quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A SERPENTE ENCANTADA

A SERPENTE ENCANTADA

23 de outubro, quarta-feira – Que vergonha! Hoje é que vou postar a história do passeio a Belém. Isso porque eu queria aprender como postar fotos. O Eraldo Luís vai me ensinar.

                                                                                    

24 de março, domingo -- Paramos num posto a 1 km de Gurupi. Caminhamos até a cidade. A internet não funcionou. Tomei uma cervejinha – aquela da marca ruim.

25 de março, segunda-feira – Saímos do pouso às 08h20min. Boa Vista do Gurupi. O Eraldo fez questão de perguntar ao rapaz do posto quantos quilômetros havia até Belém. Só que já estavam combinados para me enganar:
-- Ihhhh... Faltam quase 800...
Divisa Maranhão – Pará. Ah, Pará, Pará! Pará dos meus encantos! Amo o Pará! Paraíso!!! Cachoeira do Piraí, Santa Luzia do Pará, Capanema. E chuva, chuva, chuva... E o Eraldo me enganando, dizendo que estava longe de Belém. Se não fosse a tal cerveja de marca ruim não seria possível, pois eu viajo de olho no mapa. Mas, como estava tonta e enjoada, nem queria saber de ler. Castanhal, Mirituba, Miriti... E eu enchendo:
-- Eraldo, mas devemos estar bem perto dos meninos; não tem lógica não chegarmos até lá...
-- Uai, então no trevo você pega o ônibus e eu sigo para o litoral... Não podemos ir porque os outros vão ficar com ciúme...
-- Tem graça eu ir sozinha; fica parecendo que você está de mal... Até os meninos vão achar isso esquisito.
E nhem, nhem, nhem... nhem, nhem, nhem...
Ah, não contei que ele desviava minha atenção das placas da estrada...
-- Nossa, Eraldo, aqui parece uma cidade grande... Olha o comércio... Um shopping grande lá...
-- O Lúciu disse que perto do trevo tem muitas cidades.
A chuva também atrapalhava a visão. Até que vi, para minha grande ALEGRIA: “Bem-vindo a Belém.” Que emoção! É por isso que adoro surpresas! Nessa hora pensei que a Patty e o Lúciu estavam sabendo da visita. Qual o quê! Não sabiam de nada. Ligamos para saber se estavam em casa e fomos perguntando, perguntando... “Quem tem boca vai a Roma!” Até que achamos a rua e vimos o carro do Lúciu. Só que o carro estava em frente ao número 39 e no endereço que eu tinha era 139. O Eraldo teimando:
-- Você deve ter copiado errado...
-- Eraldo, de 39 para 139 a diferença é grande!
-- É... mas e o carro aí?
Subimos as escadas, batemos, chamamos... e nada. Então a vizinha do lado perguntou:
-- Vocês estão procurando quem?
-- O dono desse carro.
-- Um que tem uma barba assim? Mora lá perto daquele poste. Ele deixa o carro aí porque tem sombra.
Chegamos lá de surpresa; foi aquela festa! A casa deles é um amor, muito arrumadinha, pintura nova – que eles fizeram --, os cômodos bem repartidos. O único problema é o mofo decorrente do clima muito úmido... É um tal de limpa-limpa sem fim... A rua é muito tranquila, tem tudo perto: supermercado, farmácia, lojas variadas. E é um lugar bonito, ao lado de uma grande avenida.

À noite fomos jantar na------------. A comida estava ótima, mas o que ficou na lembrança – não precisam rir, é que eu nunca tinha visto... – foi o chope de vários sabores (frutas do lugar). Bem diferente mesmo!

26 de março, terça-feira – A chuva parou. Fomos para a Praia do Paraíso, em ____________. Na estrada o Lúciu comprou camarão, daqueles ferventados inteiros, com casca, cabeça e tudo... Eu nunca tinha provado, inclusive esse é o motivo por não gostar de acarajé; aquele recheio com perninhas, casquinhas e rabo... não desce. Comecei cascando para comer; aí resolvi tirar apenas a cabeça e as perninhas... Ué, e não é que é gostoso? No final eu estava comendo o bichinho inteiro – sem a cabeça, claro! Comi, e comi, e comi... Achei uma delícia!!! Bem que o Eraldo sempre diz:
-- Não pode dizer que não gosta, se nunca provou...
Amei a praia! Combina com o nome. Uma vista maravilhosa e a água, então, deliciosa! Ficamos lá até tarde.

Gostei muito de Belém. Estava preparada para achar a cidade um pouco feia, mas achei bonita, muito bonita! Cheia de verde!

27 de março – quarta-feira – O Lúciu saiu cedo para trabalhar e nós ficamos em casa. À tarde o Leandro chegou – Até que enfim... Estava parecendo curiango “amanhã eu vou...”. Lembramos das muitas histórias do pessoal de Nova Xavantina.  A Patty fez um jantar delicioso! Dormimos pensando na praia do Algodoal...

28 de março, quinta-feira – Níver do Eraldo. Saímos cedo para pegar o trailer na oficina e ir para  Marudá; de lá pegaríamos o barco para a praia de Algodoal. Como estava tarde e sem sol, resolvemos ficar na Praia de Crispim, muito bonita também.

À tardinha, deixamos a Patty e o Lúciu encomendando as comidas e fomos caminhar, descalços, pela praia... Caminha que caminha, conversa que conversa, o papo estava bom que só...Tocos daquele tanto... E eu dizendo q devíamos ter cuidado com os tocos. Resolvemos voltar para a parte limpa da praia; ééééé,,,porque tinha uma graaaande parte de areia limpinha! De repente ouço um "aaaaiiiii" do Eraldo; lá estava ele pulando, pulando e segurando o pé. Olhei... Nossa! Que furo! Assim -- sem exagero nenhum -- de uns três centímetros de profundidade. 

Tentei tirar o estrepe lá na barraca da praia, não deu certo. Tivemos sorte: a dona da barraca era enfermeira e nos indicou o hospital de Marapanim, a vinte km. Fomos logo, pois já era noite. Tivemos um ótimo atendimento. O médico tirou o pau podre do pé do Eraldo, fez curativo, deu os medicamentos e o dispensou. Ah, e deixou q eu assistisse a tudo...Eu lá, olhando com o maior interesse... Fui sentindo uma coisa muito estranha, como se me faltasse o ar e saí... E eu, que nunca tinha desmaiado na vida -- e tinha muita vontade, para ver como era --, fui me sentindo cada vez pior; algo estranhíssimo, como se fosse morrer... Foi horrível! A  voz parece q não ia sair e eu me sentei no banquinho e chamei, agoniada, com uma vozinha que não era a minha: "Enfermeira, enfermeira, estou passando mal..." Vieram duas enfermeiras para cuidar de mim. Oh, agonia! Nunca em minha vida quero passar por outra.

O médico tirou o pau podre, fez o curativo e pediu raios-X no dia seguinte. Dormimos lá mesmo, na porta do hospital.


29 de março, sexta-feira -- Acordamos cedo e fomos ao hospital para os raios-X. O técnico não tinha comparecido; o outro médico disse que estava tudo bem. Então fomos pegar o barco para o Algodoal... Adorei a travessia. Chegando lá pegamos um táxi – uma charretinha, puxada por um burrinho, uma graça! Mesmo não tendo sol, a praia estava ótima! Combinamos com o dono da charrete para nos pegar às 17h00min e fomos nos divertir MUUUUIIIITTOOOO!!!

Quando o senhor chegou para nos pegar, eu sugeri:
-- Será que não dá de irmos a Patty, o Lúciu e eu no banco de trás; e o senhor e o Eraldo no da frente? – É... porque na ida o homem foi a pé puxando o burrinho. Não gostei; fiquei me sentindo uma daquelas madames do tempo da escravatura. Ele gostou da idéia; e foi contando histórias:

“Sabem por que esta praia chama Praia da Princesa? Mais para lá tem a Lagoa da Princesa... Dizem que na lagoa mora uma princesa encantada; ela aparece transformada em animais; às vezes numa serpente, outras numa ave... Dizem que é uma mulher lindíssima! Certa vez apareceu para um pescador e perguntou:
-- Você é corajoso?
O pescador, completamente encantado com a princesa, respondeu:
-- Sim!!! Não tenho medo de nada.
-- Então depende só de você me desencantar. Eu vou aparecer à noite, aqui na lagoa, na forma de uma serpente. Você deve pegar uma faca bem grande e cortar meu pescoço. Assim, retomarei a forma humana e serei eternamente sua. Porém, se você tiver medo, estarei perdida para sempre.
O pescador compareceu à praia na hora combinada. De repente, ouviu um barulho horrível e a serpente veio surgindo enorme, furiosa, horripilante!
O jovem pescador deu um grito e saiu correndo, sem olhar para trás. E a pobre e linda princesa ficou presa ao encantamento.


Passou-se o tempo... Certo dia um pescador viu na lagoa um filhote de cobra e, mais que depressa, o matou. Logo depois, o filho do pescador pediu ao pai para ir tomar banho. O pai respondeu:
-- Pode ir, meu filho; você já está acostumado, conhece bem a lagoa.
Passou-se o dia, o sol já sumia no horizonte quando o pai percebeu que o menino não se encontrava por ali. Preocupado foi à lagoa e, qual não foi seu espanto, quando viu as roupinhas do filho à beira da água... Chamou, chamou, chamou... e nada. Os amigos, ao saberem do ocorrido, vieram todos à procura da criança tão amada. Dias depois encontraram o corpinho boiando nas límpidas águas da lagoa.
-- Você matou o filho da princesa, disseram os pescadores, agora ela matou o seu.”


Amei a linda história da Princesa Encantada. Chegamos ao porto em cima da hora; já escurecendo. Já nos tinham dito que à noite a maré sobe e as ondas ficam mais altas; por isso os barcos saem antes de escurecer.

Pegamos um barco bem menor e mais velho. Achei até bom, gosto de coisas antigas. Na saída, um rapaz já começou a implicar com o barqueiro porque não tinha escada para se subir no barco: “Se a te pegam, tu vai te lascar...”
No início gostei muito daquela coisa rústica, o motor lá atrás, uma luzinha, parecia um caixotinho... E os homens lá, mexendo no motor. E o barco flutuando, flutuando... Não é que o motor não pegava de jeito nenhum? Começamos a ficar apreensivos... Peleja que peleja e nada...

O jeito foi pedir socorro ao barco maior que ia passando e amarrar o nosso nele. Até aí eu estava achando TUDO muito interessante! Oh, santa inocência... Tirei foto e ri muito... Que aventura! Nunca andei num barco rebocado...
Gente, gente!!! De repente o barco começou a balançar, parecendo uma folhinha lançada ao vento... Era cada requebrada... E a corda parecia que ia se soltar. Um rapaz começou a se danar:
-- Por que não passamos para o barco maior?
-- Rapaz, respondeu o barqueiro, é muito arriscado. E se algum passageiro cair no mar?
-- Ah, é??? E o senhor acha que é melhor pôr em risco a vida de doze pessoas?
Foi o bastante para eu me apavorar. Isso mesmo; fiquei APAVORADA! Pedi um colete, tentei tirá-lo lá do teto e o negócio não saía. Então comecei a gritar:
-- Olha aí, gente! O colete nem sai... Quero um colete, tira um pra mim. Põe um colete na Patty, Lúciu, e em você também; Eraldo, põe um colete.
E o rapaz:
-- A corda está escapando, olha lá...
-- Abaixa, gente – gritei, agachando no chão do barco--, a corda vai se soltar e com a força deste vento vai nos pegar.
Em minha fértil imaginação, já via a corda se soltando e degolando todos nós. E o barco balançando, cada vez mais louco...
-- Moço, perguntei, quanto tempo ainda demora?
-- Ah, uns 30 minutos... ou 20.
-- Isso tudo??? Ah, não... E você, Eraldo, falando em comprar um barco... Pode tirar de ideia, pois eu não entro mesmo...
Eu tentava acalmar a Patty, que estava friinha, coitada! De repente, para meu consolo, vi uma casinha cinza de teto azul!
-- Fique tranquila, Patty, olha as casinhas lá, na beira da praia, já estamos chegando.
E eu de olho nas casinhas... Só que nunca chegava...
Hahahahhhaaa... Agora dá de rir. O Lúciu disse que, depois que eu mostrei as casinhas umas cinco vezes, ele não aguentou:
-- Mãe, aquilo é o barco que vem ao nosso lado.
E depois contou, morrendo de rir:
-- Será que ela estava pensando que eram casinhas populares, assim, tudo igual?
Durante o sufoco, eu pensava: “A mamãe, a dona Adélia, o seu Joaquim... Todos falavam que a gente não devia viajar na sexta-feira da paixão... E eu aqui, me divertindo, tomando cerveja... nem fiz jejum direito...”

Quando, afinal, o barco chegou ao porto, o Eraldo disse:
-- Tire o colete.
-- SÓ quando eu estiver com os pés na terra.
Agora fico pensando a quanto aquele povo riu de mim... Não estou nem aí...
Agora a gente ri, mas quando estava acontecendo...Ah, a Pite lá... essa eu queria ver...
30 de março, sábado – Já que estava chovendo mesmo, ficamos em Crispim. Nem pensar em barco... Contando a história do rebocamento para o rapaz do bar, ele disse:
-- É que mais acontece por aqui; moro neste lugar há muito tempo e nunca tive coragem de ir ao Algodoal.  Viiiiiiraaaammm??? Não sou só eu a medrosa...

Com chuva e tudo foi um dia maravilhoso! O coitado do Eraldo manquitolando, mas se divertindo também.

31 de março, domingo – O Eraldo resolveu deixar os meninos em Castanhal e, assim, ganhar 100 km; além de se livrar do trânsito difícil na chegada de Belém. Eles pegaram uma van e se foram, para nossa tristeza.
Lúciu e Patty, não falei q a casa ia ficar triste? Está um chué... Ainda mais com meu benzinho de pé estrepado; tadinho, não dá de caminhar, não dá de passear pela cidade. Ele já fez muito dirigindo quase 300 km hoje. 

Hoje o Eraldo voltou lá para fazer o curativo...O médico, que não me conhecia, deixou que eu entrasse para a consulta. Na hora das injeções e do curativo, a enfermeira: 
-- A senhora saia, pois fica nervosa...
-- Ah, você é a mesma daquele dia...


O senhor Eraldo Luís mandou um e-mail perguntando – e rindo... – por que não fomos para o Algodoal... Olha a graça... Respondi no ato:

-- Sr. Eraldo Luís, não fui para Algodoal porque os outros preferiram ficar no Crispim, não é mesmo, gente? Nada, NADA a ver com o tal do barco rebocado...