7 de março de 2014 -- Bonfim, Roraima – Estamos parados na
oficina enquanto o mecânico troca uma porca do parafuso da roda, parece...
Aproveito para contar um pouco da viagem:
23 de fevereiro, domingo –
Almoçamos na casa da Raimunda e do Eustáquio, sogros da Lu. Que comida!!! O
feijão tropeiro da Mundinha é coisa do outro mundo... E a canjica de sobremesa,
então .. huuuummm. Comi, e comi, e comi... devo ter engordado uns quilinhos. De
lá fomos para a casa da Viviane e Ricardo lanchar. Pensamos que não dava de
comer mais nada... Porém, não contávamos com o bolo de nozes da Viviane; só
quem já provou para saber o quanto é delicioso!!! Viviane, quero agradecer pelo
casaco; usei bastante durante toda a viagem. Valeu mesmo!
Pegamos o voo às 17h00min para Manaus, com escala em
Campinas. Até aí tudo calminho, pensei que estava me acostumando com viagem
aérea... Mas... de Campinas a Manaus a coisa mudou radicalmente: muita
trepidação, ou seja, turbulência; coisa de louco; o avião balançava, subia e
descia... E o Eraldo dormindo que só um anjo... Resolvi: Viagem de avião só
quando não tiver jeito.
Chegamos a Manaus às 02h00min da madrugada. Fomos para o
hotel Safári. Amanhã passearemos de barco, pensamos.
24 de fevereiro, segunda-feira
– Chuva, chuva, chuva... Tanta coisa para visitar e nós presos no hotel... Fomos visitar o Teatro Amazonas.
Impressionante! Antigamente, nas cadeiras – onde a visão é melhor – sentavam-se
os menos ricos; nos camarotes centrais, os ricos; e, nos laterais – onde a
visão é péssima --, os riquíssimos. As pessoas iam ao teatro nem tanto pelo
espetáculo, mas para se mostrar. Foi necessário proibirem o uso de chapéus
(pelas mulheres); o tamanho do chapéu demonstrava o grau de riqueza; quanto
maior, mais rica a pessoa. Quem se sentava atrás de uma senhora rica, tinha
prejudicada a visão. Hoje é o contrário: O ingresso para as cadeiras é o mais
caro; os camarotes, mais baratos.
 |
| Poltrona namoradeira |
 |
| Teatro Amazonas |
Interessante também a poltrona chamada
namoradeira. É composta de cinco cadeiras: no meio sentam-se a mãe, o pai e a
avó (ou, na falta desta, o irmão mais velho ou um tio); na extremidade
esquerda, o noivo; na direita, a noiva. Em frente havia um grande espelho para
observarem se os namorados estavam se olhando – o que não era permitido.
À noite passeamos pela cidade e tomamos suco de taperebá.
Lembrei-me do algodoal; vocês se lembram, Lúciu e Patty? Pedimos logo uma
jarra. De-li-ci-o-so!!!
25 de fevereiro, terça-feira
– Beleza de sol! Pegamos a lancha para passear pelo Rio Negro. Vimos o encontro
dos rios Negro e Solimões. Visitamos uma aldeia
indígena e dançamos com os índios. Tomamos banho com os botos cor-de-rosa; o
melhor do passeio: são uma graça, a pele não é viscosa – como eu havia pensado
--, mas acetinada, gostosa de pegar e eles são mansinhos; se não fosse o tempo
limitado, ficaríamos ali por horas. Almoçamos no restaurante flutuante, vimos
as vitórias-régias, passeamos por igarapés e igapós e ainda brincamos com os
macaquinhos.
 |
| Brincando com o boto |
 |
| A dança dos índios |
Ah... e tirei fotos com uma cobra e-nor-me enrolada em mim. O guia
dizia:
-- Aperte o pescoço dela, senão ela ataca.
E eu apertando com força o pescoço da bichinha, digo,
bichona! O Eraldo não teve coragem – daí vocês avaliem o grau de
periculosidade!!! Em seguida perguntaram se eu queria tirar foto com o
bicho-preguiça. “O QUÊ???, respondi, bicho-preguiça? Depois de enfrentar aquela
cobra venenosa??? Nem pensar!”
26 de fevereiro, quarta-feira
-- Saímos do hotel rumo ao mercado. Chuva, chuva, chuva... Paramos em frente
aos camelôs; coitados! Na banca de mantas a mocinha tentava cobri-las com uma
capa plástica, o vento jogando a chuva para todo lado. Voltamos para o hotel.
Impossível não parar e comprar uma saia belíssima e muito barata – com calma, o
Eraldo parou na Loteria... Roupas e calçados são bem baratos por aqui,
inclusive as melhores marcas conhecidas.
Em seguida fomos à Rodoviária comprar as passagens para
Presidente Figueiredo; siiiimmmm, de ônibus!!! Quanto mais viajo de barco e de
avião, mais amo viajar por terra, com os pezinhos – rodinhas – no chão, mirando
as lindas paisagens: é a felicidade pura!
27 de fevereiro, quinta-feira
-- Em Presidente Figueiredo nos hospedamos no hotel Maruaga. Tem algo para se
ver? “Ah, sim, nos dizem. Temos lindas cachoeiras!” Fomos visitar a mais
bonita: Cachoeira do Urubuí. Uma linda corredeira, sem dúvida. Sua água é
escura e friíssima! Dizem que a cor de café é proveniente das inúmeras folhas
que caem da floresta... À noite a internet do hotel funcionou que foi uma
beleza! Chegaram mais de cem mensagens no whatsap... Mandamos fotos da
cachoeira. A Lu perguntou se não estava virada... Estava na posição certa,
Lu... A altura é aquela mesma. O lugar é lindo: choupanas para todo lado,
muitas árvores, o ar limpo e gostoso!
 |
| Hospital do Eraldo, em Presidente Figueiredo |
 |
| Cachoeira do Urubuí |
Curiosidades da terra: O preço do café é R$0,50 o meio copo e
R$1,00 o copo cheio. Colocam a garrafa cheia e os copos na mesa e saem; o mesmo
acontece com o leite. Na passagem de ônibus já vem embutido os R$0,40 do
banheiro; indo ou não, paga.
28 de fevereiro, sexta-feira
– Saímos de Presidente Figueiredo às 12h30min. Por terra, sim senhor! Olhando
as lindas paisagens! Vocês já viajaram com um guri que está aprendendo a
assoviar? Nós já... com o Lúciu; é uma agonia; no início a gente – pais – acha
lindinho, mas com o passar do tempo a coisa desanda. Lembrei-me disso hoje.
Logo atrás de mim tem um garoto com o telefoninho de brinquedo:
-- Croem... croem... croem...
-- Aiô, aiô, tia Alete... Aiô, aiô...
A mãezinha coruja:
-- Liga pro papai!!!
-- Croem... croem... croem...
-- Aiô... aiô papai...
-- CROEM...CROEM...CROEM...
E o tal do telefone toca ALTO... Espero que a pilha acabe
logo...
Oh! Alívio! Parece que o guri dormiu.
Posto fiscal e pesagem. Entrando na reserva indígena Waimiri
– Atroari. Só um pintor, e muito hábil, para registrar toda a exuberância da
mata. Os coqueiros, de um verde escuríssimo, brilham ao sol. Não me lembro de
ter visto um verde tão verde!
Passamos por Vila do Equador, Rorainópolis e paramos para
jantar em Novo Paraíso. Depois de Caracaraí chegamos a Boa Vista. E não é que
nosso amigo Jaime – prestativo até não poder mais – nos esperava na Rodoviária?
Que acolhida calorosa! Fomos para sua casa, onde estava o trailer, nos banhamos
e dormimos.
01 de março, sábado – Passamos
o dia por aqui com o Jaime e a Margareth. À noite participamos de um lindo
culto que é realizado na casa deles todo primeiro sábado.
O filho da Margareth, Paulo Coelho – ninguém adivinhou seu
nome, ninguém ganhou chocolate --, me deu aula de celular novo, whatsap e tudo
o mais.
02 de março, domingo –
Almoçamos com os amigos num restaurante de comidas deliciosas. À noite o Dudu,
filho do Jaime, nos conectou à sua internet; enviamos fotos e mensagens pelo
whatsap.
03 de março, segunda-feira –
Visitamos a comunidade indígena Socuba. Receberam-nos com muita alegria e
gentileza. Conversamos com o tuchaua, alunos e professores que nos informaram
sobre as belezas desta terra. Pena que não dá para visitarmos todos os lugares.
Senti muito não visitar Iramutã, onde se passou a história de Macunaíma, de Mário de Andrade. Na despedida ganhei saia, cocar, chocalho e darruana.
À noite fomos ao rodízio de sopas – tipo caldos. As variedades? Vaca atolada, camarão com abóbora, feijão, cheiro verde, peixe, caranguejo. E mais os ingredientes para colocar dentro: queijo, macarrão, couve, repolho, tomate, calabresa, cheiro verde... Lembramo-nos da Valéria que gosta muito de caldos.
04 de março, terça-feira – Saímos
bem cedo, com a Margareth e sua netinha, para Normandia. Estou com muito sono:
dormimos tarde e me levantei às 05h20min. Pensamos ir até a maloca Napoleão;
quero tomar caxiri. Quando fomos da outra vez no Socuba o Jaime disse para a
índia:
---
Arrume um caxiri para ela.
--- Acabou; não tem mais nada.
O Jaime disse que é uma bebida muito ruim; mas outros dizem que é boa. Não tem álcool, porém embebeda: é fermentada. Segundo a Margareth, que é filha de índia:
--- Se fermenta um dia, embriaga por um dia; se fermenta dois, embriaga por dois; cada dia de fermentação é um de embriaguez.
Depois de inúmeras paradas para fotos e subir nos cajueiros da beira da estrada, chegamos a Normandia, cidade na qual há o festival da melancia – só se come o miolo (meu sonho!!!) Paramos na venda do “seu” Manuel para comprar melancia – compramos quatro e ganhamos seis. Claro que, vendo que a Margareth só comia o miolo, eu a imitei. O Eraldo, que detesta desperdício, comia o resto. Depois do delicioso almoço na casa da amiga da Margareth, é tocar para o Napoleão. Chegamos à tardinha. Os índios macuxis, muito amáveis, oferecem tudo para nós: Olha o caju, olha a manga. As mangueiras estão carregadinhas de umas frutas bem doces, as manguitas. Comi, comi e comi. Surge a história do meu desejo de provar o caxiri:
---
Vá buscar para ela, mulher!
E a índia sai às pressas. Volta com um jarro cheio de caxiri de macaxeira. A Margareth vai logo avisando:
--- Cuidado; vá devagar senão tu cai de perna. (Penso que é cair de pernas para cima...)
Bebo um copo... Que delícia! A coisa é boa demais. Mais um copo... e mais outro. Diz minha amiga que este está fraco. Ela também bebe mais de um copo. Fui dormir. A cabeça doía e pesava cinco quilos. Não é tontura que dá na gente; é uma coisa esquisita, parecia estar fora de órbita... Acordei com a cabeça pesadíssima.
--- Tem que beber mais para rebater; é assim que sara. Veneno de cobra cura com veneno de cobra – dizem.
Lá vem outro jarro de caxiri; dessa vez de manga. “Beber ou não beber; eis a questão.” BEBO. Mais gostoso ainda! Esse está dez vezes mais forte... ui, ui, ui... Bebo pouquinho. Só sei que a cabeça demorou a ficar no prumo. Bebida mais doida!
 |
| Com os índios no Napoleão |
 |
| Olhem as mangueiras do Napoleão!!! |
 |
| O curumim querendo calçar o chinelo da mamãe... |
À tardinha formou-se uma roda de histórias: Curupira, Mãe do Campo, Mula sem Cabeça e... Boto – aquele que vira homem e ataca as moças na beira do rio. O mais interessante é que até algumas das pessoas mais cultas acreditam que “O boto vira homem, sim, tenho prova.”
O vento aqui é fortíssimo; falta nos carregar. À noite, culto; a Margareth é missionária. Até eu falei. Conhecemos a vó Lúcia que tem mais de cem anos. No dia seguinte fomos à comunidade “Raposa Serra do Sol”. Conversamos com a Rute, que nos contou toda a história do lugar. Ela tem um filho, o Derley Raposo, que estuda em Palmas.
--- Se passarmos por lá, iremos visitá-lo, prometemos.
06 de março, quinta-feira –
Despedimo-nos dos amigos de Napoleão e fomos para Normandia. Lá, tomamos café,
nos despedimos das amigas e seguimos viagem. Na saída, a Margareth nos
presenteou com uma linda rede. Chegando a Bonfim, paramos no Zé do Barranco à
procura de informações de onde poderíamos deixar o trailer. Nisso, passa uma
amiga sua com a filha:
--
- Venham ficar em nossa casa; o quintal é enorme.
Pronto. Fizemos ali uma excelente amiga, muito querida mesmo, a Nazaré – uma guerreira, dizem os que a conhecem. Luta pela sua comunidade e defende sua gente. Lá nos fomos para sua casa. Ela foi logo dizendo:
--- Sandrinha, arme a rede para ela se embalar.
Fiquei lá me balançando na rede que ganhamos de presente da Margareth... Eta vida boa!!!
A Nazaré e a Sandra nos ofereceram sua casa, fizeram comidas deliciosas para nós – bolinho de chuva, cuscuz, galinha ensopada, espera marido, frango assado... Entre outras delícias, uma sopa que o Eraldo – que não gosta de sopa -- gostou muito. Tentei aprender, mas parece que não me lembro de todo o processo... um tanto complicado.
Na sexta, fomos para Lethem tentar uma maneira de ir até Georgetwon, capital da Guiana Inglesa. A informação é que o trailer não passaria porque a estrada era muito ruim. Pegamos um táxi. Saímos do Brasil, atravessamos um viaduto e já saímos de lá na mão inglesa, isto é, na contramão; esquisitíssimo. A gente tem a impressão de que vai bater de frente; na rotatória, então, dá um frio na barriga. Para viajarmos, precisamos nos vacinar contra febre amarela; e ainda temos que trocar o cartão pelo internacional. Hoje não dá mais tempo; fica para segunda. Não temos pressa.
Conhecemos a Keila e o Daniel, filha e genro da Nazaré.
Dia 08/03 recebi várias mensagens de felicitações pelo Dia Internacional da Mulher. Em comemoração à data, fomos almoçar fora, no restaurante do Elton, o faz-tudo: dono de restaurante, taxista, lavador de carro... Enquanto você almoça, ele lava seu carro; lavou o trailer que estava bem sujinho.
09 de março, domingo – A Sandrinha me convidou
para ir ao culto na fazenda. E a Igreja dela exige véu. Vocês precisavam ver eu
de véu branquinho na cabeça. Fiquei muito chique. A Nazaré teve que ir para Boa
Vista; almoçamos com a Keila, o Daniel e a Sandra.
Na segunda nos levantamos bem cedo e fomos ao posto para nos
vacinar.
---
Estamos em falta aqui em Bonfim, só em Boa Vista.
Pegamos uma lotação para Boa Vista. Disseram que o melhor lugar era o aeroporto.
--- Aqui não vacinamos. Vão ao São Vicente.
O São Vicente não tinha. Fomos ao Posto 13. Estava em reforma. Fomos ao Posto Pricumã. Vacinados, voltamos ao aeroporto fazer o cartão internacional. Passamos na casa do Jaime para uma rápida visita. Foi a sorte; a lotação já tinha saído da cidade. O Jaime nos levou bem rápido até ela e fomos para Boa Vista. O dono da lotação, que conhecia o dono da empresa de vans que faziam a linha de Lethem a Georgetwon, nos deixou já na sede da empresa. Foi uma corrida contra o tempo: Foram nos levar até o trailer e ficaram esperando até arrumarmos as malas. Acho triste a pessoa ficar esperando que eu arrume minha mala... Você começa a se atrapalhar, não sabe o que colocou..