ACRE --- TERRA MARAVILHOSA!
Não podemos ir antes de pegar a receita do bolo de arroz. O rapaz disse que é perto da Rodoviária. Vejo uma lanchonete. Um rapaz e uma moça conversando:
--- São vocês que fazem o bolo de arroz?
--- Não. Nós só comemos. Quem faz é aquela senhora lá, naquela lanchonete nova.
Obrigada. Vou lá. A dona se prontifica para passar a receita. Porém, como muitas boas quituteiras da vida “não meço nada, é tudo no rumo...”. Explica direitinho e, para meu desespero, conclui:
--- TEM que ser assado em forno de barro; no comum não presta, fica ressecado...
Ah, agora entendo porque a vó Anália só fazia esse bolo uma vez ao ano, no dia de São João. Ela o colocava para assar em cima da chapa do fogão e o cobria com uma tampa de lata com brasas por cima. Uma complicação! E uma delícia! E eu pensando que pudesse fazê-lo...
Agora é pegar o oco do mundo e não dormir de botina. Quero ver Mutum Paraná antes que se acabe! Voltaremos até o entroncamento e pegaremos a estrada para o Acre. Coco gelado, que surpresa, quase não se vê por aqui! Amendoim torrado e ainda doce de cupu; não gostei muito, é meio amargoso. Nova Mamoré, Araras, Taquara... Balsa do Abunã. Que fila imensa de caminhões! Coisa de louco! E toca a esperar; é o que se aprende por aqui: esperar com toda a paciência... Pressa para quê? Nada resolve. Aproveitamos para comprar pão. A senhora informa:
---Logo, logo eles liberam; em uma hora mais ou menos...
--- Vamos dormir por aqui mesmo? Vamos, uai!
Caminhada pelo povoado, ouvindo o coro de sapinhos... --- Vai chover, os sapinhos estão cantando... Quando digo isso, o Eraldo sempre se lembra da história do João Mió, um bobinho que havia em Mineiros (O Eraldo disse que ele não era bobo, só bebia pinga...). As pessoas lhe diziam:
--- Corre, João Mió, vai chover...
--- Cumé que ocê sabe?
--- O sapo está cantando.
--- Sapo num é Deus.
De manhã pegamos a balsa. O rio está bem raso; ilhas no meio... Será que a balsa passa? Passou! Vista Alegre do Abunã. Paramos para tomar café. Extrema. O Eraldo foi ver a Loteria; eu resolvi tirar uma soneca; por aqui me dá um sono! Tive um sonho – ou pesadelo, sei lá – muito aflitivo: queria subir uma ladeira e não conseguia... Vou tentar novamente, voltava e vinha no embalo... nada, a ladeira ficava mais alta! Disse então:
--- Se o Danilo dava conta, eu também dou... é só subir na carreira!
--- Que Danilo,mãe? --- Aí já era o Eraldo Luís quem perguntava.
--- Uai, Eraldo Luís, o Danilo Emanuel. O primo do Hugo. Aquele seu amigo, irmão do Marcos Vinicius...
--- E que tem o Danilo a ver com isso?
--- Lembrei-me de quando ele era meu aluno...
Vejam o que é sonho. Gostaria de entender o mistério dos sonhos! Quando o Danilo Emanuel (é assim Danilo? Ou é Emmanuel?) foi meu aluno, no prezinho, era muito engraçado! Fazia-nos rir com suas ideias. Pedia licença e se demorava DEMAIS! Certo dia, fiquei reparando. Ele saiu e logo estava de volta. Assim que pensei “uai, ele hoje andou rápido”, cadê o Danilo? Olhei e o vi lá no pátio. Fiquei esperando... “Licença, tia?”. “Por que você veio e voltou, rapaz? Passando o tempo?”. E ele, todo mansinho (tinha a humildade – ou esperteza! -- de ficar bem mansinho quando via a tia brava):
--- Não, tia, voltei pra pegar o embalo!
Então! Ele subia as calçadas e descia na carreira. Assim pensei no meu sonho: Volto e pego o embalo como o Danilo! Por onde anda você, Danilo? O único aluno, não, a única pessoa que conheci, capaz de rir com a própria cócega! Tem até um dito popular: “Crítica é igual cócega: só vale, se é outro quem faz.” Hora de ditado, todo mundo silencioso. O Danilo, muito esperto, terminava primeiro e ficava inventando moda enquanto esperava os outros. De repente, o rapazinho começa a rir, rir... gargalhar mesmo. Paro o ditado e o encaro: “Que é isso, Danilo? Onde está a graça?” E ele, baixinho: “É cócega, tia...”. “E quem está fazendo cócega em você?!” “Eu mesmo, tia, com o lápis.” O danadinho cutucava as costelas com o lápis e morria de rir!!! Hahahahahaha... já viram coisa igual?
Coqueiros e mais coqueiros. A paisagem está mudando. Nova Califórnia; pensei que fosse maior. Olha o cemiteriozinho, todo branquinho! Chegamos ao Acre. Rio Branco.Queremos ir para Cruzeiro do Sul. “Não, não dá; a estrada já não permite”. Tudo bem; iremos para outro lugar. Paramos em uma oficina para dar uma revisão no carro. De dentro do trailer escuto uma voz forte:
--- Lanterna, chave de fenda, alicate... Vamos comprar señor! Faca para matar...
Olho de má cara pela janela. O vendedor, boliviano com jeito de mexicano – daqueles mexicanos maus dos meus filmes de criança – acha a maior graça quando me vê. Muda na hora seu discurso:
--- Faca para cossina, señora...
Sexta-feira, 29 de outubro.Traçamos novo plano – estamos acostumados. Iremos para Brasiléia. Saímos de Rio Branco, paramos no trevo para lanchar. Um motorista nos fala sobre a Boca do Acre.
--- O que tem de lá?
--- Índios; têm umas índias bonitas!
--- Os índios são bonzinhos? – pergunto.
--- É...são. Só te dão umas três frechadas se tu criar caso...
--- Não tem atoleiro?
--- Dá de passar...Olha, aquele ônibus vem de lá.
Todos se viram para olhar o ônibus... E acham graça: está encardido de tanta poeira!
--- Se atolar... tem muita máquina para puxar... Não na horinha, na horinha... Mas não ficam lá, não.
Posto na beira da estrada. Paramos para pôr água no trailer. Encontramos um caminhoneiro. Eta gente que gosta de passar informações e também pôr gosto ruim nas coisas...
--- Boca do Acre? Tem nada lá não; eu venho de lá... Pra mim aquilo lá tinha de chamar Bunda do Acre...
Olhem o jeito do rapaz falar!
Lá vamos nós para o meio dos índios; é disso que eu gosto! Não sou mesmo urbana como você, primo rico; sou da roça, do mato, cafuçu, matuta... e gosto de ser assim! “Queimadas? Apague essa ideia!”, linda placa! Paramos para almoçar e sestear. Vila Caquetá. Posto de fiscalização Pica Pau. Entramos no Amazonas novamente. Ué, pensei que a Boca do Acre fosse no Acre... Ah, é boca do Rio Acre! Hei! Hei! Estrada de chão! Costela-de-vaca, animação! Jeitão de chuva... “Se chover vocês não passam, vira só atoleiro...”. O Eraldo diz:
--- Um lado da estrada já não dá de passar... O jeito de chuva... Será que a gente continua ou é melhor voltar?
Pensamos, pensamos...e resolvemos voltar. Ah, meus indinhos! Chegamos ao trevo e pegamos a estrada rumo à Brasiléia.
Paramos para dormir em Senador Guiomard, uma linda cidadezinha! Conversei longo tempo com a Fumiu, a japonesa dona do Posto. Ela me apresenta ao inteligente jornalista Zezinho Avelino. Por que eu sei que é inteligente? Fácil, fácil: usava uma camisa do FLAMENGO! Encontramos o Jaime. Ele nos diz que conhece todas as capitais dos estados brasileiros! Pergunto qual, em sua opinião, é a mais bonita. A resposta:
--- Não digo a mais bonita... Mas a mais rica, farturenta, e mais aconchegante é Belém!
Eu não disse? ACONCHEGANTE é a palavra adequada! Você se sente totalmente acolhido. As pessoas dizem: “Fiquem aqui. Aqui é bom para se viver. Vocês não se arrependerão!
Capixaba. Bem bonitinha. Florzinhas amarelas à beira da estrada – aquelas amarelinhas aí da praça! Linda fazenda! São uma maravilha as fazendas do Acre. Xapuri, cidade de Chico Mendes. Queremos visitar o museu e sua casa. “Só fica aberto até o meio-dia”. Ih! Como é normal durante nossas viagens, esquecemo-nos do dia: é sábado. Visitamos o túmulo do Chico Mendes e a cidade, que achei bem original. As casas são diferentíssimas: verde com telhado branco, branca com telhado verde, azul com telhado vinho, rosa, vermelha, roxa; de madeira, de tijolos, palafitas.
Epitaciolândia (mais “ândia”). Brasiléia. Em nossa caminhada passamos para a Bolívia, Cubija. Só para dar uma olhada.
Domingo, 31 de outubro, dia de eleição. Acordei e fui à missa na igreja amarelinha. O celebrante foi o padre Raimundo, muito alegre e divertido. O canto me fez lembrar minha irmã Marta, que não gosta de ritmo lento. Pois é, Marta, fale para o João Luís vir ensinar esse povo a cantar mais rápido! Não consegui entender como o canto tão lento combinava com um acompanhamento de ritmo indígena – mistura de bumbo, maracá e campainha. Fiquei intrigada; mas não consegui distinguir o instrumento. Em Brasiléia justificamos nosso voto e pegamos a estrada.
Estamos na Estrada do Pacífico (é chamada assim porque vai até o Oceano Pacífico). Em Assis Brasil ela entra no Peru... Cuzco... Lima... Vai margeando o Pacífico, entra no Equador, Colômbia, Venezuela, ilhas do Caribe; rumo ao Norte. Rumo ao Sul entra no Peru, Chile, Argentina... Olhem no mapa... minha mente cansou. Lindas árvores! Uma escolinha... Lembrei-me da minha escolinha da fazenda. Saudade dos meus aluninhos! Eram apenas nove: Zilma, Adão, Igna (essa eu vejo sempre), Sebastião (Bastiãozinho), Zeida, Carolina (essa eu sei que está junto aos anjinhos!), Ademar, Lúcia, Nestor, Edésio, Antônio, Isabel, Zilda, Mauro... Epa! Deu mais de nove! Cadê você Bastiãozinho? Tão “especula”... Tia, que é isso? Tia, que é aquilo? Um dia, olhou o relógio na mesa: “Tiiiiiiiaaaaa? O que é ISSSSOOO???”. Cheguei em casa e disse para o Eraldo:
--- Eraldo, coitadinho, o menino nunca viu relógio!
--- Sônia, esse menino está te levando na conversa. Ele morava na cidade. Claro que conhece relógio.
--- Ah, não! Aquele não estava fingindo. Olhava espantado o relógio, virava para lá e para cá, no maior encantamento!
Qual não foi minha surpresa ao visitarmos os pais do Bastiãozinho! Em cima da mesa havia um relógio igualzinho ao meu. Eta guri! O danadinho tinha uma enorme facilidade para decorar. Decorava todas as palavras da lição. Lia a fileirinha de cima para baixo e de baixo para cima, mas... fora da cartilha... Eu fazia um buraquinho na folha e colocava em cima da palavra; e ele: “Tia, tá na fileira do meio ou na do lado?” Certo dia, após ler a primeira página, dei por terminada a lição. O Bastiãozinho não se contentou:
--- Tia, e a folha de lá?
--- Aquela não precisa, Sebastião, tem as figuras...
--- Mas eu quero ler...—e fazia biquinho!
--- Então leia, rapaz.
E ele, olhando as figuras, lia pausadamente: Ca-de-a-do, da-do, ca-co, a-ba-ca-te...
E, vendo a couve: ol-fa-ce.
Chegando a Assis Brasil, almoçamos, sesteamos (virou moda!) e fomos passear em Iñapari-Peru. Pensamos que fosse como na Bolívia que alguém entende o que falamos... Hehehehehe... Queríamos suco. Tentamos falar “suco natural”, a menina trouxe suco de maçã. Perguntei: “Você falou maçã?”. O Eraldo: “Eu não.” Que suco mais sem graça! Mais à frente, tentamos novamente. Tinha. De quê? A moça trouxe um copo para que provássemos. Não deciframos o que era o sabor, mas pedimos a fim de descobrirmos. Ela trouxe uma jarra enorme! Tinha um gostinho longe de café... Como se tivesse colocado uma xícara de café num litro ou dois de água... Mais sem graça do que o outro. Perguntei para a mocinha o que era... Ela falava, falava e... neca! Tive uma ideia: peguei um papel e pedi que escrevesse. Ela escreveu: CEBADA. Já tomaram suco de cevada? Hehehehehehe, não tem gosto de nada!
Domingo, 14 de novembro. Estamos em um lugar encantador à beira do Igarapé (não sei o nome); um balneário lindo e gostoso! Mas isso é o presente. No blog, ainda estou no dia 31 de outubro... Estamos saindo de Assis Brasil... O rapaz lá no Peru perguntou:
--- Por que não vão para Cuzco. Está a 12 h daqui; é tudo pista... Sai às cinco de la mañana e chega a lá noche! – O Eraldo responde:
--- Iremos quando nossos filhos puderem ir conosco. – Viram o sentimentalismo? Confesso que adorei! Não tem graça irmos lá sem vocês.
Uma placa interessante: ”Fique vivo. Evite acidentes.” Contamos seis paus-de-arara lotados; “de eleitores”, presumimos.
Segunda-feira, 01 de novembro. Dia de compras em Cubija. Arrisquei mais um pen-drive. Tive que enfrentar a má vontade da vendedora boliviana:
--- Queria um pen-drive...
--- Não é comigo, patrícia, é com ele... – mostra o rapazinho.
--- Um pen-drive, por favor!
--- É com a patrícia lá... – mostra a mesma mocinha que o indicou...
Tem que se ter paciência de Jó... Quase – só quase – tive saudade do Paraguai: “Leva, querida, leva, leva!” – e vão enfiando as coisas em seus braços, na marra...
Comprei também uma sombrinha de R$ 5,00; parece-me que é daquelas que ocupam três pessoas: uma segurando o cabo; e duas, as beiradas para não virar do avesso com o vento. Mas provou ser boa no sol!
Voltando rumo a Porto Velho – escrevi isso aqui, mas não estou entendendo essa volta, não. Estou mais perdida do que cego em...cego em quê, gente?...não me lembro... Pergunto para a Orlandina, ela também não se lembra. Ah! Vou ligar para minha mãe: “Mãe, como é aquele ditado que você sempre dizia? Cego em quê...?”. “Ih, nem me lembro disso...” Lembrei-me: “Estou mais perdida do que cego em tiroteio.” Só sei que estamos voltando... Entrada de Xapuri... Queríamos dormir em Senador Guiomard, mas está ficando tarde. “Acho que é melhor dormirmos antes...” “Então vamos parar em Capixaba. Eu anotei aqui: bonita cidadezinha!”. Paramos no Auto-Posto Pacífico. Fizemos vários amigos: o Cleison, gerente do posto, seus pais e amigos. À noite recebemos muitas visitas. Comemos piracuí e uva passas.A dona Genosira, mãe do Cleison, uma pessoa simpaticíssima e entusiasmada foi logo dizendo:
--- Ah, vocês não podem ir embora sem conhecer nossa vilinha boliviana; é pertinho!
--- E também o Parque Chico Mendes, -- diz o pai. Eu trabalhei com ele: uma pessoa lutadora e simples; viveu e morreu pobre.
Estamos encantados com o Acre e seu povo. As cidades são muito bem organizadas. No geral, possuem ciclovia, pista para caminhada, lindas praças e parques. Em várias cidades há internet de graça: é só fazer um cadastro. E ainda parques com aparelhos para ginástica!
Terça-feira, 02 de novembro... FINADOS... Digo: “Livrei-me da visita ao cemitério!” Meus mortos que me perdoem, detesto cemitério!. Engraçado o destino! Poderíamos ter ido à vilinha a pé; adoramos caminhar, e era tão pertinho! Por que não fomos? Estava escrito! Uma vila encantadora, Mamparro: de um lado da rua está o Brasil; do outro, a Bolívia. Lá somos bem atendidos! Fizemos várias compras e voltamos ao trailer. Um casal nos espera:
--- Vocês são de Mineiros?
--- Sim. Por quê?
--- Minha namorada é de lá, sua mãe também; vieram há trinta anos.
--- Vocês precisam ir ao sítio visitar minha mãe; ela fica tão feliz quando encontra pessoas de Mineiros! Vão na frente, chegamos depois; não tem erro, há uma placa: “Fazenda Crichás”.
Nós, que já assimilamos a sem-cerimônia deles, nos mandamos. Chegamos. Cadê a dona Francisca? Somos de Mineiros!
Gente, a mulher quase morreu de alegria; não parava de rir. Ela é parenta do Sr. Cristóvão (pai da Sueli, do Sílvio, da Sônia, da Suzete...). Foi uma festa! Conversamos até fazer calo na língua! E, claro, almoçamos com eles! Que comida saborosa! Querida Francisca, jamais nos esqueceremos de você e de sua linda família! Conversa vai, conversa vem, ela diz:
--- Tem outro conterrâneo nosso aqui. O Eliezer e a Dagmar...
Começamos a rir. Desde que resolvemos vir para o Acre, o Eraldo está sempre dizendo:
--- O Eliezer tem fazenda aqui no Acre; quando ligar para o Juca vou pedir-lhe para ver se consegue descobrir onde é.
--- Só falta a gente já ter passado em frente à fazenda dele, -- eu disse.
--- Vocês sabem onde é a fazenda dele?
--- É aqui perto. Eles estiveram aqui ontem e voltaram para a fazenda.
Já tínhamos passado em frente à fazenda deles duas vezes; e fica de vista para a rodovia! Vamos voltar para visitá-los? Claro! Minha coleguinha de serviço no Colégio! Quantas lembranças!
Voltamos uns 58 km, mas valeu a pena! Foi surpresa total! Que acolhida maravilhosa; faziam de tudo para nos agradar! Como é bom encontrar amigos tão distantes de casa! Relembramos os velhos tempos de escola. Confessando minha total ignorância sobre geografia, a Dagmar diz:
--- O que eu sei de Geografia, aprendi com o Juarez.
--- Eu devia ter aprendido também, Dagmar; ele bem que tentou: fazia de tudo para que assimilássemos seus ensinamentos.
Ah, querido professor Juarez, nem sempre damos valor àquilo que é realmente importante! Porém, se em Geografia eu era descuidada, compensava em Matemática! Amava sua maneira de ensinar! Aprendia com rapidez! E não colava da Marta Inês, viiiiuuuuu? Embora você pensasse que SIM!!! “Ponha sua carteira mais pra frente, mocinha!!!”. Oh, injustiça! Nunca precisei colar “em Matemática”... Ah, Juarez, quantas lembranças! Aula de Matemática. Como eu aprendia rápido, resolvi ler aquele lindo romance durante a aula, bem escondidinho embaixo da carteira... Vocês, meus amigos, sabem que, quando estou lendo fujo do mundo, não percebo nada do que se passa ao meu redor. Que história maravilhosa, empolgante! Acho que a colega do lado me deu um cutucão. Tiro as vistas do livro e vejo aquela mão branquinha estendida, em silêncio, para mim... O livro troca de mão. Devo ter ficado roxa de vergonha; depois, o apuro: “E agora, gente? Vai vencer o tempo de entregar o livro na biblioteca... O que faço?” O tempo vai se passando... Todo santo dia o Juarez entra na sala com o livro, só que não entrega, sai novamente com ele... Eu e minhas amigas angustiadas... Fazer o quê? Pedir? Dizer que o prazo está vencendo? Aí é que ele fará tudo para pirraçar! Penso em mil estratégias; devo ter perdido muito sono... Até que em um feliz dia, ele vai saindo, dá uma paradinha, e, com aquele risinho de crítica, entrega-me o livro. Desnecessário dizer qualquer coisa: ele SABE que não haverá uma segunda vez!
Não posso deixar de contar-lhes sobre o paraíso onde moram nossos amigos. A fazenda Independência é simplesmente linda! A casa, um sobrado espaçoso, repousante. Lá de cima a vista é maravilhosa; pura tranquilidade! Convida ao repouso e àquela preguiça gostosa que todo mundo merece! Sofás macios, redes espalhadas pela varanda... Tive vontade de fazer como o neto da Dagmar, espichar-me naquele chão refrescante! Existe coisa mais gostosa?
Com relutância nos despedimos. Ah! Fomos convidados para almoçar na casa do Fernando e Elisângela, em Rio Branco, no dia seguinte.
E toca a andar... Placa: “Pensa num queijo bom!”... Passamos em Capixaba para nos despedir dos amigos. Mais placas: “Boa viagem”... “Volte sempre!”. Grande trecho em pista dupla. ISTO é Acre! Via Chico Mendes. O Fernando nos encontra e nos guia até a oficina para arrumar a correia do ar. É incrível a acolhida deles. Deixam seus afazeres para nos ajudar. Enquanto isso ele pega sua mãe e nos leva até sua casa. Que encanto a casa deles: linda, aconchegante e fresquinha! Lá fora, o sol escaldante! Não resta dúvida: o sol daqui é mais quente, é torrante! (O Word está falando que esta palavra não existe... eu inventei, uai, neologismo! O Guimarães Rosa não inventou cerurjão?).
Socorro, gente entendida, quando eu coloco itálico, para tirar é uma novela... Como é que se faz, Floripinha? Não é só clicar de novo, isso eu já tentei e não deu certo... E não precisa rir, primo rico, pelo que sei o senhor nem tem blog; então... em alguma coisa sou mais entendida do que tu!!! Mandem-me a resposta o mais rápido possível, e com detalhes!
Voltando ao almoço... Foi uma refeição longa e recheada de boa prosa. Veio também a Vanusa, irmã da Elisângela; ela foi minha aluninha. Ah! Vanusa, me esqueci de contar: Você me deu força para continuar com minhas aulas particulares. Todo mundo dizia que era difícil, não compensava, só apareciam alunos preguiçosos. Então veio a Vanusa: estudiosa, alicada, excelente aluna! Pensei: “Nossa! Aula particular é tudo de bom!”. De repente começaram a aparecer os preguiçosos e desatentos, aqueles que não querem nada com nada... Aí a coisa mudou... Resultado: Fui correndo procurar uma escola para lecionar! E nunca me arrependi. Ainda gosto de dar aulas particulares para os alunos que realmente querem aprender; e são muitos! Lembram-se, meus queridos, de nossas aulas de redação? Como aprendiam! Tenho o maior orgulho de vocês!
Comentei que eu estava totalmente perdida, nem sabia se estava indo para o norte ou para o sul, se indo ou vindo. A Dagmar disse – não sei se para me consolar, mas valeu! : “No começo é assim mesmo, depois a gente aprende.” O Eliezer explicou-me de uma maneira fácil de entender... Vou tentar passar para vocês: A estrada é como se fosse uma cruz. No centro está Rio Branco; ao norte, a Boca do Acre; ao sul, Brasiléia... Assis Brasil; a oeste, Sena Madureira... Cruzeiro do Sul; a leste, Acrelândia... Porto Velho. (É assim mesmo, Eliezer?)
Despedimo-nos dos amigos e pé na estrada... rumo à Sena Madureira (lado direito , ops... lado esquerdo da cruz). Demos carona para o Professor Assis, de Bujari. Uma figura! Foi nos mostrando a estrada: “Essa árvore se chama Teca; essa outra aí é a madeira mais dura, quando verde, é retinha, serve para fazer antena de televisão. Lá embaixo fica o Sovaco... O povo aqui é muito nativo; está mais para a caça e pesca... Ali é a cidade, mais à frente fica minha escola; quando vierem por cá passem lá no Sítio para tomar um leite da hora, uma coalhada. Até logo. Deus lhes acompanhe!” Gostei de você, professor!
Sena Madureira. Linda cidade: pista de caminhada, ciclovia, Universidade Federal. Que povo acolhedor! No Pará chamam a gente de “meu amor, minha querida”; no Amazonas, “mana”; no Acre, “tia, meu amor, amorzinho”; na Bolívia, “patrícia, patricita”... Lindas matas! Aqui também os anjinhos e as fadinhas, durante a noite, passam café nas folhas das árvores: são brilhantes! Fernando e Elisângela, que felicidade criar os filhos nesse paraíso! Você também, Vanusa!
Nem acredito! O Eraldo acaba de me informar: “Aqui você pode comer rabada à vontade; não tem berne!”. Vamos procurar... Adoro rabada. E não consigo comer desde que meu cunhado contou-me que pediu rabada num restaurante pra lá de chique e ela veio com um tempero não esperado: BERNE! Ouvi a história, achei a maior graça e pensei: “Não é por isso que vou deixar de comer uma coisa tão gostosa!” Passado um tempo, comprei a rabada, temperei e pus para cozinhar... Deus é bom, Deus é pai... não vai permitir que eu me lembre da tal história. Aquele cheirinho bom! Coloco a mesa, sirvo meu prato... delícia de cheirinho! Coloco o primeiro pedaço na boca e... não desce de jeito nenhum. Só essa é que me faltava. Eu costumava rir de quem tinha essas frescuras. Aconteceu também com a rapadura... Mas essa história não vou contar; quem quiser saber é só ler o livro do Guimarães Rosa, “Sagarana”. São lindos contos! Entre eles vocês encontrarão o da carrocinha que ia levando rapaduras e, de repente... Ei! Não vou contar... Leiam!!!
Quinta-feira, 04 de novembro. Rio Branco DE NOVO! Visitamos o Palácio do Governo, a Catedral e a Biblioteca Municipal, uma senhora biblioteca: imensa, muitíssimo bem organizada, cheia de computadores! Para mim, que adoro ler, um verdadeiro paraíso!
Sexta-feira de manhã, visita ao Parque Chico Mendes. Maravilha! Vimos muitos animais: antas, capivaras, tartarugas, cobras, onças, pacas de rabo (normalmente, não têm rabo), araras, mutuns e, o melhor de tudo, os inigualáveis macaquinhos! Que amor: fazem micagens para a gente, gritam, pulam, despencam-se lá de cima, comem bananas... São umas gracinhas, como gosto de macacos... ficaria o dia inteiro ali, só olhando para os bichinhos! Subimos ao mirante. Ui! Não pensei que fosse tão alto! Um lance de escadas... dois... três... quatro...(certamente está chegando...) cinco... seis... sete... OITO! Quase dou um piriri! Chego e me deito no chão, parece que não suporto muito bem as alturas... Engraçado: quando pequena vivia trepada em árvores! Enfim, o parque é lindo! E vimos uma coisa engraçada: As tias do pré-escolar e seus aluninhos visitando o parque. Elas usam uma cobrinha comprida, com alças. Uma tia segura a cabeça, a outra o rabo e os pequenos vão segurando as alcinhas. Bem mais prático do que colocá-las aos parzinhos, segurando a mão da companheira: soltam-se, passam na frente, ficam para trás...
Escrevi uma coisa com minha “linda” letra que não sei o que é: “io; so”... Depois descubro... Saída do parque, rumo a (eu venho de, crasear pra quê?) Acrelândia – agora sim, braço direito da cruz. Paramos para dormir em Plácido de Castro. (Descobri o “io; so” kkkkk: 10:50h). Como ainda era cedo fomos ao povoado boliviano de Puerto Evo Morales que fica de lá do Rio Abunã. É interessante a história desse povoado: Chamava-se Montevidéo. Há quatro anos foi incendiado; dizem que o fogo começou de madrugada e às sete da manhã ainda se via fumaça; queimou-se todo. As pessoas foram embora. Depois de dois anos, alguns voltaram e, com a ajuda de políticos (como podem ver pelo nome), fundaram novo povoado! São atenciosos para atender a gente. As crianças são lindinhas e muito alegres! Tirei algumas fotos. Lu, aprendi com você o gosto em fotografar crianças; fico louca ao ver a naturalidade delas! Mas quando veem a máquina... pronto! Perdem a graças e ficam durinhas! A ideia inicial era comprar quase nada; saímos carregados! O calor estava sufocante! Eu pensava que iria derreter ou desmaiar... Até as pessoas de lá, que já estão acostumadas, se abanavam sem parar, cada uma com sua toalhinha na mão. Logo que chegamos aqui no Norte, pensamos que fosse uma espécie de moda, as mocinhas com toalhinhas no bolso – e tudo combinando com a blusa ou o sapato. Rápido, percebemos que era para enxugar o suor que escorre sem parar! Aproveitei e comprei minhas toalhas; R$ 1,00 cada!
À tardezinha, caminhada em Plácido de Castro. Cidade muito bem organizada: bosques, ciclovias, pistas para caminhadas. Uma linda praça com aparelhos de ginástica. O professor Felipe dava aulas para o pessoal da terceira idade; além de professor, ele é médico. Contou-nos que fez o projeto para 30 pessoas; já têm 140 inscritas! Conversamos com os velhinhos, que nos passaram muitas informações úteis! Falando sobre as castanheiras, um deles disse:
--- Elas não estão sozinhas na mata; ficam sempre aos pares. O galho mais grosso está estendido para a companheira.
Que lição de vida: O companheiro estende o braço mais forte para a companheira: “Vou te proteger, minha querida, até que a morte nos separe!”
Conversamos com o pai do prefeito e parabenizamos seu filho pela bela cidade! O povo daqui é unânime em dizer: “Antes não era assim. O PT mudou o Acre em doze anos!”. Só sei que agora o Acre é um “brinco”! Isto constatamos em todas as cidades pelas quais passamos!
Chegamos em Acrelândia com chuva; ótima oportunidade para exibir minha sombrinha da Bolívia! Hotel Amazonas à procura do nosso amigo João Paulo, aquele que nos descobriu lá na vilinha boliviana. O João Paulo está? Não. Foi para Capixaba visitar a namorada. Hoje é sábado. Conversamos um tempão com os donos do hotel; deixamos um bilhete para o nosso amigo e pé na estrada... Chegamos ao entroncamento. Daqui até Porto Velho é a mesma estrada da vinda. Agora vou observar BEM o lado direito da estrada, na vinda observei o esquerdo... hehehehehehe... Divisa Acre-Rondônia. Adeus, Acre! Quantas surpresas agradáveis tivemos! Adeus belas cidades! Até mais, povo acolhedor! Adeus, irmãos bolivianos! Adoro vê-los conversar!
Falando em conversa de bolivianos... em Evo Morales uma bolivianinha quase morreu de rir quando eu disse que “não queria a blusa porque era aberta atrás”... Não percebi a graça. Vocês, que entendem espanhol, digam-me, por favor, onde está a piada!? Nesse mesmo lugar fiquei felicíssima: conversei bastante com um menininho e entendi tudinho! Oh!!! Já não vou mais tomar suco de “cebada”! O danado é que eles falam numa rapidez! É igual à história do americano que estudou português durante um ano e, achando-se preparadíssimo para nos entender, veio passear no Brasil. Desceu no aeroporto e parou perto de uma construção: “Vou ficar por aqui e ver se entendo esse povo”, pensou. Sentou-se e esperou. O pedreiro que estava em cima, vendo que a água do café já fervia, perguntou para o que estava embaixo:
--- Pó pô pó?
--- Pó pô, pô!
E o americano: “O quê? Vou-me embora desse lugar. Não entendi nadinha!”
Assim aconteceu comigo lá no Paraguai. Fui atrás da mãe e da filhinha para entender o que falavam... (Afinal, minhas notas no curso de espanhol estavam beleza pura!). Oh! Decepção! Não entendi NADA...
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
AMAZONAS E RONDÔNIA
TRANSAMAZÔNICA... RUMO A HUMAITÁ
Continuando... Domingo, 17/10/10. Pegamos a transamazônica. Plano: chegar a Humaitá e pegar a balsa para Manaus. Pegamos o oco do mundo! Poeira, costela-de-vaca, matas, lindas matas... Fazenda Vaca de Maio; a vaca é rosa! Fazenda Sonho Meu, Chácara Deus é Mais, frigorífico Araticum, Comunidade... (Ah! Que saudade do meu Pará...). Pontes, pontes e mais pontes... Lá no meio da mata um grande rio... Digo: “Pela cara é o Tapajós dos meus sonhos; conheço suas águas!”. Uma placa: “Jacareacanga 350 km”. Mentalmente faço a conta: 30 km por hora... vai dar... pego a caneta... mais ou menos 12 horas, dois dias; já disse, andamos 200 km por dia; tirando as paradas nos igarapés... Puxa! A estrada está boa, boa! Nesse andar, chegaremos hoje ao Jacaré (é assim que alguns chamam a cidade). Curvas, muitas curvas... Digo: “As curvas que o Santana (nosso amigo de Santarém) falou! Bem que ele disse: ‘Cuidado! Têm muitas curvas. Os caminhões descem no embalo!” O Eraldo corrige: “Não; as curvas que o Santana falou estão mais à frente”. Meeeeesssssmo???????
A estrada parece ser só nossa! Mata cerrada. Vila Rayol. Parque Nacional da Amazônia. Macaquinhos, que lindos! Macaquinhos atravessando a estrada! Lembro-me de quando a Pite viajou com “seu” Antônio Paniago. Ela era bem pequena; para entretê-la, ele lhe contou duas histórias de macacos. Quando ela comentou com a Cleire, sua filha, ela disse: “Pite, conheço as histórias! Ele só sabe (não me lembro se ela disse duas ou três!)”. Vocês, queridos leitores, estão loucos para conhecê-las, não é mesmo?! Vou contar primeiro a mais sem graça, depois a mais interessante! Prestem muita atenção:
O macaco e os chapéus
Eeeeeera uma vez... Um mascate que saía pelas fazendas, vendendo chapéus. Certo dia, sentiu-se cansado, o sol muito quente, resolveu parar e deitar-se debaixo de uma árvore. Colocou a mala de lado e pegou no sono. Não reparou que a árvore estava cheia de macacos. E macaco é bicho curioso! Viram o homem dormindo, desceram, abriram a mala e cada um pegou um chapéu e colocou na cabeça. E por ali ficaram pulando, pulando e fazendo micagens. O mascate acordou, espreguiçou-se e se virou para pegar a mala. Quase morreu de susto! Cadê os chapéus? Olhou para cima; cada macaco com um chapéu na cabeça! O homem se desesperou, gritou, xingou e nada. Parou, pensou e teve uma ideia. Tirou seu chapéu da cabeça, os macacos também; colocou-o na cabeça, os macacos também. Aí, ele tirou o chapéu e jogou-o no chão; os macacos imediatamente fizeram o mesmo. O mascate catou os chapéus, colocou-os na mala e saiu correndo... E a macacada correndo atrás: “Me dá um chapéu, seu moço; só um...” O homem correu, correu, correu... até encontrar a casa de uma velhinha que o acolheu, fechando rapidamente a porta. Os macacos ficaram lá fora gritando: “Me dá um chapéu, seu moço... Só um.” Dizem que ainda hoje aparecem por lá e ficam choramingando: “Só um, seu moço... só um... só um...”.
História do Medinho e do Medão
Eeeeeera uma vez... Um homem que se gabava de não ter medo de nada! Tanto falava, tanto falava, que os amigos armaram um plano:
--- Zé-sem-medo, você tem coragem mesmo ou é só conversa?
--- Estão me estranhando? Nunca tive medo de nadinha, não!
--- Mas aposto que entrar no cemitério e ficar lá, sozinho, até meia- noite você não será capaz...
--- Hahahahahaha... Passo toda a noite lá, na maior tranquilidade!
Ficou combinado. O Zé iria para o cemitério e os amigos ficariam do lado de fora para confirmar a proeza! Antes disseram:
--- Olha, Zé, queremos que você vá enrolado num lençol branco, como uma assombração. Tudo bem, disse ele.
Ali pelas onze da noite lá foi o corajoso, enrolado no lençol. Os amigos, então, pegaram um macaquinho treinado, enrolaram-no numa fralda e o colocaram atrás do Zé. Com as badaladas da meia-noite o Zé começou a fazer graça para que os amigos vissem. Levantava e abaixava as mãos e dizia: “Huuuuuuu...” O macaco repetia todos os gestos...
Nessa hora passava pelo cemitério um bando de meninos. Um deles olhou e disse:
--- Olha lá, um Medão perto da sepultura!
--- Ih, rapaz, não é um Medão, não... É uma Meda parida!
O Zé foi sentindo aquele arrepio na espinha... as pernas tremendo, tremendo... Olhou para trás... e, pernas-pra-que-te-quero... Saiu no carreirão! Era o Zé correndo na frente e o macaquinho correndo atrás. E os amigos gritavam: “
--- Corre Medão, senão o Medinho te pega! Corre Medão, senão o Medinho te pega!
Calor, calor, calooooor!É por isso que os índios andavam nus (eu tinha colocado “pelados”, mas no blog a gente precisa usar uma linguagem mais culta). E aí disseram para os coitados que era pecado mostrarem o corpo. PECADO?! Pecado é vestir roupa com este calorão! Com este calor até me esqueço de comer... Tem alguma coisa pra se comer? Ah! As bolachinhas que comprei ... Delícia! Amarelinhas, têm sabor de pamonha, de broa de fubá e cheirinho de bebê. Por que cheirinho de bebê? Dizem que, de todos os sentidos, o olfato é o maior ativador de lembranças... Delicio-me com as bolachinhas... Por que cheiro de bebê? Penso... penso... penso... Ah, sim... erva-doce! Chazinho que a gente dá para o nenenzinho dormir bem; e ainda é bom para dor de barriga.
Seguimos viagem. A transamazônica sempre surpreendendo: Está bem cuidada; antes de uma ponte ficar muito velha, já se constrói outra ao lado! Linda mata! Sobe serra, desce serra, sobe, desce... Curvas, curvas, curvas... agora, sim, são as curvas que o Santana falou. Ponte de novo? Não sei por que comecei a anotar as pontes; já me cansei. Parecem as curvas da estrada de Santos... Lembrando novamente Roberto Carlos... Dormimos em meio à floresta amazônica, em frente a um barzinho.
Partimos pela manhã. Confiro minhas anotações: Viva a transamazônica! Rodamos MAIS de 300 km ontem! Um jacarezinho morto na estrada. Como é a musiquinha do jacaré, gente? Aquela que eu cantava o tempo todo quando fomos ao pantanal? Sou igual ao pai Leobino, não sossego enquanto não me lembrar... Hehehehe... Igarapé do Pinto. A paisagem é linda e variada, não cansa as vistas. Ah, pronto, decerto a estrada arruinou; escrevi um negócio aqui e não consigo ler... capeconvinte oncino... que será isso??? Já disse que placa aqui é coisa rara, mas... existe uma exceção: sempre há uma plaquinha antes das pontes, mesmo que seja escrita a mão: “PONTE A 100m”. O interessante é que às vezes a ponte já está à vista, porém a placa NÃO falta! E como há pontes!
Saímos da transamazônica. Vou conferir a contagem das pontes: em 395 km, 31 (TRINTA E UMA) pontes!!! Outro jacarezinho morto? Deve ser por isso que a cidade chama-se Jacareacanga. Chegamos no Jacaré; a cidade é bem menor do que pensávamos. Mas, no mapa, a bolinha dela é deste tamaninho mesmo. A primeira pessoa a conversar conosco foi um policial militar: “Sejam bem-vindos a Jacareacanga! Precisando da gente, estamos aí!” Valeu! Vocês acreditam que, quando criança, eu dava voltas imensas para não passar perto de polícia? Tinha o maior medo! Devo confessar que ainda sinto um friozinho na barriga quando vejo policial. Hahahahahaha... lembra-se, Kátia? Quando eu estava aprendendo a dirigir, certo dia, saindo da casa da Kátia, olhei no retrovisor e vi um carro de polícia. Não deu outra: apavorada, subi na calçada. Depois a Kátia me perguntou: “Tia, o que foi aquilo?”. “Uai, Kátia, vi a polícia e me apavorei!”
Deixamos Jacareacanga. O Eraldo diz:
--- Entramos novamente na transamazônica!
--- Você viu que até refrescou?
--- Refrescou? Porque eu liguei o ar, uai...
Hehehehehe... achei que era porque tinha entrado na floresta...
Paramos para o almoço. Com direito a cajus de graça; é só pegá-los à beira da estrada. Deste tamanhão! Até fotografamos! E mais pirarucu ao molho, arroz e piracuí; uma delícia minha comida! Nem vou dizer “modéstia à parte” (quem me conhece sabe que não nasci com essa coisa... e nem sinto falta!). Tomamos banho no igarapé Muicuzinho; água límpida e geladinha! A gente tem pena de sair! Último banho no Pará. O Eraldo explica que a água é fresquinha porque corre entre as árvores. Fico me lembrando da poesia:
“Deixa-me fonte, dizia a flor, sempre a chorar...
E a fonte, serena e fria, corria levando a flor...”
Epa, não rimou! Hoje parece que minha memória não está cooperando... Será que é: “...chorando de dor?”. Pode ser; dor rima com flor. Gente, vou parando por aqui, o Eraldo já deve estar no terceiro sono... E eu, perdi o meu... Tomei “vaca preta” e o danado foi-se. O que é vaca preta? Explico na hora oportuna, uai! Ainda tenho muito que contar até chegar onde estamos... Vou dizer só o nome: Fortaleza do Abunã-RO (já de volta, no blog ainda nem chegamos em Rondônia...). Na ida nem sabíamos deste lugar. Calminha!
Estamos em 08/11/10, segunda-feira, dia do aniversário do Juca. Parabéns, meu irmão! Ficando velhinho, heim? Alegre-se! Está chegando perto da aposentadoria... aí, então, poderá comprar um trailer e pegar o oco do mundo! Maaaaasssss, no blog aiiiiinda estou no dia 18/10, também segunda (que coincidência!). Continuando... Transamazônica! Dá gosto trafegar por ela! Nosso amigo Silas, de Ariquemes, é que tinha razão: “É um tapete! Melhor do que a que vocês vieram.”
Estamos quase saindo do Pará, terra encantada! O verde destas palmeiras é inacreditável; é brilhante! Adeus, Pará dos meus sonhos! Estou com um nó na garganta. Tirei foto junto à placa da divisa. Tive o cuidado de enxugar os olhinhos... E agora, enquanto escrevo, sinto novamente uma vontade imensa de chorar... Ah, Pará, Pará, você me cativou! Só parando, as letras estão todas embaralhadas... e as lágrimas descendo... Que saudade!
Estamos no Amazonas. Ainda não dá para apreciar nada. Meu coração ficou para trás. Felizes de vocês, Reiker, Renata, Mateus e Isabela, que vivem nesse lugar encantador! Um amigo cearense, um senhor simpaticíssimo, nos disse: “Nunca encontrei paraense morando em outro lugar... Não saem de sua terra. São muito acomodados.” Não, meu amigo, engano seu, grande engano! Não é acomodação, é sabedoria! Deixar uma terra tão linda a troco de quê?! Se nós, que passamos aqui apenas um mês, nos apaixonamos, já pensaram quem nasceu nesse Éden?! Disse e repito: “O Adão aqui do Norte não comeu a maçã, continua no paraíso!”
Ponte Zé do Ouro --- começou a exibidura! ( Lembrei-me da Jove... como ela fala, Helena?). Igarapé Arara, coqueiros cheios de folhas secas (no Pará são todas verdinhas, verdinhas!). Que matinha feia: árvores baixas, folhas amareladas... ah, nem! Igarapé Ramal do Tapajós (Ah, que saudade! Quero voltar!). Que retão, vó Dolzir; bom de tirar na precata! Nossa, não carece de voar... 70 km/h? Transamazônica! Boa toda vida! A melhor estrada de chão até agora. Rio Sucunduri... Tem balsa!? A balsa é empurrada por um barco a motor, um pequeno barco! Como consegue, não sei... Chegamos à comunidade do mesmo nome:
--- Onde podemos dormir?
--- No Manobra, responderam prontamente!
Chegamos ao Manobra e pedimos pouso. O dono, pura simpatia!
--- É aqui mesmo! Aqui é o lugar certo e seguro! Se não tiver cama, a gente arruma rede; se não tiver coberta, arrumamos também... Manobra é o lugar certo!!! Fizemos nossa caminhada na Transamazônica... Solitária, era só nossa! Os amigos, Moacir e Maria, donos do “Manobra”, perguntaram:
--- Vocês gostam de peixe?
--- Se gostamos de peixe!? Demais!
--- Então encomendaremos peixe assado para o jantar. Depois da caminhada, venham jantar conosco.
--- Quando chegamos, o seu filho Diego estava perto do trailer conversando com os amigos:
--- Oi, tia!
--- Nossa, Diego, lembrei-me de meus aluninhos quando você me chamou de tia.
--- Pois é, tia, se você tiver dez alunos como eu na sala, estará feita!
Ele, como toda a família, é uma graça! Assim como as meninas Liliane e Maria das Dores. Ao nos despedirmos a Maria presenteou-me com revistas e um livrinho lindo:
--- Você não se importa de ler livros de outra religião? Nós somos adventistas.
--- Claro que não, Maria. Tenho muitos amigos adventistas e admiro sua religião!
Li tudo, minha amiga! E gostei muito!
Terça-feira, 19/10. Pé na estrada já bem cedo. A estrada é nossa, em uma hora passaram por nós dois carros! “Fazenda Airton”; então, Airton, tu tem fazenda aqui e nem conta para a gente... Apuí, um lindo lugarejo; a praça cheia daquelas florzinhas amarelas, sabem quais, não é? Campos, campos e mais campos. Estrada boa; de vez em quando uma costelinha-de-vaca para quebrar a monotonia. Madeireira; montes e montes de ripas rejeitadas. Ah, o vô Leobino aqui! Ficaria doido com tanta ripa para construir suas gaiolas tão perfeitinhas! Certa vez, a Maria Ely perguntou-lhe o que queria de presente de aniversário: “Tábua, minha filha, TÁBUA! Se quer me agradar, me dê tábua.” Igarapé Chapéu de Couro, Igarapé Fazenda Vieira, milhares de buritis, Igarapé das Pedras... Saudade do Pará! Cadê os cajus da beira da estrada? O gato comeu... E eu, que queria tanto fazer o doce de caju que meu amigo de Belterra ensinou...
Balsa! Que legal! Esqueci-me de anotar o nome do rio... vou perguntar ao Eraldo...Mata, cerrado, igarapé, comunidade... Nem um cajuzinho... Paramos em um posto para dormirmos; o rapaz que nos atendeu, gentilíssimo:
--- Olha, dona, se quiser lavar roupa tem tanque, tem varal. Quer sabão em pó?
Olhem a gracinha de atendimento!
Não posso me esquecer da data para não nos perdermos: 20 de outubro, quarta-feira. Acordei com o canto dos passarinhos, para variar! Não tenho ainda entusiasmo (ia dizendo “tesão”, mas no blog temos que escrever com mais elegância) para fotografar este Amazonas, tão diferente do Pará. Igarapé do Inferno... Ui, que medo! As árvores são comuns, as do Pará são imponentes?, majestosas?, chocantes? Avatar! Parecem aquelas do Avatar. Não tenho talento para descrevê-las. Estão mais para pintura do que para foto; esta mostra o físico; aquela, o espírito!
Transamazônica. Linda, linda! Um tapete, sim senhor! Asfalto aqui só iria agredir a natureza; não combina, não combina mesmo! Uma porteira fechada. Que é isso? Pedágio? Sim; cobrança de pedágio indígena... Fico revoltada e mando um e-mail para os meninos contando tudo. E ainda o que o caminhoneiro disse:
--- Pois é, mana, se tu tivesse dito alguma coisa ou se recusado a pagar eles matavam. Sim, matavam e comiam a cabeça assada! Pode soltar foguete, mana, porque tu tá viva!
Não sei se o rapaz disse isso brincando; só sei que acreditei...
A Valéria respondeu-me, informando sobre o verdadeiro objetivo do pedágio. Realmente, Valéria, eu não tinha analisado o lado deles: de donos absolutos da terra que, afinal, cuidavam e protegiam, tornaram-se intrusos. Realmente, é revoltante! Vou pedir-lhe licença para transcrever suas palavras:
“Os índios do PA parecem ser mais espertos que os do MS. Não que eu ache certo eles cobrarem para deixar os carros passarem em suas terras, mas porque esse ato é uma forma de protestar e chamar a atenção das pessoas para a situação que eles vivem. Essa gente, antes do homem branco chegar, era livre e tinha muita terra para plantar e viver da subsistência. Com a colonização, ela foi massacrada e escravizada. As tribos tiveram suas terras roubadas e passaram a viver em pequenos redutos de onde não podiam mais tirar sustento. Com a chegada das cidades, a situação piorou, pois não houve políticas de integração desse povo (me parece que a comunidade de Anã é raridade no Brasil). Acredito que os poucos que conseguiram sair da situação de miséria das tribos, não querem ser chamados de índios numa tentativa de se integrar melhor à sociedade que valoriza a cultura branca. Acredito que tudo seja uma questão de ser aceito.”
Fazenda OlhoD’água... Hahahahaha, lembrei-me do “Causo do Lambizome”... Paramos para almoçar e sestear. Comi doce de caju que meu maridinho fez; delícia! À espera da balsa para Humaitá... De lá queremos subir o Rio Madeira até Manaus. Mas já começam os espíritos-de-porco:
--- Por que vocês não vão por terra? São só 600 km! (O mapa diz que são 780).
--- Vão por terra; a estrada está um tapete! Fica mais barato.
Eu quero ir de balsa. Que coisa!
--- Procurem a balsa do Pindoba; não sei que dia ele vai...--- DANOU!!!
Quero ver engordar neste lugar; o calor derrete a gente. Pronto, a balsa chegou. Sai um carro, mais um, outro... Vem um caminhão; não consegue subir a ladeira. Corro para ver aquele espetáculo: o coitado vem até certo ponto e despenca. Que susto! Comento com a moça da lanchonete:
--- Nossa! Que perigo!
--- Isso acontece sempre, dona. Fica lá a fila até aparecer um filho de Deus e arrastar.
Não apareceu o filho de Deus. O balseiro teve que voltar com dois caminhões na balsa (já que o outro nem teve coragem de tentar) para buscar a carregadeira. Voltou com a carregadeira e os dois caminhões --- até parece aquela história: “Você tem que atravessar uma galinha, uma raposa e uma onça. A onça não pode ficar junto com a raposa, e nem esta junto com a galinha. E só pode atravessar dois de cada vez...”. A carregadeira puxou o primeiro caminhão. O segundo foi uma graça: era um caminhão puxando a carregadeira e a carregadeira puxando o outro... E eu achando o máximo! NINGUÉM reclama. Aproveita-se para prosear e fazer amizades!
--- Olha, mana, é bom tu pôr uma calça comprida; daqui a pouco as carapanãs tomam conta. (carapanã é muriçoca).
--- Ah, mas comigo elas não têm vez; durmo toda embrulhada.
--- Tu que pensa; elas entram em tudo quanto é lugar.
Meninos, à noite as bichinhas quase acabaram comigo. Como entravam debaixo do lençol é mistério! E, olhe, eu prendo o lençol embaixo da cabeça e dos pés! Ah, e aqui, viu Luzimar, elas não têm nenhum receio de lençol branco. Aprenda essa, minha gente: O Luzimar me disse que as muriçocas fogem do lençol branco. Achei a maior graça ao ver o Eraldo dormir todo rebuçado!
Quinta-feira, 21 de outubro. Acordei com o canto dos pássaros! Meditando o salmo 23, pensei: Meu cálice transborda de amor, entusiasmo, amizade, carinho, encanto... Penso que isso é devido em grande parte à felicidade das pessoas que nos rodeiam. Elas precisam de pouco para ser felizes: agradecem pela vida! O que não é pouco, é muitíssimo, é o ESSENCIAL!
É como diz o grande escritor John Powel: “A felicidade á como uma borboleta: se você a persegue, ela voa para longe; mas se você espera, com tranquilidade e confiança, ela vem e pousa suavemente em seu ombro.” Eles têm uma sábia aceitação do que não pode ser mudado. Vivem o dia de hoje da melhor maneira possível. Se vivessem reclamando dos reveses (e são tantos!), a vida seria insuportável! Mas, não! O barco atrasou quase uma hora? Reclamar para quê? A balsa não atravessa porque o rio está raso; é necessário trazer a draga para dragá-lo? Esperam com toda paciência! E alegria também! A cidade pegou fogo e foi destruída? Fazem outra; e ainda melhor! O povoado será alagado pela usina? Vão de mala-e-cuia para o novo lugar!
Humaitá. Hora de almoço. Vou desmaiar com este calor do meio do inferno! Vou derreter. Meu estômago embrulha e o suor escorre sem parar. E começa a romaria pelos restaurantes... Tem peixe? Hoje não, senhor... Vocês servem peixe? Ah, hoje não temos. Tem peixe? Só temos tambaqui. Capricha lá para nós. Vinte minutos e nada... Trinta minutos:
--- Acho que foram pescar o peixe. Vou naquela lojinha da esquina comprar um short...
Em tempo: estou diminuindo o comprimento dos shorts e dos vestidos. Vocês se lembram no Rio, eu procurando um short mais compridinho? E a Valéria: “Que isso, D. Sônia? Pode comprar mais curto...” Se ela visse agora, diria: “D. Sôôônia? Que iiiiissssoooo?” Acho que logo, logo, estarei usando aqueles das perninhas cavadas... hahahahahaha... É culpa do calor, minha gente!
Comprei meu shortinho, voltei. Cadê o peixe? O Eraldo suando, suando. Nisso, desocupa uma mesa lá na outra sala... Vamos depressa para lá... A mesa tem VENTILADOR!!! Esperamos e esperamos, agora mais felizes e refrescados, com o ventilador bem em frente.Chega a garçonete e diz para o Eraldo:
--- O senhor não vai ficar com raiva de mim não...
Olhares interrogativos?!
--- Só tem rabo...
Tive que me segurar para não rir... Hahahahahaha, esperar uma hora para comer rabo de peixe frito! Eu já não gosto tanto de fritura... Pedi frango.
Saindo de Humaitá passamos por cerrados e campos que nenzinho os nossos! Pontes, pontes e pontes... Igarapé Been, Igarapé Ipixuna, Igarapé do Índio, Igarapé Açuã. Paramos para almoçar no Restaurante Assuã (e agora, José? É com s ou ç?). Penso que é com ç, deve ser palavra indígena. Falo para o Eraldo: “Vou ficar aqui até você ver se tem peixe...”. Espero um pouco e desço. Pergunto: “Tem peixe?” O Eraldo: “Tem... Ela vai fritar umas cabeças de Tucunaré para nós...”. Hahahahahaha... tem um espertinho chegando na frente e comendo o meio do peixe! Devo, porém, confessar que as cabeças estavam deliciosas! Encontramos um rapaz cujo pai nasceu e morou em Mineiros. Ele mora em Goiânia e tem fazenda aqui. Eta mundinho pequeno! Pé na estrada... Ig. (lê-se Igarapé) Castanhalzinho, Ig. Preto, Ig. Do Gato, Ig. Bem-te-vi. Imensa plantação de eucaliptos bem perto do Rio Madeira. Balsa para Porto Velho. Que coisa enorme! Contamos 17 (carros e caminhonetes) e 10 (caminhões e ônibus)!
Em Porto Velho a internet 3G funcionou belezinha. Aproveitamos para abrir os e-mails e publiquei alguma coisa no blog. Procurar peixe feito nos restaurantes daqui é mancada! O jeito é comprar o peixe e fazer. O Eraldo fez um delicioso Pirarucu; seco, tipo bacalhau! Achei mais gostoso ainda. Lúciu, você que gosta tanto de bacalhau, iria adorar! Saímos de Porto Velho com chuva, chuva, chuva... “Chove chuva... chove sem parar...”. Asfalto sem graça! Carros e mais carros. Sinto saudade da estrada só nossa!
Domingo, 24 de outubro. Acordamos na cidade de Jaci Paraná e saímos para fazer caminhada... Passamos numa rua meio esquisita, tive a impressão que era a rua das mulheres (como agente fala no blog... Lu, você sabe da minha birra com escritores que usam palavras chulas --- é assim que está lá no “Aurélio”--- mas tenho que admitir: a linguagem culta limita a criatividade do escritor. Acho que sou muito conservadora; se até o José Lins do Rêgo, naqueeeeeeele tempo, escrevia “quenga”...)... das mulheres de vida airada. Gostaram?(Isto sim, é linguagem a la Bruxo do Cosme Velho.)
Nossa! Que linda cidadezinha! Nova Mutum Paraná. Parece recém-nascida: as casas todas novinhas em folha! Entramos para conhecê-la. Já pensaram, eu numa cidadezinha dessa, ia cansar de me perder... todo dia ia entrar numa outra casa pensando que era a minha. O Eraldo disse que não são tão parecidas assim. Vocês verão nas fotos! Gostei da placa: “Não destrua o que você não fez. Preserve a natureza!”. Saudade das lindíssimas matas do Pará... Quero voltar! Quero morar lá! A câmera tirou férias. Lá, eu já a levava nas mãos: foto aqui, foto acolá, mais uma, essa não posso perder... Que lugar encantador! Meu corpo está aqui, olhando essa faixa- preta-sempre-igual... Meu espírito está lá: imaginando, imaginando... “O pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar...” Onde os igarapés de águas límpidas, os banhos refrescantes?!... Adeus meu doce de caju seco! O Pará deveria ter ficado por último. Estamos em uma estrada muito bonita; porém perde longe, comparando com as encantadoras paisagens do Pará. Engraçado, sempre que me lembro das coisas de lá (as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá...) sinto um aperto no peito, uma vontade de chorar. Foi amor à primeira vista, paixão das “brabas”!
Araras. Passou Taquaras e eu nem vi. Isto é asfalto ou colcha de retalhos? Que coisa remendada! Nova Mamoré. Rio Bananeira. Até que enfim um rio com nome; passamos por vários sem nome. Linda serra! Guajará Mirim: “Estamos felizes com sua chegada. Prefeitura de Guajará Mirim. Resgatando valores!” Bonito lugar! À noite passeamos pela cidade. Provamos saltenha; parece a empanada do Paraguai, só que aquela é melhor! Do lado de lá do Rio Mamoré fica a Bolívia:
--- Lá é bom de compra?--- perguntamos.
--- Tem muita garantia, não...
--- Igual ao Paraguai?
--- Pior.
Pior que o Paraguai? PIOR? Lembrei-me dos meus pen-drives; aqueles que eu comprei para presentear as amigas... Eliene, Adriane, Pite... quem mais? Nenhum prestou! Ah, que raiva! E o Roberto zombando de mim: “Eu falei para não comprar coisas na rua, eu avisei antes de sair...”. Só que, quando o rapazinho estava insistindo para me empurrar as porcarias, olhei para o Roberto, indagando com o olhar: “E aí, compro?”. Ele fez aquele gesto, como quem diz: “Uai, você que sabe...”. E eu, encantada com os preços baixíssimos, comprei.
Dormimos em Guajará. Acordei com os pássaros! Que lindinhos. Tinha um canto diferente, parecia o sabiá, só que interrompia antes a melodia. O sabiá canta assim: “fi...fi...fi; fi...fi...fi” e esse só “fi...fi...fi...” e parece que dá um trinadinho. Passamos de barco para Gayara-Merim, Bolívia. O povo lá atende a gente mal e de cara fechada. “No hai, no hai...Está cerrado...”. Entramos em uma loja; o vendedor lendo estava, lendo continuou... Lembrei-me da minha meninice. Havia em Mineiros um vendedor, o Sr.....não posso dizer o nome, vai que algum parente leia isso... (Décio, meu amigo escritor, você é que é corajoso! Diz o nome dos bois! O Décio não tem o menor receio de citar nomes... Depois conto sua história!). Esse senhor era muito gentil e tudo o mais; porém, se a gente chegava à sua loja quando ele estava lendo o jornal...
--- “Seu” Fulano, tem isso?
--- Espera eu chegar num ponto.
Tenho que contar a história do Décio. Esse meu amigo escreve muito bem. E tem a humildade de trazer seus escritos para mim:
--- Professora Sônia, dê uma olhadinha. Não sou bom de pontuação. Pode corrigir o que precisar! (Na verdade, pouquíssima coisa!).
Sinto-me feliz. Tenho a oportunidade de ler suas lindas produções antes dos outros! E como me emociono! Além de tudo, ele é poeta; e que poeta!
Tempos atrás, trouxe-me a história de seus antepassados. E é para ser publicada. Eu ria e chorava, admirando a maneira direta e franca que meu amigo narra os fatos; e cita o nome das pessoas. Certo momento, contando as infidelidades de um senhor, o Décio cita o nome da mulher... Eu sublinho; deve ter sido um descuido... Termino e chamo o Décio para tirarmos as dúvidas:
--- Ah, Décio, você colocou o nome da mulher; se vai publicar, é bom tirar.
--- Não vou tirar, não, professora Sônia!
--- Mas, Décio, os parentes dela moram aqui; vão ler isso.
--- Não tem importância, não, professora Sônia; todo o mundo sabia que ela era assim; ela infernizou a vida da Fulana. Vou deixar.
--- Mas, Décio, os parentes vão se sentir envergonhados...
--- Eu estou falando a verdade, professora Sônia; não estou mentindo. Vou deixar assim mesmo.
O que você não sabe, amigo Décio, é que eu ainda pensei: Vou falar com a Marta. Talvez ela consiga fazê-lo mudar de ideia; afinal, ela também é escritora.
Agora estou aqui, matutando: O mais provável é que a Marta, justamente por ser escritora, pense que o meu amigo está certo; o bom escritor não pode ficar preso ao que os outros possam pensar ou falar... Vá em frente, Décio!
Certo dia, eu o encontro na rua, em sua inseparável bicicleta:
--- Décio, estou amando a sua poesia. Só que você conta um fato engraçado: a senhora não gostou quando você disse que ela serviu um lanche de rosquinhas, já que o mesmo tinha sido pães-de-queijo... E você diz que não mente, rapaz!
--- Pois é, professora Sônia... Foi por causa da rima; o poeta tem essa licença de mudar alguma coisa por causa da rima...
--- Essa não, Décio! Você, que é poeta, que se vire com a rima. Pão-de-queijo é muito mais gostoso do que rosquinha; e mais difícil de fazer! Ai de você, se um dia eu lhe der pão-de-queijo e o senhor sair por aí dizendo que foi rosquinha!
Amigo poeta, peço licença para transcrever aqui a poesia que você fez para nós (e carrego comigo por onde vou!):
PARA MIM TUDO ACABOU
Um passarinho que saltita
De galho em galho eu sou...
Quem me dava um ótimo ensinamento
Me parece que da nossa querida Mineiros mudou.
Do Norte ao Sul está a viajar com o esposo dela.
Por último agora, meu Deus, para o exterior ela viajou.
Professora Sônia do Eraldo
Eu segurei para não chorar,
Pois não tenho uma boa expressão,
Nem um bom vocabular;
Meus livros, meus poemas, minhas poesias,
Alguma letra para mim você pôde modificar.
Que triste notícia eu ouvi,
Que triste ouvir tal expressão
Dos lindos lábios de sua estimada irmã
Que também me ensina, minha querida amiga Marta Brandão;
Que agora a Sônia está só a viajar, coisa especial isso é.
Que dor ficou na minha alma e no meu coração.
Eu falei: como que eu faço?
Minha fraca matéria quem vai examinar?
O pouco que sei a enxurrada carregou,
A minha escrita vai mesmo parar.
O que eu vejo, eu gosto de escrever,
Na verdade, eu gosto de narrar.
Mas quando uma folha cai no piso ou no chão,
Deus faz nascer outra naquele lugar...
Sem eu perceber, a Marta leu minha face feia
E me disse: O que é isso? Eu posso te ajudar!
Eu posso corrigir para você, Décio.
Deu um sorriso “SANTO” e me disse: Não precisa se preocupar.
Sônia e Eraldo Fernandes,
Para vocês irei orar,
Embora eu nunca parei,
Eu irei continuar.
Que sejam felizes
Nessa jornada que têm que caminhar.
Ah, meu amigo, que lindos versos! É mesmo para fazer a gente chorar! Agradecemos, de todo coração, a poesia e as orações! Há muito tempo quero fazer uma poesia para você, querido amigo! Um dia ela sai!
Voltando à Bolívia, não achamos nada inferior os artigos de lá. Triste mesmo, só o atendimento que, no geral, é péssimo! À noite, em Guajará, os amigos nos oferecem bolo de arroz e cunhapé (parece pão-de-queijo, mas é bem grudento...). Como a internet está boa, abrimos nossos e-mails. O Tiago comenta sobre Mutum Paraná que em breve não mais existirá: ficará submersa pela Usina Jirau. Passamos por lá e nem paramos:
--- Nossa! Na volta precisamos fotografar... Nunca vi uma cidade que vai se acabar... (É como diz o Décio em sua poesia: “Quando uma folha cai... Deus coloca outra no lugar...”. Já que não fomos em Marcelândia, que foi queimada, iremos em outra que será inundada).
--- Pode deixar, a gente passa!
--- E se quando voltarmos ela já estiver inundada?
--- Isso não é assim de um dia para o outro, não --- diz o Eraldo.
Terça-feira, 26 de outubro. Saio para comprar meu creme da Natura...”bem estar bem...”. Parabéns para sua Natura, Vita; em quase todo lugar: “Aqui tem revendedora Natura.” A vendedora e seu esposo, gentilíssimos: “Se vierem por aqui com os filhos podem ficar em nossa casa... até sobram quartos!”. ESSA é a acolhida deles!
Continuando... Domingo, 17/10/10. Pegamos a transamazônica. Plano: chegar a Humaitá e pegar a balsa para Manaus. Pegamos o oco do mundo! Poeira, costela-de-vaca, matas, lindas matas... Fazenda Vaca de Maio; a vaca é rosa! Fazenda Sonho Meu, Chácara Deus é Mais, frigorífico Araticum, Comunidade... (Ah! Que saudade do meu Pará...). Pontes, pontes e mais pontes... Lá no meio da mata um grande rio... Digo: “Pela cara é o Tapajós dos meus sonhos; conheço suas águas!”. Uma placa: “Jacareacanga 350 km”. Mentalmente faço a conta: 30 km por hora... vai dar... pego a caneta... mais ou menos 12 horas, dois dias; já disse, andamos 200 km por dia; tirando as paradas nos igarapés... Puxa! A estrada está boa, boa! Nesse andar, chegaremos hoje ao Jacaré (é assim que alguns chamam a cidade). Curvas, muitas curvas... Digo: “As curvas que o Santana (nosso amigo de Santarém) falou! Bem que ele disse: ‘Cuidado! Têm muitas curvas. Os caminhões descem no embalo!” O Eraldo corrige: “Não; as curvas que o Santana falou estão mais à frente”. Meeeeesssssmo???????
A estrada parece ser só nossa! Mata cerrada. Vila Rayol. Parque Nacional da Amazônia. Macaquinhos, que lindos! Macaquinhos atravessando a estrada! Lembro-me de quando a Pite viajou com “seu” Antônio Paniago. Ela era bem pequena; para entretê-la, ele lhe contou duas histórias de macacos. Quando ela comentou com a Cleire, sua filha, ela disse: “Pite, conheço as histórias! Ele só sabe (não me lembro se ela disse duas ou três!)”. Vocês, queridos leitores, estão loucos para conhecê-las, não é mesmo?! Vou contar primeiro a mais sem graça, depois a mais interessante! Prestem muita atenção:
O macaco e os chapéus
Eeeeeera uma vez... Um mascate que saía pelas fazendas, vendendo chapéus. Certo dia, sentiu-se cansado, o sol muito quente, resolveu parar e deitar-se debaixo de uma árvore. Colocou a mala de lado e pegou no sono. Não reparou que a árvore estava cheia de macacos. E macaco é bicho curioso! Viram o homem dormindo, desceram, abriram a mala e cada um pegou um chapéu e colocou na cabeça. E por ali ficaram pulando, pulando e fazendo micagens. O mascate acordou, espreguiçou-se e se virou para pegar a mala. Quase morreu de susto! Cadê os chapéus? Olhou para cima; cada macaco com um chapéu na cabeça! O homem se desesperou, gritou, xingou e nada. Parou, pensou e teve uma ideia. Tirou seu chapéu da cabeça, os macacos também; colocou-o na cabeça, os macacos também. Aí, ele tirou o chapéu e jogou-o no chão; os macacos imediatamente fizeram o mesmo. O mascate catou os chapéus, colocou-os na mala e saiu correndo... E a macacada correndo atrás: “Me dá um chapéu, seu moço; só um...” O homem correu, correu, correu... até encontrar a casa de uma velhinha que o acolheu, fechando rapidamente a porta. Os macacos ficaram lá fora gritando: “Me dá um chapéu, seu moço... Só um.” Dizem que ainda hoje aparecem por lá e ficam choramingando: “Só um, seu moço... só um... só um...”.
História do Medinho e do Medão
Eeeeeera uma vez... Um homem que se gabava de não ter medo de nada! Tanto falava, tanto falava, que os amigos armaram um plano:
--- Zé-sem-medo, você tem coragem mesmo ou é só conversa?
--- Estão me estranhando? Nunca tive medo de nadinha, não!
--- Mas aposto que entrar no cemitério e ficar lá, sozinho, até meia- noite você não será capaz...
--- Hahahahahaha... Passo toda a noite lá, na maior tranquilidade!
Ficou combinado. O Zé iria para o cemitério e os amigos ficariam do lado de fora para confirmar a proeza! Antes disseram:
--- Olha, Zé, queremos que você vá enrolado num lençol branco, como uma assombração. Tudo bem, disse ele.
Ali pelas onze da noite lá foi o corajoso, enrolado no lençol. Os amigos, então, pegaram um macaquinho treinado, enrolaram-no numa fralda e o colocaram atrás do Zé. Com as badaladas da meia-noite o Zé começou a fazer graça para que os amigos vissem. Levantava e abaixava as mãos e dizia: “Huuuuuuu...” O macaco repetia todos os gestos...
Nessa hora passava pelo cemitério um bando de meninos. Um deles olhou e disse:
--- Olha lá, um Medão perto da sepultura!
--- Ih, rapaz, não é um Medão, não... É uma Meda parida!
O Zé foi sentindo aquele arrepio na espinha... as pernas tremendo, tremendo... Olhou para trás... e, pernas-pra-que-te-quero... Saiu no carreirão! Era o Zé correndo na frente e o macaquinho correndo atrás. E os amigos gritavam: “
--- Corre Medão, senão o Medinho te pega! Corre Medão, senão o Medinho te pega!
Calor, calor, calooooor!É por isso que os índios andavam nus (eu tinha colocado “pelados”, mas no blog a gente precisa usar uma linguagem mais culta). E aí disseram para os coitados que era pecado mostrarem o corpo. PECADO?! Pecado é vestir roupa com este calorão! Com este calor até me esqueço de comer... Tem alguma coisa pra se comer? Ah! As bolachinhas que comprei ... Delícia! Amarelinhas, têm sabor de pamonha, de broa de fubá e cheirinho de bebê. Por que cheirinho de bebê? Dizem que, de todos os sentidos, o olfato é o maior ativador de lembranças... Delicio-me com as bolachinhas... Por que cheiro de bebê? Penso... penso... penso... Ah, sim... erva-doce! Chazinho que a gente dá para o nenenzinho dormir bem; e ainda é bom para dor de barriga.
Seguimos viagem. A transamazônica sempre surpreendendo: Está bem cuidada; antes de uma ponte ficar muito velha, já se constrói outra ao lado! Linda mata! Sobe serra, desce serra, sobe, desce... Curvas, curvas, curvas... agora, sim, são as curvas que o Santana falou. Ponte de novo? Não sei por que comecei a anotar as pontes; já me cansei. Parecem as curvas da estrada de Santos... Lembrando novamente Roberto Carlos... Dormimos em meio à floresta amazônica, em frente a um barzinho.
Partimos pela manhã. Confiro minhas anotações: Viva a transamazônica! Rodamos MAIS de 300 km ontem! Um jacarezinho morto na estrada. Como é a musiquinha do jacaré, gente? Aquela que eu cantava o tempo todo quando fomos ao pantanal? Sou igual ao pai Leobino, não sossego enquanto não me lembrar... Hehehehe... Igarapé do Pinto. A paisagem é linda e variada, não cansa as vistas. Ah, pronto, decerto a estrada arruinou; escrevi um negócio aqui e não consigo ler... capeconvinte oncino... que será isso??? Já disse que placa aqui é coisa rara, mas... existe uma exceção: sempre há uma plaquinha antes das pontes, mesmo que seja escrita a mão: “PONTE A 100m”. O interessante é que às vezes a ponte já está à vista, porém a placa NÃO falta! E como há pontes!
Saímos da transamazônica. Vou conferir a contagem das pontes: em 395 km, 31 (TRINTA E UMA) pontes!!! Outro jacarezinho morto? Deve ser por isso que a cidade chama-se Jacareacanga. Chegamos no Jacaré; a cidade é bem menor do que pensávamos. Mas, no mapa, a bolinha dela é deste tamaninho mesmo. A primeira pessoa a conversar conosco foi um policial militar: “Sejam bem-vindos a Jacareacanga! Precisando da gente, estamos aí!” Valeu! Vocês acreditam que, quando criança, eu dava voltas imensas para não passar perto de polícia? Tinha o maior medo! Devo confessar que ainda sinto um friozinho na barriga quando vejo policial. Hahahahahaha... lembra-se, Kátia? Quando eu estava aprendendo a dirigir, certo dia, saindo da casa da Kátia, olhei no retrovisor e vi um carro de polícia. Não deu outra: apavorada, subi na calçada. Depois a Kátia me perguntou: “Tia, o que foi aquilo?”. “Uai, Kátia, vi a polícia e me apavorei!”
Deixamos Jacareacanga. O Eraldo diz:
--- Entramos novamente na transamazônica!
--- Você viu que até refrescou?
--- Refrescou? Porque eu liguei o ar, uai...
Hehehehehe... achei que era porque tinha entrado na floresta...
Paramos para o almoço. Com direito a cajus de graça; é só pegá-los à beira da estrada. Deste tamanhão! Até fotografamos! E mais pirarucu ao molho, arroz e piracuí; uma delícia minha comida! Nem vou dizer “modéstia à parte” (quem me conhece sabe que não nasci com essa coisa... e nem sinto falta!). Tomamos banho no igarapé Muicuzinho; água límpida e geladinha! A gente tem pena de sair! Último banho no Pará. O Eraldo explica que a água é fresquinha porque corre entre as árvores. Fico me lembrando da poesia:
“Deixa-me fonte, dizia a flor, sempre a chorar...
E a fonte, serena e fria, corria levando a flor...”
Epa, não rimou! Hoje parece que minha memória não está cooperando... Será que é: “...chorando de dor?”. Pode ser; dor rima com flor. Gente, vou parando por aqui, o Eraldo já deve estar no terceiro sono... E eu, perdi o meu... Tomei “vaca preta” e o danado foi-se. O que é vaca preta? Explico na hora oportuna, uai! Ainda tenho muito que contar até chegar onde estamos... Vou dizer só o nome: Fortaleza do Abunã-RO (já de volta, no blog ainda nem chegamos em Rondônia...). Na ida nem sabíamos deste lugar. Calminha!
Estamos em 08/11/10, segunda-feira, dia do aniversário do Juca. Parabéns, meu irmão! Ficando velhinho, heim? Alegre-se! Está chegando perto da aposentadoria... aí, então, poderá comprar um trailer e pegar o oco do mundo! Maaaaasssss, no blog aiiiiinda estou no dia 18/10, também segunda (que coincidência!). Continuando... Transamazônica! Dá gosto trafegar por ela! Nosso amigo Silas, de Ariquemes, é que tinha razão: “É um tapete! Melhor do que a que vocês vieram.”
Estamos quase saindo do Pará, terra encantada! O verde destas palmeiras é inacreditável; é brilhante! Adeus, Pará dos meus sonhos! Estou com um nó na garganta. Tirei foto junto à placa da divisa. Tive o cuidado de enxugar os olhinhos... E agora, enquanto escrevo, sinto novamente uma vontade imensa de chorar... Ah, Pará, Pará, você me cativou! Só parando, as letras estão todas embaralhadas... e as lágrimas descendo... Que saudade!
Estamos no Amazonas. Ainda não dá para apreciar nada. Meu coração ficou para trás. Felizes de vocês, Reiker, Renata, Mateus e Isabela, que vivem nesse lugar encantador! Um amigo cearense, um senhor simpaticíssimo, nos disse: “Nunca encontrei paraense morando em outro lugar... Não saem de sua terra. São muito acomodados.” Não, meu amigo, engano seu, grande engano! Não é acomodação, é sabedoria! Deixar uma terra tão linda a troco de quê?! Se nós, que passamos aqui apenas um mês, nos apaixonamos, já pensaram quem nasceu nesse Éden?! Disse e repito: “O Adão aqui do Norte não comeu a maçã, continua no paraíso!”
Ponte Zé do Ouro --- começou a exibidura! ( Lembrei-me da Jove... como ela fala, Helena?). Igarapé Arara, coqueiros cheios de folhas secas (no Pará são todas verdinhas, verdinhas!). Que matinha feia: árvores baixas, folhas amareladas... ah, nem! Igarapé Ramal do Tapajós (Ah, que saudade! Quero voltar!). Que retão, vó Dolzir; bom de tirar na precata! Nossa, não carece de voar... 70 km/h? Transamazônica! Boa toda vida! A melhor estrada de chão até agora. Rio Sucunduri... Tem balsa!? A balsa é empurrada por um barco a motor, um pequeno barco! Como consegue, não sei... Chegamos à comunidade do mesmo nome:
--- Onde podemos dormir?
--- No Manobra, responderam prontamente!
Chegamos ao Manobra e pedimos pouso. O dono, pura simpatia!
--- É aqui mesmo! Aqui é o lugar certo e seguro! Se não tiver cama, a gente arruma rede; se não tiver coberta, arrumamos também... Manobra é o lugar certo!!! Fizemos nossa caminhada na Transamazônica... Solitária, era só nossa! Os amigos, Moacir e Maria, donos do “Manobra”, perguntaram:
--- Vocês gostam de peixe?
--- Se gostamos de peixe!? Demais!
--- Então encomendaremos peixe assado para o jantar. Depois da caminhada, venham jantar conosco.
--- Quando chegamos, o seu filho Diego estava perto do trailer conversando com os amigos:
--- Oi, tia!
--- Nossa, Diego, lembrei-me de meus aluninhos quando você me chamou de tia.
--- Pois é, tia, se você tiver dez alunos como eu na sala, estará feita!
Ele, como toda a família, é uma graça! Assim como as meninas Liliane e Maria das Dores. Ao nos despedirmos a Maria presenteou-me com revistas e um livrinho lindo:
--- Você não se importa de ler livros de outra religião? Nós somos adventistas.
--- Claro que não, Maria. Tenho muitos amigos adventistas e admiro sua religião!
Li tudo, minha amiga! E gostei muito!
Terça-feira, 19/10. Pé na estrada já bem cedo. A estrada é nossa, em uma hora passaram por nós dois carros! “Fazenda Airton”; então, Airton, tu tem fazenda aqui e nem conta para a gente... Apuí, um lindo lugarejo; a praça cheia daquelas florzinhas amarelas, sabem quais, não é? Campos, campos e mais campos. Estrada boa; de vez em quando uma costelinha-de-vaca para quebrar a monotonia. Madeireira; montes e montes de ripas rejeitadas. Ah, o vô Leobino aqui! Ficaria doido com tanta ripa para construir suas gaiolas tão perfeitinhas! Certa vez, a Maria Ely perguntou-lhe o que queria de presente de aniversário: “Tábua, minha filha, TÁBUA! Se quer me agradar, me dê tábua.” Igarapé Chapéu de Couro, Igarapé Fazenda Vieira, milhares de buritis, Igarapé das Pedras... Saudade do Pará! Cadê os cajus da beira da estrada? O gato comeu... E eu, que queria tanto fazer o doce de caju que meu amigo de Belterra ensinou...
Balsa! Que legal! Esqueci-me de anotar o nome do rio... vou perguntar ao Eraldo...Mata, cerrado, igarapé, comunidade... Nem um cajuzinho... Paramos em um posto para dormirmos; o rapaz que nos atendeu, gentilíssimo:
--- Olha, dona, se quiser lavar roupa tem tanque, tem varal. Quer sabão em pó?
Olhem a gracinha de atendimento!
Não posso me esquecer da data para não nos perdermos: 20 de outubro, quarta-feira. Acordei com o canto dos passarinhos, para variar! Não tenho ainda entusiasmo (ia dizendo “tesão”, mas no blog temos que escrever com mais elegância) para fotografar este Amazonas, tão diferente do Pará. Igarapé do Inferno... Ui, que medo! As árvores são comuns, as do Pará são imponentes?, majestosas?, chocantes? Avatar! Parecem aquelas do Avatar. Não tenho talento para descrevê-las. Estão mais para pintura do que para foto; esta mostra o físico; aquela, o espírito!
Transamazônica. Linda, linda! Um tapete, sim senhor! Asfalto aqui só iria agredir a natureza; não combina, não combina mesmo! Uma porteira fechada. Que é isso? Pedágio? Sim; cobrança de pedágio indígena... Fico revoltada e mando um e-mail para os meninos contando tudo. E ainda o que o caminhoneiro disse:
--- Pois é, mana, se tu tivesse dito alguma coisa ou se recusado a pagar eles matavam. Sim, matavam e comiam a cabeça assada! Pode soltar foguete, mana, porque tu tá viva!
Não sei se o rapaz disse isso brincando; só sei que acreditei...
A Valéria respondeu-me, informando sobre o verdadeiro objetivo do pedágio. Realmente, Valéria, eu não tinha analisado o lado deles: de donos absolutos da terra que, afinal, cuidavam e protegiam, tornaram-se intrusos. Realmente, é revoltante! Vou pedir-lhe licença para transcrever suas palavras:
“Os índios do PA parecem ser mais espertos que os do MS. Não que eu ache certo eles cobrarem para deixar os carros passarem em suas terras, mas porque esse ato é uma forma de protestar e chamar a atenção das pessoas para a situação que eles vivem. Essa gente, antes do homem branco chegar, era livre e tinha muita terra para plantar e viver da subsistência. Com a colonização, ela foi massacrada e escravizada. As tribos tiveram suas terras roubadas e passaram a viver em pequenos redutos de onde não podiam mais tirar sustento. Com a chegada das cidades, a situação piorou, pois não houve políticas de integração desse povo (me parece que a comunidade de Anã é raridade no Brasil). Acredito que os poucos que conseguiram sair da situação de miséria das tribos, não querem ser chamados de índios numa tentativa de se integrar melhor à sociedade que valoriza a cultura branca. Acredito que tudo seja uma questão de ser aceito.”
Fazenda OlhoD’água... Hahahahaha, lembrei-me do “Causo do Lambizome”... Paramos para almoçar e sestear. Comi doce de caju que meu maridinho fez; delícia! À espera da balsa para Humaitá... De lá queremos subir o Rio Madeira até Manaus. Mas já começam os espíritos-de-porco:
--- Por que vocês não vão por terra? São só 600 km! (O mapa diz que são 780).
--- Vão por terra; a estrada está um tapete! Fica mais barato.
Eu quero ir de balsa. Que coisa!
--- Procurem a balsa do Pindoba; não sei que dia ele vai...--- DANOU!!!
Quero ver engordar neste lugar; o calor derrete a gente. Pronto, a balsa chegou. Sai um carro, mais um, outro... Vem um caminhão; não consegue subir a ladeira. Corro para ver aquele espetáculo: o coitado vem até certo ponto e despenca. Que susto! Comento com a moça da lanchonete:
--- Nossa! Que perigo!
--- Isso acontece sempre, dona. Fica lá a fila até aparecer um filho de Deus e arrastar.
Não apareceu o filho de Deus. O balseiro teve que voltar com dois caminhões na balsa (já que o outro nem teve coragem de tentar) para buscar a carregadeira. Voltou com a carregadeira e os dois caminhões --- até parece aquela história: “Você tem que atravessar uma galinha, uma raposa e uma onça. A onça não pode ficar junto com a raposa, e nem esta junto com a galinha. E só pode atravessar dois de cada vez...”. A carregadeira puxou o primeiro caminhão. O segundo foi uma graça: era um caminhão puxando a carregadeira e a carregadeira puxando o outro... E eu achando o máximo! NINGUÉM reclama. Aproveita-se para prosear e fazer amizades!
--- Olha, mana, é bom tu pôr uma calça comprida; daqui a pouco as carapanãs tomam conta. (carapanã é muriçoca).
--- Ah, mas comigo elas não têm vez; durmo toda embrulhada.
--- Tu que pensa; elas entram em tudo quanto é lugar.
Meninos, à noite as bichinhas quase acabaram comigo. Como entravam debaixo do lençol é mistério! E, olhe, eu prendo o lençol embaixo da cabeça e dos pés! Ah, e aqui, viu Luzimar, elas não têm nenhum receio de lençol branco. Aprenda essa, minha gente: O Luzimar me disse que as muriçocas fogem do lençol branco. Achei a maior graça ao ver o Eraldo dormir todo rebuçado!
Quinta-feira, 21 de outubro. Acordei com o canto dos pássaros! Meditando o salmo 23, pensei: Meu cálice transborda de amor, entusiasmo, amizade, carinho, encanto... Penso que isso é devido em grande parte à felicidade das pessoas que nos rodeiam. Elas precisam de pouco para ser felizes: agradecem pela vida! O que não é pouco, é muitíssimo, é o ESSENCIAL!
É como diz o grande escritor John Powel: “A felicidade á como uma borboleta: se você a persegue, ela voa para longe; mas se você espera, com tranquilidade e confiança, ela vem e pousa suavemente em seu ombro.” Eles têm uma sábia aceitação do que não pode ser mudado. Vivem o dia de hoje da melhor maneira possível. Se vivessem reclamando dos reveses (e são tantos!), a vida seria insuportável! Mas, não! O barco atrasou quase uma hora? Reclamar para quê? A balsa não atravessa porque o rio está raso; é necessário trazer a draga para dragá-lo? Esperam com toda paciência! E alegria também! A cidade pegou fogo e foi destruída? Fazem outra; e ainda melhor! O povoado será alagado pela usina? Vão de mala-e-cuia para o novo lugar!
Humaitá. Hora de almoço. Vou desmaiar com este calor do meio do inferno! Vou derreter. Meu estômago embrulha e o suor escorre sem parar. E começa a romaria pelos restaurantes... Tem peixe? Hoje não, senhor... Vocês servem peixe? Ah, hoje não temos. Tem peixe? Só temos tambaqui. Capricha lá para nós. Vinte minutos e nada... Trinta minutos:
--- Acho que foram pescar o peixe. Vou naquela lojinha da esquina comprar um short...
Em tempo: estou diminuindo o comprimento dos shorts e dos vestidos. Vocês se lembram no Rio, eu procurando um short mais compridinho? E a Valéria: “Que isso, D. Sônia? Pode comprar mais curto...” Se ela visse agora, diria: “D. Sôôônia? Que iiiiissssoooo?” Acho que logo, logo, estarei usando aqueles das perninhas cavadas... hahahahahaha... É culpa do calor, minha gente!
Comprei meu shortinho, voltei. Cadê o peixe? O Eraldo suando, suando. Nisso, desocupa uma mesa lá na outra sala... Vamos depressa para lá... A mesa tem VENTILADOR!!! Esperamos e esperamos, agora mais felizes e refrescados, com o ventilador bem em frente.Chega a garçonete e diz para o Eraldo:
--- O senhor não vai ficar com raiva de mim não...
Olhares interrogativos?!
--- Só tem rabo...
Tive que me segurar para não rir... Hahahahahaha, esperar uma hora para comer rabo de peixe frito! Eu já não gosto tanto de fritura... Pedi frango.
Saindo de Humaitá passamos por cerrados e campos que nenzinho os nossos! Pontes, pontes e pontes... Igarapé Been, Igarapé Ipixuna, Igarapé do Índio, Igarapé Açuã. Paramos para almoçar no Restaurante Assuã (e agora, José? É com s ou ç?). Penso que é com ç, deve ser palavra indígena. Falo para o Eraldo: “Vou ficar aqui até você ver se tem peixe...”. Espero um pouco e desço. Pergunto: “Tem peixe?” O Eraldo: “Tem... Ela vai fritar umas cabeças de Tucunaré para nós...”. Hahahahahaha... tem um espertinho chegando na frente e comendo o meio do peixe! Devo, porém, confessar que as cabeças estavam deliciosas! Encontramos um rapaz cujo pai nasceu e morou em Mineiros. Ele mora em Goiânia e tem fazenda aqui. Eta mundinho pequeno! Pé na estrada... Ig. (lê-se Igarapé) Castanhalzinho, Ig. Preto, Ig. Do Gato, Ig. Bem-te-vi. Imensa plantação de eucaliptos bem perto do Rio Madeira. Balsa para Porto Velho. Que coisa enorme! Contamos 17 (carros e caminhonetes) e 10 (caminhões e ônibus)!
Em Porto Velho a internet 3G funcionou belezinha. Aproveitamos para abrir os e-mails e publiquei alguma coisa no blog. Procurar peixe feito nos restaurantes daqui é mancada! O jeito é comprar o peixe e fazer. O Eraldo fez um delicioso Pirarucu; seco, tipo bacalhau! Achei mais gostoso ainda. Lúciu, você que gosta tanto de bacalhau, iria adorar! Saímos de Porto Velho com chuva, chuva, chuva... “Chove chuva... chove sem parar...”. Asfalto sem graça! Carros e mais carros. Sinto saudade da estrada só nossa!
Domingo, 24 de outubro. Acordamos na cidade de Jaci Paraná e saímos para fazer caminhada... Passamos numa rua meio esquisita, tive a impressão que era a rua das mulheres (como agente fala no blog... Lu, você sabe da minha birra com escritores que usam palavras chulas --- é assim que está lá no “Aurélio”--- mas tenho que admitir: a linguagem culta limita a criatividade do escritor. Acho que sou muito conservadora; se até o José Lins do Rêgo, naqueeeeeeele tempo, escrevia “quenga”...)... das mulheres de vida airada. Gostaram?(Isto sim, é linguagem a la Bruxo do Cosme Velho.)
Nossa! Que linda cidadezinha! Nova Mutum Paraná. Parece recém-nascida: as casas todas novinhas em folha! Entramos para conhecê-la. Já pensaram, eu numa cidadezinha dessa, ia cansar de me perder... todo dia ia entrar numa outra casa pensando que era a minha. O Eraldo disse que não são tão parecidas assim. Vocês verão nas fotos! Gostei da placa: “Não destrua o que você não fez. Preserve a natureza!”. Saudade das lindíssimas matas do Pará... Quero voltar! Quero morar lá! A câmera tirou férias. Lá, eu já a levava nas mãos: foto aqui, foto acolá, mais uma, essa não posso perder... Que lugar encantador! Meu corpo está aqui, olhando essa faixa- preta-sempre-igual... Meu espírito está lá: imaginando, imaginando... “O pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar...” Onde os igarapés de águas límpidas, os banhos refrescantes?!... Adeus meu doce de caju seco! O Pará deveria ter ficado por último. Estamos em uma estrada muito bonita; porém perde longe, comparando com as encantadoras paisagens do Pará. Engraçado, sempre que me lembro das coisas de lá (as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá...) sinto um aperto no peito, uma vontade de chorar. Foi amor à primeira vista, paixão das “brabas”!
Araras. Passou Taquaras e eu nem vi. Isto é asfalto ou colcha de retalhos? Que coisa remendada! Nova Mamoré. Rio Bananeira. Até que enfim um rio com nome; passamos por vários sem nome. Linda serra! Guajará Mirim: “Estamos felizes com sua chegada. Prefeitura de Guajará Mirim. Resgatando valores!” Bonito lugar! À noite passeamos pela cidade. Provamos saltenha; parece a empanada do Paraguai, só que aquela é melhor! Do lado de lá do Rio Mamoré fica a Bolívia:
--- Lá é bom de compra?--- perguntamos.
--- Tem muita garantia, não...
--- Igual ao Paraguai?
--- Pior.
Pior que o Paraguai? PIOR? Lembrei-me dos meus pen-drives; aqueles que eu comprei para presentear as amigas... Eliene, Adriane, Pite... quem mais? Nenhum prestou! Ah, que raiva! E o Roberto zombando de mim: “Eu falei para não comprar coisas na rua, eu avisei antes de sair...”. Só que, quando o rapazinho estava insistindo para me empurrar as porcarias, olhei para o Roberto, indagando com o olhar: “E aí, compro?”. Ele fez aquele gesto, como quem diz: “Uai, você que sabe...”. E eu, encantada com os preços baixíssimos, comprei.
Dormimos em Guajará. Acordei com os pássaros! Que lindinhos. Tinha um canto diferente, parecia o sabiá, só que interrompia antes a melodia. O sabiá canta assim: “fi...fi...fi; fi...fi...fi” e esse só “fi...fi...fi...” e parece que dá um trinadinho. Passamos de barco para Gayara-Merim, Bolívia. O povo lá atende a gente mal e de cara fechada. “No hai, no hai...Está cerrado...”. Entramos em uma loja; o vendedor lendo estava, lendo continuou... Lembrei-me da minha meninice. Havia em Mineiros um vendedor, o Sr.....não posso dizer o nome, vai que algum parente leia isso... (Décio, meu amigo escritor, você é que é corajoso! Diz o nome dos bois! O Décio não tem o menor receio de citar nomes... Depois conto sua história!). Esse senhor era muito gentil e tudo o mais; porém, se a gente chegava à sua loja quando ele estava lendo o jornal...
--- “Seu” Fulano, tem isso?
--- Espera eu chegar num ponto.
Tenho que contar a história do Décio. Esse meu amigo escreve muito bem. E tem a humildade de trazer seus escritos para mim:
--- Professora Sônia, dê uma olhadinha. Não sou bom de pontuação. Pode corrigir o que precisar! (Na verdade, pouquíssima coisa!).
Sinto-me feliz. Tenho a oportunidade de ler suas lindas produções antes dos outros! E como me emociono! Além de tudo, ele é poeta; e que poeta!
Tempos atrás, trouxe-me a história de seus antepassados. E é para ser publicada. Eu ria e chorava, admirando a maneira direta e franca que meu amigo narra os fatos; e cita o nome das pessoas. Certo momento, contando as infidelidades de um senhor, o Décio cita o nome da mulher... Eu sublinho; deve ter sido um descuido... Termino e chamo o Décio para tirarmos as dúvidas:
--- Ah, Décio, você colocou o nome da mulher; se vai publicar, é bom tirar.
--- Não vou tirar, não, professora Sônia!
--- Mas, Décio, os parentes dela moram aqui; vão ler isso.
--- Não tem importância, não, professora Sônia; todo o mundo sabia que ela era assim; ela infernizou a vida da Fulana. Vou deixar.
--- Mas, Décio, os parentes vão se sentir envergonhados...
--- Eu estou falando a verdade, professora Sônia; não estou mentindo. Vou deixar assim mesmo.
O que você não sabe, amigo Décio, é que eu ainda pensei: Vou falar com a Marta. Talvez ela consiga fazê-lo mudar de ideia; afinal, ela também é escritora.
Agora estou aqui, matutando: O mais provável é que a Marta, justamente por ser escritora, pense que o meu amigo está certo; o bom escritor não pode ficar preso ao que os outros possam pensar ou falar... Vá em frente, Décio!
Certo dia, eu o encontro na rua, em sua inseparável bicicleta:
--- Décio, estou amando a sua poesia. Só que você conta um fato engraçado: a senhora não gostou quando você disse que ela serviu um lanche de rosquinhas, já que o mesmo tinha sido pães-de-queijo... E você diz que não mente, rapaz!
--- Pois é, professora Sônia... Foi por causa da rima; o poeta tem essa licença de mudar alguma coisa por causa da rima...
--- Essa não, Décio! Você, que é poeta, que se vire com a rima. Pão-de-queijo é muito mais gostoso do que rosquinha; e mais difícil de fazer! Ai de você, se um dia eu lhe der pão-de-queijo e o senhor sair por aí dizendo que foi rosquinha!
Amigo poeta, peço licença para transcrever aqui a poesia que você fez para nós (e carrego comigo por onde vou!):
PARA MIM TUDO ACABOU
Um passarinho que saltita
De galho em galho eu sou...
Quem me dava um ótimo ensinamento
Me parece que da nossa querida Mineiros mudou.
Do Norte ao Sul está a viajar com o esposo dela.
Por último agora, meu Deus, para o exterior ela viajou.
Professora Sônia do Eraldo
Eu segurei para não chorar,
Pois não tenho uma boa expressão,
Nem um bom vocabular;
Meus livros, meus poemas, minhas poesias,
Alguma letra para mim você pôde modificar.
Que triste notícia eu ouvi,
Que triste ouvir tal expressão
Dos lindos lábios de sua estimada irmã
Que também me ensina, minha querida amiga Marta Brandão;
Que agora a Sônia está só a viajar, coisa especial isso é.
Que dor ficou na minha alma e no meu coração.
Eu falei: como que eu faço?
Minha fraca matéria quem vai examinar?
O pouco que sei a enxurrada carregou,
A minha escrita vai mesmo parar.
O que eu vejo, eu gosto de escrever,
Na verdade, eu gosto de narrar.
Mas quando uma folha cai no piso ou no chão,
Deus faz nascer outra naquele lugar...
Sem eu perceber, a Marta leu minha face feia
E me disse: O que é isso? Eu posso te ajudar!
Eu posso corrigir para você, Décio.
Deu um sorriso “SANTO” e me disse: Não precisa se preocupar.
Sônia e Eraldo Fernandes,
Para vocês irei orar,
Embora eu nunca parei,
Eu irei continuar.
Que sejam felizes
Nessa jornada que têm que caminhar.
Ah, meu amigo, que lindos versos! É mesmo para fazer a gente chorar! Agradecemos, de todo coração, a poesia e as orações! Há muito tempo quero fazer uma poesia para você, querido amigo! Um dia ela sai!
Voltando à Bolívia, não achamos nada inferior os artigos de lá. Triste mesmo, só o atendimento que, no geral, é péssimo! À noite, em Guajará, os amigos nos oferecem bolo de arroz e cunhapé (parece pão-de-queijo, mas é bem grudento...). Como a internet está boa, abrimos nossos e-mails. O Tiago comenta sobre Mutum Paraná que em breve não mais existirá: ficará submersa pela Usina Jirau. Passamos por lá e nem paramos:
--- Nossa! Na volta precisamos fotografar... Nunca vi uma cidade que vai se acabar... (É como diz o Décio em sua poesia: “Quando uma folha cai... Deus coloca outra no lugar...”. Já que não fomos em Marcelândia, que foi queimada, iremos em outra que será inundada).
--- Pode deixar, a gente passa!
--- E se quando voltarmos ela já estiver inundada?
--- Isso não é assim de um dia para o outro, não --- diz o Eraldo.
Terça-feira, 26 de outubro. Saio para comprar meu creme da Natura...”bem estar bem...”. Parabéns para sua Natura, Vita; em quase todo lugar: “Aqui tem revendedora Natura.” A vendedora e seu esposo, gentilíssimos: “Se vierem por aqui com os filhos podem ficar em nossa casa... até sobram quartos!”. ESSA é a acolhida deles!
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
NEM MIL PÁGINAS!!!
ANÃ! NEM MIL PÁGINAS...
Nem mil páginas dariam para se contar todas as maravilhas de Anã... Contarei mais algumas, portanto! Os quintais não têm cercas; todos abertos, convidando os vizinhos: “Venham! Nossa casa está sempre à sua disposição!” A maneira que usam para pegar os peixes é interessante: Colocam a malhadeira no rio e uma vara presa a ela; na ponta da vara prendem uma lata. O peixe preso na malhadeira começa, naturalmente, a se debater, agitando a rede e balançando a vara. Quando ouvem o barulho da lata já sabem: é só ir buscar o peixe fresquinho! Fomos lavar roupa no rio e eu comecei a ensaboá-las: ensaboei uma peça, coloquei o sabão na perna, ele ameaçava cair:
--- Milena, Milena, o sabão quer rodar...
--- Por que a senhora não coloca na cabeça?! (E olhou-me com aquele olhar: mas nem isso a dona sabe?)
--- Ah, é?
Coloquei-o na cabeça, abaixei para esfregar a roupa e ele, ploft!
Ela veio de lá e disse: “Assim, ó”. --- E pôs o sabão bem em cima do meu cocoruto! Gente! Não cai de jeito nenhum... Mais uma que eu aprendi!
À tarde, quando eu estava dormindo na rede (ou melhor, deitada, pois não estava dormindo, viram, meninas? Ouvi tudinho que vocês disseram!) fiquei escutando as mocinhas rindo do modo como eu falava: “E aí ela disse assim... Hahahahahaha... É mesmo? Ontem ela falou assim e assado... Hehehehehe...”. Eu fiquei fingindo que dormia e achando a maior graça, já que eu também dava boas risadas da maneira delas falarem (viram, suas gracinhas?!). De vez em quando, alguém me chamava de “dona Carmem”.
--- Dona Carmem? --- indaguei, intrigada!
--- É uma senhora que esteve aqui. É gaúcha que nem você...
--- Mas eu não sou gaúcha.
--- Mas fala igualzinho!
À noite, quando fomos para o aniversário, passando por uma rua não muito lisa, a Rúbia: “Ah! Se vocês vissem como isso era antes dos jericos passarem... Essa rua era um tapete: lisinha! Aí vieram dois jericos e esburacaram tudo...” (Jerico é trator pequeno!)
O Lúciu pediu para que eu passasse a receita do piracuí. No início pensamos que fosse paçoca de peixe. Comentando com a Rúbia, ela nos esclareceu: Não é paçoca.
--- Uai, mas eu comi e vi os grãozinhos de farinha, Rúbia!
--- Aquilo não é farinha. São os olhinhos dos peixes!
Alguns dizem “farinha de peixe”; acho que isso gerou a confusão. Na verdade é o peixe cari (aqui dizem acari) assado, desfiado, bem desfiado mesmo e torrado como se torra farinha. Aí é que está o desafio: Eu, pelo menos, nunca consegui torrar farinha; não é fácil! Já vi minha avó Anália torrá-la; é complicado. Exige a quantia exata de fogo; tem que ser colocada aos poucos (eles dizem às mancheias, que são mãozadas...) numa tacha grande. Se colocar em excesso, ela empelota e pode jogar fora; não dá para se aproveitar. É um processo demoraaaaado... Se quiserem experimentar, depois me contem o resultado!
Esqueci-me de contar um fato interessante: Logo ao chegar à casa da Rúbia, encantei-me com um bebezinho, o Mateus, que ainda nem anda. O danadinho chorava nos braços da avó, pelo jeito querendo passear, e ela não estava disposta a se levantar. Adoro criança, gosto mesmo de paparicar os danadinhos (já pensaram meus netinhos?). Peguei o nenê e fui passear. Nisso, vi uma rede debaixo da mangueira e pensei: “O Mateus vai adorar aquela rede!” Sentei na rede com ele e comecei a balançar. Gente, foi o mesmo que colocá-lo em cima de espinhos: “Buá... buá... buá...” Hahahahahaha, então me lembrei: as crianças de Goiás é que amam rede, não estão acostumadas; o Mateus, coitado, está enjoado disso! Levantei-me e ele se calou na mesma hora.
Na última noite em que passei nesse lugar encantado fiquei deitada na rede, olhando o céu estrelado e meditando : nem em meus sonhos mais lindos, pensei haver um lugar como este! Que acolhimento cativante! Como pode haver tamanho respeito e carinho entre todas as pessoas? O que mais me intriga e encanta (tenho que procurar no Aurélio palavras semelhantes a encanto... senão irei usá-la exaustivamente!) é a maneira de educar as crianças. Penso que a herdaram dos índios. Vocês sabiam que os índios, quando corrigem a criança, nunca o fazem de pé? Eles se agacham para ficarem da mesma altura, olhos nos olhos e não acima. E ensinam mais pelo exemplo do que com palavras. “A palavra convence, o exemplo arrasta!”, dizem os sábios! Um dia voltaremos, tenho certeza! Será que alguém conseguiria vir aqui uma só vez?
Em meio a esta natureza deslumbrante, lembro-me da história da “Polyanna”. Aquela do livro que TODO MUNDO leu a pedido das professoras. Eu o li várias vezes em minha infância; depois também. Lembro-me da vez que ela foi morar com aquela mulher rica (Sra. Mary, me parece...). Ele encantou-se tanto com o colar de diamantes da mulher que a mesma cedeu à tentação de mostrar-lhe o cofre cheinho de jóias! E qual não foi seu espanto quando viu a menina sentada no chão, chorando que nem uma desesperada!
--- O que foi agora, menina?
--- Estou chorando de alegria por ter olhos para ver tamanha beleza!
Sinto-me várias vezes assim: Tendo que segurar o pranto ao ver tanta beleza!
Domingo, 10/10/10 (Que linda data!). Não foi de muita alegria para nós. Dia da partida de Anã. Levantamo-nos. A Rúbia nos espera com o café pronto! E tem que ser reforçado “já que vão viajar...” Arroz com vatapá e beiju. Digo que só quero o beiju. Quando percebo, o prato de arroz com vatapá já está à minha frente. Como resistir? Quando encontrarei um vatapá como este!? Tiramos mais fotos. Remoemos, não achando jeito de sair do paraíso. Por fim, despedimo-nos de todos e fomos para o barco. As meninas dizem ansiosas: “Vão mandar as fotos terça-feira? Não vão se esquecer?“ “Fiquem tranquilas. A gente manda revelar na segunda de manhã e envia na terça.” A hora da saída é 09:00h, mas como ninguém tem pressa, saímos às 09:45h. Lógico que não consigo segurar as lágrimas. Disfarço. Adeus povo de Anã. É com o coração cheio de amor e gratidão e com lágrimas nos olhos que deixo vocês, pessoas encantadoras, amigos tão queridos!
É hora de tomar um cafezinho, o primeiro de muitos. Não tanto pelo café, mas pelo prazer de lavar a xícara na pia do barco, que é uma gracinha! Encontro a Maria Odila; “Em defesa da Amazônia” é o que está escrito em sua camiseta. Ela pertence à comunidade Anã e participa do movimento em defesa de sua terra, vai a congressos, hospeda os turistas em sua casa e tudo o mais. Percebo o rapazinho que varre e limpa o barco sempre que cai alguma coisa no chão. Ela me diz: “Foi feita uma pesquisa sobre qual o povo mais asseado do Brasil. O Pará ganhou. Nós cuidamos da limpeza da casa, dos quintais e da higiene pessoal mais que qualquer outro povo! Tomamos vários banhos por dia! Os professores daqui confessam que as crianças são as mais cheirosas. Sempre usam perfume!” Isso eu já tinha percebido. “Vai banhar de novo, Rúbia?” “Só jogar uma água no corpo, dona Sônia.” E assim, jogam água no corpo o dia inteiro. As meninas sentem calor, correm para o rio e mergulham, de roupa e tudo. Saem e já vão para o varal, enroladas na toalha; lá mesmo vestem a roupa enxuta. É superinteressante: você não vê nada e a toalha NÃO cai!
Por que parou? Parou por quê? Um retardatário que vem andando pelo rio, trazendo uma bateria no ombro. Chega a hora do tão esperado almoço! Pura delícia; e de graça! Maria Odila e eu continuamos nossa animada conversa:
--- Pois é, menina, vem gente de todo lugar para conhecer nossas belezas. Certa vez hospedei dois rapazes dos Estados Unidos. Ficaram vários dias: “Dona Ondina, isto aqui é o paraíso! Lutem para que seja preservado! Não deixem que seja destruída tanta beleza natural!” Um dia, entro na sala e vejo um dos rapazes chorando. Pergunto o porquê da tristeza, se lhe falta alguma coisa ou se é saudade de casa. Ele responde: “Choro de emoção, dona Ondina; já viajei muito; nunca vi nada tão lindo assim!”
Vemos, de longe, as praias Pedra Branca e Maria José. Eni, minha cunhada, seu binóculo faz muita falta! Chegada do barco. Ah, o nome do barco é Josué Yeshuah; será mudado para Libertador. Vamos à casa da Josilany. Ela nos convida para o aniversário de sua filha. “Vocês já almoçaram? Se não, poderiam almoçar conosco.” É assim a acolhida deles, TOTAL!
“Vamos ligar para o Mestre, para combinarmos sobre a balsa.” Ligamos. Caixa de mensagem, novamente. Ligo várias vezes, e nada! Quero descer de balsa. Já não sei se é descer ou subir... Hehehehehehehe... Espero que ninguém conte para o Juarez Távora de Carvalho, meu professor de Geografia, essas coisas. Porém, não era ele mesmo que dizia que o mapa teria que ser colocado no chão, sul para o sul, norte para o norte? Então! Penduravam-no na parede e diziam: “O rio tal corre para o rio tal...” E você, olhando o mapa de pé, não iria pensar que os rios corriam para cima. E agora, indo de Santarém para cima, tenho a impressão que o rio sobe. E, às vezes, as águas são tão paradinhas que pergunto ao Eraldo (ao pé do ouvido...kkkkk): “Está correndo para onde?” Não é querendo me justificar, mas era muito engraçada a maneira como era ensinada a tal da Geografia! E as musiquinhas infantis? Eram lindas, lindas! Porém prestem atenção naquela do galinho; vocês se lembram, gente-do-meu-tempo?
MEU GALINHO
Faz três noites que eu não durmo, ô... lá... lá
Pois perdi o meu galinho, ô... lá... lá
Coitadinho, ô... lá... lá
Pobrezinho, ô... lá... lá
Ele faz qui-ri-qui-qui, ele faz qui-ri-qui-qui
Ele é branco e amarelo, ô... lá... lá
Tem a crista vermelhinha, ô... lá... lá
Bate as asa, ô... lá... lá (é asa mesmo, por causa da métrica, se puser o s, as sílabas passam...), ô... lá... lá
Abre o bico, ô... lá... lá
Ele faz qui-ri-qui-qui, ele faz qui-ri-qui-qui
Já rodei o Amazona, ô... lá... lá (o mesmo caso da asa)
Mato Grosso, Paraná, ô... lá... lá
Encontrei, ô... lá... lá
Meu galinho, ô... lá... lá
No sertão do Ceará, no sertão do Ceará...
Viram? Eu adorava cantar... E ficava imaginando a menina a pé, procurando seu galinho. Vai do Mato Grosso para o Paraná e depois para o Ceará... Não daria de imaginar que ficam todos juntinhos?
PONTA DE PEDRA! ONDE EXISTIRÁ COISA MAIS LINDA?!
Procuramos os amigos para saber das belas praias de Santarém; são inúmeras! Indicaram-nos Ponta de Pedra. Essa perdida de balsa nos rendeu DEMAIS!!! Se a perdermos novamente, queremos conhecer a aldeia indígena Vila Franca; dizem que é linda!
Dia da Criança, 12 de outubro. Dia perfeito na praia Ponta de Pedra, no majestoso Tapajós! As ondas estavam até altas! Água deliciosa! Um encanto! A família inteira pode se abrigar embaixo das imensas pedras! O meu comedido marido disse: “Acredito que no mundo não existe um lugar lindo como este! Não dá para descrever; só vendo!” A vontade é ficar o dia inteiro dentro d’água! Aproveitamos o máximo! E a areia, então... é fininha. Alguém disse que parece açúcar; estou mais para maisena (é com s mesmo, com z é o nome comercial!). Não resisti; peguei um monte de areia para o presépio da dona Dolzir. O Eraldo disse que perto de Novo Progresso a areia é mais fina ainda. Renata , Reiker, Mateus e Isa, olhem isso para mim e levem uma areinha para a vovó! Ela irá gostar muito! Na saída conversamos com a dona da lanchonete “Sonho de Verão”, onde almoçamos:
--- Que água mais limpinha!
--- Quando o rio enche, fica mais clara ainda --- disse ela. Pode???
Tirei fotos em cima das pedras, segurando o chapéu:
--- Segurar o chapéu é pose? --- pergunta o Eraldo.
--- Não. Se não segurar o vento leva!
Quarta-feira, 13/10. De manhã vamos procurar o Mestre, figurinha difícil! O Mestre foi para Nassau buscar cimento. Ih! Corre o risco da balsa estar lotada! Se isso acontecer... Uau! Vila Franca! Ligamos para a casa dele; alguém atende: “O Mestre está na balsa.” Na balsa não está. Vamos almoçar enquanto ele chega? Vamos! Começa a novela: Tem peixe? Por aqui não tem, não senhor; só mais em cima. Subimos a ladeira: Tem peixe? Por aqui não tem, não senhor. Voltamos; vamos almoçar no restaurante do velhinho.
--- Temos carne assada de panela e guisado.
O Eraldo: “Guisado?” Eu respondo;
--- É carne moída.--- O velhinho não gosta. E diz firme e forte:
--- Guisado não é carne moída, dona! É diferente. É carne cozida na panela!
Era um senhor muito simpático, mas melindroso! Enquanto almoçávamos, ele ia contando histórias e falando sobre a maneira que preparava aos pratos. Eu ri; para quê?
--- Nossa comida é muito boa, dona. Todo mundo aprecia. Tudo feito na hora; não servimos nada de ontem. ---Nossa! O velhinho “encrespou”!
Saímos para comprar nossas redes; na balsa dorme-se em redes: A do Eraldo, azul; a minha, verde! Agora é só armar, deitar e tirar fotos! O Eraldo vai para a balsa encontrar-se com o misterioso Mestre; eu fico, adiantando meu blog. O Eraldo volta: “Não deu certo...” Planos foram feitos para serem mudados. Já estamos no Plano D. Querem recordar?
PLANO A: Monte Alegre, Prainha, Almeirim.
PLANO B: Voltamos a Santarém para pegarmos a balsa.
PLANO C: Perdemos a balsa por pouco. Esse rendeu: Conhecemos lindas praias em Santarém e, melhor ainda, a Comunidade Anã.
PLANO D: Voltarmos a Itaituba para tentarmos ir para Manaus. De balsa? De balsa. Então está ótimo! Dizem que temos de treinar nossas mentes para chegarmos ao plano Z tranquilos e sorridentes. Estamos a caminho! O Eraldo pega o mapa e tenta me explicar a nossa trajetória de volta. “Voltaremos até o Km 30...”. Penso que nem atentei mais ao resto da explicação: “Então verei novamente minha amiga Zilmar! Que beleza!”, pensei.
Às vezes penso que esta nossa enrola em continuarmos a viagem é porque, no íntimo, bem dentro de nossos corações, não estamos conseguindo sair desta terra encantada!
Às 18:06 do dia 13/10, com o coração oprimido, deixamos Santarém, Terra encantada,Terra de sonhos! Adeus amigos queridos e inesquecíveis! Voltaremos um dia! Dormimos no Portão de Belterra. Encontro o Jacinto e trocamos endereços de blog. É tempo de despedidas! Neste momento, escrevo e choro de saudade. Pronto, eu sabia que isto iria acontecer! As letras se embaralham e tenho que parar. Adeus Belterrra, Bel de belíssima! Cada lugar que deixo tenho que me segurar para não chorar. Não me lembro de me sentir assim em nenhuma outra viagem. As belezas daqui grudam em nossas mentes e corações. Como eu queria que nossas filhos estivessem aqui conosco!
Neste momento lembrei-me de um relato que li naquele livro “Papillon, o homem que fugiu do inferno.” Ele narra sua relutância em deixar uma aldeia indígena na qual viveu sete meses. E usa palavras fortes e emocionantes. A gente lê e pensa: “Que exagero! Ninguém se apega tanto a um lugar em tão pouco tempo... Não precisava disso tudo.” E nós ficamos no Pará apenas um mês e nos apaixonamos por este Terra encantadora!
Imaginem como estou desnorteada nesse vai-e-vem, atravessa-pra-lá, volta-pra-cá! Estamos voltando para Itaituba pela mesma estrada. E por que vejo coisas que não percebi na ida? Eu, que observo tudinho? Ah! Deve ser porque eu via o lado esquerdo da estrada, agora estou vendo o direito! Como aquela história do velhinho:
Um homem chegou à beira do rio e disse para o velho:
--- Subi a ladeira e vim reparando a estrada. Confesso que não entendi: Do lado direito, plantas secas e tristes; do esquerdo, flores lindas, de cores variadas! O senhor poderia me explicar este fenômeno?
--- Claro, meu amigo! Todo dia subo carregando água. Acontece que o balde é furado de um lado.
Moral da história: Sempre devemos olhar os dois lados, antes de julgar um fato.
No Portão de Belterra indicaram-nos uma praia, “a mais bonita de todas”. Vamos? VAMOS!!! Não estou mesmo com nenhuma vontade de ir embora! Entramos numa estradinha no meio da mata: Árvores maravilhosas, altíssimas, de um verde escuro! Uma mulher à beira da estrada. Perguntamos:
--- É por aqui que se vai para a praia?
--- É. Mas não sei se vocês conseguem com esse carro. Tem uns atoleiros de areia...
--- Como é mesmo o nome da praia? Jaguaribe?
--- Não me lembro... É Jagua... qualquer coisa.
Aqui e ali, fitinhas coloridas nos galhos das árvores. Será alguma pesquisa? Descobrimos depois que era uma maratona!
--- Que árvore linda de flores amarelas!
O DG (lê-se defensor de Goiás):
--- Dessas têm em Mineiros, lá na Av. Coqueiros!
Paramos para pegar cajus. Os cajueiros abundam à beira da estrada. Meu vestido já está cheio de nódoa. E o Eraldo deixou cair caju na camisa que ele tanto gosta, uma que o Mariuzan deu! Meninos, vocês já conhecem a mania de tintureiro do seu pai. Não deu outra: colheu um monte de cajus, tirou o suco, acho que mais de litro, e mergulhou dentro a camisa. Deixou uns dois dias. Enxaguou e pôs para secar. Oh, decepção! Quase não fez diferença. Eu lhe disse: “Talvez você não devesse ter enxaguado... ter deixado secar com o suco. Vai ver que os raios solares têm influência para fixar a nódoa.” Ele colheu mais cajus, espremeu, colocou a camisa, deixou uns dias e pôs para secar. Só o que fixou realmente foi o cheiro forte de caju. A cor continuou quase a mesma... hehehehehehhe!
Chegando a Jaguarari, era este o nome, fomos procurar a praia e aproveitar para lavar roupa. Desde a primeira vez que vi as roupas estendidas à beira do igarapé fiquei louca para lavar roupa. Lembrei-me de quando a Maria Ely e eu íamos lavar roupa no igarapé (ou seja, no córrego). Você se lembra, minha irmã? Na hora do almoço eu ia em casa pegar as marmitas para comermos sentadas no tronco de árvore que ficava no barranco: a comida era muito mais gostosa, mesmo com uns grãozinhos de areia como tempero! Crianças, ainda, minha mãe tinha muito zelo pela nossa educação. “Não andem muito com as filhas da D. Maria; elas sabem tudo e não têm papas na língua...” Não posso contar o apelido da tal D. Maria, pois algum parente pode ler isto e aí não fica bem. Íamos para o córrego. D. Maria sempre lá, lavando roupa e contando as piadas mais escabrosas!!! Viiiu, D. Dolzir? Lucrávamos mais, pois a mãe era mais sabida do que as filhas. E a senhora nem imaginava porque gostávamos tanto de lavar roupas!!!
Passamos por uma senhora com a bacia de roupas na cabeça, perguntamos pela praia: “Por que vocês não vão para o igarapé? Venho de lá agora, a água é limpinha.” Lavamos roupas no igarapé e nos banhamos no rio, mas a praia não era tão boa como disseram. Na volta, para confirmar a conversa de nossa informante, encravamos na areia. Foram umas duas horas de peleja!
Na volta, olhando aquelas lindas paisagens, lembrei-me do Zezé, de “O meu pé de laranja-lima”. Ele pensava: Quando eu crescer, quero ter doze filhos. Aí pergunto para um: Meu, filho, o que você quer ser? Engraxate? Então está aqui a graxa e a caixa. E você, meu filho? Quer ser vaqueiro? Está aqui o chicote e a camisa xadrez... Seu irmão Totoca, chega e diz: Que é isso Zezé, falando sozinho? Fiquei pensando: Quando eu morrer, quero me multiplicar em dez pessoas: Uma vai morar no meio do igarapé, numa casinha que vi lá em Alter do Chão ; a outra vai morar numa comunidade indígena: essa não vai aprender ler nem escrever, só gozar a natureza! A outra vai morar às margens do Tapajós e viver pescando e nadando. Uma vai viver numa ilha; outra, nesta linda floresta aqui, com árvores tão exóticas! Epa! Está ficando todo mundo no Pará! Vou deixar as outras... Depois decido o destino delas.
Sexta-feira, 15/10. Dormimos ao lado de uma casinha linda, linda, à beira da rodovia. Acordo e olho pela janela; nosso amigo, Edmilson (não sei se é Edmilson ou Admilson: um é o pai; o outro, o filho) está espalhando as pimentas para secar; ele planta pimenta do reino. Pedi ao Eraldo para tirar uma foto, especialmente para a Orlandina. Ela gosta muitíssimo da tal pimenta e precisa ver como é a secagem! Essa eu não podia perder! E eu, pensando em ver minha amiga Zilmar, comento em voz alta meu pensamento. O Eraldo:
--- Sônia! Não é aquele Km 30 que você está pensando, não. A Zilmar está do lado de lá do Rio Amazonas... Nós atravessamos para cá em Santarém!
Como eu já disse, vai para lá, vem para cá... Desnorteia até uma pessoa mais atenta... Hahahahaha... Fiquei penalizada! Em Rurópolis resolvemos almoçar e começou a romaria pelos restaurantes: Tem peixe? Oh, senhor, hoje não temos. Tem peixe? Acabou! Vocês servem peixe? Não, mas temos galinha caipira, uma delícia! Olhe, não vou lhe iludir, não; por aqui o senhor não acha peixe. Anda que anda e nada de peixe. Resolvemos almoçar assim mesmo. A sortuda fui eu: tinha MAXIXE!!! E daqueles pequenininhos! Huuummmm! Delícia!
Olha o igarapé! Vamos tomar banho? VAMOS!!! Tchibum... tchibum... Desse jeito não há viagem que renda; em cada igarapé paramos para nos banhar nas águas límpidas e refrescantes! Eu saio catando as roupas para lavar: toalha, pano de prato, forro de mesa... Ah, tem mais aquele tapete; está bem sujinho... Pego o tapete. É puro êxtase lavar tapete em igarapé: você ensaboa, sai aquela primeira água marrom, depois bege, depois creme... (lembro-me da Mable; eu e ela sabemos o porquê!) e então as cores aparecem brilhantes e o tapete parece sorrir de tão feliz! E as roupas, então! Ficam perfumadas e macias. Ah! E dispensam amaciante! Ensaboamos as peças e tchibum, tchibum; enxaguamos, colocamos para secar e... tchibum, tchibum, tchibum... A coitadinha da lavadora deve estar se sentindo humilhada: só serve para guardar tapetes.
Saímos de Rurópolis às 13:30. Mais igarapés, mais banhos. E pontes, pontes, pontes! Antes eu tinha receio de passar em pontes de madeira; nem sei por que tinha uma enorme vontade de descer e passar andando; sentia aquele friozinho na barriga! Agora, oh! Não estou nem aí...
Chegamos ao posto Trevão; km 30 (era aqui que eu pensava encontrar novamente a Zilmar; mas esse 30 é o outro, do lado direito do Amazonas – acabei de perguntar para o Eraldo --; o da minha amiga é do lado esquerdo). Os amiguinhos dos jogos vieram correndo: apareceram mais dois: o Flávio e o Augusto. Este cursa o Acelera. Só que o Acelera daqui é da maneira que deveriam ser todos. Quem o cursa são as crianças que têm facilidade de aprendizagem! Assim, SIM! A coisa rende! O Ateilton para voltar à noite teve que trazer a avó a fim de nos conhecer: “A gente tem que conhecer as pessoas, dona. Não podemos deixar irem a qualquer lugar. A gente tem medo que roubem eles...”. Os pais, como eu já disse, mostram aos filhos o valor que têm; FALAM disso na frente deles. O menino, peito estufado, sorrisão no rosto, os olhos brilhantes, olhava-nos todo alegre: “Estão vendo como sou querido?!”.
Sábado, 16/10/10. Acordei com o coro dos passarinhos! “Eu quero um coro de passarinhos...” Lembrei-me da música do Rei! Fui me lembrando do restante da letra e concluí: Estamos vivendo a música, sem dúvida! “Eu quero ter um quintal sem muro...” Em Anã os quintais não tinham muros!” Eu quero ter um milhão de amigos...” Estamos perto! Demos uma volta de trailer com os amiguinhos, compramos panelada (mocotó com bucho de vaca) para o almoço e fomos rumo à balsa de Miritituba para atravessar o Tapajós. Lindo Tapajós! Que pena! Lá de cima vimos a balsa se soltando da plataforma!
--- Pi, pi, piiiiii... O Eraldo buzina. PAROU! A balsa parou para esperar. O encarregado me disse:
--- Vai depressa, dona, tirar a passagem enquanto ele vai entrando...
--- Não vão me deixar para trás?
--- Não tem perigo. Pode ir tranquila! (Pronto. Eu sabia que o tal do trema um dia ia me fazer falta. Eles dizem tranquila – sem o trema, na velha ortografia. Quem foi alfabetizado pelo método fônico? Então, o boizinho fica mudo.)
E o Eraldo, preocupado: “Mas ela tem que ir!”
--- Vá tranquila... Vá tranquila.
E a balsa, cheinha de carros, caminhões, pessoas, ficou esperando por MIM!
Chegamos a Itaituba! Pensei: Será uma ótima oportunidade de desfazer a má impressão que tive desta cidade; afinal, conhecemos pouquíssimos lugares. Da outra vez, na balsa, uma moça nos disse: “Vocês deveriam voltar e conhecer nossas praias. Temos lindas praias por aqui!” Como viram, os anjinhos disseram “amém”! Estacionamos bem perto de uma praia e fomos tomar banho em nosso amigão Tapajós. Havia duas crianças remando um barco de garrafas pet amarradas; os remos eram duas ripas. Pedi aos pais licença para fotografá-las: “Posso? Lembro-me de meu filho!”. Você se lembra, Eraldo Luís? Lá na Matrinchã, você e o Jorge remando uma câmara de ar? Os remos eram paus com litros (latas) de óleo amassados. E você com os dois pés furados, furou um no toco da roça e o outro num pau dentro do rio. Ficou bem bravo: “Acabou a graça da viagem! O que vou fazer com os dois pés furados?”. Apesar dos protestos, calçou os tênis (coisa que dissemos para fazer desde o início e o senhor não quis...) e divertiu-se a valer, remando o barco improvisado! À noite teve febre e o Eraldo foi à cidade mais próxima comprar antibiótico. Quantas lembranças da Matrinchã, um lindo lugar! A Luciana foi lavar vasilhas, acima da cachoeira e deixou rodar um copo: “Ah, mãe! Se pelo menos fosse o furado, mas foi o bom!”. É sempre assim, já notaram? Nunca se quebra aquele que já está trincado... Só o novinho em folha!
Conhecemos um rapaz muito simpático lá no rio que deu-nos várias dicas sobre os melhores lugares para se conhecer. Conversamos até quase escurecer. Falamos sobre botos e outras coisas. Certa hora, olhando o horizonte, ele disse: “
--- Olha ele lá...São dois...
--- Dois o quê?
--- Dois botos. Boiaram bem lá!
Gente, o rapaz falou, como se dissesse: “Olha lá o lambari!”. Como se aquilo fosse a coisa mais comum. E certamente era, para ele que está acostumado. Não, porém, para nós. Fixei os olhos no lugar indicado por ele e ainda vi os danadinhos boiando! Que elegância!
À noite caminhando vimos uma barraquinha com tacacá. “Na volta quero experimentar esse negócio. O povo come com tanto gosto!”. Caminhamos bastante. Chegamos à barraca e pedimos o tacacá. Eu, ansiosa por provar aquele negócio. Fiquei reparando como era servido. Primeiro põe o tucupi (água que sai da mandioca ralada) e as folhas; depois a goma; tucupi de novo; agora o camarão (eu não imaginava que era COM casca...). A moça vendo minha curiosidade desconfia:
--- Você sabe como come, não é?
--- Não é com a colher?
--- Não, não. É com o palito.
E me dá o palito (de dente, aquele palitinho).
Pergunto: “E o caldo que sobra?”. --- Você bebe!
Resultado: Eu comi só as folhas e um pouquinho de camarão. O Eraldo teve que comer o resto. Aquela babinha da goma... não deu, não. Para matar a fome comi uma coisa que parece canjica, mas é bem mais gostosa, esqueci o nome e tomei sorvete de açaí.
Domingo, 17/10/10. Na saída de Itaituba, fazendo compras num supermercado, pudemos comprovar a gentileza e boa vontade do povo nortista. Esquecemo-nos de pesar as frutas. A mocinha do caixa, mesmo percebendo que estávamos em dois:
--- Eu vou pesar para vocês!
E olhem que o corredor era comprido! E era DOMINGO!
Agora é “pegar o oco do mundo”...
UMA PEQUENA EXPLICAÇÃO: Justamente quando eu estava pensando: “Acho que esse negócio de ficar voltando à infância está deixando o blog maçante e enjoativo...”, o Eraldo Luís comenta: “Mãe, não deixe de contar as histórias da infância...” Falou e disse, filhote! Adoro lembrar meu tempo de criança! Vou continuar,SIM!!!
Nem mil páginas dariam para se contar todas as maravilhas de Anã... Contarei mais algumas, portanto! Os quintais não têm cercas; todos abertos, convidando os vizinhos: “Venham! Nossa casa está sempre à sua disposição!” A maneira que usam para pegar os peixes é interessante: Colocam a malhadeira no rio e uma vara presa a ela; na ponta da vara prendem uma lata. O peixe preso na malhadeira começa, naturalmente, a se debater, agitando a rede e balançando a vara. Quando ouvem o barulho da lata já sabem: é só ir buscar o peixe fresquinho! Fomos lavar roupa no rio e eu comecei a ensaboá-las: ensaboei uma peça, coloquei o sabão na perna, ele ameaçava cair:
--- Milena, Milena, o sabão quer rodar...
--- Por que a senhora não coloca na cabeça?! (E olhou-me com aquele olhar: mas nem isso a dona sabe?)
--- Ah, é?
Coloquei-o na cabeça, abaixei para esfregar a roupa e ele, ploft!
Ela veio de lá e disse: “Assim, ó”. --- E pôs o sabão bem em cima do meu cocoruto! Gente! Não cai de jeito nenhum... Mais uma que eu aprendi!
À tarde, quando eu estava dormindo na rede (ou melhor, deitada, pois não estava dormindo, viram, meninas? Ouvi tudinho que vocês disseram!) fiquei escutando as mocinhas rindo do modo como eu falava: “E aí ela disse assim... Hahahahahaha... É mesmo? Ontem ela falou assim e assado... Hehehehehe...”. Eu fiquei fingindo que dormia e achando a maior graça, já que eu também dava boas risadas da maneira delas falarem (viram, suas gracinhas?!). De vez em quando, alguém me chamava de “dona Carmem”.
--- Dona Carmem? --- indaguei, intrigada!
--- É uma senhora que esteve aqui. É gaúcha que nem você...
--- Mas eu não sou gaúcha.
--- Mas fala igualzinho!
À noite, quando fomos para o aniversário, passando por uma rua não muito lisa, a Rúbia: “Ah! Se vocês vissem como isso era antes dos jericos passarem... Essa rua era um tapete: lisinha! Aí vieram dois jericos e esburacaram tudo...” (Jerico é trator pequeno!)
O Lúciu pediu para que eu passasse a receita do piracuí. No início pensamos que fosse paçoca de peixe. Comentando com a Rúbia, ela nos esclareceu: Não é paçoca.
--- Uai, mas eu comi e vi os grãozinhos de farinha, Rúbia!
--- Aquilo não é farinha. São os olhinhos dos peixes!
Alguns dizem “farinha de peixe”; acho que isso gerou a confusão. Na verdade é o peixe cari (aqui dizem acari) assado, desfiado, bem desfiado mesmo e torrado como se torra farinha. Aí é que está o desafio: Eu, pelo menos, nunca consegui torrar farinha; não é fácil! Já vi minha avó Anália torrá-la; é complicado. Exige a quantia exata de fogo; tem que ser colocada aos poucos (eles dizem às mancheias, que são mãozadas...) numa tacha grande. Se colocar em excesso, ela empelota e pode jogar fora; não dá para se aproveitar. É um processo demoraaaaado... Se quiserem experimentar, depois me contem o resultado!
Esqueci-me de contar um fato interessante: Logo ao chegar à casa da Rúbia, encantei-me com um bebezinho, o Mateus, que ainda nem anda. O danadinho chorava nos braços da avó, pelo jeito querendo passear, e ela não estava disposta a se levantar. Adoro criança, gosto mesmo de paparicar os danadinhos (já pensaram meus netinhos?). Peguei o nenê e fui passear. Nisso, vi uma rede debaixo da mangueira e pensei: “O Mateus vai adorar aquela rede!” Sentei na rede com ele e comecei a balançar. Gente, foi o mesmo que colocá-lo em cima de espinhos: “Buá... buá... buá...” Hahahahahaha, então me lembrei: as crianças de Goiás é que amam rede, não estão acostumadas; o Mateus, coitado, está enjoado disso! Levantei-me e ele se calou na mesma hora.
Na última noite em que passei nesse lugar encantado fiquei deitada na rede, olhando o céu estrelado e meditando : nem em meus sonhos mais lindos, pensei haver um lugar como este! Que acolhimento cativante! Como pode haver tamanho respeito e carinho entre todas as pessoas? O que mais me intriga e encanta (tenho que procurar no Aurélio palavras semelhantes a encanto... senão irei usá-la exaustivamente!) é a maneira de educar as crianças. Penso que a herdaram dos índios. Vocês sabiam que os índios, quando corrigem a criança, nunca o fazem de pé? Eles se agacham para ficarem da mesma altura, olhos nos olhos e não acima. E ensinam mais pelo exemplo do que com palavras. “A palavra convence, o exemplo arrasta!”, dizem os sábios! Um dia voltaremos, tenho certeza! Será que alguém conseguiria vir aqui uma só vez?
Em meio a esta natureza deslumbrante, lembro-me da história da “Polyanna”. Aquela do livro que TODO MUNDO leu a pedido das professoras. Eu o li várias vezes em minha infância; depois também. Lembro-me da vez que ela foi morar com aquela mulher rica (Sra. Mary, me parece...). Ele encantou-se tanto com o colar de diamantes da mulher que a mesma cedeu à tentação de mostrar-lhe o cofre cheinho de jóias! E qual não foi seu espanto quando viu a menina sentada no chão, chorando que nem uma desesperada!
--- O que foi agora, menina?
--- Estou chorando de alegria por ter olhos para ver tamanha beleza!
Sinto-me várias vezes assim: Tendo que segurar o pranto ao ver tanta beleza!
Domingo, 10/10/10 (Que linda data!). Não foi de muita alegria para nós. Dia da partida de Anã. Levantamo-nos. A Rúbia nos espera com o café pronto! E tem que ser reforçado “já que vão viajar...” Arroz com vatapá e beiju. Digo que só quero o beiju. Quando percebo, o prato de arroz com vatapá já está à minha frente. Como resistir? Quando encontrarei um vatapá como este!? Tiramos mais fotos. Remoemos, não achando jeito de sair do paraíso. Por fim, despedimo-nos de todos e fomos para o barco. As meninas dizem ansiosas: “Vão mandar as fotos terça-feira? Não vão se esquecer?“ “Fiquem tranquilas. A gente manda revelar na segunda de manhã e envia na terça.” A hora da saída é 09:00h, mas como ninguém tem pressa, saímos às 09:45h. Lógico que não consigo segurar as lágrimas. Disfarço. Adeus povo de Anã. É com o coração cheio de amor e gratidão e com lágrimas nos olhos que deixo vocês, pessoas encantadoras, amigos tão queridos!
É hora de tomar um cafezinho, o primeiro de muitos. Não tanto pelo café, mas pelo prazer de lavar a xícara na pia do barco, que é uma gracinha! Encontro a Maria Odila; “Em defesa da Amazônia” é o que está escrito em sua camiseta. Ela pertence à comunidade Anã e participa do movimento em defesa de sua terra, vai a congressos, hospeda os turistas em sua casa e tudo o mais. Percebo o rapazinho que varre e limpa o barco sempre que cai alguma coisa no chão. Ela me diz: “Foi feita uma pesquisa sobre qual o povo mais asseado do Brasil. O Pará ganhou. Nós cuidamos da limpeza da casa, dos quintais e da higiene pessoal mais que qualquer outro povo! Tomamos vários banhos por dia! Os professores daqui confessam que as crianças são as mais cheirosas. Sempre usam perfume!” Isso eu já tinha percebido. “Vai banhar de novo, Rúbia?” “Só jogar uma água no corpo, dona Sônia.” E assim, jogam água no corpo o dia inteiro. As meninas sentem calor, correm para o rio e mergulham, de roupa e tudo. Saem e já vão para o varal, enroladas na toalha; lá mesmo vestem a roupa enxuta. É superinteressante: você não vê nada e a toalha NÃO cai!
Por que parou? Parou por quê? Um retardatário que vem andando pelo rio, trazendo uma bateria no ombro. Chega a hora do tão esperado almoço! Pura delícia; e de graça! Maria Odila e eu continuamos nossa animada conversa:
--- Pois é, menina, vem gente de todo lugar para conhecer nossas belezas. Certa vez hospedei dois rapazes dos Estados Unidos. Ficaram vários dias: “Dona Ondina, isto aqui é o paraíso! Lutem para que seja preservado! Não deixem que seja destruída tanta beleza natural!” Um dia, entro na sala e vejo um dos rapazes chorando. Pergunto o porquê da tristeza, se lhe falta alguma coisa ou se é saudade de casa. Ele responde: “Choro de emoção, dona Ondina; já viajei muito; nunca vi nada tão lindo assim!”
Vemos, de longe, as praias Pedra Branca e Maria José. Eni, minha cunhada, seu binóculo faz muita falta! Chegada do barco. Ah, o nome do barco é Josué Yeshuah; será mudado para Libertador. Vamos à casa da Josilany. Ela nos convida para o aniversário de sua filha. “Vocês já almoçaram? Se não, poderiam almoçar conosco.” É assim a acolhida deles, TOTAL!
“Vamos ligar para o Mestre, para combinarmos sobre a balsa.” Ligamos. Caixa de mensagem, novamente. Ligo várias vezes, e nada! Quero descer de balsa. Já não sei se é descer ou subir... Hehehehehehehe... Espero que ninguém conte para o Juarez Távora de Carvalho, meu professor de Geografia, essas coisas. Porém, não era ele mesmo que dizia que o mapa teria que ser colocado no chão, sul para o sul, norte para o norte? Então! Penduravam-no na parede e diziam: “O rio tal corre para o rio tal...” E você, olhando o mapa de pé, não iria pensar que os rios corriam para cima. E agora, indo de Santarém para cima, tenho a impressão que o rio sobe. E, às vezes, as águas são tão paradinhas que pergunto ao Eraldo (ao pé do ouvido...kkkkk): “Está correndo para onde?” Não é querendo me justificar, mas era muito engraçada a maneira como era ensinada a tal da Geografia! E as musiquinhas infantis? Eram lindas, lindas! Porém prestem atenção naquela do galinho; vocês se lembram, gente-do-meu-tempo?
MEU GALINHO
Faz três noites que eu não durmo, ô... lá... lá
Pois perdi o meu galinho, ô... lá... lá
Coitadinho, ô... lá... lá
Pobrezinho, ô... lá... lá
Ele faz qui-ri-qui-qui, ele faz qui-ri-qui-qui
Ele é branco e amarelo, ô... lá... lá
Tem a crista vermelhinha, ô... lá... lá
Bate as asa, ô... lá... lá (é asa mesmo, por causa da métrica, se puser o s, as sílabas passam...), ô... lá... lá
Abre o bico, ô... lá... lá
Ele faz qui-ri-qui-qui, ele faz qui-ri-qui-qui
Já rodei o Amazona, ô... lá... lá (o mesmo caso da asa)
Mato Grosso, Paraná, ô... lá... lá
Encontrei, ô... lá... lá
Meu galinho, ô... lá... lá
No sertão do Ceará, no sertão do Ceará...
Viram? Eu adorava cantar... E ficava imaginando a menina a pé, procurando seu galinho. Vai do Mato Grosso para o Paraná e depois para o Ceará... Não daria de imaginar que ficam todos juntinhos?
PONTA DE PEDRA! ONDE EXISTIRÁ COISA MAIS LINDA?!
Procuramos os amigos para saber das belas praias de Santarém; são inúmeras! Indicaram-nos Ponta de Pedra. Essa perdida de balsa nos rendeu DEMAIS!!! Se a perdermos novamente, queremos conhecer a aldeia indígena Vila Franca; dizem que é linda!
Dia da Criança, 12 de outubro. Dia perfeito na praia Ponta de Pedra, no majestoso Tapajós! As ondas estavam até altas! Água deliciosa! Um encanto! A família inteira pode se abrigar embaixo das imensas pedras! O meu comedido marido disse: “Acredito que no mundo não existe um lugar lindo como este! Não dá para descrever; só vendo!” A vontade é ficar o dia inteiro dentro d’água! Aproveitamos o máximo! E a areia, então... é fininha. Alguém disse que parece açúcar; estou mais para maisena (é com s mesmo, com z é o nome comercial!). Não resisti; peguei um monte de areia para o presépio da dona Dolzir. O Eraldo disse que perto de Novo Progresso a areia é mais fina ainda. Renata , Reiker, Mateus e Isa, olhem isso para mim e levem uma areinha para a vovó! Ela irá gostar muito! Na saída conversamos com a dona da lanchonete “Sonho de Verão”, onde almoçamos:
--- Que água mais limpinha!
--- Quando o rio enche, fica mais clara ainda --- disse ela. Pode???
Tirei fotos em cima das pedras, segurando o chapéu:
--- Segurar o chapéu é pose? --- pergunta o Eraldo.
--- Não. Se não segurar o vento leva!
Quarta-feira, 13/10. De manhã vamos procurar o Mestre, figurinha difícil! O Mestre foi para Nassau buscar cimento. Ih! Corre o risco da balsa estar lotada! Se isso acontecer... Uau! Vila Franca! Ligamos para a casa dele; alguém atende: “O Mestre está na balsa.” Na balsa não está. Vamos almoçar enquanto ele chega? Vamos! Começa a novela: Tem peixe? Por aqui não tem, não senhor; só mais em cima. Subimos a ladeira: Tem peixe? Por aqui não tem, não senhor. Voltamos; vamos almoçar no restaurante do velhinho.
--- Temos carne assada de panela e guisado.
O Eraldo: “Guisado?” Eu respondo;
--- É carne moída.--- O velhinho não gosta. E diz firme e forte:
--- Guisado não é carne moída, dona! É diferente. É carne cozida na panela!
Era um senhor muito simpático, mas melindroso! Enquanto almoçávamos, ele ia contando histórias e falando sobre a maneira que preparava aos pratos. Eu ri; para quê?
--- Nossa comida é muito boa, dona. Todo mundo aprecia. Tudo feito na hora; não servimos nada de ontem. ---Nossa! O velhinho “encrespou”!
Saímos para comprar nossas redes; na balsa dorme-se em redes: A do Eraldo, azul; a minha, verde! Agora é só armar, deitar e tirar fotos! O Eraldo vai para a balsa encontrar-se com o misterioso Mestre; eu fico, adiantando meu blog. O Eraldo volta: “Não deu certo...” Planos foram feitos para serem mudados. Já estamos no Plano D. Querem recordar?
PLANO A: Monte Alegre, Prainha, Almeirim.
PLANO B: Voltamos a Santarém para pegarmos a balsa.
PLANO C: Perdemos a balsa por pouco. Esse rendeu: Conhecemos lindas praias em Santarém e, melhor ainda, a Comunidade Anã.
PLANO D: Voltarmos a Itaituba para tentarmos ir para Manaus. De balsa? De balsa. Então está ótimo! Dizem que temos de treinar nossas mentes para chegarmos ao plano Z tranquilos e sorridentes. Estamos a caminho! O Eraldo pega o mapa e tenta me explicar a nossa trajetória de volta. “Voltaremos até o Km 30...”. Penso que nem atentei mais ao resto da explicação: “Então verei novamente minha amiga Zilmar! Que beleza!”, pensei.
Às vezes penso que esta nossa enrola em continuarmos a viagem é porque, no íntimo, bem dentro de nossos corações, não estamos conseguindo sair desta terra encantada!
Às 18:06 do dia 13/10, com o coração oprimido, deixamos Santarém, Terra encantada,Terra de sonhos! Adeus amigos queridos e inesquecíveis! Voltaremos um dia! Dormimos no Portão de Belterra. Encontro o Jacinto e trocamos endereços de blog. É tempo de despedidas! Neste momento, escrevo e choro de saudade. Pronto, eu sabia que isto iria acontecer! As letras se embaralham e tenho que parar. Adeus Belterrra, Bel de belíssima! Cada lugar que deixo tenho que me segurar para não chorar. Não me lembro de me sentir assim em nenhuma outra viagem. As belezas daqui grudam em nossas mentes e corações. Como eu queria que nossas filhos estivessem aqui conosco!
Neste momento lembrei-me de um relato que li naquele livro “Papillon, o homem que fugiu do inferno.” Ele narra sua relutância em deixar uma aldeia indígena na qual viveu sete meses. E usa palavras fortes e emocionantes. A gente lê e pensa: “Que exagero! Ninguém se apega tanto a um lugar em tão pouco tempo... Não precisava disso tudo.” E nós ficamos no Pará apenas um mês e nos apaixonamos por este Terra encantadora!
Imaginem como estou desnorteada nesse vai-e-vem, atravessa-pra-lá, volta-pra-cá! Estamos voltando para Itaituba pela mesma estrada. E por que vejo coisas que não percebi na ida? Eu, que observo tudinho? Ah! Deve ser porque eu via o lado esquerdo da estrada, agora estou vendo o direito! Como aquela história do velhinho:
Um homem chegou à beira do rio e disse para o velho:
--- Subi a ladeira e vim reparando a estrada. Confesso que não entendi: Do lado direito, plantas secas e tristes; do esquerdo, flores lindas, de cores variadas! O senhor poderia me explicar este fenômeno?
--- Claro, meu amigo! Todo dia subo carregando água. Acontece que o balde é furado de um lado.
Moral da história: Sempre devemos olhar os dois lados, antes de julgar um fato.
No Portão de Belterra indicaram-nos uma praia, “a mais bonita de todas”. Vamos? VAMOS!!! Não estou mesmo com nenhuma vontade de ir embora! Entramos numa estradinha no meio da mata: Árvores maravilhosas, altíssimas, de um verde escuro! Uma mulher à beira da estrada. Perguntamos:
--- É por aqui que se vai para a praia?
--- É. Mas não sei se vocês conseguem com esse carro. Tem uns atoleiros de areia...
--- Como é mesmo o nome da praia? Jaguaribe?
--- Não me lembro... É Jagua... qualquer coisa.
Aqui e ali, fitinhas coloridas nos galhos das árvores. Será alguma pesquisa? Descobrimos depois que era uma maratona!
--- Que árvore linda de flores amarelas!
O DG (lê-se defensor de Goiás):
--- Dessas têm em Mineiros, lá na Av. Coqueiros!
Paramos para pegar cajus. Os cajueiros abundam à beira da estrada. Meu vestido já está cheio de nódoa. E o Eraldo deixou cair caju na camisa que ele tanto gosta, uma que o Mariuzan deu! Meninos, vocês já conhecem a mania de tintureiro do seu pai. Não deu outra: colheu um monte de cajus, tirou o suco, acho que mais de litro, e mergulhou dentro a camisa. Deixou uns dois dias. Enxaguou e pôs para secar. Oh, decepção! Quase não fez diferença. Eu lhe disse: “Talvez você não devesse ter enxaguado... ter deixado secar com o suco. Vai ver que os raios solares têm influência para fixar a nódoa.” Ele colheu mais cajus, espremeu, colocou a camisa, deixou uns dias e pôs para secar. Só o que fixou realmente foi o cheiro forte de caju. A cor continuou quase a mesma... hehehehehehhe!
Chegando a Jaguarari, era este o nome, fomos procurar a praia e aproveitar para lavar roupa. Desde a primeira vez que vi as roupas estendidas à beira do igarapé fiquei louca para lavar roupa. Lembrei-me de quando a Maria Ely e eu íamos lavar roupa no igarapé (ou seja, no córrego). Você se lembra, minha irmã? Na hora do almoço eu ia em casa pegar as marmitas para comermos sentadas no tronco de árvore que ficava no barranco: a comida era muito mais gostosa, mesmo com uns grãozinhos de areia como tempero! Crianças, ainda, minha mãe tinha muito zelo pela nossa educação. “Não andem muito com as filhas da D. Maria; elas sabem tudo e não têm papas na língua...” Não posso contar o apelido da tal D. Maria, pois algum parente pode ler isto e aí não fica bem. Íamos para o córrego. D. Maria sempre lá, lavando roupa e contando as piadas mais escabrosas!!! Viiiu, D. Dolzir? Lucrávamos mais, pois a mãe era mais sabida do que as filhas. E a senhora nem imaginava porque gostávamos tanto de lavar roupas!!!
Passamos por uma senhora com a bacia de roupas na cabeça, perguntamos pela praia: “Por que vocês não vão para o igarapé? Venho de lá agora, a água é limpinha.” Lavamos roupas no igarapé e nos banhamos no rio, mas a praia não era tão boa como disseram. Na volta, para confirmar a conversa de nossa informante, encravamos na areia. Foram umas duas horas de peleja!
Na volta, olhando aquelas lindas paisagens, lembrei-me do Zezé, de “O meu pé de laranja-lima”. Ele pensava: Quando eu crescer, quero ter doze filhos. Aí pergunto para um: Meu, filho, o que você quer ser? Engraxate? Então está aqui a graxa e a caixa. E você, meu filho? Quer ser vaqueiro? Está aqui o chicote e a camisa xadrez... Seu irmão Totoca, chega e diz: Que é isso Zezé, falando sozinho? Fiquei pensando: Quando eu morrer, quero me multiplicar em dez pessoas: Uma vai morar no meio do igarapé, numa casinha que vi lá em Alter do Chão ; a outra vai morar numa comunidade indígena: essa não vai aprender ler nem escrever, só gozar a natureza! A outra vai morar às margens do Tapajós e viver pescando e nadando. Uma vai viver numa ilha; outra, nesta linda floresta aqui, com árvores tão exóticas! Epa! Está ficando todo mundo no Pará! Vou deixar as outras... Depois decido o destino delas.
Sexta-feira, 15/10. Dormimos ao lado de uma casinha linda, linda, à beira da rodovia. Acordo e olho pela janela; nosso amigo, Edmilson (não sei se é Edmilson ou Admilson: um é o pai; o outro, o filho) está espalhando as pimentas para secar; ele planta pimenta do reino. Pedi ao Eraldo para tirar uma foto, especialmente para a Orlandina. Ela gosta muitíssimo da tal pimenta e precisa ver como é a secagem! Essa eu não podia perder! E eu, pensando em ver minha amiga Zilmar, comento em voz alta meu pensamento. O Eraldo:
--- Sônia! Não é aquele Km 30 que você está pensando, não. A Zilmar está do lado de lá do Rio Amazonas... Nós atravessamos para cá em Santarém!
Como eu já disse, vai para lá, vem para cá... Desnorteia até uma pessoa mais atenta... Hahahahaha... Fiquei penalizada! Em Rurópolis resolvemos almoçar e começou a romaria pelos restaurantes: Tem peixe? Oh, senhor, hoje não temos. Tem peixe? Acabou! Vocês servem peixe? Não, mas temos galinha caipira, uma delícia! Olhe, não vou lhe iludir, não; por aqui o senhor não acha peixe. Anda que anda e nada de peixe. Resolvemos almoçar assim mesmo. A sortuda fui eu: tinha MAXIXE!!! E daqueles pequenininhos! Huuummmm! Delícia!
Olha o igarapé! Vamos tomar banho? VAMOS!!! Tchibum... tchibum... Desse jeito não há viagem que renda; em cada igarapé paramos para nos banhar nas águas límpidas e refrescantes! Eu saio catando as roupas para lavar: toalha, pano de prato, forro de mesa... Ah, tem mais aquele tapete; está bem sujinho... Pego o tapete. É puro êxtase lavar tapete em igarapé: você ensaboa, sai aquela primeira água marrom, depois bege, depois creme... (lembro-me da Mable; eu e ela sabemos o porquê!) e então as cores aparecem brilhantes e o tapete parece sorrir de tão feliz! E as roupas, então! Ficam perfumadas e macias. Ah! E dispensam amaciante! Ensaboamos as peças e tchibum, tchibum; enxaguamos, colocamos para secar e... tchibum, tchibum, tchibum... A coitadinha da lavadora deve estar se sentindo humilhada: só serve para guardar tapetes.
Saímos de Rurópolis às 13:30. Mais igarapés, mais banhos. E pontes, pontes, pontes! Antes eu tinha receio de passar em pontes de madeira; nem sei por que tinha uma enorme vontade de descer e passar andando; sentia aquele friozinho na barriga! Agora, oh! Não estou nem aí...
Chegamos ao posto Trevão; km 30 (era aqui que eu pensava encontrar novamente a Zilmar; mas esse 30 é o outro, do lado direito do Amazonas – acabei de perguntar para o Eraldo --; o da minha amiga é do lado esquerdo). Os amiguinhos dos jogos vieram correndo: apareceram mais dois: o Flávio e o Augusto. Este cursa o Acelera. Só que o Acelera daqui é da maneira que deveriam ser todos. Quem o cursa são as crianças que têm facilidade de aprendizagem! Assim, SIM! A coisa rende! O Ateilton para voltar à noite teve que trazer a avó a fim de nos conhecer: “A gente tem que conhecer as pessoas, dona. Não podemos deixar irem a qualquer lugar. A gente tem medo que roubem eles...”. Os pais, como eu já disse, mostram aos filhos o valor que têm; FALAM disso na frente deles. O menino, peito estufado, sorrisão no rosto, os olhos brilhantes, olhava-nos todo alegre: “Estão vendo como sou querido?!”.
Sábado, 16/10/10. Acordei com o coro dos passarinhos! “Eu quero um coro de passarinhos...” Lembrei-me da música do Rei! Fui me lembrando do restante da letra e concluí: Estamos vivendo a música, sem dúvida! “Eu quero ter um quintal sem muro...” Em Anã os quintais não tinham muros!” Eu quero ter um milhão de amigos...” Estamos perto! Demos uma volta de trailer com os amiguinhos, compramos panelada (mocotó com bucho de vaca) para o almoço e fomos rumo à balsa de Miritituba para atravessar o Tapajós. Lindo Tapajós! Que pena! Lá de cima vimos a balsa se soltando da plataforma!
--- Pi, pi, piiiiii... O Eraldo buzina. PAROU! A balsa parou para esperar. O encarregado me disse:
--- Vai depressa, dona, tirar a passagem enquanto ele vai entrando...
--- Não vão me deixar para trás?
--- Não tem perigo. Pode ir tranquila! (Pronto. Eu sabia que o tal do trema um dia ia me fazer falta. Eles dizem tranquila – sem o trema, na velha ortografia. Quem foi alfabetizado pelo método fônico? Então, o boizinho fica mudo.)
E o Eraldo, preocupado: “Mas ela tem que ir!”
--- Vá tranquila... Vá tranquila.
E a balsa, cheinha de carros, caminhões, pessoas, ficou esperando por MIM!
Chegamos a Itaituba! Pensei: Será uma ótima oportunidade de desfazer a má impressão que tive desta cidade; afinal, conhecemos pouquíssimos lugares. Da outra vez, na balsa, uma moça nos disse: “Vocês deveriam voltar e conhecer nossas praias. Temos lindas praias por aqui!” Como viram, os anjinhos disseram “amém”! Estacionamos bem perto de uma praia e fomos tomar banho em nosso amigão Tapajós. Havia duas crianças remando um barco de garrafas pet amarradas; os remos eram duas ripas. Pedi aos pais licença para fotografá-las: “Posso? Lembro-me de meu filho!”. Você se lembra, Eraldo Luís? Lá na Matrinchã, você e o Jorge remando uma câmara de ar? Os remos eram paus com litros (latas) de óleo amassados. E você com os dois pés furados, furou um no toco da roça e o outro num pau dentro do rio. Ficou bem bravo: “Acabou a graça da viagem! O que vou fazer com os dois pés furados?”. Apesar dos protestos, calçou os tênis (coisa que dissemos para fazer desde o início e o senhor não quis...) e divertiu-se a valer, remando o barco improvisado! À noite teve febre e o Eraldo foi à cidade mais próxima comprar antibiótico. Quantas lembranças da Matrinchã, um lindo lugar! A Luciana foi lavar vasilhas, acima da cachoeira e deixou rodar um copo: “Ah, mãe! Se pelo menos fosse o furado, mas foi o bom!”. É sempre assim, já notaram? Nunca se quebra aquele que já está trincado... Só o novinho em folha!
Conhecemos um rapaz muito simpático lá no rio que deu-nos várias dicas sobre os melhores lugares para se conhecer. Conversamos até quase escurecer. Falamos sobre botos e outras coisas. Certa hora, olhando o horizonte, ele disse: “
--- Olha ele lá...São dois...
--- Dois o quê?
--- Dois botos. Boiaram bem lá!
Gente, o rapaz falou, como se dissesse: “Olha lá o lambari!”. Como se aquilo fosse a coisa mais comum. E certamente era, para ele que está acostumado. Não, porém, para nós. Fixei os olhos no lugar indicado por ele e ainda vi os danadinhos boiando! Que elegância!
À noite caminhando vimos uma barraquinha com tacacá. “Na volta quero experimentar esse negócio. O povo come com tanto gosto!”. Caminhamos bastante. Chegamos à barraca e pedimos o tacacá. Eu, ansiosa por provar aquele negócio. Fiquei reparando como era servido. Primeiro põe o tucupi (água que sai da mandioca ralada) e as folhas; depois a goma; tucupi de novo; agora o camarão (eu não imaginava que era COM casca...). A moça vendo minha curiosidade desconfia:
--- Você sabe como come, não é?
--- Não é com a colher?
--- Não, não. É com o palito.
E me dá o palito (de dente, aquele palitinho).
Pergunto: “E o caldo que sobra?”. --- Você bebe!
Resultado: Eu comi só as folhas e um pouquinho de camarão. O Eraldo teve que comer o resto. Aquela babinha da goma... não deu, não. Para matar a fome comi uma coisa que parece canjica, mas é bem mais gostosa, esqueci o nome e tomei sorvete de açaí.
Domingo, 17/10/10. Na saída de Itaituba, fazendo compras num supermercado, pudemos comprovar a gentileza e boa vontade do povo nortista. Esquecemo-nos de pesar as frutas. A mocinha do caixa, mesmo percebendo que estávamos em dois:
--- Eu vou pesar para vocês!
E olhem que o corredor era comprido! E era DOMINGO!
Agora é “pegar o oco do mundo”...
UMA PEQUENA EXPLICAÇÃO: Justamente quando eu estava pensando: “Acho que esse negócio de ficar voltando à infância está deixando o blog maçante e enjoativo...”, o Eraldo Luís comenta: “Mãe, não deixe de contar as histórias da infância...” Falou e disse, filhote! Adoro lembrar meu tempo de criança! Vou continuar,SIM!!!
sábado, 23 de outubro de 2010
ANÃ... O PARAÍSO!!!
ATÉ QUE ENFIM... MULATA!!!
Queridos amigos, abandonei vocês. Ontem eu disse que precisava continuar meu relato, estava atrasaaaaaado! O Eraldo: “Você quer que deixemos de ir à praia hoje para escrever?” Pensei... pensei... Deixe de ser mentirosa, mulher! Nem pensei: “NÃO. Nem pensar. Olhe se vou deixar de conhecer essas maravilhas para ficar escrevendo!” E depois, pensem: se não conhecer os lugares lindos... vou contar sobre o quê? E hoje estamos num lugar encantador. Disse ontem para o Eraldo: “Parece que cada praia que conhecemos é mais linda que as outras!!! Essa de hoje!!! Não, não vou pôr o carro na frente dos bois, conto depois... Vocês irão amar!
Ai, ai... Desse jeito não vai render MESMO... Ontem passamos o dia inteiro na praia mais linda de todas! Hoje, continuo de onde parei...
Parei quando íamos rumo à Mulata... Poeira, costela-de-vaca, noite escura como breu, nada de placas e lá vamos nós... Aparecem umas casinhas. Paramos. “Aqui é a Mulata?” “É, sim senhora!” Viva, viva, viva!!! Como é que se vai para Monte Alegre? Aí na frente tem um vê, pega à direita; não tem erro, vai sair lá. Mais à frente, perguntamos: “Não tem nenhum entroncamento?” “Não senhor. Só quase chegando lá.” “Tem placa?” “Não senhor”. E toca a andar na noite escura. Nem acredito que estou vendo as luzes de Monte Alegre! E eu disse que ia colocar a data para não nos perdermos. Dia de eleição, 03/10/10. Estacionamos o trailer perto da Igreja, pois queríamos ir à festa de São Francisco de Assis, padroeiro da cidade (...lá vai Francisquinho, conversando com os passarinhos... Levando nos braços Jesuscristinho! ). Lembram-se dessa poesia? Parece que falta alguma coisa... Esse “conversando com os passarinhos” não “pegou” muito bem... Que festa! Barracas com mil tipos de comida, leilão, parque de diversões e gente... gente que não acaba mais! Será cadê o padre? Disse para o Eraldo, olhando algumas mesas cercadas com uma gradinha: “Se frei Manoel estiver por aí, deve estar ali, na área vip!” Mal acabo de falar, olha o padre, lá no meio do povo: “Que prazer em vê-los, D. Sônia e seu...” Não é que o danado lembrou-se do meu nome? Ele é alegria pura! Conversamos e festamos bastante. À noite, no trailer, recebemos visitas: Juliana, Cristina, seus pais, sua tia e a linda priminha, que nos convidou para tomarmos o café da manhã em sua casa.
Segunda-feira, dia final da festa! De manhã fui à missa. Linda missa! Frei Manoel, como sempre, pregou maravilhosamente bem! Como era” missa do trabalhador”, na hora da oferta esperei o coador xadrez... Não vou rir, não vou rir... Que coador xadrez! Era um lindo cálice de palhinha trançada! No final da missa, frei Manoel disse:
--- Levante a mão quem é daqui!
Muitos levantaram as mãos.
--- Levante a mão quem é das comunidades!
Outros tantos...
--- Levante a mão quem é de GOIÁS!!!
E euzinha: “EU!!!”
Tomamos café na casa dos amigos! À noite, pura animação! Provei a uva-do-amor, achei melhor que a maçã. Provamos outra coisa... da qual não falaremos: vocês verão nas fotos (se um dia elas forem... kkkkkkkkk... acontece que a internet está leeeeenta... e haja paciência! A menina lá de Santarém disse que é para colocá-las num CD e procurar uma lan-house, onde a internet for mais rápida. Vamos tentar). Tomamos também sorvete de tapioca com açaí, mas não chega nem aos pés daquele lá de Goiânia. AQUELE, Rogério, no qual você nos levou, lembra? Naquele dia em que você tomou quase um litro de açaí! Agora, o sorvete de cupuaçu já é outra coisa: pura delícia! Ia me esquecendo de contar que, pela primeira vez, tomamos banho (tomei... o Eraldo já tinha tomado banho naquele dia em que foi rebocado... hehehehehehehe...) no Rio Amazonas. Hum... aguentei apenas uns dez minutos: água marrom, fundo gosmento (parece lama...) e, ainda por cima, os peixinhos beliscando a gente. Não gostei. Que saudade do Tapajós, com suas águas verdes e límpidas!
Quarta-feira, 06/10/10, ainda em Monte Alegre. O rapaz que prometeu arrumar as traves das janelas não veio trabalhar ontem. Aliás, havia muitos estabelecimentos fechados. Motivo: ressaca da festa de SEGUNDA! Fui à feira e comprei camarão para fazer estrogonofe. Perguntei para os homens da limpeza se precisava ferventar. “Não carece, dona. É só fritar e temperar bem, igual frango.” Fomos procurar balsa para Almeirim. “Perguntem para o Sr. Raimundo sobre a balsa do Mestre, a “Ana Maria”. “Não tem outro jeito. Vocês têm que voltar para Santarém”. Voltar para Santarém??? Então me lembro: “Pegaremos a balsa durante o dia!“ Foi uma decepção descer o Rio Amazonas de balsa durante a noite. Não pude contar nada! E a balsa sai para Santarém às 06:00 e 15:00h!!! Oh! Que felicidade! Lá vamos nós de volta. Até Murumuru por uma estrada desconhecida...
E recomeça a novela (narrando tipo “Saramago”. Se ele pode, eu também posso, uai!). Bom-dia! Bom-dia! O senhor pode me explicar como se vai para Murumuru? Por aí não vai, não. A senhora tem que voltar no posto e pegar à esquerda. Vai chegar no Camping. Vejo uma moça na moto, parada na estrada. Moça, por favor, é por aqui que se vai para Murumuru? Vai direto. Chegando no Camping a senhora pergunta. (Vou ter que parar. O teclado está cheinho de poeira. Vou tentar aguentar o calor com os vidros fechados, só com o ventilador... Ah! O que faço por vocês!) E poeira, poeira... poeira vermelha, poeira... poeira do meu sertão; de hoje em diante, sempre que ouvir essa música vou me lembrar do Pará. Ops! Um entroncamento; e agora, José? “Mamãe mandou eu ir por aqui, mas eu sou teimosa...” Ah, meu marido já está craque em adivinhação, pegou a estrada mais batida. E eu pensando: “Como? Não tem nenhuma placa, mesmo”. Nem acabo de pensar... Olha a PLACA!!! Nem quero acreditar! “Eraldo, tem uma PLACA!!!” Placa? Placa? A luz atrapalha ver o que está escrito. O quê? É o cartaz da “Josefina. Acelera Pará”. Hahahahahahaha!!! Gente, eu não conseguia parar de dar risadas! E a danada ganhou!
Aleluia!Camping! Desço. Boa-tarde! Boa-tarde! O senhor pode explicar como chegar em Murumuru? A senhora vai reto, chega num posto. Depois tem um vê, pega às direita. Segue, pega às direita de novo, sempre às direita . Um senhor de idade: Não, não é só à direita... Vou chamar meu marido, acho que é melhor o senhor explicar para ele. É... é melhor lhe chamar que eu lhe explico direitinho! ( Repete tudinho!). E aí o senhor vai com tudo... pega o oco do mundo... vai chegar lá! MURUMURU!!! Que saudade! Passamos em frente à igreja. O Eraldo: “Nosso pouso foi ali”. Cadê o pau com as frutas? Comeram todas! Olhamos a hora:18:33. Fazemos as contas: “Se demoramos duas horas de lá para cá, demoraremos duas de cá para lá.” Também a estrada é loooonga... QUARENTA E UM QUILÔMETROS!!!
Gente! Como o blog está atrasado! Mas, continuar como? Hoje nem fui com o Eraldo fazer caminhada... Fiquei com meus amiguinhos, jogando no computador: o jogo da memória, do bolo, de formar a carinha... Nossa viagem está se tornando uma novela: é tanto vai-e-volta, sobe-e-desce que já nem sei onde estou: se de cá ou de lá do rio (nem me perguntem que rio...) Agora vou dormir, pois está tarde. Queridos filhotes, só queria que vocês estivessem aqui conosco vendo estas MARAVILHAS!!! Lembro-me de vocês o tempo todo! E seu pai: “Eles têm muito tempo ainda! E terão muitas oportunidades!” Eu sei disso, mas sinto saudades! Beijos mil!
Não estou dizendo que o blog está atrasado??? Já estamos a 19/10, e o danado está ainda em 6/10??? Ui, ui, ui... Achei que estava mais à frente! Estamos em meio à Transamazônica, num lugar chamado Km 180, isto é, a 180 km de Humaitá, onde pegaremos a balsa para... Ei, mas estou pondo, de novo, o carro adiante dos bois... Essa parte vem DEPOIS... Vou tomar banho e depois pegar firme na escrita, já que aqui não tem internet e nem pega celular; ah, e os orelhões não funcionam, pelo menos três. Dos quatro que há aqui na comunidade só um funciona “Mas a fila é enorme”, disse o rapazinho do posto... Desisti.
Continuação do dia 06/10, quarta-feira. Chegamos à balsa. A fila de caminhões é enorme. Sempre tem aquele que quer dirigir todo mundo: ”Cadê teu marido? Diga pra ele entrar logo na fila, senão vocês ficam. Vocês chegaram primeiro do que aquele caminhão... olhe, ele já está indo...” “Uai, porque já estão entrando? A balsa não sai amanhã?” “Sim, mas já fica carregada; ela sai às 5:00h” “Cinco?”, penso,” mas ainda está escuro. É... logo clareia e verei as lindas paisagens!” Saio procurando o Eraldo que chega meio desconsolado: “Vamos ter que aguardar, eles dão prioridade para os caminhões.” O rapaz continua passando informações: “Dorme todo mundo lá dentro! Tem tudo lá: banheiros, comida, lugar de armar rede...” “Que legal! Nunca dormi numa balsa!”. E toca a entrar caminhões... mais um, mais outro... ainda outro... O Eraldo: “É... Acho que podemos armar nosso pouso por aqui. O cara da balsa disse que ainda tem que reservar o lugar para um ônibus...” Essa não! De repente o rapaz acena para o Eraldo entrar com o trailer. Que emoção! Já nem esperávamos por isto! Que alegria!O trailer vai entrando... Será que vai caber nesse buraquinho? E o ônibus? Entrou! Atravessar novamente! E desta vez de dia! Vou ter muito que contar... São mais de duas horas de travessia; na verdade, não é só atravessar, é subir o Rio Amazonas! Entram todos os carros. Os motoristas conversam eufóricos! Olho aquele povo MUITO alegre: “O que aconteceu?” “Aconteceu que vamos sair agora. Completou a carga!” “Sair AGORA? Essa não! Outra vez à NOITE? E o que eu vou ter para contar?” Que decepção! Na balsa o Eraldo aproveita e abre seus e-mails; a 3G funcionou beleza!
Quinta-feira, 07/10. Saímos à procura de balsa: “Procurem o Mestre, da balsa Ana Maria.” Descobrimos que a balsa saiu ontem; agora só na quarta. Uma semana esperando a balsa? Mas não estamos com pressa e Santarém tem lugares lindíssimos para se conhecer! O Eraldo manda olhar o carro que está com um probleminha. O dono da oficina, um senhor muito simpático, vai logo dizendo (até agora não sei se foi brincadeira...): ”Menino, acontece que o óleo Diesel daqui tem 50% de água”. E ainda ironiza: “Já vem na balsa, não é mesmo? Contamina.” Ele indica outra oficina. Que sorte a nossa! Lá conhecemos o Santana e a Eliene, amigos queridos que nos indicaram as praias de Belterra! Ao lado da oficina, uma lanchonete. Vamos tomar um suco e conhecemos outra amiga, Joselany, que morou em Anápolis. Conversa vai, conversa vem, contamos que ficaremos uma semana à espera da balsa. Ela diz: “Ah, se vocês pudessem ir com minha tia poderiam conhecer uma comunidade que fica às margens do Rio Arapiuns; é lindo o lugar! O barco vai amanhã e volta no domingo”. Ficamos empolgados e marcamos para encontrar a tia após o almoço. Na hora marcada só encontramos a sobrinha que nos diz que a tia só poderá ir na segunda; então o barco voltaria na quarta, o que não daria para nós (por causa da tal da balsa do Mestre). Fazer o quê?
Quase três horas da tarde. Temos que aproveitar o dia. Vamos para Belterra? VAMOS!!! Praia do Pindobal! Incrível!Penso: Os habitantes que aqui vivem, principalmente às margens do Tapajós, não comeram a maçã: continuam no PARAÍSO!!! Tomamos banho naquela água límpida e aconchegante, lavamos roupa, estendemos em cima das palhoças e vamos fazer caminhada na praia... Aqui ninguém pega nada de ninguém: você pode deixar roupas, pertences, até a máquina fotográfica e sair. NINGUÉM mexe! Parece que a praia é só nossa; um ou outro pescador... Na volta vejo os peixinhos pulando, mas pulando alto. Acho a maior graça! Encontramos um pescador e perguntamos:
--- Que peixinho é esse? A gente come?
--- Não; não. Ele é chamado de fedorento.
--- Que tamanho? – pergunto.
E o pescador, esticando a mão esquerda, coloca o dedo direito no pulso esquerdo (é assim que eles mostram o tamanho dos peixes, usando como medida a mão e até o braço, quando necessário) e diz:
--- É assinzinho.
Olhem a gracinha! Assinzinho! Ah, Lu, não parece o seu Guiminha... “o pobrinho do ratinho...”?
Digam com toda sinceridade: Não soa melhor do que “pequenino assim”? Assinzinho! Que jeito doce de falar!
Dormimos lá mesmo, ao lado da praia, em frente a uma casinha.
A INCRÍVEL COMUNIDADE ANÃ!
Chegando a Santarém liguei para nossa amiga Joselany somente para avisar que na segunda não daria para irmos até a comunidade. Ela respondeu:
--- Pois é, menina, minha tia arrumou tudo e vai hoje, pois amanhã será o aniversário de seu netinho; já estou fazendo o bolo. Se vocês quiserem ir...
--- Nossa! Queremos demais! A gente precisa estar aqui na segunda.
Fui para a sua casa. De lá sairíamos para o barco. O bolo estava na mesa, ainda peladinho de tudo. Pensei: “Não vai dar tempo confeitar o bolo; vou oferecer minha ajuda! Já ajudei a Lu a confeitar até o bolo do pai Leobino...”. Ainda bem que não me ofereci para ajudá-la; a moça é profissional, confeita até bolos de casamento! Fiquei conversando com a Rúbia (a tia)... Quando olhei para o bolo... que susto! Já estava pronto! Aquele bolo imenso! Falei, espantada: “ESTE bolo vai no barco? E chega inteiro?” “Chega sim – disse a Rúbia – já levei outras vezes.” Saímos, pegamos um táxi, o calor de derreter tudo, e a minha amiga, firme, carregando o bolo. Chegando ao barco, tinha uma praia, e a Rúbia carregando o bolo: pisa aqui, pisa ali, meio que tropeça... ui, ui, ui...e eu não tirava os olhos do bolo... Vai cair, vai cair... nossa! Pensei em pedir para carregá-lo um pouco, pois devia estar beeem pesado... Porém, vocês que me conhecem: filhos, irmãos, alunos... já sabem onde iria parar o bolo se chegasse às minhas “delicadas” mãozinhas!
Esperamos o barquinho que nos levaria ao barco grande... Eu SEMPRE preocupada com o bolo! “Como será que ele vai, se o barquinho sobe e desce balançando sobre as ondas?” Embarcamos; não foi muito fácil: um ajuda daqui, outro dali, e lá vamos... O velho do barquinho, danado da vida: “Pois é, dona, o povo reclama que eu ganho dinheiro fácil só porque cobro um real para levar as pessoas ao barco. Com este solão! Ontem mesmo, arraia ferroou dois porque preferiram ir andando dentro d’água. E aí tiveram que pagar táxi, hospital e remédios. Só porque não quiseram pagar um real...” Entramos no barco grande. Com tantas novidades... tinha me esquecido do bolo:
--- Cadê o bolo, gente? Onde foi parar?
--- Ela está preocupada com o bolo! Já colocaram ali. Olhe lá!
Lá estava ele: majestoso, perfeito em cima da mesa! Firme, firme! Nem tinha perigo de cair; a mesa do barco tem uma borda que impede as coisas de caírem... O bolo salvo, posso apreciar a viagem!
O barco demora a sair. É que ainda espera por passageiros. Nesse barco é assim: se você precisa se atrasar, é só ligar; todos esperam na maior paciência! Ninguém reclama; aproveita-se para prosear e fazer amizades! Até que enfim saímos! Olhe lá, olhe lá! O quê é? É o barco grande que imprensou um pequeno. Corro para ver. Nossa! É perigoso? Não, não, já se solta...Procuro nossas sacolas e me informam: “Os bagulhos de vocês vão embaixo. O rapaz já marcou.” O Eraldo diz:
--- Nós não pagamos a passagem (R$ 10,00). Ou você pagou?
--- Eu não. Nem tenho dinheiro!
--- Que hora a gente paga a passagem?
--- Na hora em que você quiser.
Alguém no celular, com aquela voz cantada: ”... não vai ficar aperriada, não...”. Um barquinho vai a reboque, parece que o pai vai puxando o filhinho... Estamos no Rio Tapajós, pura maravilha! A água de um verde impressionante! Limpíssima!
--- Quer almoçar? – pergunta minha amiga. O preço é R$ 3,00.
--- Não. Vamos deixar para comer quando chegar.
--- Daqui para lá a gente paga o almoço; de lá para cá não paga nada, é de graça!
--- Por quê? – perguntamos, intrigados.
--- Decerto é porque daqui para lá as pessoas têm dinheiro (muitos vão receber aposentadoria ou pensão). De lá para cá vêm sem nada; já gastaram tudo.
Achamos a maior graça nesse arranjo, mas tem muita lógica!
Meninos, seu pai aqui é o conversador; acho até que conversa mais que eu (é possível SIM!). As pessoas dizem: “Seu marido gosta dum papo, heim?” Sempre penso: “Gostaria tanto que nossos filhos estivessem aqui, vendo e vivendo todas estas maravilhas!”
--- Todo mundo pra frente. Todo mundo pra frente!
--- Para ver o quê? --- pergunto eufórica! Que novidade será agora? --- Corro para frente.
--- É para pesar a proa porque o rio aqui está raso. (Proa é a parte da frente; a de trás é popa. Já estou bem entendida sobre barcos! Já não sou mais aquela ignorantona dos primeiros dias!)
Resolvo exibir minha sabedoria para uma amiga que conheci no barco.
--- Ontem fomos à praia do Pindobal e vimos um peixinho pequeno e comprido que é chamado de “fedorento”.
--- Ah! A gente o chama de “filhote do boto”.
--- Mas não serve para comer... (Isso o barqueiro já tinha me falado).
--- Não, não. É muito pitiú.
Humildemente, pergunto (já que não tinha outro jeito de saber...):
--- E o que é pitiú?
--- Pitiú??? Pitiú é pixéu!
--- E pitiú é fedido?
--- Pitiú é muito pixéu.
Entenderam? Pitiú é pixéu e pixéu é pitiú... Hahahahaha...Se quiserem, consultem o “Aurélio”... Eu já me cansei.
O Eraldo está numa animadíssima conversa com uma senhora sobre como funciona a comunicação na comunidade. Não há correio. O correio de Santarém comunica-se com a rádio e ela avisa: “Fulano de tal, há uma carta para você em Santarém.” Se o destinatário tiver telefone, a agência do correio telefona avisando. Achei o máximo e dei uma gargalhada! Senti uma pisada no pé. E o Eraldo me diz discretamente: “Eles pensam que você está criticando...” Ih!, é mesmo! Já na comunidade, explico-lhes que minhas risadas não são de crítica... é que acho interessante seu jeito tão diferente de falar e viver! A pisada no pé me fez lembrar de quem??? São capazes de adivinhar? Da Marlucy, quando criança, lá na fazenda. Coitada! Acho que seu pezinho ficava até vermelho de tanto que eu o pisava. Só que era pior: “Tia! Pra que você está pisando no meu pé?” Era uma graça! Uma graça agora, que passou; naquele tempo era um vexame!
ISTO É O PARAÍSO?!
Chegamos à Comunidade de Anã. Uma verdadeira jóia às margens do Arapiuns! Diz a lenda que havia um bicho que aparecia no Rio Arapiuns; era o Muanã, bicho da água. Daí o nome da comunidade. Que acolhida maravilhosa! O genro e uma filha da Rúbia, a Débora, já vêm, no barco pequeno, para nos buscar. Somos apresentados à sua linda família, linda e numerosa!Os filhos: Rudson, Remerson, Ruberson, Raquel, Raiana, Rebeca, Iara, Débora, Milena, Wallace, Willian; os genros: Eloilson e Fábio; os netinhos: Kathleen, Isaac, Rayllan e Rubens. E ainda sobrinhos que moram perto. Como descrever Anã?! É impossível. Acho que o Eraldo disse tudo ao ligar para o Vanderlon: “Estamos no paraíso! Aqui nunca pisou um carro... Só moto...” Nossa guia, a Milena, diz: ”Nem moto, só bicicleta”. Na verdade, há UMA moto! A Milena foi designada para nos mostrar a Comunidade. Paramos para catar uma frutinha, meri, pequenina e doce. O Eraldo, só fotografando a meninada, que corria ao perceber a câmera, cada um queria fazer sua pose, são poucos os tímidos. E nossa guia mostrando tudo: “Ali a escola, lá o campo dos homens, o outro é o das mulheres (não diz “das mulher”, mas “das mulheres”)” Nessa comunidade de 83 famílias tem escola de ensino fundamental e médio. Em todos os lugares por onde passamos notamos as muitas escolas e transportes escolares.
Pensem numa verdadeira acolhida. Eles colocam a casa completamente à nossa disposição. “Onde coloco estas sacolas, Rúbia?” “Onde a senhora quiser”. Chega com a vasilha cheia de peixes temperados: “Seu Eraldo, como o senhor prefere o peixe? Frito? Assado? Caldeirada? É só falar que faço do seu gosto!” “Menino, vá comprar a tapioca, quero fazer o beiju para a dona Sônia...” E eu: “Rúbia, se não achar não se preocupe...” Mas pensava: “Tomara que ache! Quero meu beiju.” Não foi fácil, mas achou! Chega a hora de dormir. “Vocês preferem dormir na rede?” “Sim. SIM!”, digo. Só não disse para ninguém que eu nunca havia dormido em rede. Nem o Eraldo sabia disso. Senão iriam me oferecer cama. Lá fomos dormir embaixo da mangueira. Demorei um pouco para ajeitar o corpo naquela posição (eu, que quase sempre durmo de costas e bem esticada). Mas consegui dormir. No dia seguinte ao contar o fato de ser minha primeira vez numa rede: “Nossa! Deve estar com o corpo todo doendo!” Não estava; descansei bem! Na segunda noite, então, dormi como um anjo!
Que coisa linda acordar debaixo de uma mangueira, olhando o céu e as folhas se movendo ao vento! Fomos caminhar na praia. Andamos e andamos... nem vimos o tempo passar! “Olhe uma casa – disse o Eraldo – vamos lá?” “Vamos!” Era uma fazenda. A família nos recebeu na maior alegria e proseamos bastante, até descobrir que já estava tarde: “Vamos voltar rápido. A Rúbia está esperando com o café pronto e os beijus...”O beiju saboroso! Lembrei-me do beiju da vó Anália! Depois do café, a Rúbia nos chama para mostrar as fotos dos filhos. Que linguagem doce: “Essa é aquelazinha que vocês viram ontem; essa é aquela umazinha; e o outrozinho...” Chega o genro, o Eloilson, para cortar os cabelos das meninas. É um verdadeiro profissional! Tiro fotos. “Agora tira de mim com o nenê. Vem tu também com o outro nenê. Tira a toalha dele; põe aí no seu pingote...”
À tarde é hora do banho no rio. É muito interessante! Os irmãos que sabem nadar vão levando os pequenos que ainda não nadam. Quando se cansam ou enjoam de carregá-los, deixam-nos, com água até acima do umbigo, se esguelando lá, no meio do rio, e se mandam para o fundo. “Ele vai se afogar – grito!” “Não tem perigo, dona Sônia, ele sabe até onde pode ir.” O Eraldo se preocupa e sai atrás do guri; quando vê, ele já está correndo pela praia. “Não morre criança afogada por aqui?” “Não. Nunca morreu nenhuma. Elas sabem que não podem ir mais para fora.” Para fora é para o fundo! Achei uma graça! No começo, a Milena dizia: “Vamos para fora.” Eu ia saindo, e ela: “Não, dona Sônia, lá fora é melhor!” E ia andando para o fundo.
O sobrinho, Flamenguinho (apelido colocado pelo SÁBIO pai), de três anos, ainda não sabe nadar. Se sente vontade, vai para o rio se banhar (SOZINHO!). Chega à praia, tira a cueca, joga no chão, e tchibum... tchibum... banha até enjoar e volta peladinho para casa, que fica bem perto do rio; quer banhar-se de novo, volta para o rio, tira a cueca, joga na praia e tchibum... volta peladinho... A avó o faz voltar e ele chega: “Cadê minhas cueca? Cadê minhas cueca?” E sai catando as cuecas pela praia. Tirei uma foto dele. Ia correndo, rodando as cuecas nas mãos e eu: “Espere aí, Flamenguinho, quero tirar uma foto. Não passe as cuecas para uma só mão; uma em cada mão!” Então percebi que ele queria era fazer uma pose! Ficou lindinho! À tarde houve a sessão de fotos na praia. As meninas queriam fazer todas as poses! O cabelo assim e assim... Sentadas na pedra, no meio do rio, correndo pela praia. São lindas garotas, naturalmente bronzeadas, a pele sedosa, lindos cabelos! Queria tanto ser uma fotógrafa experiente para fazer justiça à beleza das pessoas e da paisagem! Mas tentei com fervor!
Sábado, 09/10.Festa de aniversário! E o bolo lá... É...AQUELE bolo tão viajado! Perfeitinho, enfeita a mesa e desperta o apetite da meninada! É o aniversário do netinho da nossa amiga, o Rayllan. É notável a educação das crianças! Não se adiantam para pegar as gulodices; esperam sentadinhas, enquanto são servidas. “Por que não colocam salada para as crianças?” “Porque elas não gostam!” Percebemos que as crianças daqui são muito alegres, obedientes, educadas e, sobretudo, livres, livres, LIVRES! Comentando sobre o Flamenguinho, eu disse: “Ele é bem levadinho, não é?” E Rúbia responde: “Ele é uma bênção!” As crianças são bênçãos! De tanto serem consideradas assim, assim se tornam! Os pais, geralmente, não se irritam e nem gritam com os filhos. A família convive em perfeita harmonia (e, olhem, são muitas pessoas numa casa!). À tardinha, varrem o quintal, limpam a casa e na porta colocam um grande tapete. Quem entra, deixa os sapatos do lado de fora. Eu, em minha crônica distração, entro de chinelo e tudo; o Eraldo percebe, dá um sinal... eu disfarço (daquele jeito todo meu de disfarçar), dou uma voltinha pela sala, saio e entro de novo de pezinhos no chão, o que adoro! A casa está sempre limpinha, as vasilhas de alumínio areadas, tudo no mais completo asseio. Na hora das refeições, minha amiga serve primeiro as visitas, depois os filhos; só quando todos estão bem servidos, ela começa a se servir. E não adianta insistir... seu jeito é esse!
Para o aniversário, a Rúbia fez vatapá. Simplesmente delicioso! Peço a receita. Ela me passa.
--- Rúbia, o que é aquela coisa que todo mundo fica comendo, numa cuinha preta?
--- É o tacacá. Muito saboroso!
--- É fácil de fazer?
--- Eu lhe ensino.Com todos os detalhes! Vá anotando. Passe a mandioca no ralador. Você sabe o que é ralador?
--- Sei. Já ajudei minha avó fazer farinha!
--- Coloca a massa no tipiti.
--- O que é isso?
--- É uma coisa comprida, feita de palha trançada que serve para escorrer a massa.
--- Ah! Sei. Lá em Goiás a gente fala sucuri.
--- Põe o tucupi na vasilha...
--- O que é tucupi?
--- Tucupi é aquela água que fica por cima da tapioca... A água que sai da mandioca... a tapioca assenta no fundo e o tucupi fica por cima. Põe o tucupi na panela e dissolve, formando a goma (como a goma que usávamos para fazer pipa). Tempere bem a goma.
--- E aí vira o tacacá?
--- Não, não. O tacacá é o prato pronto. Pegue a cuia, coloque o tucupi, depois a goma, tucupi de novo, aí vem o camarão. Está pronto o tacacá!
Queridas amigas, cuidado se forem testar a receita, pois é tanta complicação que posso ter errado alguma coisa...
Queridos amigos, abandonei vocês. Ontem eu disse que precisava continuar meu relato, estava atrasaaaaaado! O Eraldo: “Você quer que deixemos de ir à praia hoje para escrever?” Pensei... pensei... Deixe de ser mentirosa, mulher! Nem pensei: “NÃO. Nem pensar. Olhe se vou deixar de conhecer essas maravilhas para ficar escrevendo!” E depois, pensem: se não conhecer os lugares lindos... vou contar sobre o quê? E hoje estamos num lugar encantador. Disse ontem para o Eraldo: “Parece que cada praia que conhecemos é mais linda que as outras!!! Essa de hoje!!! Não, não vou pôr o carro na frente dos bois, conto depois... Vocês irão amar!
Ai, ai... Desse jeito não vai render MESMO... Ontem passamos o dia inteiro na praia mais linda de todas! Hoje, continuo de onde parei...
Parei quando íamos rumo à Mulata... Poeira, costela-de-vaca, noite escura como breu, nada de placas e lá vamos nós... Aparecem umas casinhas. Paramos. “Aqui é a Mulata?” “É, sim senhora!” Viva, viva, viva!!! Como é que se vai para Monte Alegre? Aí na frente tem um vê, pega à direita; não tem erro, vai sair lá. Mais à frente, perguntamos: “Não tem nenhum entroncamento?” “Não senhor. Só quase chegando lá.” “Tem placa?” “Não senhor”. E toca a andar na noite escura. Nem acredito que estou vendo as luzes de Monte Alegre! E eu disse que ia colocar a data para não nos perdermos. Dia de eleição, 03/10/10. Estacionamos o trailer perto da Igreja, pois queríamos ir à festa de São Francisco de Assis, padroeiro da cidade (...lá vai Francisquinho, conversando com os passarinhos... Levando nos braços Jesuscristinho! ). Lembram-se dessa poesia? Parece que falta alguma coisa... Esse “conversando com os passarinhos” não “pegou” muito bem... Que festa! Barracas com mil tipos de comida, leilão, parque de diversões e gente... gente que não acaba mais! Será cadê o padre? Disse para o Eraldo, olhando algumas mesas cercadas com uma gradinha: “Se frei Manoel estiver por aí, deve estar ali, na área vip!” Mal acabo de falar, olha o padre, lá no meio do povo: “Que prazer em vê-los, D. Sônia e seu...” Não é que o danado lembrou-se do meu nome? Ele é alegria pura! Conversamos e festamos bastante. À noite, no trailer, recebemos visitas: Juliana, Cristina, seus pais, sua tia e a linda priminha, que nos convidou para tomarmos o café da manhã em sua casa.
Segunda-feira, dia final da festa! De manhã fui à missa. Linda missa! Frei Manoel, como sempre, pregou maravilhosamente bem! Como era” missa do trabalhador”, na hora da oferta esperei o coador xadrez... Não vou rir, não vou rir... Que coador xadrez! Era um lindo cálice de palhinha trançada! No final da missa, frei Manoel disse:
--- Levante a mão quem é daqui!
Muitos levantaram as mãos.
--- Levante a mão quem é das comunidades!
Outros tantos...
--- Levante a mão quem é de GOIÁS!!!
E euzinha: “EU!!!”
Tomamos café na casa dos amigos! À noite, pura animação! Provei a uva-do-amor, achei melhor que a maçã. Provamos outra coisa... da qual não falaremos: vocês verão nas fotos (se um dia elas forem... kkkkkkkkk... acontece que a internet está leeeeenta... e haja paciência! A menina lá de Santarém disse que é para colocá-las num CD e procurar uma lan-house, onde a internet for mais rápida. Vamos tentar). Tomamos também sorvete de tapioca com açaí, mas não chega nem aos pés daquele lá de Goiânia. AQUELE, Rogério, no qual você nos levou, lembra? Naquele dia em que você tomou quase um litro de açaí! Agora, o sorvete de cupuaçu já é outra coisa: pura delícia! Ia me esquecendo de contar que, pela primeira vez, tomamos banho (tomei... o Eraldo já tinha tomado banho naquele dia em que foi rebocado... hehehehehehehe...) no Rio Amazonas. Hum... aguentei apenas uns dez minutos: água marrom, fundo gosmento (parece lama...) e, ainda por cima, os peixinhos beliscando a gente. Não gostei. Que saudade do Tapajós, com suas águas verdes e límpidas!
Quarta-feira, 06/10/10, ainda em Monte Alegre. O rapaz que prometeu arrumar as traves das janelas não veio trabalhar ontem. Aliás, havia muitos estabelecimentos fechados. Motivo: ressaca da festa de SEGUNDA! Fui à feira e comprei camarão para fazer estrogonofe. Perguntei para os homens da limpeza se precisava ferventar. “Não carece, dona. É só fritar e temperar bem, igual frango.” Fomos procurar balsa para Almeirim. “Perguntem para o Sr. Raimundo sobre a balsa do Mestre, a “Ana Maria”. “Não tem outro jeito. Vocês têm que voltar para Santarém”. Voltar para Santarém??? Então me lembro: “Pegaremos a balsa durante o dia!“ Foi uma decepção descer o Rio Amazonas de balsa durante a noite. Não pude contar nada! E a balsa sai para Santarém às 06:00 e 15:00h!!! Oh! Que felicidade! Lá vamos nós de volta. Até Murumuru por uma estrada desconhecida...
E recomeça a novela (narrando tipo “Saramago”. Se ele pode, eu também posso, uai!). Bom-dia! Bom-dia! O senhor pode me explicar como se vai para Murumuru? Por aí não vai, não. A senhora tem que voltar no posto e pegar à esquerda. Vai chegar no Camping. Vejo uma moça na moto, parada na estrada. Moça, por favor, é por aqui que se vai para Murumuru? Vai direto. Chegando no Camping a senhora pergunta. (Vou ter que parar. O teclado está cheinho de poeira. Vou tentar aguentar o calor com os vidros fechados, só com o ventilador... Ah! O que faço por vocês!) E poeira, poeira... poeira vermelha, poeira... poeira do meu sertão; de hoje em diante, sempre que ouvir essa música vou me lembrar do Pará. Ops! Um entroncamento; e agora, José? “Mamãe mandou eu ir por aqui, mas eu sou teimosa...” Ah, meu marido já está craque em adivinhação, pegou a estrada mais batida. E eu pensando: “Como? Não tem nenhuma placa, mesmo”. Nem acabo de pensar... Olha a PLACA!!! Nem quero acreditar! “Eraldo, tem uma PLACA!!!” Placa? Placa? A luz atrapalha ver o que está escrito. O quê? É o cartaz da “Josefina. Acelera Pará”. Hahahahahahaha!!! Gente, eu não conseguia parar de dar risadas! E a danada ganhou!
Aleluia!Camping! Desço. Boa-tarde! Boa-tarde! O senhor pode explicar como chegar em Murumuru? A senhora vai reto, chega num posto. Depois tem um vê, pega às direita. Segue, pega às direita de novo, sempre às direita . Um senhor de idade: Não, não é só à direita... Vou chamar meu marido, acho que é melhor o senhor explicar para ele. É... é melhor lhe chamar que eu lhe explico direitinho! ( Repete tudinho!). E aí o senhor vai com tudo... pega o oco do mundo... vai chegar lá! MURUMURU!!! Que saudade! Passamos em frente à igreja. O Eraldo: “Nosso pouso foi ali”. Cadê o pau com as frutas? Comeram todas! Olhamos a hora:18:33. Fazemos as contas: “Se demoramos duas horas de lá para cá, demoraremos duas de cá para lá.” Também a estrada é loooonga... QUARENTA E UM QUILÔMETROS!!!
Gente! Como o blog está atrasado! Mas, continuar como? Hoje nem fui com o Eraldo fazer caminhada... Fiquei com meus amiguinhos, jogando no computador: o jogo da memória, do bolo, de formar a carinha... Nossa viagem está se tornando uma novela: é tanto vai-e-volta, sobe-e-desce que já nem sei onde estou: se de cá ou de lá do rio (nem me perguntem que rio...) Agora vou dormir, pois está tarde. Queridos filhotes, só queria que vocês estivessem aqui conosco vendo estas MARAVILHAS!!! Lembro-me de vocês o tempo todo! E seu pai: “Eles têm muito tempo ainda! E terão muitas oportunidades!” Eu sei disso, mas sinto saudades! Beijos mil!
Não estou dizendo que o blog está atrasado??? Já estamos a 19/10, e o danado está ainda em 6/10??? Ui, ui, ui... Achei que estava mais à frente! Estamos em meio à Transamazônica, num lugar chamado Km 180, isto é, a 180 km de Humaitá, onde pegaremos a balsa para... Ei, mas estou pondo, de novo, o carro adiante dos bois... Essa parte vem DEPOIS... Vou tomar banho e depois pegar firme na escrita, já que aqui não tem internet e nem pega celular; ah, e os orelhões não funcionam, pelo menos três. Dos quatro que há aqui na comunidade só um funciona “Mas a fila é enorme”, disse o rapazinho do posto... Desisti.
Continuação do dia 06/10, quarta-feira. Chegamos à balsa. A fila de caminhões é enorme. Sempre tem aquele que quer dirigir todo mundo: ”Cadê teu marido? Diga pra ele entrar logo na fila, senão vocês ficam. Vocês chegaram primeiro do que aquele caminhão... olhe, ele já está indo...” “Uai, porque já estão entrando? A balsa não sai amanhã?” “Sim, mas já fica carregada; ela sai às 5:00h” “Cinco?”, penso,” mas ainda está escuro. É... logo clareia e verei as lindas paisagens!” Saio procurando o Eraldo que chega meio desconsolado: “Vamos ter que aguardar, eles dão prioridade para os caminhões.” O rapaz continua passando informações: “Dorme todo mundo lá dentro! Tem tudo lá: banheiros, comida, lugar de armar rede...” “Que legal! Nunca dormi numa balsa!”. E toca a entrar caminhões... mais um, mais outro... ainda outro... O Eraldo: “É... Acho que podemos armar nosso pouso por aqui. O cara da balsa disse que ainda tem que reservar o lugar para um ônibus...” Essa não! De repente o rapaz acena para o Eraldo entrar com o trailer. Que emoção! Já nem esperávamos por isto! Que alegria!O trailer vai entrando... Será que vai caber nesse buraquinho? E o ônibus? Entrou! Atravessar novamente! E desta vez de dia! Vou ter muito que contar... São mais de duas horas de travessia; na verdade, não é só atravessar, é subir o Rio Amazonas! Entram todos os carros. Os motoristas conversam eufóricos! Olho aquele povo MUITO alegre: “O que aconteceu?” “Aconteceu que vamos sair agora. Completou a carga!” “Sair AGORA? Essa não! Outra vez à NOITE? E o que eu vou ter para contar?” Que decepção! Na balsa o Eraldo aproveita e abre seus e-mails; a 3G funcionou beleza!
Quinta-feira, 07/10. Saímos à procura de balsa: “Procurem o Mestre, da balsa Ana Maria.” Descobrimos que a balsa saiu ontem; agora só na quarta. Uma semana esperando a balsa? Mas não estamos com pressa e Santarém tem lugares lindíssimos para se conhecer! O Eraldo manda olhar o carro que está com um probleminha. O dono da oficina, um senhor muito simpático, vai logo dizendo (até agora não sei se foi brincadeira...): ”Menino, acontece que o óleo Diesel daqui tem 50% de água”. E ainda ironiza: “Já vem na balsa, não é mesmo? Contamina.” Ele indica outra oficina. Que sorte a nossa! Lá conhecemos o Santana e a Eliene, amigos queridos que nos indicaram as praias de Belterra! Ao lado da oficina, uma lanchonete. Vamos tomar um suco e conhecemos outra amiga, Joselany, que morou em Anápolis. Conversa vai, conversa vem, contamos que ficaremos uma semana à espera da balsa. Ela diz: “Ah, se vocês pudessem ir com minha tia poderiam conhecer uma comunidade que fica às margens do Rio Arapiuns; é lindo o lugar! O barco vai amanhã e volta no domingo”. Ficamos empolgados e marcamos para encontrar a tia após o almoço. Na hora marcada só encontramos a sobrinha que nos diz que a tia só poderá ir na segunda; então o barco voltaria na quarta, o que não daria para nós (por causa da tal da balsa do Mestre). Fazer o quê?
Quase três horas da tarde. Temos que aproveitar o dia. Vamos para Belterra? VAMOS!!! Praia do Pindobal! Incrível!Penso: Os habitantes que aqui vivem, principalmente às margens do Tapajós, não comeram a maçã: continuam no PARAÍSO!!! Tomamos banho naquela água límpida e aconchegante, lavamos roupa, estendemos em cima das palhoças e vamos fazer caminhada na praia... Aqui ninguém pega nada de ninguém: você pode deixar roupas, pertences, até a máquina fotográfica e sair. NINGUÉM mexe! Parece que a praia é só nossa; um ou outro pescador... Na volta vejo os peixinhos pulando, mas pulando alto. Acho a maior graça! Encontramos um pescador e perguntamos:
--- Que peixinho é esse? A gente come?
--- Não; não. Ele é chamado de fedorento.
--- Que tamanho? – pergunto.
E o pescador, esticando a mão esquerda, coloca o dedo direito no pulso esquerdo (é assim que eles mostram o tamanho dos peixes, usando como medida a mão e até o braço, quando necessário) e diz:
--- É assinzinho.
Olhem a gracinha! Assinzinho! Ah, Lu, não parece o seu Guiminha... “o pobrinho do ratinho...”?
Digam com toda sinceridade: Não soa melhor do que “pequenino assim”? Assinzinho! Que jeito doce de falar!
Dormimos lá mesmo, ao lado da praia, em frente a uma casinha.
A INCRÍVEL COMUNIDADE ANÃ!
Chegando a Santarém liguei para nossa amiga Joselany somente para avisar que na segunda não daria para irmos até a comunidade. Ela respondeu:
--- Pois é, menina, minha tia arrumou tudo e vai hoje, pois amanhã será o aniversário de seu netinho; já estou fazendo o bolo. Se vocês quiserem ir...
--- Nossa! Queremos demais! A gente precisa estar aqui na segunda.
Fui para a sua casa. De lá sairíamos para o barco. O bolo estava na mesa, ainda peladinho de tudo. Pensei: “Não vai dar tempo confeitar o bolo; vou oferecer minha ajuda! Já ajudei a Lu a confeitar até o bolo do pai Leobino...”. Ainda bem que não me ofereci para ajudá-la; a moça é profissional, confeita até bolos de casamento! Fiquei conversando com a Rúbia (a tia)... Quando olhei para o bolo... que susto! Já estava pronto! Aquele bolo imenso! Falei, espantada: “ESTE bolo vai no barco? E chega inteiro?” “Chega sim – disse a Rúbia – já levei outras vezes.” Saímos, pegamos um táxi, o calor de derreter tudo, e a minha amiga, firme, carregando o bolo. Chegando ao barco, tinha uma praia, e a Rúbia carregando o bolo: pisa aqui, pisa ali, meio que tropeça... ui, ui, ui...e eu não tirava os olhos do bolo... Vai cair, vai cair... nossa! Pensei em pedir para carregá-lo um pouco, pois devia estar beeem pesado... Porém, vocês que me conhecem: filhos, irmãos, alunos... já sabem onde iria parar o bolo se chegasse às minhas “delicadas” mãozinhas!
Esperamos o barquinho que nos levaria ao barco grande... Eu SEMPRE preocupada com o bolo! “Como será que ele vai, se o barquinho sobe e desce balançando sobre as ondas?” Embarcamos; não foi muito fácil: um ajuda daqui, outro dali, e lá vamos... O velho do barquinho, danado da vida: “Pois é, dona, o povo reclama que eu ganho dinheiro fácil só porque cobro um real para levar as pessoas ao barco. Com este solão! Ontem mesmo, arraia ferroou dois porque preferiram ir andando dentro d’água. E aí tiveram que pagar táxi, hospital e remédios. Só porque não quiseram pagar um real...” Entramos no barco grande. Com tantas novidades... tinha me esquecido do bolo:
--- Cadê o bolo, gente? Onde foi parar?
--- Ela está preocupada com o bolo! Já colocaram ali. Olhe lá!
Lá estava ele: majestoso, perfeito em cima da mesa! Firme, firme! Nem tinha perigo de cair; a mesa do barco tem uma borda que impede as coisas de caírem... O bolo salvo, posso apreciar a viagem!
O barco demora a sair. É que ainda espera por passageiros. Nesse barco é assim: se você precisa se atrasar, é só ligar; todos esperam na maior paciência! Ninguém reclama; aproveita-se para prosear e fazer amizades! Até que enfim saímos! Olhe lá, olhe lá! O quê é? É o barco grande que imprensou um pequeno. Corro para ver. Nossa! É perigoso? Não, não, já se solta...Procuro nossas sacolas e me informam: “Os bagulhos de vocês vão embaixo. O rapaz já marcou.” O Eraldo diz:
--- Nós não pagamos a passagem (R$ 10,00). Ou você pagou?
--- Eu não. Nem tenho dinheiro!
--- Que hora a gente paga a passagem?
--- Na hora em que você quiser.
Alguém no celular, com aquela voz cantada: ”... não vai ficar aperriada, não...”. Um barquinho vai a reboque, parece que o pai vai puxando o filhinho... Estamos no Rio Tapajós, pura maravilha! A água de um verde impressionante! Limpíssima!
--- Quer almoçar? – pergunta minha amiga. O preço é R$ 3,00.
--- Não. Vamos deixar para comer quando chegar.
--- Daqui para lá a gente paga o almoço; de lá para cá não paga nada, é de graça!
--- Por quê? – perguntamos, intrigados.
--- Decerto é porque daqui para lá as pessoas têm dinheiro (muitos vão receber aposentadoria ou pensão). De lá para cá vêm sem nada; já gastaram tudo.
Achamos a maior graça nesse arranjo, mas tem muita lógica!
Meninos, seu pai aqui é o conversador; acho até que conversa mais que eu (é possível SIM!). As pessoas dizem: “Seu marido gosta dum papo, heim?” Sempre penso: “Gostaria tanto que nossos filhos estivessem aqui, vendo e vivendo todas estas maravilhas!”
--- Todo mundo pra frente. Todo mundo pra frente!
--- Para ver o quê? --- pergunto eufórica! Que novidade será agora? --- Corro para frente.
--- É para pesar a proa porque o rio aqui está raso. (Proa é a parte da frente; a de trás é popa. Já estou bem entendida sobre barcos! Já não sou mais aquela ignorantona dos primeiros dias!)
Resolvo exibir minha sabedoria para uma amiga que conheci no barco.
--- Ontem fomos à praia do Pindobal e vimos um peixinho pequeno e comprido que é chamado de “fedorento”.
--- Ah! A gente o chama de “filhote do boto”.
--- Mas não serve para comer... (Isso o barqueiro já tinha me falado).
--- Não, não. É muito pitiú.
Humildemente, pergunto (já que não tinha outro jeito de saber...):
--- E o que é pitiú?
--- Pitiú??? Pitiú é pixéu!
--- E pitiú é fedido?
--- Pitiú é muito pixéu.
Entenderam? Pitiú é pixéu e pixéu é pitiú... Hahahahaha...Se quiserem, consultem o “Aurélio”... Eu já me cansei.
O Eraldo está numa animadíssima conversa com uma senhora sobre como funciona a comunicação na comunidade. Não há correio. O correio de Santarém comunica-se com a rádio e ela avisa: “Fulano de tal, há uma carta para você em Santarém.” Se o destinatário tiver telefone, a agência do correio telefona avisando. Achei o máximo e dei uma gargalhada! Senti uma pisada no pé. E o Eraldo me diz discretamente: “Eles pensam que você está criticando...” Ih!, é mesmo! Já na comunidade, explico-lhes que minhas risadas não são de crítica... é que acho interessante seu jeito tão diferente de falar e viver! A pisada no pé me fez lembrar de quem??? São capazes de adivinhar? Da Marlucy, quando criança, lá na fazenda. Coitada! Acho que seu pezinho ficava até vermelho de tanto que eu o pisava. Só que era pior: “Tia! Pra que você está pisando no meu pé?” Era uma graça! Uma graça agora, que passou; naquele tempo era um vexame!
ISTO É O PARAÍSO?!
Chegamos à Comunidade de Anã. Uma verdadeira jóia às margens do Arapiuns! Diz a lenda que havia um bicho que aparecia no Rio Arapiuns; era o Muanã, bicho da água. Daí o nome da comunidade. Que acolhida maravilhosa! O genro e uma filha da Rúbia, a Débora, já vêm, no barco pequeno, para nos buscar. Somos apresentados à sua linda família, linda e numerosa!Os filhos: Rudson, Remerson, Ruberson, Raquel, Raiana, Rebeca, Iara, Débora, Milena, Wallace, Willian; os genros: Eloilson e Fábio; os netinhos: Kathleen, Isaac, Rayllan e Rubens. E ainda sobrinhos que moram perto. Como descrever Anã?! É impossível. Acho que o Eraldo disse tudo ao ligar para o Vanderlon: “Estamos no paraíso! Aqui nunca pisou um carro... Só moto...” Nossa guia, a Milena, diz: ”Nem moto, só bicicleta”. Na verdade, há UMA moto! A Milena foi designada para nos mostrar a Comunidade. Paramos para catar uma frutinha, meri, pequenina e doce. O Eraldo, só fotografando a meninada, que corria ao perceber a câmera, cada um queria fazer sua pose, são poucos os tímidos. E nossa guia mostrando tudo: “Ali a escola, lá o campo dos homens, o outro é o das mulheres (não diz “das mulher”, mas “das mulheres”)” Nessa comunidade de 83 famílias tem escola de ensino fundamental e médio. Em todos os lugares por onde passamos notamos as muitas escolas e transportes escolares.
Pensem numa verdadeira acolhida. Eles colocam a casa completamente à nossa disposição. “Onde coloco estas sacolas, Rúbia?” “Onde a senhora quiser”. Chega com a vasilha cheia de peixes temperados: “Seu Eraldo, como o senhor prefere o peixe? Frito? Assado? Caldeirada? É só falar que faço do seu gosto!” “Menino, vá comprar a tapioca, quero fazer o beiju para a dona Sônia...” E eu: “Rúbia, se não achar não se preocupe...” Mas pensava: “Tomara que ache! Quero meu beiju.” Não foi fácil, mas achou! Chega a hora de dormir. “Vocês preferem dormir na rede?” “Sim. SIM!”, digo. Só não disse para ninguém que eu nunca havia dormido em rede. Nem o Eraldo sabia disso. Senão iriam me oferecer cama. Lá fomos dormir embaixo da mangueira. Demorei um pouco para ajeitar o corpo naquela posição (eu, que quase sempre durmo de costas e bem esticada). Mas consegui dormir. No dia seguinte ao contar o fato de ser minha primeira vez numa rede: “Nossa! Deve estar com o corpo todo doendo!” Não estava; descansei bem! Na segunda noite, então, dormi como um anjo!
Que coisa linda acordar debaixo de uma mangueira, olhando o céu e as folhas se movendo ao vento! Fomos caminhar na praia. Andamos e andamos... nem vimos o tempo passar! “Olhe uma casa – disse o Eraldo – vamos lá?” “Vamos!” Era uma fazenda. A família nos recebeu na maior alegria e proseamos bastante, até descobrir que já estava tarde: “Vamos voltar rápido. A Rúbia está esperando com o café pronto e os beijus...”O beiju saboroso! Lembrei-me do beiju da vó Anália! Depois do café, a Rúbia nos chama para mostrar as fotos dos filhos. Que linguagem doce: “Essa é aquelazinha que vocês viram ontem; essa é aquela umazinha; e o outrozinho...” Chega o genro, o Eloilson, para cortar os cabelos das meninas. É um verdadeiro profissional! Tiro fotos. “Agora tira de mim com o nenê. Vem tu também com o outro nenê. Tira a toalha dele; põe aí no seu pingote...”
À tarde é hora do banho no rio. É muito interessante! Os irmãos que sabem nadar vão levando os pequenos que ainda não nadam. Quando se cansam ou enjoam de carregá-los, deixam-nos, com água até acima do umbigo, se esguelando lá, no meio do rio, e se mandam para o fundo. “Ele vai se afogar – grito!” “Não tem perigo, dona Sônia, ele sabe até onde pode ir.” O Eraldo se preocupa e sai atrás do guri; quando vê, ele já está correndo pela praia. “Não morre criança afogada por aqui?” “Não. Nunca morreu nenhuma. Elas sabem que não podem ir mais para fora.” Para fora é para o fundo! Achei uma graça! No começo, a Milena dizia: “Vamos para fora.” Eu ia saindo, e ela: “Não, dona Sônia, lá fora é melhor!” E ia andando para o fundo.
O sobrinho, Flamenguinho (apelido colocado pelo SÁBIO pai), de três anos, ainda não sabe nadar. Se sente vontade, vai para o rio se banhar (SOZINHO!). Chega à praia, tira a cueca, joga no chão, e tchibum... tchibum... banha até enjoar e volta peladinho para casa, que fica bem perto do rio; quer banhar-se de novo, volta para o rio, tira a cueca, joga na praia e tchibum... volta peladinho... A avó o faz voltar e ele chega: “Cadê minhas cueca? Cadê minhas cueca?” E sai catando as cuecas pela praia. Tirei uma foto dele. Ia correndo, rodando as cuecas nas mãos e eu: “Espere aí, Flamenguinho, quero tirar uma foto. Não passe as cuecas para uma só mão; uma em cada mão!” Então percebi que ele queria era fazer uma pose! Ficou lindinho! À tarde houve a sessão de fotos na praia. As meninas queriam fazer todas as poses! O cabelo assim e assim... Sentadas na pedra, no meio do rio, correndo pela praia. São lindas garotas, naturalmente bronzeadas, a pele sedosa, lindos cabelos! Queria tanto ser uma fotógrafa experiente para fazer justiça à beleza das pessoas e da paisagem! Mas tentei com fervor!
Sábado, 09/10.Festa de aniversário! E o bolo lá... É...AQUELE bolo tão viajado! Perfeitinho, enfeita a mesa e desperta o apetite da meninada! É o aniversário do netinho da nossa amiga, o Rayllan. É notável a educação das crianças! Não se adiantam para pegar as gulodices; esperam sentadinhas, enquanto são servidas. “Por que não colocam salada para as crianças?” “Porque elas não gostam!” Percebemos que as crianças daqui são muito alegres, obedientes, educadas e, sobretudo, livres, livres, LIVRES! Comentando sobre o Flamenguinho, eu disse: “Ele é bem levadinho, não é?” E Rúbia responde: “Ele é uma bênção!” As crianças são bênçãos! De tanto serem consideradas assim, assim se tornam! Os pais, geralmente, não se irritam e nem gritam com os filhos. A família convive em perfeita harmonia (e, olhem, são muitas pessoas numa casa!). À tardinha, varrem o quintal, limpam a casa e na porta colocam um grande tapete. Quem entra, deixa os sapatos do lado de fora. Eu, em minha crônica distração, entro de chinelo e tudo; o Eraldo percebe, dá um sinal... eu disfarço (daquele jeito todo meu de disfarçar), dou uma voltinha pela sala, saio e entro de novo de pezinhos no chão, o que adoro! A casa está sempre limpinha, as vasilhas de alumínio areadas, tudo no mais completo asseio. Na hora das refeições, minha amiga serve primeiro as visitas, depois os filhos; só quando todos estão bem servidos, ela começa a se servir. E não adianta insistir... seu jeito é esse!
Para o aniversário, a Rúbia fez vatapá. Simplesmente delicioso! Peço a receita. Ela me passa.
--- Rúbia, o que é aquela coisa que todo mundo fica comendo, numa cuinha preta?
--- É o tacacá. Muito saboroso!
--- É fácil de fazer?
--- Eu lhe ensino.Com todos os detalhes! Vá anotando. Passe a mandioca no ralador. Você sabe o que é ralador?
--- Sei. Já ajudei minha avó fazer farinha!
--- Coloca a massa no tipiti.
--- O que é isso?
--- É uma coisa comprida, feita de palha trançada que serve para escorrer a massa.
--- Ah! Sei. Lá em Goiás a gente fala sucuri.
--- Põe o tucupi na vasilha...
--- O que é tucupi?
--- Tucupi é aquela água que fica por cima da tapioca... A água que sai da mandioca... a tapioca assenta no fundo e o tucupi fica por cima. Põe o tucupi na panela e dissolve, formando a goma (como a goma que usávamos para fazer pipa). Tempere bem a goma.
--- E aí vira o tacacá?
--- Não, não. O tacacá é o prato pronto. Pegue a cuia, coloque o tucupi, depois a goma, tucupi de novo, aí vem o camarão. Está pronto o tacacá!
Queridas amigas, cuidado se forem testar a receita, pois é tanta complicação que posso ter errado alguma coisa...
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