terça-feira, 3 de dezembro de 2013

EL BARCO AVARIADO E TU CAPITAN ISRAEL


Queridos amigos, como o tempo está escasso, vou mandar-lhes os emails em que contei algumas partes da viagem. Por aqui nem sempre se tem internet e, quando escrevo no teclado espanhol, sai tudo errado... Não tem cedilha e, muitas vezes, nem til. Vou tentar colocar algumas fotos. As fotos ficarão para amanhã. Tenho que passá-las para o computador. Esqueci o cabinho de ligar.





Queridos, mil beijos... Que Deus os abençoe.

Nem acredito que estou escrevendo em meu computador; o hotel tem internet para o cliente.

Gostei do seu email, Eraldo Luís: "Me liguem urgente, sua reserva foi cancelada". Demos uma de "Joãozinho sem braço". Entramos na fila para fazermos o check-in . Os rapazes foram muito gentis quando não acharam nosso nome. Perguntaram onde foi feita a reserva, por quem... Parece até que tentaram ligar. Futricaram, futricaram... até nos arrumar as passagens no mesmo voo; eu jurava que não daria tempo. Foi um corre-corre: o rapazinho nos guiou o tempo todo até entrarmos no avião. E aqui estamos, D. Almeri, em Cancun. A cidade é muito bonita e diferente: toda arborizada. E as pessoas gentilíssimas. A mocinha do supermercado ao saber que éramos brasileiros perguntou:

-- Como se diz "te amo" no Brasil? 
-- No Brasil? Te amo.

Continuando a história de ontem: À tarde do dia 28, sexta-feira, o capitão veio com uma conversa mole:
-- Pensei una cosa. O passeio terminaria em El Porvenir (uma ilha que estava bem pertinho). Mas, como el barco deu problema y tengo un amigo em Porto Lindo, iremos para allá no sábado a la noche para arreglar mi barco e no domingo temprano vosotros pegam o ônibus; fica bem mais barato do que pegar uma lancha em Porvenir e uma van para a cidade do Panamá. Isto é, se todos concordarem.

O quê??? -- pensei. Viajar ainda num barco avariado? Mas nem mesmo. 
Vocês acreditam que TODOS concordaram?! Éééé''eéé...até o senhor Eraldo.
Foi me dando um sufoco e não aguentei:

-- Quanto tempo demora para chegar lá, Israel?
-- Ocho horas... Sairemos a la noche...

Correndo o risco de ser desmancha-prazeres, disse bem forte:
-- Eu tenho medo, Israel. Não tenho coragem. 
O Eraldo tentou lhe explicar minha experiência no Algodoal e no lago Titicaca. Ele riu muito:
-- Sônia, voy a le hablar. Un barco no es como um carro que estraga en la carretera... no hay como ligar  y dizer: "Mecânico, venga arreglar mi barco". No hay como, Sônia. No mar, el capitan arregla tu barco.

Pensei: Ele acha que isto me convence...Então não precisamos ir a Porto Lindo, uai. Arregla tu, tu barco.

Como já tínhamos deixado o Pierre, o peruano, numa ilha, falei com o Eraldo e lhe dissemos que poderia nos deixar também no sábado e seguir viagem. Ele ligou e combinou uma lancha para sábado meio dia. Chegamos antes e fomos à ilha, o capitão e eu, para falarmos com a índia encarregada disso. Começaram um bate-boca, ele e a índia. Resultado: não havia lancha, tinha saído de manhã. Voltei chorando para o barco. E todos tentando me consolar:

-- Sônia, este tipo de barco pode ser manejado somente com as velas. E o capitão:
-- Colombo e Cabral, navegavam só com vela.

Colombo e Cabral... Com efeito. Isto é comparação? Em que século estamos? Nem me lembrei de falar que, naquele tempo, morriam milhares de navegantes.

Já estava conformada em fazer a viagem. Fui ao quarto, peguei meu diário e fiz um pedido em oração: "Oh, Espírito Santo, se for possível, me arrume uma lancha."

À tarde ventou fortíssimo, o navio se afastou (a corda da âncora é bem comprida) e bateu numa rocha. Nada de grave, mas quebrou uma hélice. O barco teria que viajar com apenas um motor. E ainda mais: não sei se o motor bom ou o danificado.
Dois rapazes e duas moças do barco iam de bote à ilha: "Quem quer ir? Quem quer ir?"

Pensei: É minha última chance. Chamei o Eraldo:

-- Vamos lá, Eraldo. Talvez a gente arruma uma lancha. Pelo que entendi, se forem 10 pessoas, os índios levam. Só que apenas duas não compensa, São dez dólares por pessoa. Podemos pagar 100 dólares. Nossa vida vale muito mais que isso.

-- Vá você com eles; eu não entendo muito o que falam.

Fui. Especula daqui e dali, me disseram que fosse à oficina dos índios. Trataram-me com um carinho imenso. Quando me lembro do quanto eles foram prestativos e gentis começo a chorar... Pronto, vou ter que parar. Depois conto o resto. Uma coisa lhes digo com muita emoção: Valeu a pena todas estas peripécias porque conhecemos estas pessoas maravilhosas que ficaram esperando nossa volta. Voltaremos, com certeza, e com toda a família, se Deus quiser. O Eraldo chegou a dizer:

-- Se não tivéssemos passagem compra para amanhã, ficaríamos aqui para assistir a esse Congresso. 
Ia haver um Congresso dos Kuna Yala no dia seguinte e, pelo visto, era aberto aos turistas.  Agora vou parar mesmo. MIlhões de beijos.

Mais um recadinho: Se souberem de alguém que está seguindo meu blog, mandem-lhes meus emails. O blog está de lado. Fica difícil escrever com o teclado espanhol, Sai tudo doido.
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(CONTINUAÇÃO DE: "EL BARCO AVARIADO E TU CAPITAN ISRAEL".) 

Na oficina a índia me disse que domingo às 11h00min haveria uma balsa do povo que viria para  o Congresso. 

-- Hay donde nos acostarmos, yo y mi marido?

A dificuldade estava aí. Nas ilhas, geralmente, não há hospedagem. Mas um índio muito gentil me disse que cuidaria de nós, nem que tivesse de armar uma barraca. Claro que estava tudo bem. Eu dormiria na praia, feliz da vida; só queria me ver livre daquele barco.

Voltei, pegamos nossas malas e o Israel, não de cara muito boa, nos levou de bote. Isso demorou porque os meninos, antes de voltarmos, resolveram passear e nadar.

Chegando à Ilha fui à oficina. Cadê todo mundo? A oficina estava fechada. O Eraldo ficou lá num banco olhando as malas e eu fui procurar o índio. Perguntava para um, para outro. Como és su nombre? Não me lembrava. Eu explicava: Ele está com uma camiseta que tem uma roda assim, na frente. Ele disse que arrumava uma barraca para a gente dormir. Baraca?...Baraca??? Como é barraca em espanhol? Ah, si, una tienda. 

-- La oficina está cerada. Ya se foran... 
E agora? O q faço? Disseram que havia uma hospedagem. Corri lá. Expliquei para o dono da hospedagem, um senhor mal humorado e bravo, que precisávamos de um quarto.

-- No hay, tudo reservado para congresso mañana. 
A indiazinha, muito gentil, explicou que era apenas por uma noite, que sairíamos cedo.
-- No hay, no hay. Tudo limpio p congresso. Mañana no hay tiempo para assear. No hay. NO HAY. 

Expliquei que nos levantaríamos bem cedo, na hora em que ele quisesse.

-- No, NO. Yo lo sé como é. Hablan que se llevantan temprano Y solamente salem a las onze. Yo los conozco."

A esposa do nojento perguntou se dormiríamos no sofá. Respondi depressa: "Si, si."
E o capeta:
-- NO! NO! Turistas chegan para congresso. Mala impresión a turistas.

Não houve jeito. Fui para o salão onde fica um barracão de reuniões. Falei com outra mocinha, explicando a situação. Havia um índio lá, muito simpático, que morou um tempo em Cuiabá. Vendo que eu era brasileira, veio todo sorridente dizendo que os índios que cuidavam do bar não nos deixariam sem abrigo. Eram todos amigos. Explicou que o índio que eu estava procurando certamente voltaria; é que morava na ilha vizinha.

Quando voltei para me encontrar com o Eraldo, o índio amigo já vinha chegando. Chamava-se Ponci e cuidou da gente o tempo inteiro. Foi depressa armar a barraca. Quem diz que a danada parava... O vento fortíssimo que vinha do mar não deixava de jeito nenhum. O Eraldo foi ajudá-lo. Percebi que estavam enrolando e guardando a barraca. E agora?

-- Ele disse que pode pôr um colchão lá na cabana que está em reforma. Tudo bem?
-- Claro, claro, CLARO!!! Durmo na areia se for preciso. Só quero dormir na TERRA! TERRA! TERRRRRA!!!

Fiquei olhando o Eraldo ajudar o Ponci a carregar o colchão (que ameaçava voar carregando o rapaz) e entrarem na cabana, Só então senti a tensão que havia passado e desatei a chorar de puro alívio. Aquele cantinho me pareceu o melhor lugar do mundo. E o nosso amigo ainda veio trazendo lençóis e perguntando, todo o tempo, se estávamos bem:

-- Que querem comer? Pollo, pescado, ensalada, papas, plátano? 

Dormimos com o barulho das ondas que passavam embaixo da cabana. E, coisa curiosa, tanto o Eraldo como eu, sentíamos como se a cama estivesse balançando...
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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A SERPENTE ENCANTADA

A SERPENTE ENCANTADA

23 de outubro, quarta-feira – Que vergonha! Hoje é que vou postar a história do passeio a Belém. Isso porque eu queria aprender como postar fotos. O Eraldo Luís vai me ensinar.

                                                                                    

24 de março, domingo -- Paramos num posto a 1 km de Gurupi. Caminhamos até a cidade. A internet não funcionou. Tomei uma cervejinha – aquela da marca ruim.

25 de março, segunda-feira – Saímos do pouso às 08h20min. Boa Vista do Gurupi. O Eraldo fez questão de perguntar ao rapaz do posto quantos quilômetros havia até Belém. Só que já estavam combinados para me enganar:
-- Ihhhh... Faltam quase 800...
Divisa Maranhão – Pará. Ah, Pará, Pará! Pará dos meus encantos! Amo o Pará! Paraíso!!! Cachoeira do Piraí, Santa Luzia do Pará, Capanema. E chuva, chuva, chuva... E o Eraldo me enganando, dizendo que estava longe de Belém. Se não fosse a tal cerveja de marca ruim não seria possível, pois eu viajo de olho no mapa. Mas, como estava tonta e enjoada, nem queria saber de ler. Castanhal, Mirituba, Miriti... E eu enchendo:
-- Eraldo, mas devemos estar bem perto dos meninos; não tem lógica não chegarmos até lá...
-- Uai, então no trevo você pega o ônibus e eu sigo para o litoral... Não podemos ir porque os outros vão ficar com ciúme...
-- Tem graça eu ir sozinha; fica parecendo que você está de mal... Até os meninos vão achar isso esquisito.
E nhem, nhem, nhem... nhem, nhem, nhem...
Ah, não contei que ele desviava minha atenção das placas da estrada...
-- Nossa, Eraldo, aqui parece uma cidade grande... Olha o comércio... Um shopping grande lá...
-- O Lúciu disse que perto do trevo tem muitas cidades.
A chuva também atrapalhava a visão. Até que vi, para minha grande ALEGRIA: “Bem-vindo a Belém.” Que emoção! É por isso que adoro surpresas! Nessa hora pensei que a Patty e o Lúciu estavam sabendo da visita. Qual o quê! Não sabiam de nada. Ligamos para saber se estavam em casa e fomos perguntando, perguntando... “Quem tem boca vai a Roma!” Até que achamos a rua e vimos o carro do Lúciu. Só que o carro estava em frente ao número 39 e no endereço que eu tinha era 139. O Eraldo teimando:
-- Você deve ter copiado errado...
-- Eraldo, de 39 para 139 a diferença é grande!
-- É... mas e o carro aí?
Subimos as escadas, batemos, chamamos... e nada. Então a vizinha do lado perguntou:
-- Vocês estão procurando quem?
-- O dono desse carro.
-- Um que tem uma barba assim? Mora lá perto daquele poste. Ele deixa o carro aí porque tem sombra.
Chegamos lá de surpresa; foi aquela festa! A casa deles é um amor, muito arrumadinha, pintura nova – que eles fizeram --, os cômodos bem repartidos. O único problema é o mofo decorrente do clima muito úmido... É um tal de limpa-limpa sem fim... A rua é muito tranquila, tem tudo perto: supermercado, farmácia, lojas variadas. E é um lugar bonito, ao lado de uma grande avenida.

À noite fomos jantar na------------. A comida estava ótima, mas o que ficou na lembrança – não precisam rir, é que eu nunca tinha visto... – foi o chope de vários sabores (frutas do lugar). Bem diferente mesmo!

26 de março, terça-feira – A chuva parou. Fomos para a Praia do Paraíso, em ____________. Na estrada o Lúciu comprou camarão, daqueles ferventados inteiros, com casca, cabeça e tudo... Eu nunca tinha provado, inclusive esse é o motivo por não gostar de acarajé; aquele recheio com perninhas, casquinhas e rabo... não desce. Comecei cascando para comer; aí resolvi tirar apenas a cabeça e as perninhas... Ué, e não é que é gostoso? No final eu estava comendo o bichinho inteiro – sem a cabeça, claro! Comi, e comi, e comi... Achei uma delícia!!! Bem que o Eraldo sempre diz:
-- Não pode dizer que não gosta, se nunca provou...
Amei a praia! Combina com o nome. Uma vista maravilhosa e a água, então, deliciosa! Ficamos lá até tarde.

Gostei muito de Belém. Estava preparada para achar a cidade um pouco feia, mas achei bonita, muito bonita! Cheia de verde!

27 de março – quarta-feira – O Lúciu saiu cedo para trabalhar e nós ficamos em casa. À tarde o Leandro chegou – Até que enfim... Estava parecendo curiango “amanhã eu vou...”. Lembramos das muitas histórias do pessoal de Nova Xavantina.  A Patty fez um jantar delicioso! Dormimos pensando na praia do Algodoal...

28 de março, quinta-feira – Níver do Eraldo. Saímos cedo para pegar o trailer na oficina e ir para  Marudá; de lá pegaríamos o barco para a praia de Algodoal. Como estava tarde e sem sol, resolvemos ficar na Praia de Crispim, muito bonita também.

À tardinha, deixamos a Patty e o Lúciu encomendando as comidas e fomos caminhar, descalços, pela praia... Caminha que caminha, conversa que conversa, o papo estava bom que só...Tocos daquele tanto... E eu dizendo q devíamos ter cuidado com os tocos. Resolvemos voltar para a parte limpa da praia; ééééé,,,porque tinha uma graaaande parte de areia limpinha! De repente ouço um "aaaaiiiii" do Eraldo; lá estava ele pulando, pulando e segurando o pé. Olhei... Nossa! Que furo! Assim -- sem exagero nenhum -- de uns três centímetros de profundidade. 

Tentei tirar o estrepe lá na barraca da praia, não deu certo. Tivemos sorte: a dona da barraca era enfermeira e nos indicou o hospital de Marapanim, a vinte km. Fomos logo, pois já era noite. Tivemos um ótimo atendimento. O médico tirou o pau podre do pé do Eraldo, fez curativo, deu os medicamentos e o dispensou. Ah, e deixou q eu assistisse a tudo...Eu lá, olhando com o maior interesse... Fui sentindo uma coisa muito estranha, como se me faltasse o ar e saí... E eu, que nunca tinha desmaiado na vida -- e tinha muita vontade, para ver como era --, fui me sentindo cada vez pior; algo estranhíssimo, como se fosse morrer... Foi horrível! A  voz parece q não ia sair e eu me sentei no banquinho e chamei, agoniada, com uma vozinha que não era a minha: "Enfermeira, enfermeira, estou passando mal..." Vieram duas enfermeiras para cuidar de mim. Oh, agonia! Nunca em minha vida quero passar por outra.

O médico tirou o pau podre, fez o curativo e pediu raios-X no dia seguinte. Dormimos lá mesmo, na porta do hospital.


29 de março, sexta-feira -- Acordamos cedo e fomos ao hospital para os raios-X. O técnico não tinha comparecido; o outro médico disse que estava tudo bem. Então fomos pegar o barco para o Algodoal... Adorei a travessia. Chegando lá pegamos um táxi – uma charretinha, puxada por um burrinho, uma graça! Mesmo não tendo sol, a praia estava ótima! Combinamos com o dono da charrete para nos pegar às 17h00min e fomos nos divertir MUUUUIIIITTOOOO!!!

Quando o senhor chegou para nos pegar, eu sugeri:
-- Será que não dá de irmos a Patty, o Lúciu e eu no banco de trás; e o senhor e o Eraldo no da frente? – É... porque na ida o homem foi a pé puxando o burrinho. Não gostei; fiquei me sentindo uma daquelas madames do tempo da escravatura. Ele gostou da idéia; e foi contando histórias:

“Sabem por que esta praia chama Praia da Princesa? Mais para lá tem a Lagoa da Princesa... Dizem que na lagoa mora uma princesa encantada; ela aparece transformada em animais; às vezes numa serpente, outras numa ave... Dizem que é uma mulher lindíssima! Certa vez apareceu para um pescador e perguntou:
-- Você é corajoso?
O pescador, completamente encantado com a princesa, respondeu:
-- Sim!!! Não tenho medo de nada.
-- Então depende só de você me desencantar. Eu vou aparecer à noite, aqui na lagoa, na forma de uma serpente. Você deve pegar uma faca bem grande e cortar meu pescoço. Assim, retomarei a forma humana e serei eternamente sua. Porém, se você tiver medo, estarei perdida para sempre.
O pescador compareceu à praia na hora combinada. De repente, ouviu um barulho horrível e a serpente veio surgindo enorme, furiosa, horripilante!
O jovem pescador deu um grito e saiu correndo, sem olhar para trás. E a pobre e linda princesa ficou presa ao encantamento.


Passou-se o tempo... Certo dia um pescador viu na lagoa um filhote de cobra e, mais que depressa, o matou. Logo depois, o filho do pescador pediu ao pai para ir tomar banho. O pai respondeu:
-- Pode ir, meu filho; você já está acostumado, conhece bem a lagoa.
Passou-se o dia, o sol já sumia no horizonte quando o pai percebeu que o menino não se encontrava por ali. Preocupado foi à lagoa e, qual não foi seu espanto, quando viu as roupinhas do filho à beira da água... Chamou, chamou, chamou... e nada. Os amigos, ao saberem do ocorrido, vieram todos à procura da criança tão amada. Dias depois encontraram o corpinho boiando nas límpidas águas da lagoa.
-- Você matou o filho da princesa, disseram os pescadores, agora ela matou o seu.”


Amei a linda história da Princesa Encantada. Chegamos ao porto em cima da hora; já escurecendo. Já nos tinham dito que à noite a maré sobe e as ondas ficam mais altas; por isso os barcos saem antes de escurecer.

Pegamos um barco bem menor e mais velho. Achei até bom, gosto de coisas antigas. Na saída, um rapaz já começou a implicar com o barqueiro porque não tinha escada para se subir no barco: “Se a te pegam, tu vai te lascar...”
No início gostei muito daquela coisa rústica, o motor lá atrás, uma luzinha, parecia um caixotinho... E os homens lá, mexendo no motor. E o barco flutuando, flutuando... Não é que o motor não pegava de jeito nenhum? Começamos a ficar apreensivos... Peleja que peleja e nada...

O jeito foi pedir socorro ao barco maior que ia passando e amarrar o nosso nele. Até aí eu estava achando TUDO muito interessante! Oh, santa inocência... Tirei foto e ri muito... Que aventura! Nunca andei num barco rebocado...
Gente, gente!!! De repente o barco começou a balançar, parecendo uma folhinha lançada ao vento... Era cada requebrada... E a corda parecia que ia se soltar. Um rapaz começou a se danar:
-- Por que não passamos para o barco maior?
-- Rapaz, respondeu o barqueiro, é muito arriscado. E se algum passageiro cair no mar?
-- Ah, é??? E o senhor acha que é melhor pôr em risco a vida de doze pessoas?
Foi o bastante para eu me apavorar. Isso mesmo; fiquei APAVORADA! Pedi um colete, tentei tirá-lo lá do teto e o negócio não saía. Então comecei a gritar:
-- Olha aí, gente! O colete nem sai... Quero um colete, tira um pra mim. Põe um colete na Patty, Lúciu, e em você também; Eraldo, põe um colete.
E o rapaz:
-- A corda está escapando, olha lá...
-- Abaixa, gente – gritei, agachando no chão do barco--, a corda vai se soltar e com a força deste vento vai nos pegar.
Em minha fértil imaginação, já via a corda se soltando e degolando todos nós. E o barco balançando, cada vez mais louco...
-- Moço, perguntei, quanto tempo ainda demora?
-- Ah, uns 30 minutos... ou 20.
-- Isso tudo??? Ah, não... E você, Eraldo, falando em comprar um barco... Pode tirar de ideia, pois eu não entro mesmo...
Eu tentava acalmar a Patty, que estava friinha, coitada! De repente, para meu consolo, vi uma casinha cinza de teto azul!
-- Fique tranquila, Patty, olha as casinhas lá, na beira da praia, já estamos chegando.
E eu de olho nas casinhas... Só que nunca chegava...
Hahahahhhaaa... Agora dá de rir. O Lúciu disse que, depois que eu mostrei as casinhas umas cinco vezes, ele não aguentou:
-- Mãe, aquilo é o barco que vem ao nosso lado.
E depois contou, morrendo de rir:
-- Será que ela estava pensando que eram casinhas populares, assim, tudo igual?
Durante o sufoco, eu pensava: “A mamãe, a dona Adélia, o seu Joaquim... Todos falavam que a gente não devia viajar na sexta-feira da paixão... E eu aqui, me divertindo, tomando cerveja... nem fiz jejum direito...”

Quando, afinal, o barco chegou ao porto, o Eraldo disse:
-- Tire o colete.
-- SÓ quando eu estiver com os pés na terra.
Agora fico pensando a quanto aquele povo riu de mim... Não estou nem aí...
Agora a gente ri, mas quando estava acontecendo...Ah, a Pite lá... essa eu queria ver...
30 de março, sábado – Já que estava chovendo mesmo, ficamos em Crispim. Nem pensar em barco... Contando a história do rebocamento para o rapaz do bar, ele disse:
-- É que mais acontece por aqui; moro neste lugar há muito tempo e nunca tive coragem de ir ao Algodoal.  Viiiiiiraaaammm??? Não sou só eu a medrosa...

Com chuva e tudo foi um dia maravilhoso! O coitado do Eraldo manquitolando, mas se divertindo também.

31 de março, domingo – O Eraldo resolveu deixar os meninos em Castanhal e, assim, ganhar 100 km; além de se livrar do trânsito difícil na chegada de Belém. Eles pegaram uma van e se foram, para nossa tristeza.
Lúciu e Patty, não falei q a casa ia ficar triste? Está um chué... Ainda mais com meu benzinho de pé estrepado; tadinho, não dá de caminhar, não dá de passear pela cidade. Ele já fez muito dirigindo quase 300 km hoje. 

Hoje o Eraldo voltou lá para fazer o curativo...O médico, que não me conhecia, deixou que eu entrasse para a consulta. Na hora das injeções e do curativo, a enfermeira: 
-- A senhora saia, pois fica nervosa...
-- Ah, você é a mesma daquele dia...


O senhor Eraldo Luís mandou um e-mail perguntando – e rindo... – por que não fomos para o Algodoal... Olha a graça... Respondi no ato:

-- Sr. Eraldo Luís, não fui para Algodoal porque os outros preferiram ficar no Crispim, não é mesmo, gente? Nada, NADA a ver com o tal do barco rebocado...


sábado, 6 de abril de 2013

LENÇÓIS MARANHENSES -- UM SONHO???!!!


LENÇÓIS MARANHENSES -- UM SONHO?!

21 de março, quinta-feira –
Antes de começar, preciso contar uma história: Diz o prof. Edivaldo, de Escrita Total, que devemos ter um escritor que nos sirva de modelo. Depois de pensar nos meus vários preferidos, elegi a Isabel Allende como minha inspiradora. Acho-a uma escritora maravilhosa e uma mulher fantástica! Depois de ler suas memórias, então... A danada tem coragem para dar e vender, é sincera, sensível; enfim, uma lutadora. Então, lá em João Pinheiro, procurando no mapa a ilha de Chiloé, onde acontece a história de seu livro “O caderno de Maia”, pesquisamos também sobre a autora. Qual não foi meu espanto ao ver a reportagem da Isabel intitulada: “Escreva um livro medíocre”! Depois de ler, entendi. Ela diz que a melhor maneira de nunca escrever um livro é querer começar com algo excelente! Devemos começar com humildade, escrevendo algo simples; que seja um diário, mas que seja escrito. Pensando nisso – e em tudo que os amigos sempre me disseram: “Por que você não escreve um livro? Você gosta tanto de contar histórias...” Meu marido, os nossos filhos e muitas outras pessoas. Quando iniciamos nossas viagens no trailer, a Zuleika – lembra-se disso, Zu? – disse:
-- Tia, você tem que me prometer que isso vai virar livro.
E vai, Zu! Vou criar coragem. Uma coisa me preocupa: Não tenho a ousadia da Isabel no que diz respeito a contar coisas da vida dos parentes... Em suas memórias, ela diz: “O melodrama familiar continuou, por sorte, porque, senão, sobre que diabos eu ia escrever?”

Continuando nossa viagem: Saindo de Anapurus passamos em Chapadinha, Vargem Grande, Paulica. Quanto coqueiro! Inúmeras casinhas de pau-a-pique – algumas rebocadas, outras não. Leite. Ipiranga. Paramos para comprar um balainho de bacuri, uma fruta bem gostosa que não conhecíamos: é parecida com manga; a gente parte e come a polpa que cobre a semente. Ela tem uma cola que prega nos dentes e não é muito fácil de sair. Mais que da fruta, gostei do balainho que veio acompanhando. O vendedor não perde tempo; fica à beira da estrada vendendo e fazendo o balaio para colocar as frutas. ( Epa! Agora que estou relendo e corrigindo para publicar é que percebi: Cadê meu balainho??? Ficou em Belém... embaixo do tanque; lavei e deixei enxugando... Nessa hora já deve estar no lixo....kkkkkkkkkk).

Itapecuru Mirim. Santana, Pedreira, Santa Rita, São Pedro – povoados. Tive uma ideia: bem que eu poderia grafar em itálico o nome dos povoados... Vou pensar no assunto.
Bacabeira. Mudando de rodovia: Rosário, Axixá, Morros – onde paramos para dormir. Uma cidade bem diferente: as praças parecem meio fora do esquadro, as calçadas são quase inexistentes; parece ser muito antiga. Caminhamos por ruas tão engraçadas! Só que não saberia dizer o porquê da graça...

22 de março, sexta-feira – Madruguei para tentar a conexão com a Internet. Deu certo. Respondi a alguns emails e publiquei o relato da viagem no blog – do dia 11/03 até 20/03. Tomamos café e saímos com um solzinho lindo!
-- Epa! Olha a chuva... Vem de repente. Isto é Maranhão!

No entroncamento pedimos informação, compramos milho e caímos no mundo... Lindo sol! Baliza. Bom Jardim.
-- Acho que estamos em Goiás... Baliza e Bom Jardim estão bem perto lá – diz o Eraldo.
Sobradinho. Lençóis Maranhenses – Dunas e Lagoas... Barreirinhas. O guia já veio nos encontrar e, enquanto eu preparava o almoço, o Eraldo foi agendar os passeios.

Almoçamos e saímos para as dunas. Coisa maravilhosa!!!
O quanto vcs pensarem q é bom, ainda é mais; simplesmente espetacular!!! A gente vai numa toiota, com cadeiras em cima; a bichinha vai pulando no meio do areão... Tem hora q vc pensa q vai tombar. Ainda bem que o casal que estava ao meu lado era meio destrambelhado para gargalhar, senão eu ia ficar sem graça de morrer de rir sozinha. Nunca vi coisa tão legal! Parece montanha russa, mas dura muuuuiiiito tempo... Amanhã iremos passear de barco. Acho que nem vou conseguir dormir só de relembrar as emoções. E também caminhamos mais ou menos uma hora subindo e descendo as enormes dunas e ainda tomamos banho nas lagoas. Foi bom demais!!! Contarei com mais detalhes no blog. (Essa parte copiei do email....kkkkk...é o pouco tempo....)
À noite estávamos pregadíssimos. Caímos na cama e foi aquele sonão...

23 de março, sábado – Saímos cedo para o passeio no Rio Preguiças. Chegamos animadíssimos ao porto! E não é que a chuva veio forte? “Ah! Não! Será que o passeio vai gorar?!” Chega o guia e nos entrega os coletes. – Logo que a chuva parar, sairemos.
Oba! Oba! Saímos ainda com chuva... Logo, logo apareceu um lindo sol. Que passeio! Paramos na Ilha do Farol, isto é, Ilha das Vassouras; depois na Ilha dos Macacos... Linda, linda! E muito interessante! Eu, então, que adoro macacos, amei, amei! Os macaquinhos ficam por ali, ao seu redor, pulando e brincando. O rapaz da lanchonete alertou:
-- Cuidem do refrigerante, senão eles pegam e bebem...
-- Mas é isso que eu estou querendo!
-- Não, dona; eles fazem muita bagunça...
Que graça! Eu ficaria ali o dia inteiro, olhando aqueles bichinhos que parecem tanto com gente. Tiramos várias fotos. Eu até filmei um pequenininho, comendo banana e raspando a casca com aqueles dentinhos tão pequenos... O guia nos disse que havia um macaquinho que era um terror: abria as garrafas de água, as latas de cerveja, mexia em todas as coisas. Os donos das barracas tinham que fechar tudo:
-- Vocês precisavam ver, parecia gente! – disse ele. Depois sumiu.
Será que alguém deu fim no bichinho?

Nem acredito que hoje, 03/03/2013, madruguei (antes de 07:00h) para adiantar o blog que está atrasadíssimo... Essa vida corrida é uma coisa! Tenho que fazer do jeito que a Zuleika gosta, escrever só o essencial.

Voltando a 23 de março:
A Ilha de Caburé é linda também; e tende a desaparecer. As dunas mudam de lugar e o mar avança cada vez mais. Anos atrás a pessoa levava trinta minutos para sair do rio, atravessar as dunas e chegar ao mar; hoje faz isso em cinco minutos.
Encomendamos o almoço e fomos tomar banho no mar, depois no rio. Após o almoço, rede!!! Há um barracão cheinho de redes para o descanso!
Nem sei avaliar qual passeio foi melhor, se o de ontem ou o de hoje...

Saímos de Barreirinha às 16:20h; teremos que voltar até --------------.
Sobradinho. Plantação de Bacuri. Como é bom voltar na mesma estrada! Na ida não percebemos essa plantação, nem conhecíamos a árvore. Morros. Dormimos cedo e cansados de subir os 160 degraus do farol.

24 de março, domingo – Saímos de Morros às 08:10h (eta madrugada!). Passamos novamente por Axixá, Rosário, Bacabeira, Rancho Papolco, São José, Santa Rita. Chegamos à entrada de Itapecuru Mirim. Nem sei porque me lembrei do livro “Menina Isabel” e da Dalva...

Pegando nova estrada, BR-135, em outro sentido. Em Colombo comprei um cuscuz saborosíssimo, o verdadeiro cuscuz baiano, era assim que a vó Anália fazia. O Eraldo não gostou:
-- Não tem queijo.
-- Cuscuz nunca teve queijo, isso é invenção de goianos; o queijo tira o sabor do milho.
Viu, dona Pite? Aprenda!
Miranda do Norte. Mudando para BR-222: Damata, Bamburral, Arari, Vitória do Mearim... Passamos por muitos povoados e feirinhas; bem arrumadinhos, mas sem nome... São Vicente, Igarapé do Meio. Agora BR-316: Santa Inês. Paramos para almoçar, já tarde. A dona Mariana veio nos servir:
-- Só tenho carne de sol; hoje é o dia da preguiça das mulheres... Serve carne de sol?
Pela toada da dona Mariana pensei que fosse demorar um tempão... Voltei para o trailer e me deitei; é que eu estava numa moleza... Logo, logo o Eraldo veio me chamar. E o almoço estava uma delícia; a carne seca, então... huuummm!!!
-- Dona Mariana, o que é capote e sarrabulho? Que pratos são estes?
-- Ah, minha filha, capote é galinha d’angola e sarrabulho... huuummmm é muito gostoso... é fígado de porco picado bem miudinho e refogado; é muito saboroso!!!
Perguntei quantos quilômetros tinha até Belém.
-- Quando a estrada era quebrada (???) tinha 530, agora que foi arrumada dizem que diminuiu 30, então tem 500 km.
Aí eu fiquei bem danada:
-- Eraldo, nós vamos passar pertinho de Belém e não vamos visitar os meninos??? Não tem lógica!
-- Não é só isso, não... A dona Mariana está enganada. Daqui a Belém tem quase 900 km...
Chuva, chuva, chuva... Bom Jardim, Zé Doca, Araguanã, Nova Olinda, Santa Luzia, Presidente Médice, Maranhãozinho, Gov. Nunes Freire, Rio Maracaçumé: coisa inédita! Arquibancadas na margem do rio!

Cerca de urubus: Que graça! Em cada pau da cerca, um urubu quietinho lá, parecendo uma estátua... Aquele tantão de urubu...
Paramos num posto a 1km de Gurupi. Caminhamos bastante e, já que era domingo, tomei uma cervejinha. O Eraldo não achou uma marca conhecida, comprou da que tinha... No outro dia é que constatei que era marca ruim...

Como hoje, 06/04/13, a internet está rápida, vou publicar essa parte no blog. Aguardem a próxima postagem sobre “Pará dos meus amores!!!” e a viagem a Belém que foi cheinha de peripécias...Não percam!!!!




sexta-feira, 22 de março de 2013

JOÃO RICO -- UM SÁBIO PESCADOR!



JOÃO RICO: UM SÁBIO PESCADOR
11 de março, segunda-feira – Em nossa caminhada às vezes vemos pessoas nas calçadas conversando. Mas ontem foi interessante. Uma turma de mulheres fazendo tricô ou crochê, nunca aprendi a diferença. Lembramo-nos de quem? De quem??? Das Egídias, lógico! Geralmente onde elas estão, as mãozinhas sempre ocupadas com linhas e agulhas... ou esmalte e lixa.

Fomos à feira, compramos beiju, tomamos café e saímos de Pindobaçu às 09:30h; o tempo aqui parece passar mais devagar... Ah, a Mariza pesquisou e descobriu a origem do nome da cidade. É indígena: pindoba – palmeira; assu – grande. Antes era grafado assim Pindobassu, depois colocaram a cedilha. Por aqui há muitas palmeiras.

Antônio Gonçalves: A entrada da cidade é muito bonita, uma estrada entre palmeiras. Senhor do Bonfim, Catuni, Jaguarari – muito bonita.
Juacema. Rio Olhos D’água (sem água). Estamos na BR-407. A vegetação mudou, mais seca, caatinga, muitos cactos.

Massaroca (no mapa é com cedilha). Passamos por vários rios: Umburana, Campeiro, Serrote Grande, Recreio... Todos secos.
Carnaíba, Juazeiro – cidade grande e antiga. Atravessamos o Velho Chico, sempre manso, manso, e estamos em Petrolina – Pernambuco. Tchau Bahia! Nem vou chorar; voltaremos breve, menos de um mês.

Paramos para dormir em Petrolina e fizemos caminhada numa pista maravilhosa: um tantão de gente caminhando... Eu caminhava, corria e me coçava, maldizendo as muriçocas. Lá pras tantas, desconfiei que aquilo podia ser alergia... coçava demais. Paramos numa farmácia, compramos um antialérgico conhecido e uma pomada.

Como evito o máximo tomar remédios, tomei banho e passei a pomada. Valeu bastante. Ao me deitar, percebi que a coceira tinha tomado o corpo inteiro, até o couro cabeludo coçava, uma coceira de desespero. Tomei o antialérgico... Aí uma luzinha se acendeu no meu cérebro: “Dengue”. Dengue?! Não, não, não!!! Eu não mereço; é a terceira vez que pego essa doença terrível. Lembrei-me da Isabel Allende, em seu livro de memórias: “Por que, quando acontece uma desgraça, pensamos que não a merecemos? Não somos melhores que ninguém; se outras pessoas passam por contratempos, nós também podemos passar.” Raciocinei assim: “Tanta gente nunca teve dengue, nem uma vezinha... e eu... três vezes? É cruel! Ninguém merece”.

12 de março, terça-feira – Ligo para a Lúcia e peço segredo: “Lúcia, não conte para ninguém, quando ficar boa, eu conto. Estou ligando para saber que remédio o Danilo está tomando (É... o danadinho estava com dengue) e o que ele passa nas coceiras...”
-- Pode tomar tylenol e dipirona. Nas coceiras ele passa arnica, disse a Lúcia.
O Eraldo tem uma arnica no óleo não sei de quê... Se precisar, eu passo.
Lembrei-me da Patty e do Lúciu que tiveram dengue ao mesmo tempo. Eu perguntei, alarmada:
-- Patty, como vocês se arrumaram?
--O que estava melhor cuidava do outro.
A Eni também teve dengue e se curou sozinha. Eu tenho um marido forte e dedicado para cuidar de mim.
Doença ingrata: derruba sua vontade e sua energia. O Eraldo queria que eu fosse ao médico. Nem, nem mesmo! Eu já conheço essa danada. É só aguentar a dor, coçar... coçar... coçar... e fazer repouso (e eu correndo ontem).

Atravessando o Velho Chico. Juazeiro. Bahia novamente! Pensando no tal repouso fui me deitar: “Se passar alguma coisa bonita, buzina que eu me levanto.” Um trevo sem placa nenhuma; o jeito é ir no chute. Epa! Parece que estamos voltando... E estamos; a estrada que no mapa constava asfaltada é puro chão... e longa...
-- Era asfalto, dona; mas arrancou tudo; agora tá assim...
Penso que estou iniciando uma nova década da minha vida no lugar certo. Aqui as pessoas lutam contra a adversidade e continuas serenas e bondosas. E com elas a gente aprende a priorizar o que é realmente importante na vida: amor, saúde, família, amizade, fé.

Sobradinho. Paramos para almoçar em frente ao “Cemitério Campo das Flores”; só essa é que faltava... Os meninos da casa em frente vêm nos visitar. A mocinha tira fotos.
-- Minha mãe mandou perguntar se vocês gostam de limão. Então vou pegar.
Volta com limõezinhos galegos fresquinhos! Delícia!

Represa de Sobradinho: Grande, grande, graaande! Maior lago artificial da América Latina! Ahhhh! Agora vi a tal da eclusa (elevador de navio). Lembra-se, Aline, de quando você achou uma figura disso na internet?
Associação ACRIPEIXESS. Criação de peixes. Paramos para conversar com os barqueiros. O senhor, muito gentil, colocou-nos no barco e foi dar comida aos peixes. Amamos o passeio! Inúmeras garças:
-- Tira foto das garças, Eraldo... Que coisa linda!
-- Elas me dão muito trabalho; às vezes tenho que espantar a tiros... Uma peste, dona, dá um prejuízo danado! Comem os olhos dos peixes – diz o barqueiro.
Realmente, havia muitos peixinhos boiando nos tanques.
Chão... Paramos para nos informar:
-- É um trecho pequeno de chão, dona. Mas tá boinha assim.
Santana do Sobrado, Casa Nova: Parece ser uma cidade planejada, mas não é.
O pior dessa dengue não é mesmo a coceira, é o repouso forçado e as lindas paisagens passando, passando...

Essa noite do dia 12 de março ficou gravada em minha mente como “a noite da coceira”... Um horror! Me lambuzei toda com o tal óleo de arnica (viu, Lu, já começo frase com pronome oblíquo – coisa horrorosa!). Coçava tanto, tanto, que queimava... Molhei uma toalha e me deitei em cima. Melhorou. Então a coceira foi subindo para o pescoço, o rosto. Acendi a luz e me olhei no espelho. Nossa! Estava todinha empolada. Até a testa; aqueles vergões vermelhos. Alergia, pensei, só pode ser. Por que não fui ao hospital? Tomei o antialérgico; deitei-me e dormi quase imediatamente.

13 de março, quarta-feira – Levantei-me e fui direto ao espelho olhar a coceira; não havia quase nada... Que remédio poderoso! Histamin (maleato de dexclorfeniramina, 2mg). E agora? Alergia de quê? De diferente, comi castanha de coquinho, cogumelo (no strogonof)...
Ah... e comi um frango assado, com um sabor meio esquisito, achei amargoso. Pode ser algum tempero diferente. Só sei que a castanha do coquinho, que eu tanto desejei... o Eraldo está comendo sozinho; não tive mais coragem de colocá-la na boca, o que é uma pena... Vocês se lembram, minhas irmãs, de quando o papai quebrava cocos para comermos a castanha? Coitado, aquele tanto de filhos, ali esperando, e ele, pac, pac, pac... e nunca conseguia encher nossas barrigas.

Lembrei-me da Flora, que era alérgica a castanha do Pará; do Tiago, alérgico a camarão... Tenho que descobrir.

Ih, tenho que ligar para a Lúcia e contar que a dengue era alergia. Uma delícia viajar sem coceira! Acho que ainda não tinha acontecido de viajarmos tanto tempo sem povoados, 75 km. Um barzinho solitário: “Lanchonete Rancho Alegre” – não é tão despovoado assim.

E não é que almoçamos quase em frente ao cemitério – de novo?! E sem percebermos. Somente ao sairmos é que vimos o cemiteriozinho.
Barragem do Caminho, BR-235; Caraíbas: “Bode assado na prata” (???); Marcos; Remanso. Vamos para Pilão Arcado; queremos ver onde acaba esta estrada. Ainda tem Passagem, bem no finzinho...Estamos na BA-752.

Pilão Arcado: A chegada é linda! Uma avenida bem larga, com bancos no centro, toda arborizada. Assim era o projeto inicial da Avenida Jardim em Mineiros, mas gorou.
Iremos para Passagem, à beira do São Francisco e, pelo jeito, ponto final desta rodovia.
Já em Passagem fomos à Vila dos Pescadores, onde conhecemos uma figura de gente que estava construindo uma peça de barco. O homem veio lá de cima com um parafuso gigante na mão. O seu colega disse, admirado:
-- Eh, João Rico, e não é que fez a peça? Tu faz tudo, João! Tu tinha que ser rico mesmo, não só no nome...
-- Sou rico de saúde e liberdade, homem! Quero mais o quê?!
É isso aí, João!!! Falou pouco e falou tudo!
-- Tenho um cunhado em Rio Verde, de Goiás -- disse o João. É o Zé do Rio.
Depois de muita prosa voltamos e dormimos em Pilão Arcado, cidade com mais de 200 anos.

14 de março, quinta-feira – Saímos de Pilão Arcado rumo a São Lourenço, no Piauí. No trevo antes de Remanso pegamos a BR-324. Um asfalto terrivelmente esburacado... Passou um ônibus; pedimos informação. São mais de 70 km assim, rodando a menos de 10 km por hora. Não compensa. Meia volta, volver... Voltando, acho que até Petrolina. É que você sempre diz, Lúciu: “O bom das viagens são os imprevistos... É disso que a gente se lembra...” Penso que entraremos mo Piauí por outras bandas...

Remanso, Caraíbas. Temos que ir bem devagar: bodes na rodovia... hehehehehe..., Barragem, Casa Nova; atravessando o São Francisco, isto é, um braço da represa. Santana do Sobrado. Divisa Bahia - Pernanbuco; até já Bahia!
Petrolina – PE. Já ia dizer que nunca caminhamos no mesmo lugar; hoje, sim: dormimos no mesmo posto e caminhamos no mesmíssimo lugar – até agora, a melhor pista de caminhada.

Achei muito engraçado o jeito que o rapaz disse para o colega: “Vai num pé e volta no mermo”. Eu conhecia: “Vai num pé e volta no outro”. Como é que se volta no mesmo??? Saci Pererê?

15 de março, sexta-feira – Saímos de Petrolina e pegamos a BR-407, rumo ao Piauí. Bodes e carneiros em plena pista. Pau-Ferro, Rajada, Arizona, Afrânio. DIVISA PERNAMBUCO – PIAUÍ. “Bem - vindo ao Piauí”. Riacho do Alecrim, Riacho Lua Nova, tudo seco.
Jipoca. Na vegetação predomina a caatinga. Rodovia excelente e bem cuidada; de vez em quando, a placa: “Trecho em obras”. Acauã, rio do Canindé (um pouquinho de água no fundo), Paulistana, Jacobina do Piauí, Patos. Um rapaz conta:
-- Tem um homem ali que está dando os bichos, senão vai morrer tudo de sede... Só que ninguém quer; não tem nada pros bichos comer...

Está chovendo!!! Que cheiro bom de terra molhada! Nessa hora tenho vontade de comer terra; não pode ser tão ruim, uma coisa que cheira tão bem. Croazal. Muitas plantações de caju. Jaicós – boa caminhada em Jaicós; as pessoas, gentis, respondem ao seu cumprimento:
-- Boooa noite! Tudo de bom!
-- Tudo de bom para você também!
Chegando ao trailer não pude deixar de correr para pegar a máquina e fotografar os restos mortais dos tênis do Eraldo. Não é de ver que, antes de jogá-los fora, ele tirou TODOS os pedacinhos aproveitáveis?! E mais: depois que comprou os tênis novos ainda caminhou vários dias com os velhos. No dia em que comprou os novos e o vi calçar os cacarecos, perguntei, espantada, por que não usava os outros... E ele:
-- Tenho que acabar com os velhos primeiro.

16 de março, sábado – Dormimos em Jaicós. O pessoal do posto, gentilíssimo:
-- Fiquem mais. A casa é de vocês!
 A mocinha da lanchonete foi ver nossa casa. Uma graça de pessoa. Gosto muitíssimo de conhecer pessoas diferentes; cada uma acrescenta algo a minha vida. Contou sobre seus filhos:
-- Meu filho já tinha oito anos; e aí veio uma nenenzinha inesperada. Estou ficando quase maluca!
Ah, se não fossem os bebês inesperados... Eles viram a vida das pessoas de cabeça para baixo, mas acrescentam tanto à vida dos pais e familiares!

Geminiano. Tudo seco por aqui; a gente viaja com um nó na garganta. Lembrava-me o tempo todo daqueles livros que li sobre a seca: “Vidas Secas”, “Barro Blanco”... Pensa-se, às vezes, que os autores aumentam a tragédia. Jegues mortos ao lado da rodovia; montes de urubus; e os animais vivos magrinhos, magrinhos!

Picos: Cidade grande com o comércio bem variado. Almoçamos no Posto Avelino. Curral. Paramos para comprar castanha de caju – saborosíssima! Nunca vi tanta castanha. Lago dos Félix, Ipiranga do Piauí, Inhuma. A vegetação mudou completamente: tudo verde, verde, verdíssimo!
Olha a chuva! Cheirinho de terra molhada! Valença do Piauí; tivemos que parar por causa da chuva forte com ventania.
Paramos em Elesbão Veloso para o pouso já taaaarde (18:15 h) e ainda fizemos nossa caminhada pela cidade.

17 de março, domingo – Saímos de Elesbão Veloso às 09h50min. (O Word está falando que é assim que se escreve hora...) Palmeiras, palmeiras e mais palmeiras... Lindas paisagens. Como eu gosto de viajar, assim devagar... Melhor que de trailer, só a pé mesmo: você vê cada florzinha, cada formiguinha da estrada.
Mocambo. Passagem Franca do Piauí. Barro Duro. Paramos para comprar bananas e bolo de puba. Eu queria um bolo de leite; comprei dele na outra cidade – hummm, parece mais um pudim! Pedi a receita, mas a dona não sabia a quantidade dos ingredientes; só disse que leva trigo, ovos, leite, açúcar e margarina; enfatizou que é sem fermento e que a massa fica bem ralinha. Deve ser parecido com o bom-bocado de fubá. Até hoje estou procurando pelo tal bolo, mas não consegui encontrar: “Tinha, dona, acabou”. Será que ganharei uns quilinhos aqui, nesse nordeste de comida gostosa?!

Estaca Zero, Baixa Grande, Monsenhor Gil, Lagoa do Piauí, Demerval Lobão. Almoçamos em Teresina. Deixamos a BR-316 e pegamos a BR-343. Atravessando o Rio Parnaíba. Altos, Monte Belo. Cruzinhas à beira da estrada; quantos mortinhos! Que pena!

Em Campo Maior paramos para dormir. Antes de irmos ao posto, fomos procurar uma igreja. Participei da missa às 17:00h. Gostei muito da homilia do Padre Mateus. Saí da igreja com chuva; é muito gostoso tomar chuva por aqui! Fomos comprar bolo para o café: “Tinha de goma, mas acabou”. Só que era de sal. Me deu uma “gana” de experimentar bolo de goma salgado! (Tá vendo, Lu? O Word sublinhou de verde o “Me deu”; mandou colocar “Deu-me”...) hehehehhehhehe...

18 de março, segunda-feira – Madruguei (06h30min + ou -) para adiantar o blog que está atrasadíssimo... Ando tão ocupada!
Ainda na BR-343. Neste Nordeste, se chovesse, seria o paraíso. As pessoas daqui são coisa fina, finíssima: educação, gentileza e disponibilidade estão em primeiro lugar, sem dúvida!
Na saída de Campo Maior notamos uma vegetação bem variada: árvores, arbustos, coqueiros, cactos e aquelas plantas da folha dura, espetada assim... parecendo a coroa do abacaxi.
Cocal de Telha: no mapa parecia bem maior. Capitão de Campo. Cadê loteria? Cadê? Fechada. Faltou energia. Piripiri: casas populares que não acabam mais... Brasileira. Piracuruca. Rio Piracuruca – esse tem água! Paramos para o almoço e a sesta. O Eraldo foi à loteria e ao Banco; voltou na chuva. Catacumbas à beira da rodovia?! Nunca vi, digo, nunca havia visto. Muitas cruzes também; lembrei-me do Peru.
Buritti dos Lopes. Paramos para o pouso em Parnaíba. Chuva, chuva, chuva...

19 de março, terça-feira -- Choveu bastante à noite. Tomamos café bem tarde e fomos para a praia na maior chuva. Luiz Correia. (Luiz com s ou com z? Vê-se das duas maneiras). Fica à beira da praia. Chuva... chuva... chuva... Almoçamos na barraquinha à beira do mar e esperamos o sol... Mas, nada!
E não é que tinha uns gatos pingados tomando banho? Lembramo-nos de Ubatuba em São Paulo. Para mim e os meninos, a primeira vez na praia... E chuva, chuva, chuva... E a gente no mar, na maior alegria. E não éramos os únicos! O Eraldo dizia:
-- Pode fazer uma pesquisa. Todos lá são do interior.
Que praia maravilhosa! Ficamos numa pequena casa e meu marido disse para os meninos:
-- Agora nós vamos cuidar da casa e sua mãe vai ler e descansar.
 Eta vida booooaaa!!! Como esquecer?!

Saímos da praia enxutinhos... O rapaz da barraca disse que até ontem o sol estava forte. A chuva começou na noite passada. Vamos para o Maranhão à procura do sol.
Parnaíba. DIVISA PIAUÍ – MARANHÃO. Pirangi. Paramos em Placa de Araioses para dormir.

20 de março, quarta-feira -- Nem acredito que acordei no Maranhão! Sempre tive vontade de passar uns dias nesse Estado que acho tão lindo! Saímos à procura de praia. Novo Horizonte, Limoeiro... O sol está lindo, lindo! Cana Brava. Começou um ventinho de chuva... Ai, ai, ai, ai, ai... e surgiram umas nuvens escuras. Placa: “Delta das Américas. Belezas naturais”. Ei! Passou por nós um cara com a espingarda na mão e o veado nas costas.

Muitas roças de toco – plantando ou recém-plantadas. Barro Duro. Tutóia (esse acento caiu, mas deve-se preservar o nome da cidade). E o sol lindão!!! Aqui tem praia. Tão deserta que até pensamos se seria própria para banho... O pescador esclareceu:
-- Podem tomar banho, sim; o mar está calmo. O povo daqui é que prefere o interior, os rios. Nós, que vivemos aqui, já estamos muito salitrados.
O mar estava uma delícia! Aproveitamos bastante; tiramos a barriga da miséria quanto à água salgada. Mas a praia era bem feinha.

Almoçamos e partimos. Voltando... A estrada para a outra praia, que dizem ser muito boa, não dá de passar; temos que dar uma enorme volta. Barro Duro, Cana Brava; mudando de estrada: São Raimundo, São Bernardo. Que linda a avenida de entrada! Os postes imitam pássaros voando; as lâmpadas ficam nas asas. Deve ser um espetáculo à noite! Santa Quitéria, Brejo, São João dos Pilão (é assim mesmo na placa: “dos Pilão”).
-- Quanta vasilha de barro! A Valéria ia ficar maluca...
Mas o Eraldo acaba com meu entusiasmo:
-- Não tem nada de barro aí; é tudo madeira.
E é mesmo... É isso que quer dizer o nome: Pilão de socar. Kkkkkkkk...

Palestina, Água Rica. Paramos em Anapurus para o pouso. Nem vimos a cidade; chegamos bem tarde. Como não deu para acessar a internet, aproveitei para colocar o blog em dia. E, parabéns para mim, COLOQUEI!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Está a – tu – a – li – za – do! Agora é esperar a internet para publicar. Beijos para vocês!