ATÉ QUE ENFIM... MULATA!!!
Queridos amigos, abandonei vocês. Ontem eu disse que precisava continuar meu relato, estava atrasaaaaaado! O Eraldo: “Você quer que deixemos de ir à praia hoje para escrever?” Pensei... pensei... Deixe de ser mentirosa, mulher! Nem pensei: “NÃO. Nem pensar. Olhe se vou deixar de conhecer essas maravilhas para ficar escrevendo!” E depois, pensem: se não conhecer os lugares lindos... vou contar sobre o quê? E hoje estamos num lugar encantador. Disse ontem para o Eraldo: “Parece que cada praia que conhecemos é mais linda que as outras!!! Essa de hoje!!! Não, não vou pôr o carro na frente dos bois, conto depois... Vocês irão amar!
Ai, ai... Desse jeito não vai render MESMO... Ontem passamos o dia inteiro na praia mais linda de todas! Hoje, continuo de onde parei...
Parei quando íamos rumo à Mulata... Poeira, costela-de-vaca, noite escura como breu, nada de placas e lá vamos nós... Aparecem umas casinhas. Paramos. “Aqui é a Mulata?” “É, sim senhora!” Viva, viva, viva!!! Como é que se vai para Monte Alegre? Aí na frente tem um vê, pega à direita; não tem erro, vai sair lá. Mais à frente, perguntamos: “Não tem nenhum entroncamento?” “Não senhor. Só quase chegando lá.” “Tem placa?” “Não senhor”. E toca a andar na noite escura. Nem acredito que estou vendo as luzes de Monte Alegre! E eu disse que ia colocar a data para não nos perdermos. Dia de eleição, 03/10/10. Estacionamos o trailer perto da Igreja, pois queríamos ir à festa de São Francisco de Assis, padroeiro da cidade (...lá vai Francisquinho, conversando com os passarinhos... Levando nos braços Jesuscristinho! ). Lembram-se dessa poesia? Parece que falta alguma coisa... Esse “conversando com os passarinhos” não “pegou” muito bem... Que festa! Barracas com mil tipos de comida, leilão, parque de diversões e gente... gente que não acaba mais! Será cadê o padre? Disse para o Eraldo, olhando algumas mesas cercadas com uma gradinha: “Se frei Manoel estiver por aí, deve estar ali, na área vip!” Mal acabo de falar, olha o padre, lá no meio do povo: “Que prazer em vê-los, D. Sônia e seu...” Não é que o danado lembrou-se do meu nome? Ele é alegria pura! Conversamos e festamos bastante. À noite, no trailer, recebemos visitas: Juliana, Cristina, seus pais, sua tia e a linda priminha, que nos convidou para tomarmos o café da manhã em sua casa.
Segunda-feira, dia final da festa! De manhã fui à missa. Linda missa! Frei Manoel, como sempre, pregou maravilhosamente bem! Como era” missa do trabalhador”, na hora da oferta esperei o coador xadrez... Não vou rir, não vou rir... Que coador xadrez! Era um lindo cálice de palhinha trançada! No final da missa, frei Manoel disse:
--- Levante a mão quem é daqui!
Muitos levantaram as mãos.
--- Levante a mão quem é das comunidades!
Outros tantos...
--- Levante a mão quem é de GOIÁS!!!
E euzinha: “EU!!!”
Tomamos café na casa dos amigos! À noite, pura animação! Provei a uva-do-amor, achei melhor que a maçã. Provamos outra coisa... da qual não falaremos: vocês verão nas fotos (se um dia elas forem... kkkkkkkkk... acontece que a internet está leeeeenta... e haja paciência! A menina lá de Santarém disse que é para colocá-las num CD e procurar uma lan-house, onde a internet for mais rápida. Vamos tentar). Tomamos também sorvete de tapioca com açaí, mas não chega nem aos pés daquele lá de Goiânia. AQUELE, Rogério, no qual você nos levou, lembra? Naquele dia em que você tomou quase um litro de açaí! Agora, o sorvete de cupuaçu já é outra coisa: pura delícia! Ia me esquecendo de contar que, pela primeira vez, tomamos banho (tomei... o Eraldo já tinha tomado banho naquele dia em que foi rebocado... hehehehehehehe...) no Rio Amazonas. Hum... aguentei apenas uns dez minutos: água marrom, fundo gosmento (parece lama...) e, ainda por cima, os peixinhos beliscando a gente. Não gostei. Que saudade do Tapajós, com suas águas verdes e límpidas!
Quarta-feira, 06/10/10, ainda em Monte Alegre. O rapaz que prometeu arrumar as traves das janelas não veio trabalhar ontem. Aliás, havia muitos estabelecimentos fechados. Motivo: ressaca da festa de SEGUNDA! Fui à feira e comprei camarão para fazer estrogonofe. Perguntei para os homens da limpeza se precisava ferventar. “Não carece, dona. É só fritar e temperar bem, igual frango.” Fomos procurar balsa para Almeirim. “Perguntem para o Sr. Raimundo sobre a balsa do Mestre, a “Ana Maria”. “Não tem outro jeito. Vocês têm que voltar para Santarém”. Voltar para Santarém??? Então me lembro: “Pegaremos a balsa durante o dia!“ Foi uma decepção descer o Rio Amazonas de balsa durante a noite. Não pude contar nada! E a balsa sai para Santarém às 06:00 e 15:00h!!! Oh! Que felicidade! Lá vamos nós de volta. Até Murumuru por uma estrada desconhecida...
E recomeça a novela (narrando tipo “Saramago”. Se ele pode, eu também posso, uai!). Bom-dia! Bom-dia! O senhor pode me explicar como se vai para Murumuru? Por aí não vai, não. A senhora tem que voltar no posto e pegar à esquerda. Vai chegar no Camping. Vejo uma moça na moto, parada na estrada. Moça, por favor, é por aqui que se vai para Murumuru? Vai direto. Chegando no Camping a senhora pergunta. (Vou ter que parar. O teclado está cheinho de poeira. Vou tentar aguentar o calor com os vidros fechados, só com o ventilador... Ah! O que faço por vocês!) E poeira, poeira... poeira vermelha, poeira... poeira do meu sertão; de hoje em diante, sempre que ouvir essa música vou me lembrar do Pará. Ops! Um entroncamento; e agora, José? “Mamãe mandou eu ir por aqui, mas eu sou teimosa...” Ah, meu marido já está craque em adivinhação, pegou a estrada mais batida. E eu pensando: “Como? Não tem nenhuma placa, mesmo”. Nem acabo de pensar... Olha a PLACA!!! Nem quero acreditar! “Eraldo, tem uma PLACA!!!” Placa? Placa? A luz atrapalha ver o que está escrito. O quê? É o cartaz da “Josefina. Acelera Pará”. Hahahahahahaha!!! Gente, eu não conseguia parar de dar risadas! E a danada ganhou!
Aleluia!Camping! Desço. Boa-tarde! Boa-tarde! O senhor pode explicar como chegar em Murumuru? A senhora vai reto, chega num posto. Depois tem um vê, pega às direita. Segue, pega às direita de novo, sempre às direita . Um senhor de idade: Não, não é só à direita... Vou chamar meu marido, acho que é melhor o senhor explicar para ele. É... é melhor lhe chamar que eu lhe explico direitinho! ( Repete tudinho!). E aí o senhor vai com tudo... pega o oco do mundo... vai chegar lá! MURUMURU!!! Que saudade! Passamos em frente à igreja. O Eraldo: “Nosso pouso foi ali”. Cadê o pau com as frutas? Comeram todas! Olhamos a hora:18:33. Fazemos as contas: “Se demoramos duas horas de lá para cá, demoraremos duas de cá para lá.” Também a estrada é loooonga... QUARENTA E UM QUILÔMETROS!!!
Gente! Como o blog está atrasado! Mas, continuar como? Hoje nem fui com o Eraldo fazer caminhada... Fiquei com meus amiguinhos, jogando no computador: o jogo da memória, do bolo, de formar a carinha... Nossa viagem está se tornando uma novela: é tanto vai-e-volta, sobe-e-desce que já nem sei onde estou: se de cá ou de lá do rio (nem me perguntem que rio...) Agora vou dormir, pois está tarde. Queridos filhotes, só queria que vocês estivessem aqui conosco vendo estas MARAVILHAS!!! Lembro-me de vocês o tempo todo! E seu pai: “Eles têm muito tempo ainda! E terão muitas oportunidades!” Eu sei disso, mas sinto saudades! Beijos mil!
Não estou dizendo que o blog está atrasado??? Já estamos a 19/10, e o danado está ainda em 6/10??? Ui, ui, ui... Achei que estava mais à frente! Estamos em meio à Transamazônica, num lugar chamado Km 180, isto é, a 180 km de Humaitá, onde pegaremos a balsa para... Ei, mas estou pondo, de novo, o carro adiante dos bois... Essa parte vem DEPOIS... Vou tomar banho e depois pegar firme na escrita, já que aqui não tem internet e nem pega celular; ah, e os orelhões não funcionam, pelo menos três. Dos quatro que há aqui na comunidade só um funciona “Mas a fila é enorme”, disse o rapazinho do posto... Desisti.
Continuação do dia 06/10, quarta-feira. Chegamos à balsa. A fila de caminhões é enorme. Sempre tem aquele que quer dirigir todo mundo: ”Cadê teu marido? Diga pra ele entrar logo na fila, senão vocês ficam. Vocês chegaram primeiro do que aquele caminhão... olhe, ele já está indo...” “Uai, porque já estão entrando? A balsa não sai amanhã?” “Sim, mas já fica carregada; ela sai às 5:00h” “Cinco?”, penso,” mas ainda está escuro. É... logo clareia e verei as lindas paisagens!” Saio procurando o Eraldo que chega meio desconsolado: “Vamos ter que aguardar, eles dão prioridade para os caminhões.” O rapaz continua passando informações: “Dorme todo mundo lá dentro! Tem tudo lá: banheiros, comida, lugar de armar rede...” “Que legal! Nunca dormi numa balsa!”. E toca a entrar caminhões... mais um, mais outro... ainda outro... O Eraldo: “É... Acho que podemos armar nosso pouso por aqui. O cara da balsa disse que ainda tem que reservar o lugar para um ônibus...” Essa não! De repente o rapaz acena para o Eraldo entrar com o trailer. Que emoção! Já nem esperávamos por isto! Que alegria!O trailer vai entrando... Será que vai caber nesse buraquinho? E o ônibus? Entrou! Atravessar novamente! E desta vez de dia! Vou ter muito que contar... São mais de duas horas de travessia; na verdade, não é só atravessar, é subir o Rio Amazonas! Entram todos os carros. Os motoristas conversam eufóricos! Olho aquele povo MUITO alegre: “O que aconteceu?” “Aconteceu que vamos sair agora. Completou a carga!” “Sair AGORA? Essa não! Outra vez à NOITE? E o que eu vou ter para contar?” Que decepção! Na balsa o Eraldo aproveita e abre seus e-mails; a 3G funcionou beleza!
Quinta-feira, 07/10. Saímos à procura de balsa: “Procurem o Mestre, da balsa Ana Maria.” Descobrimos que a balsa saiu ontem; agora só na quarta. Uma semana esperando a balsa? Mas não estamos com pressa e Santarém tem lugares lindíssimos para se conhecer! O Eraldo manda olhar o carro que está com um probleminha. O dono da oficina, um senhor muito simpático, vai logo dizendo (até agora não sei se foi brincadeira...): ”Menino, acontece que o óleo Diesel daqui tem 50% de água”. E ainda ironiza: “Já vem na balsa, não é mesmo? Contamina.” Ele indica outra oficina. Que sorte a nossa! Lá conhecemos o Santana e a Eliene, amigos queridos que nos indicaram as praias de Belterra! Ao lado da oficina, uma lanchonete. Vamos tomar um suco e conhecemos outra amiga, Joselany, que morou em Anápolis. Conversa vai, conversa vem, contamos que ficaremos uma semana à espera da balsa. Ela diz: “Ah, se vocês pudessem ir com minha tia poderiam conhecer uma comunidade que fica às margens do Rio Arapiuns; é lindo o lugar! O barco vai amanhã e volta no domingo”. Ficamos empolgados e marcamos para encontrar a tia após o almoço. Na hora marcada só encontramos a sobrinha que nos diz que a tia só poderá ir na segunda; então o barco voltaria na quarta, o que não daria para nós (por causa da tal da balsa do Mestre). Fazer o quê?
Quase três horas da tarde. Temos que aproveitar o dia. Vamos para Belterra? VAMOS!!! Praia do Pindobal! Incrível!Penso: Os habitantes que aqui vivem, principalmente às margens do Tapajós, não comeram a maçã: continuam no PARAÍSO!!! Tomamos banho naquela água límpida e aconchegante, lavamos roupa, estendemos em cima das palhoças e vamos fazer caminhada na praia... Aqui ninguém pega nada de ninguém: você pode deixar roupas, pertences, até a máquina fotográfica e sair. NINGUÉM mexe! Parece que a praia é só nossa; um ou outro pescador... Na volta vejo os peixinhos pulando, mas pulando alto. Acho a maior graça! Encontramos um pescador e perguntamos:
--- Que peixinho é esse? A gente come?
--- Não; não. Ele é chamado de fedorento.
--- Que tamanho? – pergunto.
E o pescador, esticando a mão esquerda, coloca o dedo direito no pulso esquerdo (é assim que eles mostram o tamanho dos peixes, usando como medida a mão e até o braço, quando necessário) e diz:
--- É assinzinho.
Olhem a gracinha! Assinzinho! Ah, Lu, não parece o seu Guiminha... “o pobrinho do ratinho...”?
Digam com toda sinceridade: Não soa melhor do que “pequenino assim”? Assinzinho! Que jeito doce de falar!
Dormimos lá mesmo, ao lado da praia, em frente a uma casinha.
A INCRÍVEL COMUNIDADE ANÃ!
Chegando a Santarém liguei para nossa amiga Joselany somente para avisar que na segunda não daria para irmos até a comunidade. Ela respondeu:
--- Pois é, menina, minha tia arrumou tudo e vai hoje, pois amanhã será o aniversário de seu netinho; já estou fazendo o bolo. Se vocês quiserem ir...
--- Nossa! Queremos demais! A gente precisa estar aqui na segunda.
Fui para a sua casa. De lá sairíamos para o barco. O bolo estava na mesa, ainda peladinho de tudo. Pensei: “Não vai dar tempo confeitar o bolo; vou oferecer minha ajuda! Já ajudei a Lu a confeitar até o bolo do pai Leobino...”. Ainda bem que não me ofereci para ajudá-la; a moça é profissional, confeita até bolos de casamento! Fiquei conversando com a Rúbia (a tia)... Quando olhei para o bolo... que susto! Já estava pronto! Aquele bolo imenso! Falei, espantada: “ESTE bolo vai no barco? E chega inteiro?” “Chega sim – disse a Rúbia – já levei outras vezes.” Saímos, pegamos um táxi, o calor de derreter tudo, e a minha amiga, firme, carregando o bolo. Chegando ao barco, tinha uma praia, e a Rúbia carregando o bolo: pisa aqui, pisa ali, meio que tropeça... ui, ui, ui...e eu não tirava os olhos do bolo... Vai cair, vai cair... nossa! Pensei em pedir para carregá-lo um pouco, pois devia estar beeem pesado... Porém, vocês que me conhecem: filhos, irmãos, alunos... já sabem onde iria parar o bolo se chegasse às minhas “delicadas” mãozinhas!
Esperamos o barquinho que nos levaria ao barco grande... Eu SEMPRE preocupada com o bolo! “Como será que ele vai, se o barquinho sobe e desce balançando sobre as ondas?” Embarcamos; não foi muito fácil: um ajuda daqui, outro dali, e lá vamos... O velho do barquinho, danado da vida: “Pois é, dona, o povo reclama que eu ganho dinheiro fácil só porque cobro um real para levar as pessoas ao barco. Com este solão! Ontem mesmo, arraia ferroou dois porque preferiram ir andando dentro d’água. E aí tiveram que pagar táxi, hospital e remédios. Só porque não quiseram pagar um real...” Entramos no barco grande. Com tantas novidades... tinha me esquecido do bolo:
--- Cadê o bolo, gente? Onde foi parar?
--- Ela está preocupada com o bolo! Já colocaram ali. Olhe lá!
Lá estava ele: majestoso, perfeito em cima da mesa! Firme, firme! Nem tinha perigo de cair; a mesa do barco tem uma borda que impede as coisas de caírem... O bolo salvo, posso apreciar a viagem!
O barco demora a sair. É que ainda espera por passageiros. Nesse barco é assim: se você precisa se atrasar, é só ligar; todos esperam na maior paciência! Ninguém reclama; aproveita-se para prosear e fazer amizades! Até que enfim saímos! Olhe lá, olhe lá! O quê é? É o barco grande que imprensou um pequeno. Corro para ver. Nossa! É perigoso? Não, não, já se solta...Procuro nossas sacolas e me informam: “Os bagulhos de vocês vão embaixo. O rapaz já marcou.” O Eraldo diz:
--- Nós não pagamos a passagem (R$ 10,00). Ou você pagou?
--- Eu não. Nem tenho dinheiro!
--- Que hora a gente paga a passagem?
--- Na hora em que você quiser.
Alguém no celular, com aquela voz cantada: ”... não vai ficar aperriada, não...”. Um barquinho vai a reboque, parece que o pai vai puxando o filhinho... Estamos no Rio Tapajós, pura maravilha! A água de um verde impressionante! Limpíssima!
--- Quer almoçar? – pergunta minha amiga. O preço é R$ 3,00.
--- Não. Vamos deixar para comer quando chegar.
--- Daqui para lá a gente paga o almoço; de lá para cá não paga nada, é de graça!
--- Por quê? – perguntamos, intrigados.
--- Decerto é porque daqui para lá as pessoas têm dinheiro (muitos vão receber aposentadoria ou pensão). De lá para cá vêm sem nada; já gastaram tudo.
Achamos a maior graça nesse arranjo, mas tem muita lógica!
Meninos, seu pai aqui é o conversador; acho até que conversa mais que eu (é possível SIM!). As pessoas dizem: “Seu marido gosta dum papo, heim?” Sempre penso: “Gostaria tanto que nossos filhos estivessem aqui, vendo e vivendo todas estas maravilhas!”
--- Todo mundo pra frente. Todo mundo pra frente!
--- Para ver o quê? --- pergunto eufórica! Que novidade será agora? --- Corro para frente.
--- É para pesar a proa porque o rio aqui está raso. (Proa é a parte da frente; a de trás é popa. Já estou bem entendida sobre barcos! Já não sou mais aquela ignorantona dos primeiros dias!)
Resolvo exibir minha sabedoria para uma amiga que conheci no barco.
--- Ontem fomos à praia do Pindobal e vimos um peixinho pequeno e comprido que é chamado de “fedorento”.
--- Ah! A gente o chama de “filhote do boto”.
--- Mas não serve para comer... (Isso o barqueiro já tinha me falado).
--- Não, não. É muito pitiú.
Humildemente, pergunto (já que não tinha outro jeito de saber...):
--- E o que é pitiú?
--- Pitiú??? Pitiú é pixéu!
--- E pitiú é fedido?
--- Pitiú é muito pixéu.
Entenderam? Pitiú é pixéu e pixéu é pitiú... Hahahahaha...Se quiserem, consultem o “Aurélio”... Eu já me cansei.
O Eraldo está numa animadíssima conversa com uma senhora sobre como funciona a comunicação na comunidade. Não há correio. O correio de Santarém comunica-se com a rádio e ela avisa: “Fulano de tal, há uma carta para você em Santarém.” Se o destinatário tiver telefone, a agência do correio telefona avisando. Achei o máximo e dei uma gargalhada! Senti uma pisada no pé. E o Eraldo me diz discretamente: “Eles pensam que você está criticando...” Ih!, é mesmo! Já na comunidade, explico-lhes que minhas risadas não são de crítica... é que acho interessante seu jeito tão diferente de falar e viver! A pisada no pé me fez lembrar de quem??? São capazes de adivinhar? Da Marlucy, quando criança, lá na fazenda. Coitada! Acho que seu pezinho ficava até vermelho de tanto que eu o pisava. Só que era pior: “Tia! Pra que você está pisando no meu pé?” Era uma graça! Uma graça agora, que passou; naquele tempo era um vexame!
ISTO É O PARAÍSO?!
Chegamos à Comunidade de Anã. Uma verdadeira jóia às margens do Arapiuns! Diz a lenda que havia um bicho que aparecia no Rio Arapiuns; era o Muanã, bicho da água. Daí o nome da comunidade. Que acolhida maravilhosa! O genro e uma filha da Rúbia, a Débora, já vêm, no barco pequeno, para nos buscar. Somos apresentados à sua linda família, linda e numerosa!Os filhos: Rudson, Remerson, Ruberson, Raquel, Raiana, Rebeca, Iara, Débora, Milena, Wallace, Willian; os genros: Eloilson e Fábio; os netinhos: Kathleen, Isaac, Rayllan e Rubens. E ainda sobrinhos que moram perto. Como descrever Anã?! É impossível. Acho que o Eraldo disse tudo ao ligar para o Vanderlon: “Estamos no paraíso! Aqui nunca pisou um carro... Só moto...” Nossa guia, a Milena, diz: ”Nem moto, só bicicleta”. Na verdade, há UMA moto! A Milena foi designada para nos mostrar a Comunidade. Paramos para catar uma frutinha, meri, pequenina e doce. O Eraldo, só fotografando a meninada, que corria ao perceber a câmera, cada um queria fazer sua pose, são poucos os tímidos. E nossa guia mostrando tudo: “Ali a escola, lá o campo dos homens, o outro é o das mulheres (não diz “das mulher”, mas “das mulheres”)” Nessa comunidade de 83 famílias tem escola de ensino fundamental e médio. Em todos os lugares por onde passamos notamos as muitas escolas e transportes escolares.
Pensem numa verdadeira acolhida. Eles colocam a casa completamente à nossa disposição. “Onde coloco estas sacolas, Rúbia?” “Onde a senhora quiser”. Chega com a vasilha cheia de peixes temperados: “Seu Eraldo, como o senhor prefere o peixe? Frito? Assado? Caldeirada? É só falar que faço do seu gosto!” “Menino, vá comprar a tapioca, quero fazer o beiju para a dona Sônia...” E eu: “Rúbia, se não achar não se preocupe...” Mas pensava: “Tomara que ache! Quero meu beiju.” Não foi fácil, mas achou! Chega a hora de dormir. “Vocês preferem dormir na rede?” “Sim. SIM!”, digo. Só não disse para ninguém que eu nunca havia dormido em rede. Nem o Eraldo sabia disso. Senão iriam me oferecer cama. Lá fomos dormir embaixo da mangueira. Demorei um pouco para ajeitar o corpo naquela posição (eu, que quase sempre durmo de costas e bem esticada). Mas consegui dormir. No dia seguinte ao contar o fato de ser minha primeira vez numa rede: “Nossa! Deve estar com o corpo todo doendo!” Não estava; descansei bem! Na segunda noite, então, dormi como um anjo!
Que coisa linda acordar debaixo de uma mangueira, olhando o céu e as folhas se movendo ao vento! Fomos caminhar na praia. Andamos e andamos... nem vimos o tempo passar! “Olhe uma casa – disse o Eraldo – vamos lá?” “Vamos!” Era uma fazenda. A família nos recebeu na maior alegria e proseamos bastante, até descobrir que já estava tarde: “Vamos voltar rápido. A Rúbia está esperando com o café pronto e os beijus...”O beiju saboroso! Lembrei-me do beiju da vó Anália! Depois do café, a Rúbia nos chama para mostrar as fotos dos filhos. Que linguagem doce: “Essa é aquelazinha que vocês viram ontem; essa é aquela umazinha; e o outrozinho...” Chega o genro, o Eloilson, para cortar os cabelos das meninas. É um verdadeiro profissional! Tiro fotos. “Agora tira de mim com o nenê. Vem tu também com o outro nenê. Tira a toalha dele; põe aí no seu pingote...”
À tarde é hora do banho no rio. É muito interessante! Os irmãos que sabem nadar vão levando os pequenos que ainda não nadam. Quando se cansam ou enjoam de carregá-los, deixam-nos, com água até acima do umbigo, se esguelando lá, no meio do rio, e se mandam para o fundo. “Ele vai se afogar – grito!” “Não tem perigo, dona Sônia, ele sabe até onde pode ir.” O Eraldo se preocupa e sai atrás do guri; quando vê, ele já está correndo pela praia. “Não morre criança afogada por aqui?” “Não. Nunca morreu nenhuma. Elas sabem que não podem ir mais para fora.” Para fora é para o fundo! Achei uma graça! No começo, a Milena dizia: “Vamos para fora.” Eu ia saindo, e ela: “Não, dona Sônia, lá fora é melhor!” E ia andando para o fundo.
O sobrinho, Flamenguinho (apelido colocado pelo SÁBIO pai), de três anos, ainda não sabe nadar. Se sente vontade, vai para o rio se banhar (SOZINHO!). Chega à praia, tira a cueca, joga no chão, e tchibum... tchibum... banha até enjoar e volta peladinho para casa, que fica bem perto do rio; quer banhar-se de novo, volta para o rio, tira a cueca, joga na praia e tchibum... volta peladinho... A avó o faz voltar e ele chega: “Cadê minhas cueca? Cadê minhas cueca?” E sai catando as cuecas pela praia. Tirei uma foto dele. Ia correndo, rodando as cuecas nas mãos e eu: “Espere aí, Flamenguinho, quero tirar uma foto. Não passe as cuecas para uma só mão; uma em cada mão!” Então percebi que ele queria era fazer uma pose! Ficou lindinho! À tarde houve a sessão de fotos na praia. As meninas queriam fazer todas as poses! O cabelo assim e assim... Sentadas na pedra, no meio do rio, correndo pela praia. São lindas garotas, naturalmente bronzeadas, a pele sedosa, lindos cabelos! Queria tanto ser uma fotógrafa experiente para fazer justiça à beleza das pessoas e da paisagem! Mas tentei com fervor!
Sábado, 09/10.Festa de aniversário! E o bolo lá... É...AQUELE bolo tão viajado! Perfeitinho, enfeita a mesa e desperta o apetite da meninada! É o aniversário do netinho da nossa amiga, o Rayllan. É notável a educação das crianças! Não se adiantam para pegar as gulodices; esperam sentadinhas, enquanto são servidas. “Por que não colocam salada para as crianças?” “Porque elas não gostam!” Percebemos que as crianças daqui são muito alegres, obedientes, educadas e, sobretudo, livres, livres, LIVRES! Comentando sobre o Flamenguinho, eu disse: “Ele é bem levadinho, não é?” E Rúbia responde: “Ele é uma bênção!” As crianças são bênçãos! De tanto serem consideradas assim, assim se tornam! Os pais, geralmente, não se irritam e nem gritam com os filhos. A família convive em perfeita harmonia (e, olhem, são muitas pessoas numa casa!). À tardinha, varrem o quintal, limpam a casa e na porta colocam um grande tapete. Quem entra, deixa os sapatos do lado de fora. Eu, em minha crônica distração, entro de chinelo e tudo; o Eraldo percebe, dá um sinal... eu disfarço (daquele jeito todo meu de disfarçar), dou uma voltinha pela sala, saio e entro de novo de pezinhos no chão, o que adoro! A casa está sempre limpinha, as vasilhas de alumínio areadas, tudo no mais completo asseio. Na hora das refeições, minha amiga serve primeiro as visitas, depois os filhos; só quando todos estão bem servidos, ela começa a se servir. E não adianta insistir... seu jeito é esse!
Para o aniversário, a Rúbia fez vatapá. Simplesmente delicioso! Peço a receita. Ela me passa.
--- Rúbia, o que é aquela coisa que todo mundo fica comendo, numa cuinha preta?
--- É o tacacá. Muito saboroso!
--- É fácil de fazer?
--- Eu lhe ensino.Com todos os detalhes! Vá anotando. Passe a mandioca no ralador. Você sabe o que é ralador?
--- Sei. Já ajudei minha avó fazer farinha!
--- Coloca a massa no tipiti.
--- O que é isso?
--- É uma coisa comprida, feita de palha trançada que serve para escorrer a massa.
--- Ah! Sei. Lá em Goiás a gente fala sucuri.
--- Põe o tucupi na vasilha...
--- O que é tucupi?
--- Tucupi é aquela água que fica por cima da tapioca... A água que sai da mandioca... a tapioca assenta no fundo e o tucupi fica por cima. Põe o tucupi na panela e dissolve, formando a goma (como a goma que usávamos para fazer pipa). Tempere bem a goma.
--- E aí vira o tacacá?
--- Não, não. O tacacá é o prato pronto. Pegue a cuia, coloque o tucupi, depois a goma, tucupi de novo, aí vem o camarão. Está pronto o tacacá!
Queridas amigas, cuidado se forem testar a receita, pois é tanta complicação que posso ter errado alguma coisa...
sábado, 23 de outubro de 2010
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Estou fascinado com a Comunidade Anã. Quero morar aí, rsss. Mãe, não ignore suas lembranças de infância, por favor. Elas apenas enriquecem suas histórias, :D.
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