VIVER EM PLENITUDE --- MURUMURU
Nossa! O negócio aqui está animado: “Josefina...Josefina...Josefina...Deputada estadual...Para o Pará não parar...”Eu falei que ela iria ganhar: “A mulher está cotada! É cartaz pra todo lado. Nas ruas, nas estradas...só dá Josefina!” E o Eraldo: “Quem falou que cartaz ganha eleição?”. “Uai, mas se a mulher tem dinheiro para colocar cartazes pra todo lado, provavelmente vencerá...” Não deu outra! Venceu! É a lei do mais forte!
Dia 28/09/2010, terça-feira, pegamos a balsa em Santarém. Desta vez atravessando o Amazonas! Na verdade, a gente vai descendo o rio. São mais de duas horas de travessia! Novamente digo: “Eta mundinho pequeno!”. Um rapaz chegou para nós, enquanto esperávamos a balsa: “Vocês são de Mineiros? Já trabalhei lá, para o “seu” Evaristo Treantin. Ele me deu uma vaca que tenho até hoje.” Conversamos bastante. Na saída da balsa, ele nos indicou onde parar para dormimos. Não há muitos postos na estrada (rodovia 163! Ooooohhhh)...O rapaz disse: “Vocês podem parar na praça. É tranqüilo lá.” Fomos, então, para Murumuru e paramos na praça da igreja. Estava bem fresquinho. Foi uma noite tranquila!
Pensem num dia pleno! Foi o dia 29/09/2010, quarta feira. Acordei com o tocar do sino ( sino toca? Ou tine? ).Olhei a praça e pensei:”Uai, hoje não é domingo, porque este pessoal vestido tão festivamente? Era um chique só: mulheres bem arrumadas e maquiladas, homens de manga longa (com aquele calor!), crianças vestidinhas de branco. A praça toda enfeitada de bandeirolas; no centro, um mastro coberto de frutas. Desci para fotografar e percebi que a missa havia começado. Um rapaz explicou que estavam celebrando a festa de São Miguel e o padre realizaria os batizados. O Eraldo disse que já estava com o discurso prontinho para contar para vó Dolzir: “D. Dolzir, a Sônia fotografou a igreja durante a missa e nem entrou...”Mas ele “dançou”. De início, pensei que a missa já estava terminando, mas quando percebi que estava começando, claro que entrei e participei da mesma. E que missa! O padre, muito alegre e comunicativo, deu um show! Foram palavras sábias e cheias de conteúdo! Disse uma coisa interessante: “Mais do que discutir sobre ‘minha religião foi a primeira’, ‘não, foi a minha’ o mais importante é ser missionário, amar as pessoas, ser sal da terra e luz do mundo”. Cantou uma música interessante sobre gente sem sal, gente que não tem sabor...Lembrei-me daquela história que diz haver dois tipos de pessoas: aquela : “Você chegou!” e a outra: “Você estava aí?”. Aconteceu-me um fato que ilustra bem isto: Tínhamos uma colega do tipo “Você estava aí?” Era boazinha, eficiente, um amor...mas, não marcava presença. Ela adoeceu e teve que ser internada, faltando vários dias de aula. Um dia, olha ela lá! Penso:”Coitada, tão sozinha; no recreio vou conversar com ela.” No recreio:
--- Oi, fulana, que bom que você voltou! Sentimos sua falta. Está bem agora?
Ela, com a cara fechada:
--- Faz quatro dias que eu voltei.
Sem comentários...
O padre falou sobre os pais ensinarem os filhos a rezar; não deixar tudo para a catequista. Ah, memória! Voltei à infância. Já não estava na igreja, estava lá na Fazenda Sto. Antônio, no Mato Grosso. D. Dolzir ensinou-nos a rezar o terço desde bem pequenas. Ah, os parentes! Chegavam e iam logo dizendo: “Queremos ver as meninas rezar o terço!”. Minha mãe : “Maria Ely...Sônia...venham rezar o terço para a tia ver!”. E nós, morrendo de preguiça: “Ave Maria...” e a outra: “Santa Maria...” até o fim. Isto era na cidade. Na fazenda, chegou a vez da Pite aprender; aprendendo, tinha que rezar TODO DIA. À tarde, enquanto a Maria Ely e eu fazíamos a janta, a Pite aproveitava para já rezar seu tercinho diário, sentadinha no banco da cozinha. Percebi que o terço da Pite passava muito rápido, sete minutos...e pronto, já estava na Salve Rainha. Quem reza o terço sabe que o normal é demorar 15 minutos. Muito fuxiqueira, logo dei o alarme: “Mãe, a Pite está pulando alguma coisa no terço. Termina depressa demais!”. E a mamãe: “Pite, reza a Ave Maria...”. Ela o fez: certinho. “Reza o Pai Nosso.” Também certíssimo. “Ela reza direitinho”, disse minha mãe . Mas eu não me conformava. E um dia resolvi ficar por conta da investigação. Encarei a boquinha dela e prestei bem atenção! EUREKA! “Mãe, descobri! A Pite reza a Ave Maria numa conta e a Santa Maria na outra!” Hahahahahahaha... Lembra-se disso, Pite? Coitadinha! Daí pra frente o seu tercinho ficou tão comprido!!!
Manhã fresquinha aqui em Monte Alegre. Aproveito para continuar meu relato que está atrasado. Gente! Acho que vou ter que parar de devanear. Preciso ignorar minha memória de infância, senão essa coisa não rende... Estava narrando sobre a missa em Murumuru. Durante a mesma foram realizados vários batizados. Saindo da igreja, despedimo-nos daquele povo simpático e acolhedor e seguimos nossa viagem.O frei Manoel nos disse: “Quem sabe nos encontramos em Monte Alegre? Segunda-feira é a festa do padroeiro de lá, São Francisco de Assis”. Respondemos:”Quem sabe? Vamos fazer força!”
Paramos na comunidade de Curicaca para fazermos o almoço: Maria Isabel (essa Maria Isabel tinha que ser minúscula, mas o Word não quer aceitar; vai assim mesmo...), para variar. Paramos ao lado de uma casa que parecia um sítio; o Eraldo foi ver se eles vendiam ovos. Não vendiam. Mal terminamos de almoçar, veio um rapazinho: “Vocês não querem almoçar com a gente?” “Acabamos de almoçar, respondemos.” Ele ainda insistiu: “Venham comer um peixe com pirão.” Imaginem a decepção do Eraldo...perder um peixe com pirão! Eu fui conversar com eles (e “curiar” também). Em cima da mesa, um caldeirão enorme, com um caldo dentro. Eles colocam o caldo no prato e a farinha por cima (AQUELA, o piruá...Não sei como eles não quebram os dentes ...).
Em Alenquer paramos para o lanche. Comprei pães e ovos; estava com desejo de comer pão com ovo. Só que pensei que o danado era de sal e era doce... É uma cidade pequena, cheia de lojinhas. São colocados toldos em frente às lojas para enganar o calorão: o toldo fica tampando a frente; e não em cima, como estava acostumada a ver. Saímos de lá rumo ao Km 30. Ah! O Km 30!!! Que lugar de gente encantadora! Quando estacionamos, alguém já gritou: “D. Zilmar...D. Zilmar...chegou visita...” Eu fui entrando: “Cadê a D. Zilmar?” “Está lá no quintal.” Aparece a Zilmar: “Oh, minha querida, que bom que vocês vieram! Dê cá um abraço!”. “Estou toda empoeirada, Zilmar ( não dava de chamar de dona aquela criatura tão jovial, de regatinha e short, um amor!)”. “Olha, vocês podem tomar banho, jantar, dormir lá no barracão...”. Tomamos banho e fomos apresentados a todos: são uma família e trabalham juntos na maior harmonia e entusiasmo! O Eraldo, por causa do regime, não jantou. Eu não podia perder a comida dela que tem fama de deliciosa! Comprovei que não era só fama. Meninos, lembram do bife de fígado da Irani? O da Zlmar ganha! O macarrão, então, tive que pedir a receita. Parecia “ao alho e óleo”, mas não tinha gosto de alho e nem de cebola; e era branquinho. É o seguinte: Coloque o óleo, frite um pouquinho de cebola batidinha (a menina explicou que é bem pouco). Coloque o macarrão cozido com sal e escorrido. Refogue e pronto! Simples e saboroso! Eis aí o porquê do título “Viver em plenitude!”. Foi um dia pleno de alegria e novas amizades!
Setembro, 30/09. Acordamos já um pouco tarde. Tomei meu leite e pensei: Vou lá na Zilmar; quem sabe ela tem um café COADO!!! Fui chegando: “Zilmar, você tem café aí?”. “E por que vocês não vieram tomar café com a gente? Vou pegar. Guardei um beiju pra você, querida!” Vocês sabem como adoro beiju! A Zilmar faz polvilho em casa. Vi aquela bacia cheia de polvilho lavado e lembrei-me da vó Anália. Ela fazia farinha e polvilho e nós, crianças ainda, a ajudávamos: lavando a massa (servicinho mais chato!), lavando e descascando a mandioca...O beiju estava divino! Com pesar, despedimo-nos, trocamos e-mails...beijos, abraços. O irmão da Zilmar disse: “Vocês precisavam conhecer minha mãe ; é uma pessoa muito culta!” Na volta tivemos o prazer de conhecer essa pessoa ímpar! Conto depois!
PONTE DE CIMENTO DO RIO CURUÁ
Vocês vão passar na ponte de cimento do Rio Curuá. Notei que eles diziam aquilo de uma maneira intrigante! Chegamos à ponte de cimento. De CIMENTO?! Cadê o cimento? Deve estar no bolso de algum político corrupto, pois a ponte é de MADEIRA! Nós VIMOS!!! Uma grande ponte. Parece que já foi feita DE CIMENTO mais de uma vez. Que vergonha! Que raiva! Que ódio! Fotografamos a tal ponte. Tenho que publicar essas fotos. E tenho que parar de escrever, pois já não enxergo direito. Não vai ser fácil segurar a emoção. Choro ao ver tamanha injustiça!
Já poso continuar. Egídio, meu cunhado, lembro-me constantemente de você ao ver tais absurdos! Você gosta de contar aquela piada: “Num comício, o político dizia, alto e forte, batendo no bolso: ‘Nesse bolso, meus amigos, nunca entrou dinheiro alheio!’. E um engraçadinho’’, lá da platéia: ‘Terno novo, heim doutor!’”
Plaquinhas na estrada: “Vende-se gasolina”. Casas de tábua, com telhado de cavacos. Palafitas. Eu ia dizer que estamos margeando o Rio Amazonas, mas o Eraldo diz que não é bem margeando, o mais certo é acompanhando o rio, já que estamos a uma distância de 20 a 30 Km dele. Surpreendeu-nos a quantidade de escolas por aqui. Várias comunidades têm escolas de ensino fundamental; e transporte escolar também. Segundo uma professora, a qualidade do ensino deixa a desejar; não é bem aquilo que os políticos dizem... Como se fosse novidade! Roupas estendidas à beira do córrego (igarapé, por aqui). Chama-me a atenção uma cena: dois meninos, descansando à beira da estrada. Fizeram uma espécie de toca no barranco e, sentados tranquilos, abrigam-se da quentura do sol! Vejo uma palmeira, toda coberta de samambaia. Nossa! Vou marcar o lugar e, na volta, fotografo para mostrar ao Lúciu. Quem sabe, se ele vier estagiar por aqui, pode ser de grande valia! Comento o fato com meu marido. E o defensor de Goiás: “É bacuri? Dessa aí tem muitas, lá no ‘Manuel Joaquim’”. Ah, é? Preciso prestar mais atenção ao meu Goiás!
Rodovia BR- 163. Escuto um barulho...fuuuuuu...fuuuuuu...Que é isso? Rachou-se a mangueira do rodoar (não sei se á assim que se escreve, é aquele negócio que vai mandando ar para o pneu). Paramos para olhar. Não tem problema; dá de arrumar mais à frente. Estrada lisinha, lisinha... De repente, plof, plof, plof...costela-de-vaca...Povoado (aqui se diz comunidade) Mamiá. Um menino em cima da ponte. Todo imponente, faz sinal para pararmos; prepara-se e dá um belo salto no rio! Com esse calor, tenho vontade de fazer o mesmo. Placas... quase não existem por aqui. Anda-se pelo meio da mata, mas não se vê animais; nem mesmo pássaros, só urubus; estes, sim; e por todo lado. Um fato intrigante é que sou acordada quase todos os dias pelos cantos dos pássaros; e sempre diferente. Gostaria que houvesse uma maneira de escrever na língua dos pássaros. Não há jeito de lhes explicar seus cantos; tem um engraçadinho que canta assim: “triiimmm...tuim...tuim...tuim...tuim; triiimmm...tuim...tuim...tuim...tuim...” O Eraldo deduziu que os pássaros daqui certamente gostam da cidade e não do mato. Como meu primo rico, José Carlos Flôres (COM acento!): “Eu não sou rural, sou urbano!”, ele sempre diz.
Paisagem mutante: matas, campos, povoados. Mais um, Cipoal. Paramos para tomar sorvete e encontramos um senhor que gosta demais duma prosa, o Sr. Eudóxio. O Eraldo lhe disse: “Em nossa cidade tinha um professor com esse nome. Fez muito por Mineiros. Eu o admirava demais e dizia: ‘Quando eu crescer, quero ser o ‘seu’ Eudóxio’. Não dizia ‘como ele’; eu queria ser ele. Só consegui a careca”. A prosa foi longa. Seguimos em direção a Óbidos. Uns diziam que a cidade era bonita; outros, que “lá só tem uns canhão, mas não tem nada de muito interessante; bonita mesmo é Oriximiná, vocês não podem deixar de ir. Lá tem uma praça linda, com uma porção de peixes; as ruas são largas e limpas...”. Chegamos a Óbidos! Foi amor à primeira vista! É uma cidade histórica; muitas casas antigas; os canhões, com as balas desse tamanho (do tamanho de uma bola de futebol!); eu não sabia que eram tão grandes! Dormimos perto do museu e da Casa da Cultura, para começarmos as visitas bem cedo.
Deixe-me colocar a data, senão nos perderemos: 01/10/10 (que data linda ficou! 10/10). Sexta-feira em Óbidos. Lugar de gente acolhedora, educadíssima. As pessoas param para cumprimentar e conversar com a gente. O Eraldo estava agachado, de costas, trocando a mangueira do rodoar. As pessoas passavam: “Oi, tio, tudo bem?”. “Bom-dia, vocês são de onde?”. Quando visitávamos a Casa da Cultura, aconteceu um fato que ilustra bem a educação dos obidenses. A pessoa que nos mostrava a casa, Joana D’Arc, viu, pela janela, um menino soltando pipa na praça. Chamou-o e com aquela vozinha doce, doce:”Oh, meu amor, não pode soltar papagaio! Viu, querido? Aqui não pode. Se enrolar nos fios é um desastre.” Na feira compramos melancia, mexerica, paçoca de peixe e...adivinhem! MAXIXE!!! Há muito tempo não comia maxixe. Gosto demais!
Saímos de Óbidos e paramos num Igarapé famoso de lá para tomarmos banho. A água é fresquinha e límpida. Tomamos banho e fomos fazer o almoço. Nem trocamos a roupa de banho. Que refrescante! Almoço e, novamente, banho. Tiramos fotos. Eu ia saindo quando vi uma cena linda: um rapaz deitado, assim, de lado, com a cabeça apoiada na mão... sorrindo feliz. Só que estava dentro d’água, de roupa e tudo! Perguntei: “Posso tirar uma foto sua?” “Pode”, respondeu. Que tranquilidade! Um pau-de-arara (aquela caminhão coberto por cima, com bancos, que serve de ônibus. Tentei fotografar, mas não saiu muito bem. Uma pena! Passamos por um que levava as crianças para a escola. Meninos, lembrei-me do caminhãozinho a carvão do seu pai... E vocês lá em cima, felizes da vida! Assim estavam os alunos daqui!
Que buraqueira na estrada! Eu queria colocar o Sr. Lula e seus assessores, o governador do Pará, e outros mais, num pau-de-arara e rodar nestas estradas, com o sol bem quente... Olhar a estrada por cima, dentro de um avião é uma coisa; agora, de carro é outra, bem diferente! Nós não temos pressa, é até novidade; porém para quem tem que passar todo dia por este suplício... aí muda tudo. As pessoas nos dizem: “Agora vocês podem passear por aqui, mas voltem antes das chuvas, senão... só de barco ou avião.” Contam que têm pessoas que moram à beira da estrada, compram um trator, e vivem à custa de puxar os carros atolados nas rodovias. A desgraça de um é o lucro do outro.
ORIXIMINÁ – A HISTÓRIA DO BODE
Chegando a Oriximiná (alguns dizem Oriximinã), um jeitão de chuva! Que saudade de chuva! Em toda a viagem, só vimos chuva em Novo Progresso. Acordei à noite com aqueles clarões repentinos. Disse para o Eraldo: “Será que é algo com o ar condicionado?” E ele: “Isso é relâmpago; está vindo de fora”. Abri a porta e percebi que era mesmo, mas bem a miúdo. De manhã, a chuva! Que bênção! O Eraldo estava sentado lá fora. Eu perguntei: “O que você está fazendo aí?”. Ele: “Vendo a chuva”. Saí também e fui tirar fotos das mulherzinhas dançando, dançando! Quando era criança adorava olhar a chuva na calçada. As gotas d’água eram como mulheres que bailavam pra lá, pra cá... pra lá, pra cá...
Não achei Oriximiná tão linda como Óbidos, mas é uma cidade bem progressista: comércio arrojado, ruas largas, grande movimento de pessoas. O calor humano é o mesmo. Aliás, por aqui o povo é muito, muito gentil. É um sentimento autêntico, as pessoas olham para a gente com ternura. No supermercado, à noite, quase na hora de fechar, você pergunta: “A que horas vocês fecham?” A mocinha do caixa responde com alegria e vivacidade: “Nove horas, meu amor!”. Em Oriximiná há também Universidade Federal do Pará.
Sábado, 02/10/10. Oriximiná. Dormimos num posto e eu acordei com o canto dos pássaros e mais: “Pó-de-mico... ô Pó-de-mico... acorda; aqui já é sete! Eu preciso dum dinheiro e o Pó-de-mico não acorda... ô Pó-de-mico, acorda, home...” Parece que o Pó-de-mico estava dormindo numa rede ao lado da janela do nosso quarto. Naquela tranquilidade! E o companheiro se esguelando... Tomamos café e fomos conhecer A PRAÇA! A dos peixões! Realmente, é bonita! E os peixes são bem grandes! O melhor foi que lá conheci o Nélson, que me passou interessantes informações:
--- Vocês são de onde?
--- De Goiás. E você?
--- Sou nascido e criado aqui. Quem nasce aqui é “espoca-bode”; em Óbidos é “chupa-osso”; em Monte Alegre é “pinta-cuia”; em Alenquer, “chimango”; em Santarém,” mocorongo”.
--- E o que é espoca bode? Que é espoca?
--- Vou lhe contar a história que você vai entender. Diz a lenda que o bode comeu muita farinha de mandioca, pra vocês lá de Goiás é farinha branca, a gente fala de mandioca. Então, o bode comeu muita farinha, bebeu muita água e subiu a torrefação, torrefação é aquela ladeira (bem íngreme) lá na cidade. O sol estava quente. O bode arfou, arfou, arfou e espocou.
--- Sim... Mas o que é espocou?
--- É como eu disse. O bode arfou, ficou cansado e espocou...
--- E o que é mocorongo? É um bichinho?
--- Isso eu não sei, não.
--- E chupa-osso, quer dizer o quê?
--- Uai, deve ser porque eles gostam de chupar osso.
--- Mas chupar osso como?
--- Pega o osso e chupa. Osso de vaca.
Lembrei-me da história que o vô Orlando contava quase todas as férias. Meu pai sabia poucas histórias, que repetia sempre. Ele perguntava: “Já contei a história do rapaz que comeu suã na casa da namorada?”. Nós dizíamos que não e ele começava:
“O rapaz foi almoçar na casa da namorada e tinha suã de porco. Ele queria tirar o tutano do osso, mas ficou sem jeito. (Comer suã sem comer o tutano é o mesmo que não comer. A gente enfia o dedinho no osso e tira o tutano. Tem que se ter cuidado; se estiver quente, queima o dedinho). Então ele virou meio de ladinho, disfarçou e enfiou o dedinho no osso. Só que o dedo ficou entalado. Não sabendo o que fazer, o jeito foi colocar a mão debaixo da mesa. Nisso, o Totó ‘nhac’; abocanhou o osso com dedo e tudo. E o rapaz: ‘Ai, ai, ai, meu dedinho.’”
Fiquei sem saber o que é espocou. Ahhhh, mas é só olhar no “Aurélio”... E vai ser agora... Já coloquei o danadinho aqui, bem à vista. Que graça... O Eraldo pensou que fosse “morreu”; Eu pensei que fosse “explodiu”; e não é nada disso. É “empacou”. Agora vou olhar mocorongo. No Pará, “santareno” (quem nasce em Santerém); em São Paulo, “caipira”; no Rio, “mulato, quase escuro”. Estou gostando muito de consultar esse Aurélio! Vou explicar porque achei que era explodiu. Quando éramos crianças, os grandes nos diziam: “Não tomem muito leite com farinha, faz mal.” E lá vinha a história, para provar que era verdade! “Certa vez, um rapaz chegou numa fazenda e pediu para a dona da casa um litro de leite e meio de farinha. Bebeu tudinho e foi dormir debaixo de uma árvore, um pouco distante da casa. De repente, a mulher escuta: POU! Percebendo que o barulho veio lá pelo lado da árvore, corre para ver o que aconteceu. Imaginem a cena! O homem morto, com a barriga rachada e as folhas da árvore cheias de farinha”.
Meus alunos, minhas irmãs e outras pessoas mais chegadas sabem que tenho uma letra horrível, às vezes tenho dificuldade de ler o que escrevo rápido. Agora pensem fazer anotações sacolejando nessas lindas estradas! Estou tentando decifrar “Caminha gorve...” Quê será isso? Decifrei! Cuminá gorou. A cidade que fica no fim da rodovia, Cuminá, na verdade não é a última e a estrada, dizem, é terrível! Estamos voltando para irmos em direção a Monte Alegre. Paramos num lugarejo chamado Repartimento (divisa de Oriximiná e Óbidos) para tomarmos água de coco. Em frente, um enorme cajueiro, carregadinho de lindos cajus. “O senhor vende caju?” “Vender, não vendo, mas dou; é só deixar a castanha (o homem disse um nome totalmente diferente para ‘castanha’, mas não consigo me lembrar... )” A família estava assando paca e nos convidou para comer. Que paca deliciosa! Acompanhada de farinha (piruá, como sempre). Vou parar um pouco para fazer o almoço. Não, não é arroz de carreteiro. É estrogonofe (o Aurélio disse que é assim) de CAMARÃO!!!
Meu almoço já está pronto. Continuando... Paramos novamente no Cipoal. Um rapaz disse: “Encontrei com eles lá no igarapé; até tiraram uma foto minha!” E não é que era o tal, deitado com roupa e tudo? Só que agora não estava molhado só de água, não; estava mais pra lá do que pra cá... Contava que “fui de Óbidos a Alenquer sem socorro...” (?) Socorro é pneu de estepe. Despedimo-nos e caímos no mundo... Poeira, costela-de-vaca, mais poeira, povoado... Quase não se vê caminhão ou carreta na estrada. A estrada deles é o rio: sem poeira, sem buracos, não depende de ninguém para sua conservação. Ainda espero descer o rio de balsa!
Sábado, 02/10/10; Km 30. Isto quer dizer, Zilmar e sua acolhida maravilhosa! Jantamos peixe com pirão. Meninos, seu pai já contou que comeu uma gostosa papa-terra... Dormimos. Acordamos com o povoado na maior animação: todos prontos para votar, esperando o Pará mudar (rimou... eu sempre digo que acabarei sendo poeta; meus escritos rimam que só...). Foi a primeira vez que deixamos de votar. Agora sim, vou falar sobre a D. Francisca, mãe da Zilmar e mais sete filhos! Uma mulher notável: 72 anos, animada, culta e muito sábia. Proseamos bastante. O tema: POLÍTICOS! Ela disse: “Pois é, os políticos falam que falam, mas falar é fácil. Você conhece a história do “falar é fácil”? Disse que não. “Então vou lhe contar: Certa vez havia um homem, dono de uma fazenda de farinha. Os ratos estavam roendo os sacos do depósito de farinha dele. Ele chamou os peões: ’Temos que fazer alguma coisa, antes que os ratos nos deem um grande prejuízo’. Um dá uma ideia, outro dá outra. Até que resolveram: ‘Vamos arrumar um gato’. Assim foi feito. Os ratos, ao saberem da novidade, fizeram uma reunião. O chefe dos ratos esclareceu: ‘Estamos aqui, meus amigos, para resolvermos o problema do gato. Quem tem uma sugestão?’ Choveram ideias. Até que um rato jovem, arrojado, disse: ‘Companheiros, eu tenho a solução! Vamos amarrar um sino no pescoço do gato. Assim que ele for chegando, todo mundo corre.’ Palmas e mais palmas... Linda ideia! O chefe dos ratos notou que um ratão, velho e sábio, não tinha pronunciado uma palavra. ‘E você, vovô, o que diz da dessa solução? Não é a melhor?’ E o ratão, falou pausadamente: ‘Não resta dúvida, a ideia é ótima! Resta saber quem vai amarrar o sino no pescoço do gato...’ Acabou-se o entusiasmo!’ Moral da história: ‘Falar é fácil, fazer é que são elas!’”
Dona Francisca contou que tem um grande desejo de montar uma mini-indústria para explorar o cupuaçu (ela tem muita prática no assunto; já faz alguma coisa em sua casa...). Já fez o projeto, apresentou aos políticos, recebeu elogios e promessa de verba. Só que fica só no “falar”... Vésperas de eleição prometem tudo, quando passa... nada! Ela nos disse ainda. “Eu digo que há três tipos de vereadores: O vereador-assalariado, aquele que só vai receber o salário; o vereador-assistencialista: dá uma bola para o time de futebol, um remédio para um necessitado, uma botina, um saco de cimento; o vereador-baralho: sempre está do lado que dá mais”. O Eraldo disse: “Não é só vereador, dona Francisca...” Despedimo-nos desse pessoal maravilhoso e fomos rumo a Monte Alegre.
“Não deixem de visitar a cachoeira! É uma coisa linda!”, muitos nos disseram. Uma placa (coisa rara): “Pousada ecológica Vale do Paraíso. Um capricho amazônico!”. Teríamos que descer 500m a pé. Paramos para fazermos o almoço. Eu disse, um pouco intrigada: “Dizem que são sete quedas e não se ouve nem um pequeno rumor de água; parece que este negócio não está certo. Estou me lembrando da D. Adélia, lá em Natal.” Almoçamos e descemos. A estradinha muito linda! O Eraldo disse: “Acolhedora!” Limpinha, no meio da mata. E a gente descendo, descendo, nada de barulho... Placas de boas-vindas, lindas placas, e nada de barulho... Quase chegando, um rumorzinho... Um fiapinho de água... Será isso as sete quedas? Acontece que nesta época o rio seca. A mulher que cuida do estabelecimento ficou mortificada: “Vocês poderiam ter telefonado; eu avisaria que o rio estava seco... Já que estão aqui, vamos visitar os chalés.” É um lindo lugar para se visitar, só que na época certa. Vimos tudo, tomamos banho no poço, abaixo da “cachoeira”, tiramos fotos, inclusive da “Laura doida”, como é chamada a mulata! (Viu, Laura? Depois mando a foto da sua xará.) Na saída a D.--------- nos mostrou o postal com a lindíssima cachoeira( quando existe água!) Interessante notar que os rios estão secos e os campos verdinhos, verdinhos!
Na rodovia passamos por três rapazes andando tranquilamente, cada um com sua espingarda às costas; isso é comum por aqui! Perdemos a entrada de Monte Alegre, placa... neca! A gente tem que adivinhar, perguntar, contar os quilômetros... Meus filhos, vocês não reconheceriam seu papai: pedidor de informação que só vendo para crer! Vou narrar esta novela tipo Saramago... estou cansada de usar aspas. Desta vez será discurso indireto livre (lembra, Zuleika?). Vocês são bem inteligentinhos: vão saber quem está falando. Perguntamos a um motoqueiro onde ficava a entrada e ele: Ah, não compensa voltar, é melhor seguir em frente e passar pela Mulata. No Km 11 perguntem... No Km 11 o rapaz diz: Podem ir em frente. Aí na frente tem outra comunidade e vocês perguntam. Desço: Boa-tarde. Boa-tarde. Onde fica a estrada para Monte Alegre? Vocês seguem em frente; passam uma ponte, passam um setor, passam outra ponte, dobrem à direita e vão chegar na Mulata. Ah, segue esta caminhonete que passou, ela vai pra lá... segue a poeira dela. Tem placa? Não, mas não tem erro. Digo para o Eraldo: Segue a poeira da caminhonete. Poeira da caminhonete? Daqui a pouco não se vê nem sinal. Caímos no mundo (eles usam muito esta expressão)! Escurece. Até que enfim, a Mulada. Uma luzinha numa casa. Desço correndo: Boa-noite! Boa-noite! Moço, aqui é a mulata? Não, a Mulata está a 9 Km. E como a gente chega a Monte Alegre? Segue em frente, aí tem uma estrada que vai para a direita, não entra não; aí tem outra que vira à esquerda, entra e chega na Mulata. Lá na frente tem um entroncamento, aí... Obrigada, moço! Lá na Mulata a gente pergunta.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
D. Sônia, duas considerações sobre esse post. Primeiro, tbm usamos a expressão mocorongo em MS. Lá, a palavra significa bobo. Segundo, entender um discurso a "la Saramago" não é difícil dado que estamos aprendendo a entender discursos sem aspas, ponto ou vírgula dos jovens "interneteros". Sua narrativa é muito rica e nos faz sentir no Pará :)
ResponderExcluiroi meus queridos aventureiros!!!!
ResponderExcluirvcs não imaginam como vcs nos fazem sonhar e acreditar nos nossos sonhos!!!
o Santana(meu Deus)depois que vcs passaram por aqui ficou louco atras de um onibus pra comprar e poder realizar o grande sonho da vida dele que é sair por aí conhecendo as maravilhas desse nosso Brasil.
adorooo ficar lendo seus escritos...que marrrravilhaaa!!!!rsrsrsrs
fico lendo e rindo sozinha das aventuras de vcs!!!!que Jesus os acompanhe sempre e obrigado por vcs existirem!!!!
ass:Eliane Boni e Santana
Santarém - Pa