ACRE --- TERRA MARAVILHOSA!
Não podemos ir antes de pegar a receita do bolo de arroz. O rapaz disse que é perto da Rodoviária. Vejo uma lanchonete. Um rapaz e uma moça conversando:
--- São vocês que fazem o bolo de arroz?
--- Não. Nós só comemos. Quem faz é aquela senhora lá, naquela lanchonete nova.
Obrigada. Vou lá. A dona se prontifica para passar a receita. Porém, como muitas boas quituteiras da vida “não meço nada, é tudo no rumo...”. Explica direitinho e, para meu desespero, conclui:
--- TEM que ser assado em forno de barro; no comum não presta, fica ressecado...
Ah, agora entendo porque a vó Anália só fazia esse bolo uma vez ao ano, no dia de São João. Ela o colocava para assar em cima da chapa do fogão e o cobria com uma tampa de lata com brasas por cima. Uma complicação! E uma delícia! E eu pensando que pudesse fazê-lo...
Agora é pegar o oco do mundo e não dormir de botina. Quero ver Mutum Paraná antes que se acabe! Voltaremos até o entroncamento e pegaremos a estrada para o Acre. Coco gelado, que surpresa, quase não se vê por aqui! Amendoim torrado e ainda doce de cupu; não gostei muito, é meio amargoso. Nova Mamoré, Araras, Taquara... Balsa do Abunã. Que fila imensa de caminhões! Coisa de louco! E toca a esperar; é o que se aprende por aqui: esperar com toda a paciência... Pressa para quê? Nada resolve. Aproveitamos para comprar pão. A senhora informa:
---Logo, logo eles liberam; em uma hora mais ou menos...
--- Vamos dormir por aqui mesmo? Vamos, uai!
Caminhada pelo povoado, ouvindo o coro de sapinhos... --- Vai chover, os sapinhos estão cantando... Quando digo isso, o Eraldo sempre se lembra da história do João Mió, um bobinho que havia em Mineiros (O Eraldo disse que ele não era bobo, só bebia pinga...). As pessoas lhe diziam:
--- Corre, João Mió, vai chover...
--- Cumé que ocê sabe?
--- O sapo está cantando.
--- Sapo num é Deus.
De manhã pegamos a balsa. O rio está bem raso; ilhas no meio... Será que a balsa passa? Passou! Vista Alegre do Abunã. Paramos para tomar café. Extrema. O Eraldo foi ver a Loteria; eu resolvi tirar uma soneca; por aqui me dá um sono! Tive um sonho – ou pesadelo, sei lá – muito aflitivo: queria subir uma ladeira e não conseguia... Vou tentar novamente, voltava e vinha no embalo... nada, a ladeira ficava mais alta! Disse então:
--- Se o Danilo dava conta, eu também dou... é só subir na carreira!
--- Que Danilo,mãe? --- Aí já era o Eraldo Luís quem perguntava.
--- Uai, Eraldo Luís, o Danilo Emanuel. O primo do Hugo. Aquele seu amigo, irmão do Marcos Vinicius...
--- E que tem o Danilo a ver com isso?
--- Lembrei-me de quando ele era meu aluno...
Vejam o que é sonho. Gostaria de entender o mistério dos sonhos! Quando o Danilo Emanuel (é assim Danilo? Ou é Emmanuel?) foi meu aluno, no prezinho, era muito engraçado! Fazia-nos rir com suas ideias. Pedia licença e se demorava DEMAIS! Certo dia, fiquei reparando. Ele saiu e logo estava de volta. Assim que pensei “uai, ele hoje andou rápido”, cadê o Danilo? Olhei e o vi lá no pátio. Fiquei esperando... “Licença, tia?”. “Por que você veio e voltou, rapaz? Passando o tempo?”. E ele, todo mansinho (tinha a humildade – ou esperteza! -- de ficar bem mansinho quando via a tia brava):
--- Não, tia, voltei pra pegar o embalo!
Então! Ele subia as calçadas e descia na carreira. Assim pensei no meu sonho: Volto e pego o embalo como o Danilo! Por onde anda você, Danilo? O único aluno, não, a única pessoa que conheci, capaz de rir com a própria cócega! Tem até um dito popular: “Crítica é igual cócega: só vale, se é outro quem faz.” Hora de ditado, todo mundo silencioso. O Danilo, muito esperto, terminava primeiro e ficava inventando moda enquanto esperava os outros. De repente, o rapazinho começa a rir, rir... gargalhar mesmo. Paro o ditado e o encaro: “Que é isso, Danilo? Onde está a graça?” E ele, baixinho: “É cócega, tia...”. “E quem está fazendo cócega em você?!” “Eu mesmo, tia, com o lápis.” O danadinho cutucava as costelas com o lápis e morria de rir!!! Hahahahahaha... já viram coisa igual?
Coqueiros e mais coqueiros. A paisagem está mudando. Nova Califórnia; pensei que fosse maior. Olha o cemiteriozinho, todo branquinho! Chegamos ao Acre. Rio Branco.Queremos ir para Cruzeiro do Sul. “Não, não dá; a estrada já não permite”. Tudo bem; iremos para outro lugar. Paramos em uma oficina para dar uma revisão no carro. De dentro do trailer escuto uma voz forte:
--- Lanterna, chave de fenda, alicate... Vamos comprar señor! Faca para matar...
Olho de má cara pela janela. O vendedor, boliviano com jeito de mexicano – daqueles mexicanos maus dos meus filmes de criança – acha a maior graça quando me vê. Muda na hora seu discurso:
--- Faca para cossina, señora...
Sexta-feira, 29 de outubro.Traçamos novo plano – estamos acostumados. Iremos para Brasiléia. Saímos de Rio Branco, paramos no trevo para lanchar. Um motorista nos fala sobre a Boca do Acre.
--- O que tem de lá?
--- Índios; têm umas índias bonitas!
--- Os índios são bonzinhos? – pergunto.
--- É...são. Só te dão umas três frechadas se tu criar caso...
--- Não tem atoleiro?
--- Dá de passar...Olha, aquele ônibus vem de lá.
Todos se viram para olhar o ônibus... E acham graça: está encardido de tanta poeira!
--- Se atolar... tem muita máquina para puxar... Não na horinha, na horinha... Mas não ficam lá, não.
Posto na beira da estrada. Paramos para pôr água no trailer. Encontramos um caminhoneiro. Eta gente que gosta de passar informações e também pôr gosto ruim nas coisas...
--- Boca do Acre? Tem nada lá não; eu venho de lá... Pra mim aquilo lá tinha de chamar Bunda do Acre...
Olhem o jeito do rapaz falar!
Lá vamos nós para o meio dos índios; é disso que eu gosto! Não sou mesmo urbana como você, primo rico; sou da roça, do mato, cafuçu, matuta... e gosto de ser assim! “Queimadas? Apague essa ideia!”, linda placa! Paramos para almoçar e sestear. Vila Caquetá. Posto de fiscalização Pica Pau. Entramos no Amazonas novamente. Ué, pensei que a Boca do Acre fosse no Acre... Ah, é boca do Rio Acre! Hei! Hei! Estrada de chão! Costela-de-vaca, animação! Jeitão de chuva... “Se chover vocês não passam, vira só atoleiro...”. O Eraldo diz:
--- Um lado da estrada já não dá de passar... O jeito de chuva... Será que a gente continua ou é melhor voltar?
Pensamos, pensamos...e resolvemos voltar. Ah, meus indinhos! Chegamos ao trevo e pegamos a estrada rumo à Brasiléia.
Paramos para dormir em Senador Guiomard, uma linda cidadezinha! Conversei longo tempo com a Fumiu, a japonesa dona do Posto. Ela me apresenta ao inteligente jornalista Zezinho Avelino. Por que eu sei que é inteligente? Fácil, fácil: usava uma camisa do FLAMENGO! Encontramos o Jaime. Ele nos diz que conhece todas as capitais dos estados brasileiros! Pergunto qual, em sua opinião, é a mais bonita. A resposta:
--- Não digo a mais bonita... Mas a mais rica, farturenta, e mais aconchegante é Belém!
Eu não disse? ACONCHEGANTE é a palavra adequada! Você se sente totalmente acolhido. As pessoas dizem: “Fiquem aqui. Aqui é bom para se viver. Vocês não se arrependerão!
Capixaba. Bem bonitinha. Florzinhas amarelas à beira da estrada – aquelas amarelinhas aí da praça! Linda fazenda! São uma maravilha as fazendas do Acre. Xapuri, cidade de Chico Mendes. Queremos visitar o museu e sua casa. “Só fica aberto até o meio-dia”. Ih! Como é normal durante nossas viagens, esquecemo-nos do dia: é sábado. Visitamos o túmulo do Chico Mendes e a cidade, que achei bem original. As casas são diferentíssimas: verde com telhado branco, branca com telhado verde, azul com telhado vinho, rosa, vermelha, roxa; de madeira, de tijolos, palafitas.
Epitaciolândia (mais “ândia”). Brasiléia. Em nossa caminhada passamos para a Bolívia, Cubija. Só para dar uma olhada.
Domingo, 31 de outubro, dia de eleição. Acordei e fui à missa na igreja amarelinha. O celebrante foi o padre Raimundo, muito alegre e divertido. O canto me fez lembrar minha irmã Marta, que não gosta de ritmo lento. Pois é, Marta, fale para o João Luís vir ensinar esse povo a cantar mais rápido! Não consegui entender como o canto tão lento combinava com um acompanhamento de ritmo indígena – mistura de bumbo, maracá e campainha. Fiquei intrigada; mas não consegui distinguir o instrumento. Em Brasiléia justificamos nosso voto e pegamos a estrada.
Estamos na Estrada do Pacífico (é chamada assim porque vai até o Oceano Pacífico). Em Assis Brasil ela entra no Peru... Cuzco... Lima... Vai margeando o Pacífico, entra no Equador, Colômbia, Venezuela, ilhas do Caribe; rumo ao Norte. Rumo ao Sul entra no Peru, Chile, Argentina... Olhem no mapa... minha mente cansou. Lindas árvores! Uma escolinha... Lembrei-me da minha escolinha da fazenda. Saudade dos meus aluninhos! Eram apenas nove: Zilma, Adão, Igna (essa eu vejo sempre), Sebastião (Bastiãozinho), Zeida, Carolina (essa eu sei que está junto aos anjinhos!), Ademar, Lúcia, Nestor, Edésio, Antônio, Isabel, Zilda, Mauro... Epa! Deu mais de nove! Cadê você Bastiãozinho? Tão “especula”... Tia, que é isso? Tia, que é aquilo? Um dia, olhou o relógio na mesa: “Tiiiiiiiaaaaa? O que é ISSSSOOO???”. Cheguei em casa e disse para o Eraldo:
--- Eraldo, coitadinho, o menino nunca viu relógio!
--- Sônia, esse menino está te levando na conversa. Ele morava na cidade. Claro que conhece relógio.
--- Ah, não! Aquele não estava fingindo. Olhava espantado o relógio, virava para lá e para cá, no maior encantamento!
Qual não foi minha surpresa ao visitarmos os pais do Bastiãozinho! Em cima da mesa havia um relógio igualzinho ao meu. Eta guri! O danadinho tinha uma enorme facilidade para decorar. Decorava todas as palavras da lição. Lia a fileirinha de cima para baixo e de baixo para cima, mas... fora da cartilha... Eu fazia um buraquinho na folha e colocava em cima da palavra; e ele: “Tia, tá na fileira do meio ou na do lado?” Certo dia, após ler a primeira página, dei por terminada a lição. O Bastiãozinho não se contentou:
--- Tia, e a folha de lá?
--- Aquela não precisa, Sebastião, tem as figuras...
--- Mas eu quero ler...—e fazia biquinho!
--- Então leia, rapaz.
E ele, olhando as figuras, lia pausadamente: Ca-de-a-do, da-do, ca-co, a-ba-ca-te...
E, vendo a couve: ol-fa-ce.
Chegando a Assis Brasil, almoçamos, sesteamos (virou moda!) e fomos passear em Iñapari-Peru. Pensamos que fosse como na Bolívia que alguém entende o que falamos... Hehehehehe... Queríamos suco. Tentamos falar “suco natural”, a menina trouxe suco de maçã. Perguntei: “Você falou maçã?”. O Eraldo: “Eu não.” Que suco mais sem graça! Mais à frente, tentamos novamente. Tinha. De quê? A moça trouxe um copo para que provássemos. Não deciframos o que era o sabor, mas pedimos a fim de descobrirmos. Ela trouxe uma jarra enorme! Tinha um gostinho longe de café... Como se tivesse colocado uma xícara de café num litro ou dois de água... Mais sem graça do que o outro. Perguntei para a mocinha o que era... Ela falava, falava e... neca! Tive uma ideia: peguei um papel e pedi que escrevesse. Ela escreveu: CEBADA. Já tomaram suco de cevada? Hehehehehehe, não tem gosto de nada!
Domingo, 14 de novembro. Estamos em um lugar encantador à beira do Igarapé (não sei o nome); um balneário lindo e gostoso! Mas isso é o presente. No blog, ainda estou no dia 31 de outubro... Estamos saindo de Assis Brasil... O rapaz lá no Peru perguntou:
--- Por que não vão para Cuzco. Está a 12 h daqui; é tudo pista... Sai às cinco de la mañana e chega a lá noche! – O Eraldo responde:
--- Iremos quando nossos filhos puderem ir conosco. – Viram o sentimentalismo? Confesso que adorei! Não tem graça irmos lá sem vocês.
Uma placa interessante: ”Fique vivo. Evite acidentes.” Contamos seis paus-de-arara lotados; “de eleitores”, presumimos.
Segunda-feira, 01 de novembro. Dia de compras em Cubija. Arrisquei mais um pen-drive. Tive que enfrentar a má vontade da vendedora boliviana:
--- Queria um pen-drive...
--- Não é comigo, patrícia, é com ele... – mostra o rapazinho.
--- Um pen-drive, por favor!
--- É com a patrícia lá... – mostra a mesma mocinha que o indicou...
Tem que se ter paciência de Jó... Quase – só quase – tive saudade do Paraguai: “Leva, querida, leva, leva!” – e vão enfiando as coisas em seus braços, na marra...
Comprei também uma sombrinha de R$ 5,00; parece-me que é daquelas que ocupam três pessoas: uma segurando o cabo; e duas, as beiradas para não virar do avesso com o vento. Mas provou ser boa no sol!
Voltando rumo a Porto Velho – escrevi isso aqui, mas não estou entendendo essa volta, não. Estou mais perdida do que cego em...cego em quê, gente?...não me lembro... Pergunto para a Orlandina, ela também não se lembra. Ah! Vou ligar para minha mãe: “Mãe, como é aquele ditado que você sempre dizia? Cego em quê...?”. “Ih, nem me lembro disso...” Lembrei-me: “Estou mais perdida do que cego em tiroteio.” Só sei que estamos voltando... Entrada de Xapuri... Queríamos dormir em Senador Guiomard, mas está ficando tarde. “Acho que é melhor dormirmos antes...” “Então vamos parar em Capixaba. Eu anotei aqui: bonita cidadezinha!”. Paramos no Auto-Posto Pacífico. Fizemos vários amigos: o Cleison, gerente do posto, seus pais e amigos. À noite recebemos muitas visitas. Comemos piracuí e uva passas.A dona Genosira, mãe do Cleison, uma pessoa simpaticíssima e entusiasmada foi logo dizendo:
--- Ah, vocês não podem ir embora sem conhecer nossa vilinha boliviana; é pertinho!
--- E também o Parque Chico Mendes, -- diz o pai. Eu trabalhei com ele: uma pessoa lutadora e simples; viveu e morreu pobre.
Estamos encantados com o Acre e seu povo. As cidades são muito bem organizadas. No geral, possuem ciclovia, pista para caminhada, lindas praças e parques. Em várias cidades há internet de graça: é só fazer um cadastro. E ainda parques com aparelhos para ginástica!
Terça-feira, 02 de novembro... FINADOS... Digo: “Livrei-me da visita ao cemitério!” Meus mortos que me perdoem, detesto cemitério!. Engraçado o destino! Poderíamos ter ido à vilinha a pé; adoramos caminhar, e era tão pertinho! Por que não fomos? Estava escrito! Uma vila encantadora, Mamparro: de um lado da rua está o Brasil; do outro, a Bolívia. Lá somos bem atendidos! Fizemos várias compras e voltamos ao trailer. Um casal nos espera:
--- Vocês são de Mineiros?
--- Sim. Por quê?
--- Minha namorada é de lá, sua mãe também; vieram há trinta anos.
--- Vocês precisam ir ao sítio visitar minha mãe; ela fica tão feliz quando encontra pessoas de Mineiros! Vão na frente, chegamos depois; não tem erro, há uma placa: “Fazenda Crichás”.
Nós, que já assimilamos a sem-cerimônia deles, nos mandamos. Chegamos. Cadê a dona Francisca? Somos de Mineiros!
Gente, a mulher quase morreu de alegria; não parava de rir. Ela é parenta do Sr. Cristóvão (pai da Sueli, do Sílvio, da Sônia, da Suzete...). Foi uma festa! Conversamos até fazer calo na língua! E, claro, almoçamos com eles! Que comida saborosa! Querida Francisca, jamais nos esqueceremos de você e de sua linda família! Conversa vai, conversa vem, ela diz:
--- Tem outro conterrâneo nosso aqui. O Eliezer e a Dagmar...
Começamos a rir. Desde que resolvemos vir para o Acre, o Eraldo está sempre dizendo:
--- O Eliezer tem fazenda aqui no Acre; quando ligar para o Juca vou pedir-lhe para ver se consegue descobrir onde é.
--- Só falta a gente já ter passado em frente à fazenda dele, -- eu disse.
--- Vocês sabem onde é a fazenda dele?
--- É aqui perto. Eles estiveram aqui ontem e voltaram para a fazenda.
Já tínhamos passado em frente à fazenda deles duas vezes; e fica de vista para a rodovia! Vamos voltar para visitá-los? Claro! Minha coleguinha de serviço no Colégio! Quantas lembranças!
Voltamos uns 58 km, mas valeu a pena! Foi surpresa total! Que acolhida maravilhosa; faziam de tudo para nos agradar! Como é bom encontrar amigos tão distantes de casa! Relembramos os velhos tempos de escola. Confessando minha total ignorância sobre geografia, a Dagmar diz:
--- O que eu sei de Geografia, aprendi com o Juarez.
--- Eu devia ter aprendido também, Dagmar; ele bem que tentou: fazia de tudo para que assimilássemos seus ensinamentos.
Ah, querido professor Juarez, nem sempre damos valor àquilo que é realmente importante! Porém, se em Geografia eu era descuidada, compensava em Matemática! Amava sua maneira de ensinar! Aprendia com rapidez! E não colava da Marta Inês, viiiiuuuuu? Embora você pensasse que SIM!!! “Ponha sua carteira mais pra frente, mocinha!!!”. Oh, injustiça! Nunca precisei colar “em Matemática”... Ah, Juarez, quantas lembranças! Aula de Matemática. Como eu aprendia rápido, resolvi ler aquele lindo romance durante a aula, bem escondidinho embaixo da carteira... Vocês, meus amigos, sabem que, quando estou lendo fujo do mundo, não percebo nada do que se passa ao meu redor. Que história maravilhosa, empolgante! Acho que a colega do lado me deu um cutucão. Tiro as vistas do livro e vejo aquela mão branquinha estendida, em silêncio, para mim... O livro troca de mão. Devo ter ficado roxa de vergonha; depois, o apuro: “E agora, gente? Vai vencer o tempo de entregar o livro na biblioteca... O que faço?” O tempo vai se passando... Todo santo dia o Juarez entra na sala com o livro, só que não entrega, sai novamente com ele... Eu e minhas amigas angustiadas... Fazer o quê? Pedir? Dizer que o prazo está vencendo? Aí é que ele fará tudo para pirraçar! Penso em mil estratégias; devo ter perdido muito sono... Até que em um feliz dia, ele vai saindo, dá uma paradinha, e, com aquele risinho de crítica, entrega-me o livro. Desnecessário dizer qualquer coisa: ele SABE que não haverá uma segunda vez!
Não posso deixar de contar-lhes sobre o paraíso onde moram nossos amigos. A fazenda Independência é simplesmente linda! A casa, um sobrado espaçoso, repousante. Lá de cima a vista é maravilhosa; pura tranquilidade! Convida ao repouso e àquela preguiça gostosa que todo mundo merece! Sofás macios, redes espalhadas pela varanda... Tive vontade de fazer como o neto da Dagmar, espichar-me naquele chão refrescante! Existe coisa mais gostosa?
Com relutância nos despedimos. Ah! Fomos convidados para almoçar na casa do Fernando e Elisângela, em Rio Branco, no dia seguinte.
E toca a andar... Placa: “Pensa num queijo bom!”... Passamos em Capixaba para nos despedir dos amigos. Mais placas: “Boa viagem”... “Volte sempre!”. Grande trecho em pista dupla. ISTO é Acre! Via Chico Mendes. O Fernando nos encontra e nos guia até a oficina para arrumar a correia do ar. É incrível a acolhida deles. Deixam seus afazeres para nos ajudar. Enquanto isso ele pega sua mãe e nos leva até sua casa. Que encanto a casa deles: linda, aconchegante e fresquinha! Lá fora, o sol escaldante! Não resta dúvida: o sol daqui é mais quente, é torrante! (O Word está falando que esta palavra não existe... eu inventei, uai, neologismo! O Guimarães Rosa não inventou cerurjão?).
Socorro, gente entendida, quando eu coloco itálico, para tirar é uma novela... Como é que se faz, Floripinha? Não é só clicar de novo, isso eu já tentei e não deu certo... E não precisa rir, primo rico, pelo que sei o senhor nem tem blog; então... em alguma coisa sou mais entendida do que tu!!! Mandem-me a resposta o mais rápido possível, e com detalhes!
Voltando ao almoço... Foi uma refeição longa e recheada de boa prosa. Veio também a Vanusa, irmã da Elisângela; ela foi minha aluninha. Ah! Vanusa, me esqueci de contar: Você me deu força para continuar com minhas aulas particulares. Todo mundo dizia que era difícil, não compensava, só apareciam alunos preguiçosos. Então veio a Vanusa: estudiosa, alicada, excelente aluna! Pensei: “Nossa! Aula particular é tudo de bom!”. De repente começaram a aparecer os preguiçosos e desatentos, aqueles que não querem nada com nada... Aí a coisa mudou... Resultado: Fui correndo procurar uma escola para lecionar! E nunca me arrependi. Ainda gosto de dar aulas particulares para os alunos que realmente querem aprender; e são muitos! Lembram-se, meus queridos, de nossas aulas de redação? Como aprendiam! Tenho o maior orgulho de vocês!
Comentei que eu estava totalmente perdida, nem sabia se estava indo para o norte ou para o sul, se indo ou vindo. A Dagmar disse – não sei se para me consolar, mas valeu! : “No começo é assim mesmo, depois a gente aprende.” O Eliezer explicou-me de uma maneira fácil de entender... Vou tentar passar para vocês: A estrada é como se fosse uma cruz. No centro está Rio Branco; ao norte, a Boca do Acre; ao sul, Brasiléia... Assis Brasil; a oeste, Sena Madureira... Cruzeiro do Sul; a leste, Acrelândia... Porto Velho. (É assim mesmo, Eliezer?)
Despedimo-nos dos amigos e pé na estrada... rumo à Sena Madureira (lado direito , ops... lado esquerdo da cruz). Demos carona para o Professor Assis, de Bujari. Uma figura! Foi nos mostrando a estrada: “Essa árvore se chama Teca; essa outra aí é a madeira mais dura, quando verde, é retinha, serve para fazer antena de televisão. Lá embaixo fica o Sovaco... O povo aqui é muito nativo; está mais para a caça e pesca... Ali é a cidade, mais à frente fica minha escola; quando vierem por cá passem lá no Sítio para tomar um leite da hora, uma coalhada. Até logo. Deus lhes acompanhe!” Gostei de você, professor!
Sena Madureira. Linda cidade: pista de caminhada, ciclovia, Universidade Federal. Que povo acolhedor! No Pará chamam a gente de “meu amor, minha querida”; no Amazonas, “mana”; no Acre, “tia, meu amor, amorzinho”; na Bolívia, “patrícia, patricita”... Lindas matas! Aqui também os anjinhos e as fadinhas, durante a noite, passam café nas folhas das árvores: são brilhantes! Fernando e Elisângela, que felicidade criar os filhos nesse paraíso! Você também, Vanusa!
Nem acredito! O Eraldo acaba de me informar: “Aqui você pode comer rabada à vontade; não tem berne!”. Vamos procurar... Adoro rabada. E não consigo comer desde que meu cunhado contou-me que pediu rabada num restaurante pra lá de chique e ela veio com um tempero não esperado: BERNE! Ouvi a história, achei a maior graça e pensei: “Não é por isso que vou deixar de comer uma coisa tão gostosa!” Passado um tempo, comprei a rabada, temperei e pus para cozinhar... Deus é bom, Deus é pai... não vai permitir que eu me lembre da tal história. Aquele cheirinho bom! Coloco a mesa, sirvo meu prato... delícia de cheirinho! Coloco o primeiro pedaço na boca e... não desce de jeito nenhum. Só essa é que me faltava. Eu costumava rir de quem tinha essas frescuras. Aconteceu também com a rapadura... Mas essa história não vou contar; quem quiser saber é só ler o livro do Guimarães Rosa, “Sagarana”. São lindos contos! Entre eles vocês encontrarão o da carrocinha que ia levando rapaduras e, de repente... Ei! Não vou contar... Leiam!!!
Quinta-feira, 04 de novembro. Rio Branco DE NOVO! Visitamos o Palácio do Governo, a Catedral e a Biblioteca Municipal, uma senhora biblioteca: imensa, muitíssimo bem organizada, cheia de computadores! Para mim, que adoro ler, um verdadeiro paraíso!
Sexta-feira de manhã, visita ao Parque Chico Mendes. Maravilha! Vimos muitos animais: antas, capivaras, tartarugas, cobras, onças, pacas de rabo (normalmente, não têm rabo), araras, mutuns e, o melhor de tudo, os inigualáveis macaquinhos! Que amor: fazem micagens para a gente, gritam, pulam, despencam-se lá de cima, comem bananas... São umas gracinhas, como gosto de macacos... ficaria o dia inteiro ali, só olhando para os bichinhos! Subimos ao mirante. Ui! Não pensei que fosse tão alto! Um lance de escadas... dois... três... quatro...(certamente está chegando...) cinco... seis... sete... OITO! Quase dou um piriri! Chego e me deito no chão, parece que não suporto muito bem as alturas... Engraçado: quando pequena vivia trepada em árvores! Enfim, o parque é lindo! E vimos uma coisa engraçada: As tias do pré-escolar e seus aluninhos visitando o parque. Elas usam uma cobrinha comprida, com alças. Uma tia segura a cabeça, a outra o rabo e os pequenos vão segurando as alcinhas. Bem mais prático do que colocá-las aos parzinhos, segurando a mão da companheira: soltam-se, passam na frente, ficam para trás...
Escrevi uma coisa com minha “linda” letra que não sei o que é: “io; so”... Depois descubro... Saída do parque, rumo a (eu venho de, crasear pra quê?) Acrelândia – agora sim, braço direito da cruz. Paramos para dormir em Plácido de Castro. (Descobri o “io; so” kkkkk: 10:50h). Como ainda era cedo fomos ao povoado boliviano de Puerto Evo Morales que fica de lá do Rio Abunã. É interessante a história desse povoado: Chamava-se Montevidéo. Há quatro anos foi incendiado; dizem que o fogo começou de madrugada e às sete da manhã ainda se via fumaça; queimou-se todo. As pessoas foram embora. Depois de dois anos, alguns voltaram e, com a ajuda de políticos (como podem ver pelo nome), fundaram novo povoado! São atenciosos para atender a gente. As crianças são lindinhas e muito alegres! Tirei algumas fotos. Lu, aprendi com você o gosto em fotografar crianças; fico louca ao ver a naturalidade delas! Mas quando veem a máquina... pronto! Perdem a graças e ficam durinhas! A ideia inicial era comprar quase nada; saímos carregados! O calor estava sufocante! Eu pensava que iria derreter ou desmaiar... Até as pessoas de lá, que já estão acostumadas, se abanavam sem parar, cada uma com sua toalhinha na mão. Logo que chegamos aqui no Norte, pensamos que fosse uma espécie de moda, as mocinhas com toalhinhas no bolso – e tudo combinando com a blusa ou o sapato. Rápido, percebemos que era para enxugar o suor que escorre sem parar! Aproveitei e comprei minhas toalhas; R$ 1,00 cada!
À tardezinha, caminhada em Plácido de Castro. Cidade muito bem organizada: bosques, ciclovias, pistas para caminhadas. Uma linda praça com aparelhos de ginástica. O professor Felipe dava aulas para o pessoal da terceira idade; além de professor, ele é médico. Contou-nos que fez o projeto para 30 pessoas; já têm 140 inscritas! Conversamos com os velhinhos, que nos passaram muitas informações úteis! Falando sobre as castanheiras, um deles disse:
--- Elas não estão sozinhas na mata; ficam sempre aos pares. O galho mais grosso está estendido para a companheira.
Que lição de vida: O companheiro estende o braço mais forte para a companheira: “Vou te proteger, minha querida, até que a morte nos separe!”
Conversamos com o pai do prefeito e parabenizamos seu filho pela bela cidade! O povo daqui é unânime em dizer: “Antes não era assim. O PT mudou o Acre em doze anos!”. Só sei que agora o Acre é um “brinco”! Isto constatamos em todas as cidades pelas quais passamos!
Chegamos em Acrelândia com chuva; ótima oportunidade para exibir minha sombrinha da Bolívia! Hotel Amazonas à procura do nosso amigo João Paulo, aquele que nos descobriu lá na vilinha boliviana. O João Paulo está? Não. Foi para Capixaba visitar a namorada. Hoje é sábado. Conversamos um tempão com os donos do hotel; deixamos um bilhete para o nosso amigo e pé na estrada... Chegamos ao entroncamento. Daqui até Porto Velho é a mesma estrada da vinda. Agora vou observar BEM o lado direito da estrada, na vinda observei o esquerdo... hehehehehehe... Divisa Acre-Rondônia. Adeus, Acre! Quantas surpresas agradáveis tivemos! Adeus belas cidades! Até mais, povo acolhedor! Adeus, irmãos bolivianos! Adoro vê-los conversar!
Falando em conversa de bolivianos... em Evo Morales uma bolivianinha quase morreu de rir quando eu disse que “não queria a blusa porque era aberta atrás”... Não percebi a graça. Vocês, que entendem espanhol, digam-me, por favor, onde está a piada!? Nesse mesmo lugar fiquei felicíssima: conversei bastante com um menininho e entendi tudinho! Oh!!! Já não vou mais tomar suco de “cebada”! O danado é que eles falam numa rapidez! É igual à história do americano que estudou português durante um ano e, achando-se preparadíssimo para nos entender, veio passear no Brasil. Desceu no aeroporto e parou perto de uma construção: “Vou ficar por aqui e ver se entendo esse povo”, pensou. Sentou-se e esperou. O pedreiro que estava em cima, vendo que a água do café já fervia, perguntou para o que estava embaixo:
--- Pó pô pó?
--- Pó pô, pô!
E o americano: “O quê? Vou-me embora desse lugar. Não entendi nadinha!”
Assim aconteceu comigo lá no Paraguai. Fui atrás da mãe e da filhinha para entender o que falavam... (Afinal, minhas notas no curso de espanhol estavam beleza pura!). Oh! Decepção! Não entendi NADA...
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
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