Algodoal. Como estava tarde e sem sol, resolvemos ficar na Praia de Crispim,
muito bonita também.
À tardinha, deixamos a Patty e o Lúciu encomendando as comidas e fomos
caminhar, descalços, pela praia... Caminha que caminha, conversa que conversa,
o papo estava bom que só...Tocos daquele tanto... E eu dizendo q devíamos ter
cuidado com os tocos. Resolvemos voltar para a parte limpa da praia; ééééé,,,porque
tinha uma graaaande parte de areia limpinha! De repente ouço um
"aaaaiiiii" do Eraldo; lá estava ele pulando, pulando e segurando o
pé. Olhei... Nossa! Que furo! Assim -- sem exagero nenhum -- de uns três
centímetros de profundidade.
Tentei tirar o estrepe lá na barraca da praia, não deu certo. Tivemos
sorte: a dona da barraca era enfermeira e nos indicou o hospital de Marapanim,
a vinte km. Fomos logo, pois já era noite. Tivemos um ótimo atendimento. O
médico tirou o pau podre do pé do Eraldo, fez curativo, deu os medicamentos e o
dispensou. Ah, e deixou q eu assistisse a tudo...Eu lá, olhando com o maior
interesse... Fui sentindo uma coisa muito estranha, como se me faltasse o ar e
saí... E eu, que nunca tinha desmaiado na vida -- e tinha muita vontade, para
ver como era --, fui me sentindo cada vez pior; algo estranhíssimo, como se fosse
morrer... Foi horrível! A voz parece q não ia sair e eu me sentei no
banquinho e chamei, agoniada, com uma vozinha que não era a minha:
"Enfermeira, enfermeira, estou passando mal..." Vieram duas
enfermeiras para cuidar de mim. Oh, agonia! Nunca em minha vida quero passar
por outra.
O médico tirou o pau podre, fez o curativo e pediu raios-X no dia
seguinte. Dormimos lá mesmo, na porta do hospital.
29
de março, sexta-feira -- Acordamos cedo e fomos ao hospital para os raios-X. O técnico não
tinha comparecido; o outro médico disse que estava tudo bem. Então fomos pegar
o barco para o Algodoal... Adorei a travessia. Chegando lá pegamos um táxi –
uma charretinha, puxada por um burrinho, uma graça! Mesmo não tendo sol, a
praia estava ótima! Combinamos com o dono da charrete para nos pegar às 17h00min
e fomos nos divertir MUUUUIIIITTOOOO!!!
Quando o senhor chegou para nos pegar, eu sugeri:
-- Será que não dá de irmos a Patty, o Lúciu e eu no banco de trás; e o
senhor e o Eraldo no da frente? – É... porque na ida o homem foi a pé puxando o
burrinho. Não gostei; fiquei me sentindo uma daquelas madames do tempo da
escravatura. Ele gostou da idéia; e foi contando histórias:
“Sabem por que esta praia chama Praia da Princesa? Mais para lá tem a
Lagoa da Princesa... Dizem que na lagoa mora uma princesa encantada; ela
aparece transformada em animais; às vezes numa serpente, outras numa ave...
Dizem que é uma mulher lindíssima! Certa vez apareceu para um pescador e
perguntou:
-- Você é corajoso?
O pescador, completamente encantado com a princesa, respondeu:
-- Sim!!! Não tenho medo de nada.
-- Então depende só de você me desencantar. Eu vou aparecer à noite,
aqui na lagoa, na forma de uma serpente. Você deve pegar uma faca bem grande e
cortar meu pescoço. Assim, retomarei a forma humana e serei eternamente sua. Porém,
se você tiver medo, estarei perdida para sempre.
O pescador compareceu à praia na hora combinada. De repente, ouviu um
barulho horrível e a serpente veio surgindo enorme, furiosa, horripilante!
O jovem pescador deu um grito e saiu correndo, sem olhar para trás. E a
pobre e linda princesa ficou presa ao encantamento.
Passou-se o tempo... Certo dia um pescador viu na lagoa um filhote de
cobra e, mais que depressa, o matou. Logo depois, o filho do pescador pediu ao
pai para ir tomar banho. O pai respondeu:
-- Pode ir, meu filho; você já está acostumado, conhece bem a lagoa.
Passou-se o dia, o sol já sumia no horizonte quando o pai percebeu que o
menino não se encontrava por ali. Preocupado foi à lagoa e, qual não foi seu
espanto, quando viu as roupinhas do filho à beira da água... Chamou, chamou,
chamou... e nada. Os amigos, ao saberem do ocorrido, vieram todos à procura da
criança tão amada. Dias depois encontraram o corpinho boiando nas límpidas
águas da lagoa.
-- Você matou o filho da princesa, disseram os pescadores, agora ela matou
o seu.”
Amei a linda história da Princesa Encantada.
Chegamos ao porto em cima da hora; já escurecendo. Já nos tinham dito que à
noite a maré sobe e as ondas ficam mais altas; por isso os barcos saem antes de
escurecer.
Pegamos um barco bem menor e mais velho. Achei até
bom, gosto de coisas antigas. Na saída, um rapaz já começou a implicar com o
barqueiro porque não tinha escada para se subir no barco: “Se a te pegam, tu
vai te lascar...”
No início gostei muito daquela coisa rústica, o
motor lá atrás, uma luzinha, parecia um caixotinho... E os homens lá, mexendo
no motor. E o barco flutuando, flutuando... Não é que o motor não pegava de
jeito nenhum? Começamos a ficar apreensivos... Peleja que peleja e nada...
O jeito foi pedir socorro ao barco maior que ia
passando e amarrar o nosso nele. Até aí eu estava achando TUDO muito
interessante! Oh, santa inocência... Tirei foto e ri muito... Que aventura!
Nunca andei num barco rebocado...
Gente, gente!!! De repente o barco começou a
balançar, parecendo uma folhinha lançada ao vento... Era cada requebrada... E a
corda parecia que ia se soltar. Um rapaz começou a se danar:
-- Por que não passamos para o barco maior?
-- Rapaz, respondeu o barqueiro, é muito arriscado.
E se algum passageiro cair no mar?
-- Ah, é??? E o senhor acha que é melhor pôr em
risco a vida de doze pessoas?
Foi o bastante para eu me apavorar. Isso mesmo;
fiquei APAVORADA! Pedi um colete, tentei tirá-lo lá do teto e o negócio não saía.
Então comecei a gritar:
-- Olha aí, gente! O colete nem sai... Quero um
colete, tira um pra mim. Põe um colete na Patty, Lúciu, e em você também;
Eraldo, põe um colete.
E o rapaz:
-- A corda está escapando, olha lá...
-- Abaixa, gente – gritei, agachando no chão do
barco--, a corda vai se soltar e com a força deste vento vai nos pegar.
Em minha fértil imaginação, já via a corda se
soltando e degolando todos nós. E o barco balançando, cada vez mais louco...
-- Moço, perguntei, quanto tempo ainda demora?
-- Ah, uns 30 minutos... ou 20.
-- Isso tudo??? Ah, não... E você, Eraldo, falando
em comprar um barco... Pode tirar de ideia, pois eu não entro mesmo...
Eu tentava acalmar a Patty, que estava friinha,
coitada! De repente, para meu consolo, vi uma casinha cinza de teto azul!
-- Fique tranquila, Patty, olha as casinhas lá, na
beira da praia, já estamos chegando.
E eu de olho nas casinhas... Só que nunca
chegava...
Hahahahhhaaa... Agora dá de rir. O Lúciu disse que,
depois que eu mostrei as casinhas umas cinco vezes, ele não aguentou:
-- Mãe, aquilo é o barco que vem ao nosso lado.
E depois contou, morrendo de rir:
-- Será que ela estava pensando que eram casinhas
populares, assim, tudo igual?
Durante o sufoco, eu pensava: “A mamãe, a dona
Adélia, o seu Joaquim... Todos falavam que a gente não devia viajar na
sexta-feira da paixão... E eu aqui, me divertindo, tomando cerveja... nem fiz
jejum direito...”
Quando, afinal, o barco chegou ao porto, o Eraldo
disse:
-- Tire o colete.
-- SÓ quando eu estiver com os pés na terra.
Agora fico pensando a quanto aquele povo riu de
mim... Não estou nem aí...
Agora a gente ri, mas quando estava
acontecendo...Ah, a Pite lá... essa eu queria ver...
30 de março, sábado – Já que estava
chovendo mesmo, ficamos em Crispim. Nem pensar em barco... Contando a história
do rebocamento para o rapaz do bar, ele disse:
-- É que mais acontece por aqui; moro neste lugar
há muito tempo e nunca tive coragem de ir ao Algodoal. Viiiiiiraaaammm??? Não sou só eu a medrosa...
Com chuva e tudo foi um dia maravilhoso! O coitado
do Eraldo manquitolando, mas se divertindo também.
31 de março, domingo – O Eraldo
resolveu deixar os meninos em Castanhal e, assim, ganhar 100 km; além de se
livrar do trânsito difícil na chegada de Belém. Eles pegaram uma van e se
foram, para nossa tristeza.
Lúciu e Patty, não falei q a casa ia ficar triste? Está um chué... Ainda
mais com meu benzinho de pé estrepado; tadinho, não dá de caminhar, não dá de
passear pela cidade. Ele já fez muito dirigindo quase 300 km hoje.
Hoje o Eraldo voltou lá para fazer o curativo...O médico, que não me
conhecia, deixou que eu entrasse para a consulta. Na hora das injeções e do
curativo, a enfermeira:
-- A senhora saia, pois fica nervosa...
-- Ah, você é a mesma daquele dia...
O senhor Eraldo Luís mandou um e-mail perguntando – e rindo... – por que
não fomos para o Algodoal... Olha a graça... Respondi no ato:
-- Sr. Eraldo Luís, não fui para Algodoal porque os outros preferiram
ficar no Crispim, não é mesmo, gente? Nada, NADA a ver com o tal do barco
rebocado...